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Maria foi das primeiras a votar na Escola Básica de Memória, a 20 quilómetros de Leiria
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▲Maria foi das primeiras a votar na Escola Básica de Memória, a 20 quilómetros de Leiria

VASCO COELHO/OBSERVADOR

▲Maria foi das primeiras a votar na Escola Básica de Memória, a 20 quilómetros de Leiria

VASCO COELHO/OBSERVADOR

"Prioritário não é votar, é arranjar os telhados." Nas aldeias de Leiria onde não há luz, teme-se um aumento brusco da abstenção

A fraca afluência às urnas nas freguesias rurais do concelho denuncia um abstenção muito maior que na primeira volta. Reportagem entre a indignação de quem não vota e o sentido de dever de quem o faz.

Apoiada numa bengala, e acompanhada pela filha, Maria sobe com dificuldade as escadas que desembocam no edifício na escola básica de Memória. Apesar de ser domingo a escola está de portas abertas. É um dos locais de voto para as eleições presidenciais deste domingo no concelho de Leiria. No entanto, desta vez, o cenário que envolve o edifício é diferente dos restantes atos eleitorais: árvores de grande porte arrancadas pela raiz, fábricas sem coberturas, casas sem parte dos telhados, semáforos e postes de média tensão caídos, zero sinal de rede. Apesar da destruição, Maria não hesitou em levantar-se cedo para cumprir o seu “dever”. “Sempre votei, é o nosso dever, não é?!”, diz, surpreendida quando questionada pelo Observador sobre se pensara em não votar na segunda volta das eleições presidenciais.

“Temos de os eleger, para fazerem alguma coisa por nós”, diz Maria, abalada ainda pelos 10 dias em que não teve energia elétrica nem água em casa. A filha, Almerinda, ainda continua sem água. “Estivemos 10 dias às escuras, é muito tempo”, lamenta. Relatos como este são comuns por toda a União de Freguesia de Colmeias e Memória, apenas 20 quilómetros a nordeste de Leiria. A frustração, o desânimo da população, a que se junta a necessidade premente de reparar as casas (fustigadas de novo este sábado pela passagem pela depressão Marta) fazem-se sentir-se na participação eleitoral.

▲ O presidente da mesa de voto na Escola Básica de Memória, Domingos Santos (à esquerda nas fotos), admite que os eleitores "não estão mobilizados para votar"

VASCO COELHO/OBSERVADOR

Pelas 8h30, apenas oito pessoas tinham votado na única mesa de voto instalada na Escola Básica de Memória, onde estão inscritos cerca de 930 eleitores. Três desses votos eram dos próprios membros da mesa. O presidente da mesa, Domingos Santos, teme um aumento galopante da abstenção, que já tinha sido elevada na primeira volta, a rondar os 60%. “Isto deve-se aos efeitos da tempestade. As pessoas não estão mobilizadas para virem votar, estão cansadas porque têm andado em trabalhos de reparação das casas. [Votar] não é uma prioridade”, sublinha. Também ele está há dias à procura de oito dezenas de telhas para reparar o telhado de sua casa. Telhado que também suportava alguns painéis solares que o vento forte associado à depressão Kristin arrancou.

Nas zonas rurais de Leiria, afluência é menor. Quem vota fá-lo por “dever” e hábito

“A destruição foi muito grande”, lamenta. Domingos só tem luz porque conseguiu comprar um gerador há poucos dias. “Fui buscá-lo a Elvas”, diz. Na freguesia, é rara a casa que não tenha sido afetada pela tempestade. Mesmo nas zonas onde a eletricidade já foi reposta, as falhas são constantes. “A luz vai e volta”, queixa-se o presidente da mesa, que, ainda assim, compreende que os técnicos da E-Redes não tenham ainda conseguido restabelecer a energia a todos os clientes. “Não é possível reparar tudo em tão pouco tempo”. Pela região, são dezenas os cabos caídos nas estradas, os postes de média tensão tombadas ou mesmo vergados pela força do vento. E parte da população também não tem acesso a água, uma vez que, em muitos casos, é necessário que exista energia para poder elevar a água do subsolo.

À saída da escola de Memória, Artur Capitão estacionou o carro ao lado de dois semáforos que estão caídos, um para a circulação de peões e outro para a de automóveis. Mesmo com o telhado de casa “praticamente arrancado” e danos em anexos onde guarda animais, não deixou de fazer alguns quilómetros de carro para votar. “Sempre votei”, garante, antevendo, contudo, uma participação menor nas eleições deste domingo. “As pessoas estão desanimadas”. Artur, que só este sábado voltou a ter luz em casa, queixa-se da falta de ajuda que sentiu por parte das autoridades. “Estamos aqui esquecidos. Há zonas que não têm luz, não há rede, nem fibra”, realça.

