O zumbir das moscas é o único som audível no centro de São João do Peso. À hora de almoço, quebra-se o silêncio que cobre o território e ouve-se um carro a chegar ao centro da vila. Com couves na mão, segue o senhor Vítor, o proprietário do snack-bar “O Cantinho”, no coração do largo principal, e assim prepara-se para abrir aquele que é o único espaço comercial disponível para atender às “necessidades” dos (poucos) moradores desta localidade que fica a dez quilómetros do centro geodésico de Portugal.
As mesas estão vazias, mas no lugar das pessoas que outrora estariam a beber café ou uma “mini”, estão dezenas de panfletos. É época de eleições e, como tal, os diferentes partidos tentam dar a conhecer os seus planos para a autarquia de Vila de Rei, onde a freguesia está inserida. Perante a presença do Observador, o anfitrião do espaço aponta para um papel afixado no quadro de cortiça perto da porta de entrada, que coincide com o edital espalhado um pouco por toda a vila.
No domingo, dia de eleições, os cidadãos da freguesia de São João do Peso estão convocados para uma “sessão extraordinária de Plenário de Cidadãos Eleitores” para decidir a pessoa que irá presidir a Junta durante os próximos quatro anos. No total, foram convocados 106 cidadãos, explica ao Observador a atual presidente Rita Cavalheiro, o que torna São João do Peso na freguesia com menor número de eleitores recenseados de Portugal Continental — e, com esta particularidade, os procedimentos eleitorais são também diferentes da realidade que se vive no resto do país.
A votação em conjunto, a lista única e a campanha porta a porta
O plenário está marcado para as 12h30 de domingo. De acordo com a presidente da Junta de Freguesia, a hora foi escolhida para coincidir com o final da missa e dar tempo para sentar todos os cidadãos convocados chegarem à Casa do Povo, um edifício que fica mesmo em frente à igreja matriz e tem espaço para sentar todos os fregueses. Apesar de haver cadeiras para os 106 eleitores recenseados, muitas acabam por ficar desocupadas na hora de decidir a composição da junta.
“Há quatro anos, só vieram 54 pessoas votar”, conta Rita Cavalheiro, explicando que para além daqueles que simplesmente optam por não exercer o seu direito de voto, também há pessoas que estão recenseadas em São João do Peso, mas estão a viver noutros pontos do país e, como tal, acabam por não se deslocar para votar no domingo. O processo é relativamente simples. Difere da prática tradicional que se verifica na maioria do território nacional, já que existe apenas uma oportunidade para votar — a hora do plenário — e que se vota diretamente nas listas que concorrem aos diferentes cargos.
“Não é com as mãos no ar” que se decide a liderança da junta, garante a atual presidente. O voto continua a ser secreto. No decorrer desta “sessão extraordinária”, cada um dos cidadãos presentes no plenário é chamado à mesa, onde preenche o boletim com a lista que deseja ver à frente da freguesia, e depois coloca o papel na urna. Cada lista conta com o nome de seis candidatos, três para a junta e outros três para a mesa do plenário. Fazendo esta distinção, depois de explicado o processo eleitoral, começam os trabalhos.
Quem preside ao plenário, numa primeira instância, é a presidente da junta. “Este ano, a Comissão Nacional de Eleições alterou o procedimento e, neste caso, sou eu que inicio os trabalhos, que abrem com a eleição para a Mesa do Plenário”, explica Rita Cavalheiro. Identificada a lista vencedora, é então a nova presidência deste órgão que continua a coordenação para a segunda parte dos trabalhos, a eleição do presidente, do tesoureiro e do secretário da Junta de Freguesia.
Este ano, seguindo a tendência das últimas décadas, só se apresentou uma lista para estas eleições autárquicas em São João do Peso. A candidata do PSD — cuja cara consta em cartazes espalhados por todas as ruas da freguesia — é, também, a autarca que governou durante os 12 anos antes de Rita Cavalheiro assumir o cargo. Rosário Cavalheiro é, também, a mãe da atual presidente que, por “motivos pessoais”, decidiu não se recandidatar.
Contudo, apesar de haver uma única lista a fazer campanha, não quer dizer que no domingo seja uma eleição sem concorrência. Em 2013, quando os cidadãos estavam reunidos pela primeira vez em plenário na Casa do Povo — e se esperava uma nova eleição unânime da candidatura do PSD — surgiu, de surpresa, uma potencial alternativa de governação da junta. “A pessoa não tem que fazer campanha, nem o nome tem que vir na lista que vai para tribunal. Qualquer um pode chegar ao dia e dizer: Eu quero candidatar-me”, explica Rita Cavalheiro ao Observador.
