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ILUSTRAÇÃO: Ana Martingo/OBSERVADOR

Ana Martingo/OBSERVADOR

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Pré-publicação. Jordan Peterson, o escritor estrela do Canadá, tem um novo livro: escrito quando a sua vida e a da mulher esteve em risco /premium

Pré-publicação. No pior momento da vida, em que a saúde (sua e da mulher) esteve em risco, o canadiano Jordan Peterson escreveu a sequela do "12 regras para a vida". Chama-se "Para além da ordem".

No pior momento da sua vida, em que a saúde (sua e dos seus) esteve em risco, o psicólogo e académico canadiano Jordan Peterson escreveu a sequela do best seller “12 regras para a vida”. O novo livro chama-se “Para além da ordem – 12 novas regras para a vida” e é editado em Portugal pela editora Leya/Lua de Papel – o Observador faz a pré-publicação da abertura da obra cujo título está relacionado com o binómio ordem versus caos, sobejamente explorado pelo académico que, subitamente, em 2016, se tornou figura de culto para milhões de pessoas pela sua defesa da liberdade de expressão e responsabilidade individual.

“Escrevi muito e editei a quase totalidade de Para Além da Ordem durante um período em que a minha família se viu fustigada por episódios sucessivos e concomitantes de problemas de saúde graves, muitos dos quais tema de discussão pública”, escreve Jordan Peterson. Os fãs do canadiano acompanharam, nos últimos anos, os problemas que se abateram sobre a família Peterson: o cancro da mulher, os problemas de saúde da filha e, depois, o problema grave do próprio Jordan Peterson, após uma reação negativa a um medicamento receitado pelo médico.

Estas são as lições que Peterson retirou do seu próprio confronto, pessoalíssimo, com o caos, e de que o Observador pré-publica uma parte.

No dia 5 de fevereiro de 2020, acordei numa unidade de cuidados intensivos em – imagine‑se! – Moscovo. Estava amarrado aos lados da cama com correias largas porque, em estado inconsciente, estivera numa agitação tal que tentara arrancar os cateteres do braço e sair porta fora. Sentia‑me confuso e frustrado, sem saber onde estava, rodeado por pessoas que falavam uma língua estrangeira e sem ter ao pé a minha filha, Mikhaila, e o marido dela, Andrey, que estavam sujeitos a horários de visita muito rígidos e não foram autorizados a estar ao meu lado quando acordasse. Também estava zangado por estar ali – e fui agressivo com a minha filha quando finalmente me visitou, várias horas depois. Sentia‑me traído – ainda que isso não fosse de todo verdade. As pessoas tinham estado a atender às minhas várias necessidades com grande disponibilidade, enfrentando os tremendos desafios logísticos que a obtenção de assistência médica num país estrangeiro implica. Não tenho qualquer memória do que me aconteceu nas últimas semanas antes disso – e lembro‑me de muito pouco do que se passou desde o momento, em meados de dezembro, em que fui levado para um hospital em Toronto, a cidade do Canadá onde vivo. Olhando para o início do ano, uma das poucas coisas que conseguia recordar era o tempo que passara a escrever este livro.

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No início de março, a minha mulher, Tammy, foi submetida a uma cirurgia de rotina em Toronto, na sequência de um cancro renal comum e em geral tratável. Um mês e meio depois da operação, na qual foi removido um terço do órgão, ficámos a saber que ela, na verdade, sofria de uma doença maligna extremamente rara, com uma taxa de mortalidade próxima dos cem por cento no espaço de um ano.

Escrevi muito e editei a quase totalidade de Para Além da Ordem durante um período em que a minha família se viu fustigada por episódios sucessivos e concomitantes de problemas de saúde graves, muitos dos quais tema de discussão pública – e que, por isso, necessitam de alguma explicação pormenorizada. Primeiro, em janeiro de 2019, a minha filha teve de consultar um cirurgião para substituir a maior parte do seu tornozelo artificial, colocado cerca de uma década antes, porque a intervenção inicial nunca foi perfeita, causando‑lhe por isso grandes dores e dificuldade de movimento; por fim, quase deixou de funcionar. Passei uma semana com ela num hospital de Zurique, na Suíça, para acompanhar a intervenção e a sua recuperação inicial.