Mais a oeste, na freguesia de Regueira de Pontes, o cenário de destruição deixado pela tempestade Kristin é tão ou mais notório. Muitas casas de primeira habitação perderam as chaminés, têm buracos nos telhados, há fábricas esventradas pelo vento. Aqui, o local de voto teve de ser alterado, não porque o recém-construído edifício da junta, que normalmente recebe os atos eleitorais, tenha ficado danificado, mas porque o espaço se encheu de doações. A onda de solidariedade que se seguiu à tempestade do final de janeiro traduziu-se no envio de dezenas e dezenas de garrafas de água, quilos e quilos de comida, cobertores, materiais de construção e produtos de higiene. As equipas da junta tratam agora de levar cabazes de bens essenciais porta a porta a todos os habitantes, explica a funcionária Sónia Duque.

▲ Sónia Duque guia o Observador pelo edifício da junta de freguesia de Regueira de Pontes, que não pôde receber a votação por estar ocupado com dezenas de quilos de bens doados

VASCO COELHO/OBSERVADOR

Sem informação sobre a alteração do local de voto para a segunda volta das presidenciais, muitos eleitores, sobretudo mais velhos, dirigiam-se para o edifício da junta, que na porta tinha colados três grandes cartazes a informar que as urnas tinham sido transferidas para o Centro Paroquial de Regueira de Pontes. “Não é aqui, está ali o papel a dizer”, indicava Sónia Duque a um eleitor, que se queixou de ter tentado ligar várias vezes para a junta de freguesia para saber onde votar, sem sucesso. A rede de telemóvel é inexistente em várias freguesias do concelho de Leiria, 11 dias depois da passagem da Kristin.

Só no concelho de Leiria, foram nove os locais de voto alterados nesta segunda volta. Várias escolas e pavilhões desportivos, danificados pela força dos ventos que atingiram a região, não puderam acolher as mesas de voto. Na freguesia de Bidoeira de Cima as eleições foram mesmo adiadas para dia 15 de fevereiro, a pedido do presidente da Câmara de Leiria, Gonçalo Lopes.

Em Regueira de Pontes, há quem se sinta “indignado” por votação não ter sido adiada

Em Regueira de Pontes, o novo local de voto apenas fica a apenas 200 metros do edifício da junta. Pelas 10 horas da manhã deste domingo, a afluência ao voto estava, no entanto, fraca. “Nota-se muito menos afluência hoje”, reconhece um dos presidentes de mesa, Tiago Carvalho, que admite que a participação possa cair para metade na freguesia. Se na primeira volta votaram cerca de dois terços dos cerca de 1.900 inscritos, agora a participação poderá rondar os 30% ao final do dia, antecipa o presidente da mesa, tendo em conta a afluência registada às primeiras horas da manhã.

A presidente de uma outra mesa considera que, perante a situação crítica que a freguesia vive, votar não é prioritário. “Prioritário não é votar, é arranjar os telhados, hoje até está sol”, atira Ana Felizardo. Depois de vários dias de chuva persistente, a região de Leiria foi ‘brindada’ com algumas abertas este domingo, sobretudo até ao início da tarde, quando o tempo chuvoso regressou. Ana Felizardo salienta que, em dia de votação, a Proteção Civil (que nos últimos dias tem ajudado os habitantes a desobstruir caminhos, distribuir alimentos ou reparar telhados) não está na máxima força, uma vez que vários dos elementos são membros das secções de voto.

▲ Mesas de voto em Regueira de Pontes, Leiria

VASCO COELHO/OBSERVADOR

Mas, perante o cenário de destruição, não teria sido melhor adiar também a votação pelo período de uma semana? Ana Felizardo considera que não teria feito diferença, uma vez que, garante, “numa semana as coisas não estarão arranjadas, vai demorar tempo”. No entanto, as opiniões dividem-se. Rui Gomes, funcionário da residência para idosos de Regueira de Pontes, diz-se indignado pela decisão de manter as eleições. “Sinto-me indignado, há pessoas desalojadas aqui. No estado em que estamos, adiar era o mínimo que se podia fazer. Não faz sentido” votar, diz, enquanto entra para o edifício para desligar o gerador de emergência que foi instalado no exterior há vários dias, e que deixou de ser necessário este sábado, depois de a eletricidade ter voltado.