A legislação eleitoral em vigor permite qualquer morador ou todos aqueles que estejam recenseados em São João de Peso de integrar uma lista para a presidência da Junta de Freguesia. E foi precisamente isto que aconteceu durante o primeiro plenário, em 2013, quando “um senhor” se assumiu enquanto cabeça de lista do Partido Socialista. O desfecho acabou por ser o mesmo do que todos os outros anos, e o PSD conseguiu a eleição da sua candidata, mas foi um episódio inédito na história democrática desta pequena freguesia.
Sem uma oposição anunciada, a campanha é relativamente simples. A lista social-democrata vai porta a porta para divulgar as suas propostas e reunir apoiantes. A requalificação do parque infantil é o primeiro ponto do programa da candidatura de Rosário Cavalheiro, seguido pela pintura do cemitério e a aposta no apoio às pessoas idosas que residem na freguesia. Para além dos cartazes cor-de-laranja que recebem qualquer pessoa que chegue a São João do Peso, a sinalética política que vai aparecendo no meio das ruas alude sempre para a corrida eleitoral em Vila de Rei, a cerca de 11km de distância. Ao contrário da freguesia — onde se antecipa lista única — o concelho será disputado entre o PSD (a tentar renovar o mandato), o PS (com a antiga autarca social-democrata na lista), a CDU e o Chega, que se estreia nesta região.
Neste último dia de campanha, uma caravana do PSD atravessou todas as freguesias com os respetivos candidatos. Ao longo destas semanas, os outros partidos que agora querem ocupar este espaço na Câmara Municipal do concelho também foram porta a porta para tentar quebrar o status quo em São João. A presidente da junta relata que representantes desta nova concorrência — sem especificar os partidos em questão— tentaram abordar os cidadãos da freguesia para formar uma nova lista para disputar a eleição para a junta. Segundo Rita Cavalheiro, esta missão não teve sucesso, mas admite que só saberá ao certo no domingo, no dia do plenário.
A (não) ambição autárquica que acabou com a responsabilidade de passar atestados a meio da noite
Rita Cavalheiro trabalha como encarregada no Centro de Acolhimento de São João do Peso. “Toda a gente” gosta da presidente cessante. Antes de se sentar na maior das três secretárias existentes no edifício da Junta de Freguesia, Rita era conhecida pelo seu trabalho neste lar de idosos, mas também por ser filha da autarca e uma das pessoas mais jovens a viver na vila. Durante os últimos quatro anos de mandato, Rosário Cavalheiro ocupou a presidência da Mesa do Plenário e também o cargo de Assistente Técnica na Câmara Municipal de Vila de Rei, mas esteve sempre ao lado da filha na sua estreia autárquica.
A candidatura não surgiu por iniciativa própria, conta ao Observador. “Eu nunca pensei: Quero ser presidente de junta”, continua. Rita Cavalheiro já estava filiada no PSD e, durante o mandato da mãe, chegou a presidir também a Mesa do Plenário, mas a ambição de vir a liderar a Junta de Freguesia nunca lhe tinha passado pela cabeça. “A candidatura foi-me proposta, em 2021, pelo partido, também porque a antiga presidente que agora se está a recandidatar fez os 12 anos e não podia voltar a concorrer. Eu não aceitei logo, porque quando se aceita um desafio, temos que estar preparados. Eu acho que ia preparada, mas não era uma ambição minha”, refere a presidente.
O que a fez dar o passo em frente “ao fim de algum tempo”, surgiu após uma longa deliberação sobre o estado da freguesia. “Não podia abandonar isto”, explica. Comparada com o resto da população, Rita é das pessoas mais jovens a viver em São João do Peso. Foi eleita com 30 anos, em 2021, e conta que apesar de existirem pessoas da sua geração ainda recenseadas nesta freguesia, a grande maioria está a morar na Sertã ou noutros locais onde existem mais oportunidades. O futuro da presidente cessante passa por São João do Peso. Trabalha no lar e, há três anos, comprou uma casa na vila para restaurar e eventualmente viver.
No entanto, faz um balanço positivo do seu mandato, apesar de as condições não serem as mais fáceis. “Não recebemos muita verba para avançar com as obras que queríamos”, explica Rita Cavalheiro, referindo que por esse motivo, o mote dos últimos quatro anos foi “manter ou melhorar aquilo que já existia”. Alguns dos projetos idealizados pela autarca constam agora no programa eleitoral da mãe, uma vez que não foram conseguidos desde 2021.
Tratando-se de uma freguesia de apenas 12km2, as responsabilidades da presidente passam muito por questões administrativas, como a emissão de licenças e atestados, mas também a manutenção do património. Nesta última área de trabalhos, a junta tinha dois funcionários para percorrer o território, mas um acabou por se reformar durante este mandato. Assim, Rita acaba por também ter de ajudar em algumas situações, dando o exemplo da gestão do cemitério e de organização dos funerais.