No início de março, a minha mulher, Tammy, foi submetida a uma cirurgia de rotina em Toronto, na sequência de um cancro renal comum e em geral tratável. Um mês e meio depois da operação, na qual foi removido um terço do órgão, ficámos a saber que ela, na verdade, sofria de uma doença maligna extremamente rara, com uma taxa de mortalidade próxima dos cem por cento no espaço de um ano.

Duas semanas depois, os cirurgiões que cuidavam dela retiraram‑lhe os outros dois terços do rim e uma parte substancial do sistema linfático abdominal a ele ligado. A cirurgia pareceu travar a progressão do cancro, mas resultou num derrame de fluido (de até quatro litros por dia) do sistema linfático, agora danificado – uma ascite quilosa, uma enfermidade com um grau de perigo tão elevado como a original. Fomos até Filadélfia consultar uma equipa médica que, 96 horas depois da injeção inicial de um contraste de óleo de semente de papoila, cujo objetivo prático era melhorar as imagens de TAC ou ressonâncias magnéticas, conseguiu estancar por completo o derrame de fluido. Este progresso aconteceu no dia do trigésimo aniversário do nosso casamento. A Tammy recuperou rapidamente e, ao que tudo indica, por completo – um exemplo da sorte, sem a qual nenhum de nós consegue viver, e da sua força e resistência admiráveis.

No início de 2017, tinha começado a tomar um medicamento contra a ansiedade, depois de ter tido uma reação autoimune a qualquer coisa que ingeri durante as festas de Natal de 2016. Essa perturbação alimentar deixou‑me num estado de ansiedade permanente e agudo, além de passar a sentir sempre um frio de enregelar, fosse qual fosse a roupa que vestisse ou a quantidade de cobertores com que me tapasse. Mais: a minha tensão arterial caiu de tal maneira que, sempre que procurava levantar‑me, começava a perder os sentidos e tinha de me agachar meia dúzia de vezes ou mais antes de tentar de novo. Também tinha insónias que pareciam quase totais.

Jordan Peterson anuncia novo livro, com “mais 12 regras para a vida”

Infelizmente, enquanto estes acontecimentos se desenrolavam, a minha saúde entrou em colapso. No início de 2017, tinha começado a tomar um medicamento contra a ansiedade, depois de ter tido uma reação autoimune a qualquer coisa que ingeri durante as festas de Natal de 2016. Essa perturbação alimentar deixou‑me num estado de ansiedade permanente e agudo, além de passar a sentir sempre um frio de enregelar, fosse qual fosse a roupa que vestisse ou a quantidade de cobertores com que me tapasse. Mais: a minha tensão arterial caiu de tal maneira que, sempre que procurava levantar‑me, começava a perder os sentidos e tinha de me agachar meia dúzia de vezes ou mais antes de tentar de novo. Também tinha insónias que pareciam quase totais. O médico de família receitou‑me uma benzodiazepina e um comprimido para dormir. Só tomei este último uma meia dúzia de vezes antes de o pôr completamente de parte; a benzodiazepina eliminou quase de imediato os sintomas terríveis que sentia, incluindo as insónias, o que tornava desnecessário o comprimido para dormir. Continuei a tomar a benzodiazepina durante quase exatamente três anos, porque a minha vida nesse período parecia invulgarmente stressante (foi quando passei da existência tranquila de professor universitário e médico para a realidade tumultuosa de ser uma figura pública), e por acreditar que o medicamento era – como tantas vezes se diz sobre as benzodiazepinas – relativamente inócuo.

Mas tudo mudou em março de 2019, no início da batalha médica da minha mulher. Após a hospitalização, cirurgia e recuperação da minha filha, notei um aumento significativo da minha ansiedade. Por isso, pedi ao médico de família que aumentasse a dose de benzodiazepina, para não ser dominado pela ansiedade, nem isso ser motivo de preocupação para outros. Infelizmente, depois desse ajuste, senti um aumento significativo de emoções negativas. Pedi que me aumentassem de novo a dose (estávamos então a lidar com a segunda cirurgia da Tammy e com as suas complicações e atribuí a isso o crescendo do meu problema), mas a ansiedade aumentou ainda mais. Na altura, não atribuí o facto a uma reação paradoxal à medicação (que acabou por ser o diagnóstico posterior), mas a uma tendência recorrente para a depressão que me perseguira durante anos*. Seja como for, deixei de tomar completamente a benzodiazepina em maio desse ano, experimentando, por indicação de um psiquiatra que consultei, duas doses de cetamina por semana. Às vezes, a cetamina, um anestésico/psicadélico não‑comum, tem efeitos positivos extraordinários e imediatos sobre a depressão.