“Já não voto no Seguro. Os socialistas não fazem nada”

No entanto, em localidades mais afastadas do centro da vila, sobra o desespero de quem vive no escuro. “É uma tristeza. Não temos água, não temos luz, temos muito frio, não nos conseguimos aquecer”, conta Maria da Conceição Morgado, com os olhos a encherem-se de lágrimas. “Às quatro da tarde estou na cama”, conta, lamentando não ter tido apoio das autoridades. “Ninguém foi a nossa casa, o telhado foi levado, tivemos de pôr umas telhas velhas. Telefonamos para a E-Redes, pedem para marcar números e ninguém atende”, diz Maria da Conceição, que vê em dois jornalistas a esperança de conseguir que a sua voz se faça ouvir.

“Ponha que é na Rua da Lezíria, na Ponta da Pedra”, pede. À porta do único local de voto da freguesia, está colocado um cartaz a convocar os habitantes para uma vigília que vai decorrer esta segunda-feira às 20 horas. “12 dias sem eletricidade, exigimos resposta”, lê-se na convocatória, dirigida à E-Redes. Este domingo, pelas 8 horas, ainda se encontravam 76 mil clientes sem eletricidade, dos quais 66 mil na zona mais afetada pela depressão Kristin.

Apesar dos constrangimentos, Maria do Conceição e o marido, José Morgado, foram votar. “Não ficava bem com a minha consciência se não viesse”, diz, admitindo que vai mudar o sentido de voto por causa da falta de apoio que sentiu nos últimos dias. “Já não voto no Seguro”, revela, justificando que “os socialistas não fazem nada”. É uma crítica, haveria de explicar a seguir, dirigida à liderança da junta de freguesia de Regueira de Pontes, há vários anos nas mãos do PS.

Na zona de Barreira, um subúrbio semi-urbano da cidade, o local de voto foi também alterado, do Centro Escolar, que não reunia as condições de segurança necessárias, para o Salão Paroquial de Barreira. Tal como em Regueira de Pontes, as urnas estão ladeados por dezenas de quilos de mantimentos, que ainda não foram distribuídos pela população. Também aqui a participação eleitoral estava abaixo da registada na primeira volta das presidenciais. Pelas 15 horas, tinham votado 38,5% dos inscritos, num local que regista habitualmente afluência na casa dos 70%, o que também aconteceu a 18 de janeiro, adianta o presidente de uma das mesas de voto, Pedro Diogo. “Ficaremos bem abaixo disso”, lamenta, sem mostrar surpresa. “Já se esperava. Neste momento, as pessoas não têm uma vida normal, e isso também contribui para que não venham votar. Estão a reparar as casas, a ajudar a família, ainda há muita gente a precisar de ajuda”.

▲ Escola D. Dinis (à esquerda) sofreu danos decorrentes da tempestade Kristin. Mesas de voto foram transferidas para a secundária Rodrigues Lobo (à direita), também em Leiria

VASCO COELHO/OBSERVADOR

Basta uma viagem de 15 minutos de carro, em direção a sul, para o cenário mudar bruscamente. Apesar de ter sido fustigada pela tempestade, na cidade de Leiria reina a normalidade. Há vários dias que existe eletricidade e água, e a internet móvel funciona quase sem falhas. A meio da manhã, é forte a afluência à escola Secundária Rodrigues Lobo, onde estão agora instaladas quase duas dezenas de mesas de voto. Numa qualquer outra eleição, os habitantes da malha urbana da cidade dividiam-se também entre aquela escola e a D.Dinis, do outro lado da estrada. No entanto, este segundo edifício escolar — que se encontrava em obras de requalificação aquando da avassaladora passagem da Kristin — ficou com graves danos, levando o município a transferir todas as mesas para a escola secundária.

Ao contrário das freguesias rurais do concelho, no centro de Leiria, a afluência era semelhante à da primeira volta. “Estamos com 16% de participação, está parecido com a primeira volta, talvez ligeiramente inferior”, diz Ana Lopes, presidente de uma das mesas. Noutra das mesas, a participação rondava os 15%. Apesar de terem sido também bastante afetados pela tempestade, os edifícios residenciais (mais recentes e de melhor construção) resistiram melhor à força do vento. Os estragos existem, mas são em muito menor quantidade. O mesmo não se pode dizer em relação a outro tipo de estruturas.

Joaquim Luís sofreu sérios danos na sua oficina de reparação de automóveis nos arredores da cidade. “Está tudo partido, o telhado voou”, conta, minutos depois de ter cumprido “o dever” de voto. “Se mandasse, [votar] era obrigatório”. Entre elogios à atuação da Câmara Municipal de Leiria, deixa críticas ao “poder central”. “Houve demora das entidades oficiais para ajudar Leiria, é inadmissível”. Ainda assim, conta reerguer a oficina. E, nas próximas eleições, voltar a votar.

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