“As pessoas vão à minha casa, batem à minha porta, ou porque precisam de alguma coisa vinda de Vila de Rei, ou porque precisam de um atestado às tantas da noite para ser entregue de manhã… E claro, nós não vamos dizer que não”, conta ao Observador. Apesar de a eleição de 2021 ter sido praticamente unânime e de a população, de uma forma geral, estar satisfeita com o trabalho na junta, admite que “não agrada a toda a gente”, revelando que duas pessoas votaram em branco no último plenário. Mas mantém: “Acho que a eleição foi bem vista”.
O pouco movimento, a crise na habitação e o silêncio: o quotidiano em São João do Peso
“Há quatro ou cinco pessoas mais novas do que eu”, diz o senhor Vítor atrás do balcão do seu snack-bar. Vítor é também conhecido como Vicente (o nome do pai) e voltou para a terra onde nasceu passados mais de trinta anos a trabalhar em diferentes territórios, desde o Porto, à Suíça passando pelas Caraíbas. Na Invicta, tinha um empreendimento semelhante àquele que gere agora em São João do Peso, mas existe uma grande diferença: o movimento.
As gerações mais novas, os poucos que nasceram e cresceram nesta pequena freguesia, foram obrigados a estudar ou na Sertã ou em Vila de Rei, uma vez que a escola que existia em São João do Peso encerrou no início dos anos 2000. Existe, deste modo, um autocarro que faz esta rota gratuitamente até à capital do concelho — e que, como aqui habitam poucos estudantes, acaba também por transportar os adultos para estes poderem fazer o que têm a fazer na cidade.
É em Vila de Rei que há supermercados, restaurantes, farmácias e o centro de saúde. Em São João do Peso existe uma mercearia, que é tutelada pela presidência da junta, mas que está sempre fechada, a não ser que alguém peça à presidente por algo em específico — e aí, Rita Cavalheiro desloca-se até ao anexo na Casa do Povo para servir os seus fregueses. Mas de resto, existem dois pontos de encontro na vila: o snack-bar e os bancos no largo que têm um parque infantil — mas sem crianças. E mesmo assim, continua a haver pouca vida.
“É uma pena”, lamenta Mário Fernandes, que com quase 80 anos se mudou para São João do Peso depois de muitos anos enquanto gestor de obras públicas na África do Sul. “Eu não conhecia isto assim, estava na esperança que houvesse alguma saída, que houvesse mais movimento. Eu não sou pessoa de estar parada, mas aqui tenho de estar”, continua, em conversa com o Observador, apontando para o silêncio que se observa na tarde de quinta-feira. “Há mais gatos que pessoas“, exclama Vítor, quando o animal de estimação de Mário cruzou a praça.
Esta falta de movimento, para além de se traduzir nos poucos estímulos sociais que Mário sente no seu dia-a-dia, também se reflete nos rendimentos do proprietário do snack-bar. “As pessoas vêm, bebem um café, uns bebem umas minis, mas é um negócio que rende pouco”, desabafa Vítor. Naquele dia, só abriu a loja perto das 13h00 e, no espaço de duas horas teve três clientes. Vendeu dois cafés, um descafeinado e duas cervejas antes de ter de fechar o espaço para ir até à Câmara Municipal pagar a Segurança Social e outros impostos.
Sonhando já com a reforma daqui a sete anos, Vítor diz que se quer dedicar à apicultura e à caça de javalis, “uma praga” em São João do Peso, que já se manifestou através de uma visita de um destes convidados indesejados dentro do snack-bar. Relembra, também, a história do escritor José Cardoso Pires, o único “famoso” que nasceu nesta freguesia — antes de mencionar que a gata de Mário apareceu numa reportagem da RTP.
Há pouco para fazer, mas todos se conhecem. No centro da freguesia, várias casas de grandes dimensões foram remodeladas ao longo dos últimos anos. Muitas, no entanto, estão vazias. “As pessoas herdam as casas e depois elas ficam fechadas, não as alugam e recusam-se a vender”, explica a autarca. Alguns acabam por usufruir ocasionalmente das propriedades, durante um par de semanas no verão ou de forma mais periódica em certos fins-de-semana. Outros, simplesmente, não aparecem.
“Eu acho que as pessoas até querem vir para São João do Peso, mas não há casas”, exclama Rita Cavalheiro, dando o exemplo de colegas de trabalho que vivem em freguesias vizinhas e que têm interesse em viver mais perto do lar onde trabalham, mas a falta de oferta não permite receber mais pessoas. “Até nos perguntam se há casas, e de facto há uma ou duas, mas as rendas são muito elevadas, estão a pedir 450 euros, o que é muito, para aqui”, continua. De acordo com a presidente da junta, os únicos que conseguem ir morar para São João do Peso são aqueles que façam teletrabalho, dando o exemplo de um casal que chegou à freguesia há dois anos e que vive na casa em frente à sede da junta.