Para mim, não representou mais do que duas viagens de hora e meia ao inferno. Senti culpa e vergonha até ao mais íntimo de mim – e como se nada houvesse de bom nas minhas experiências positivas. Uns dias depois da segunda experiência com cetamina, comecei a sofrer os efeitos de uma abstinência aguda de benzodiazepinas, que eram verdadeiramente insuportáveis – uma ansiedade muito para lá do que já sentira, uma agitação e necessidade incontroláveis de estar sempre em movimento (uma síndrome conhecida formalmente como acatisia), pensamentos dominantes de autodestruição e a total ausência de qualquer tipo de sentimento de felicidade. Um médico amigo da família esclareceu‑me acerca dos perigos de parar de repente com as benzodiazepinas. Recomecei então a tomar uma benzodiazepina – mas numa dose inferior àquela onde tinha chegado. Muitos dos sintomas desapareceram – mas não todos. Para lidar com os que permaneceram, também comecei a tomar um antidepressivo que no passado me tinha sido muito útil. Mas isso só me deixou tão exausto que passei a precisar de quatro horas de sono adicionais por dia, ou mais – o que, no meio dos graves problemas de saúde da Tammy, não ajudava nada –, além de multiplicar duas ou três vezes o meu apetite.

Ao fim de cerca de três meses de uma ansiedade terrível, de uma hipersónia incontrolável, de uma acatisia cruel e torturante e de um apetite excessivo, fui a uma clínica nos Estados Unidos que afirmava ser especializada na desabituação rápida de benzodiazepinas. A acatisia tinha aumentado a tal ponto que eu já não era capaz de estar sentado ou em descanso, fosse qual fosse a posição ou o período de tempo, sem sentir uma agonia profunda. Em dezembro, dei entrada num hospital local – e acaba aí a minha consciência dos acontecimentos anteriores a acordar em Moscovo.

Ao fim de cerca de três meses de uma ansiedade terrível, de uma hipersónia incontrolável, de uma acatisia cruel e torturante e de um apetite excessivo, fui a uma clínica nos Estados Unidos que afirmava ser especializada na desabituação rápida de benzodiazepinas. Apesar das boas intenções de muitos dos seus psiquiatras, a clínica só conseguiu uma diminuição ou abrandamento lento da minha dose de benzodiazepinas, cujos efeitos negativos eu já sentia e cujo tratamento proporcionado aos doentes internados não era eficaz a controlar, nem podia ser.

Mesmo assim, permaneci nessa clínica entre meados de agosto, apenas uns dias depois de a Tammy ter recuperado das complicações pós‑cirúrgicas, e o final de novembro, quando regressei a casa, em Toronto, a sentir‑me bastante mal. Nesta altura, a acatisia (um distúrbio que se caracteriza por uma inquietação e falta de controlo nos movimentos) tinha aumentado a tal ponto que eu já não era capaz de estar sentado ou em descanso, fosse qual fosse a posição ou o período de tempo, sem sentir uma agonia profunda. Em dezembro, dei entrada num hospital local – e acaba aí a minha consciência dos acontecimentos anteriores a acordar em Moscovo. Mais tarde, fiquei a saber que a Mikhaila e o Andrey me tiraram do hospital de Toronto no início de janeiro de 2020 por estarem convencidos de que o tratamento que eu estava a receber me fazia mais mal do que bem (opinião com a qual concordei assim que soube o que se passara).

A situação em que me vi ao recuperar a consciência na Rússia foi complicada pelo facto de também ter contraído uma pneumonia dupla no Canadá – o que não tinha sido diagnosticado ou tratado antes de eu dar entrada na unidade de cuidados intensivos em Moscovo. Mas, acima de tudo, fui para lá para que a clínica pudesse facilitar a minha desabituação das benzodiazepinas, usando um método que na América do Norte era desconhecido – ou considerado muito perigoso. Como eu não tinha sido capaz de suportar qualquer diminuição da dose – excetuando a redução inicial, meses antes –, a clínica colocou‑me em coma medicamente induzido para eu permanecer inconsciente durante a fase dos piores sintomas de ressaca. Essa situação começou a 5 de janeiro e durou nove dias, durante os quais também me puseram num ventilador que regulava mecanicamente a respiração. A 14 de janeiro fui desintubado e tiraram‑me os anestésicos. Acordei durante umas horas e, nesse período, dei sinais à minha filha de que já não sofria de acatisia – ainda que não me lembre de absolutamente nada disto.

Tive de reaprender a andar, a subir e descer escadas, a abotoar a roupa, a deitar‑me sozinho, a colocar as mãos na posição certa sobre um teclado de computador e a escrever. Não parecia capaz de ver como deve ser – ou, mais propriamente, de saber usar os membros para interagir com aquilo de que tinha perceção.

Grande entrevista ao “fenómeno” Jordan Peterson: “Quotas para homens e mulheres? Não há qualquer justificação para isso”

A 23 de janeiro fui transferido para outra unidade de cuidados intensivos especializada em reabilitação neurológica. Lembro‑me de acordar no dia 26, por um período breve, antes do meu regresso mais completo à consciência, como relatei, a 5 de fevereiro – foram dez dias durante os quais atravessei um período de delírio vívido intenso. Quando isso passou, transferiram‑me para um centro de reabilitação mais parecido com uma casa, num subúrbio de Moscovo. Aí tive de reaprender a andar, a subir e descer escadas, a abotoar a roupa, a deitar‑me sozinho, a colocar as mãos na posição certa sobre um teclado de computador e a escrever. Não parecia capaz de ver como deve ser – ou, mais propriamente, de saber usar os membros para interagir com aquilo de que tinha perceção. Umas semanas depois, quando estes problemas de perceção e coordenação já tinham diminuído, mudei‑me para a Florida, com a minha filha, o marido dela e o meu neto, na esperança de termos um período de recuperação em paz, ao sol (que era muito bem‑vindo depois do frio cinzento de Moscovo a meio do inverno). Foi mesmo antes de começar o sobressalto mundial com a pandemia de Covid‑19.

Na Florida, tentei desabituar‑me da medicação receitada pela clínica de Moscovo, embora ainda sentisse torpor na mão e no pé esquerdos, tremores nesses dois membros e também nos músculos da testa, além de uma ansiedade incapacitante. Todos estes sintomas aumentaram muito acentuadamente com a diminuição da dose de medicação, atingindo‑se um ponto, cerca de dois meses depois, em que já estava outra vez a tomar as doses inicialmente receitadas na Rússia. Foi uma derrota dura, pois estilhaçou o otimismo que alimentara o processo de redução, além de voltar a atirar‑me para uma situação de consumo de medicamentos que eu tentara eliminar pagando um preço elevado. Nesse período, houve familiares e amigos que, felizmente, ficaram comigo. Enquanto os sintomas que sentia aumentavam e se tornavam insuportáveis, em especial de manhã, a companhia deles ajudou‑me a ficar motivado para continuar a tratar‑me.

No final de maio, três meses depois de deixar a Rússia, era evidente que eu, em vez de melhorar, estava a piorar; além disso, era ao mesmo tempo insustentável e injusto depender das pessoas de que gostava e que gostavam de mim. A Mikhaila e o Andrey tinham contactado com uma clínica na Sérvia que tinha uma abordagem nova ao problema da abstinência de benzodiazepinas e prepararam tudo para eu ir para lá, apenas dois dias depois de o país ter reaberto as fronteiras encerradas por causa da pandemia.

Não vou dizer que os acontecimentos que se abateram sobre a minha mulher, sobre mim e sobre as pessoas mais próximas envolvidas nos cuidados dela acabaram, no fim, por se revelar um bem maior. O que lhe aconteceu foi verdadeiramente horrível. Durante mais de meio ano, ela passou por crises de saúde graves e quase fatais a cada dois ou três dias – e a seguir teve de lidar com a minha doença e ausência. Quanto a mim, fui confrontado com a perda provável de alguém de quem era amigo há cinquenta anos e com quem estava casado há trinta; com as consequências terríveis desse facto nos outros membros da família, incluindo os nossos filhos; e com as consequências sombrias e tenebrosas de uma dependência de substâncias na qual tinha entrado inadvertidamente. Não vou desvalorizar isto tudo dizendo que passar por estas situações nos tornou pessoas melhores. Mas posso afirmar que estar tão próximo da morte motivou a minha mulher a enfrentar algumas questões relativas ao seu próprio desenvolvimento criativo e espiritual de uma maneira mais imediata e permanente do que poderia ter sucedido e, a mim, motivou‑me a escrever ou a guardar, durante a edição deste livro, apenas as palavras que mantinham o seu sentido mesmo sob condições caracterizadas por um sofrimento extremo. Sem sombra de dúvida, é graças à família e aos amigos (que indico especificamente na Coda deste livro) que ainda estamos vivos, mas também é verdade que a imersão significativa naquilo que estava a escrever, e que aconteceu durante todo o tempo que relatei – com a exceção do mês que passei inconsciente em Moscovo –, me deu tanto uma razão para viver como um meio para testar a viabilidade dos pensamentos com que me debatia.

"Não vou dizer que os acontecimentos que se abateram sobre a minha mulher, sobre mim e sobre as pessoas mais próximas envolvidas nos cuidados dela acabaram, no fim, por se revelar um bem maior. O que lhe aconteceu foi verdadeiramente horrível. Durante mais de meio ano, ela passou por crises de saúde graves e quase fatais a cada dois ou três dias – e a seguir teve de lidar com a minha doença e ausência. Quanto a mim, fui confrontado com a perda provável de alguém de quem era amigo há cinquenta anos e com quem estava casado há trinta."

Não creio ter afirmado alguma vez – no meu livro anterior ou sequer neste – que viver segundo as regras que enunciei seria necessariamente suficiente. Penso que aquilo que afirmei –  o que espero ter afirmado – foi isto: quando se é tocado e engolido pelo caos; quando a natureza nos amaldiçoa, ou a alguém que amamos, com a doença; ou quando a tirania destrói alguma coisa valiosa que construímos, é vantajoso conhecer o resto da história. Toda essa infelicidade é só a metade amarga da história da existência e não leva em conta o elemento heroico da redenção nem a nobreza do espírito humano que exige uma certa responsabilidade para suportar. Se ignorarmos esse lado da história o risco é nosso, porque a vida é tão difícil que perder de vista essa parte heroica da existência pode custar‑nos tudo. Não queremos que isso aconteça. Aquilo de que precisamos é de ganhar coragem, força de espírito, olhar para as coisas com cuidado e de forma adequada – e viver da maneira que podemos viver.

Nós possuímos fontes de força às quais podemos recorrer –  e mesmo que não funcionem bem podem ser suficientes. Se formos capazes de aceitar os nossos erros, temos aquilo que conseguirmos aprender. Temos medicamentos e hospitais, bem como médicos e enfermeiras que todos os dias, de uma forma empenhada e corajosa, procuram erguer‑nos e ajudar‑nos. E depois temos o nosso próprio caráter e coragem, e mesmo que esses tenham levado uma grande sova e estejamos prestes a desistir, ainda nos resta o caráter e a coragem daqueles de que gostamos e que gostam de nós. E talvez, apenas talvez, com isso tudo, sejamos capazes de vencer. Posso dizer‑vos aquilo que me salvou – foi o amor que tenho pela família; o amor que eles me têm; a coragem que me transmitiram, eles e os meus amigos; o facto de, enquanto estava no abismo, ainda ter um trabalho com sentido ao qual me entregar. Nos meses sem fim em que o medo e o terror tomaram conta de mim, tive de me obrigar a concentrar‑me, a respirar e a evitar dizer “quero que isto vá tudo para o inferno!”. E quase não fui capaz. Mais de metade do tempo, acreditei que ia morrer num dos muitos hospitais por onde passei. Acredito que teria mesmo perecido se tivesse caído nas garras, por exemplo, do ressentimento – e que tenho a sorte de ter evitado esse destino.

“Mapas do Sentido”. O outro livro de Jordan Peterson, autor de “12 regras para a vida”

Não seriamos nós mais capazes de lidar com a incerteza, com os horrores da natureza, com a tirania da cultura e com a maldade, a nossa e a dos outros (embora nem sempre conseguíssemos livrar‑nos de situações terríveis), se fôssemos pessoas melhores e mais corajosas? Se aspirássemos a valores mais elevados? Se fôssemos mais verdadeiros? Não seria mais provável que os elementos benéficos da experiência se manifestassem à nossa volta? Se os nossos objetivos fossem suficientemente nobres, a nossa coragem adequada, o nosso propósito pela verdade inabalável, não seria possível que o Bem produzido desse modo acabasse por… bem, por não justificar o horror. Isto não será exatamente assim, mas anda lá perto. Essas atitudes e ações poderiam, pelo menos, transmitir‑nos o sentido suficiente para impedir que o nosso embate com esse terror e horror nos corrompesse e transformasse o mundo que nos rodeia numa coisa demasiado parecida com o inferno.

Porquê Para Além da Ordem? A explicação é relativamente simples. A ordem é território explorado. Estamos dentro da ordem quando as ações que julgamos apropriadas produzem os resultados que desejamos. Olhamos para esses resultados de uma forma positiva; eles indicam, em primeiro lugar, que nos aproximámos do que procurávamos e, em segundo, que a nossa teoria sobre o funcionamento do mundo continua admissivelmente certa. No entanto, todos os estados de ordem têm as suas falhas, por muito seguros e confortáveis que sejam. O nosso conhecimento de como nos comportarmos no mundo é eternamente incompleto – isso deve‑se em parte à nossa ignorância profunda do imenso desconhecido; em parte à nossa cegueira voluntária; e em parte porque o mundo continua, à sua maneira entrópica, a transformar‑se inesperadamente. Mais: a ordem que procuramos impor ao mundo pode tornar‑se rígida, por causa de todas as tentativas desaconselháveis para eliminar da consideração tudo aquilo que é desconhecido. Quando essas tentativas vão demasiado longe, o totalitarismo ameaça, guiado pelo desejo de exercer um controlo total quando, mesmo em princípio, esse controlo é impossível. Isso significa correr o risco de restringir perigosamente todas as mudanças psicológicas e sociais necessárias para manter a adaptação a um mundo em constante mudança. E, assim, encontramo‑nos perante a inexorável necessidade de ir para além da ordem, até ao seu oposto: o caos.

Se a ordem é onde se revela aquilo que queremos – quando agimos de acordo com o conhecimento que acumulámos –, o caos é onde se projeta, a partir do potencial à nossa volta, aquilo que não esperamos ou que não vimos. O facto de uma coisa ter acontecido muitas vezes no passado não garante que continue a acontecer da mesma maneira. Existe, e existirá sempre, um domínio para além daquilo que conhecemos e somos capazes de prever. O caos é anomalia, novidade, imprevisibilidade, transformação, disrupção e, com demasiada frequência, declínio, quando aquilo que tomámos por garantido se revela imprevisível. Às vezes, manifesta‑se de forma gradual, revelando os seus mistérios em experiências que nos tornam curiosos, empenhados e interessados. Isto é muito provável, ainda que não inevitável, quando abordamos de livre vontade o que não compreendemos, armados de disciplina e preparação cuidadosas. De outras vezes, o inesperado revela‑se de uma forma terrível, súbita, acidental, e então ficamos desarmados e desfeitos e só nos recompomos com grande dificuldade – se o conseguirmos.

"Se a ordem é onde se revela aquilo que queremos – quando agimos de acordo com o conhecimento que acumulámos –, o caos é onde se projeta, a partir do potencial à nossa volta, aquilo que não esperamos ou que não vimos. O facto de uma coisa ter acontecido muitas vezes no passado não garante que continue a acontecer da mesma maneira."

Nenhum dos estados – ordem ou caos – é preferível, intrinsecamente, ao outro. Essa é a maneira errada de olhar para a questão. Ainda assim, no meu livro anterior, foquei‑me mais em como podem ser remediadas as consequências de caos em excesso. Respondemos à mudança súbita e imprevisível preparando‑nos, fisiológica e psicologicamente, para o pior. E como só o próprio Deus sabe o que poderia ser este “pior”, temos, na nossa ignorância, de nos preparar para todas as eventualidades. O problema com essa preparação contínua é que, em excesso, ela nos esgota. Mas isso não significa, de maneira alguma, que o caos deva ser eliminado (o que é, de qualquer maneira, impossível), embora o que é desconhecido tenha de ser gerido com cuidado, como repetidamente sublinhei em 12 Regras para a Vida. Aquilo que não é tocado pelo novo vai estagnar e é seguramente verdade que uma vida sem curiosidade – esse instinto que nos empurra para o desconhecido – seria uma forma de existência muito empobrecida. Aquilo que é novo é também o que é entusiasmante, arrebatador e provocatório, partindo do princípio de que o ritmo a que surge não enfraquece e desestabiliza intoleravelmente o nosso estado de ser.

Tal como 12 Regras para a Vida, este livro apresenta uma explicação para regras retiradas de uma lista mais longa, com 42 entradas, publicada e popularizada inicialmente no site de perguntas e respostas Quora. Ao contrário do meu livro anterior, este explora, como tema abrangente, como os perigos de demasiada segurança e controlo podem ser vantajosamente evitados. Como aquilo que compreendemos é insuficiente (como vamos descobrindo quando as coisas que procuramos controlar à nossa volta acabam, mesmo assim, por correr mal), precisamos de manter um pé na ordem enquanto experimentamos esticar o outro para além dela. Assim, em cima da fronteira, somos impelidos a explorar e a encontrar o mais profundo dos sentidos – suficientemente em segurança para manter o nosso medo controlado, mas aprendendo, aprendendo sempre – enquanto vamos enfrentado aquilo que ainda não aceitámos ou a que ainda não nos adaptámos. É este instinto do sentido – uma coisa bem mais profunda do que o simples pensamento – que nos orienta devidamente na vida, para não sermos dominados pelo que está para além de nós ou, o que é igualmente perigoso, ficarmos diminuídos e paralisados por sistemas de crença e convicção que se tornaram datados, são demasiado tacanhos ou, então, são enunciados com um exagero excessivo.

Mais especificamente, escrevi então sobre o quê? Bem, a Regra I descreve a relação entre estruturas sociais estáveis e previsíveis e a saúde psicológica individual, defendendo que as estruturas, para manterem a vitalidade, têm de ser atualizadas por pessoas criativas. A Regra II analisa uma imagem da alquimia com muitos séculos, apoiando‑se em várias histórias – antigas e modernas – para incidir luz sobre a natureza e desenvolvimento da personalidade humana estruturada. A Regra III alerta para os perigos de evitar a informação (vital para o rejuvenescimento contínuo da psique) assinalada pelo surgimento de emoções negativas como a dor, a ansiedade e o medo.

A Regra IV defende que o sentido que sustenta as pessoas em tempos difíceis se encontra não tanto na felicidade, que é volátil, mas na adoção voluntária de uma responsabilidade madura, para si e para os outros. A Regra V usa um exemplo único, retirado da minha experiência clínica enquanto psicólogo, para exemplificar a necessidade pessoal e social de atender àquilo que a consciência dita. A Regra VI descreve o perigo de atribuir a causa de problemas sociais e individuais complexos a variáveis únicas como sexo, classe ou poder.

A Regra VII sublinha a relação crucial entre avançar disciplinadamente numa direção única e o forjar de uma personalidade que é capaz de resiliência face à adversidade.

A Regra VIII foca a importância vital da experiência estética enquanto guia para o que é verdadeiro, bom e um sustentáculo no mundo humano da experiência. A Regra IX argumenta que é possível eliminar, pela exploração verbal voluntária e pela reavaliação, o horror de experiências passadas cuja recordação presente continua carregada de dor e de medo.

A Regra X assinala a importância do compromisso explícito para manter a boa vontade, a consideração mútua e a cooperação sincera sem as quais não é possível manter um romance verdadeiro. A Regra XI começa por descrever o mundo da experiência humana de uma maneira que explica o que motiva três padrões de resposta psicológica comuns, mas muito perigosos; aponta as consequências catastróficas de se cair nas garras de qualquer um deles e indica um caminho alternativo.

A Regra XII defende que a capacidade de agradecer, face às tragédias inevitáveis da vida, deve ser olhada como uma manifestação essencial da admirável coragem moral necessária para prosseguir a nossa difícil caminhada montanha acima. Espero estar um pouco mais sábio ao explicar este segundo conjunto de 12 regras do que há quatro anos, quando escrevi sobre as primeiras 12 – e para isso contribuiu também o retorno que fui recebendo enquanto tentava formular ideias para apresentar a plateias em todo o mundo – pessoalmente, no YouTube, no meu podcast e no meu blogue.

Espero, assim, ter sido capaz de clarificar algumas das questões que talvez tenham ficado por desenvolver de uma forma otimizada no meu trabalho anterior, além de apresentar muitas ideias originais. Por fim, espero que as pessoas considerem este livro tão útil, pessoalmente, como parece ter acontecido com o primeiro conjunto de 12 regras. Tem sido uma fonte imensa de gratificação ouvir tantas pessoas afirmarem que têm ido buscar forças aos pensamentos e histórias que tive o privilégio de apresentar e partilhar.

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