Índice
Índice
Está nos protestos desde o início. Todos os dias. Sabe o que é ter uma kalashnikov apontada na sua direção, não conseguir respirar (ou ver) com o gás lacrimogéneo. Conhece o peso das pedras, o cheiro dos pneus a arder, o medo da polícia. Paulo (nome fictício) já viu o que preferia nunca guardar na memória. Mas há dois momentos, recentes, que o marcaram: uma morte e uma ameaça. E que refletem bem a situação “gravíssima”, de “quase anarquia”, que Moçambique vive, nas palavras de vários residentes com quem o Observador falou. O cenário é “aterrador, assustador e só vai piorar”, antevê Manuel de Araújo, autarca do partido histórico da Renamo ao Observador, a partir de Quelimane.
Os relatos de violência que se têm vindo a repetir nesta fase de sete dias da contestação, a “4×4”, que começou na quarta-feira, agudizaram-se neste fim de semana (o primeiro em que os protestos não pararam). De um lado há a repressão abusiva policial ou militar, que se fez sentir em Maputo, por exemplo — em 47 dias de revolta, são mais de 100 os mortos, mais de 300 os feridos e mais de 3.500 os detidos, segundo a organização não governamental Plataforma Eleitoral Decide.
“Só em dois dias desta fase tivemos 14 mortes, o mesmo número de toda a fase três”, concretiza Wilker Dias, da Plataforma. O ativista social tem-se desdobrado no apoio aos detidos, tendo na sexta-feira sofrido “um envenenamento” a que resistiu, conta ao Observador. Depois de beber uma água mineral sentiu-se mal, foi ajudado por três jovens e depois hospitalizado. Detetaram “vestígios em quantidade considerável de arsénico, toxina colocada na água pode levar até à morte”, contou mais tarde no X. Um dia depois, no sábado, um colega da Plataforma Decide escapou a uma tentativa de rapto.
Eram 7 vidas, foram 2 fiquei com 5….
Vamos até ao fim ❤️✊???????????? meus irmãos
Obrigado pelo carinho ???????? pic.twitter.com/XCYeu0rsXO— Wilker Dias???????? (@wilkerDias13) December 8, 2024
Do outro lado há casas de figuras locais e sedes do partido no poder, a Frelimo, incendiadas, esquadras da polícia destruídas, edifícios do Estado atacados, estradas e linhas férreas cortadas, empresas invadidas, fronteiras fechadas, alunos a rasgarem exames, população a linchar forças de segurança que mataram manifestantes, ou a libertar reclusos de prisões, entre outros atos de vingança.
Neste sábado, depois de Venâncio Mondlane — candidato presidencial que lidera, a partir do estrangeiro, a contestação nas ruas — anunciar que tinha sido alvo de mais uma tentativa de assassinato, a reação subiu de tom. Numa mensagem na sua página de Facebook, o pastor evangélico escreveu: “Mais uma tentativa falhada de me assassinarem. Caso eu seja abatido… o povo todo deve avançar com máxima força para a fase TURBO V8″.
Em resposta, os apoiantes, além de fecharem a principal fronteira com a África do Sul, em Ressano Garcia, conseguiram levar à paralisação duas centrais termoelétricas na zona, o que obrigou a empresa estatal Eletricidade de Moçambique (EDM) a anunciar restrições no fornecimento de eletricidade nas províncias de Maputo, Gaza e Inhambane.
Em resposta a tentativa de assacinato a VM7, o povo de Ressano Garcia fechou a fronteira e prometeu abrir só na próxima quarta feira ???? pic.twitter.com/RNFr7GQ7Vr
— Rui Naquira (@ruinaquira) December 7, 2024
Bobole e Ressano Garcia continuam Bloqueados
A Estrada Nacional EN1 na zona de Bobole em Marracuene, há 50 quilómetros da capital Maputo, está bloqueada desde a manhã de sábado, no âmbito das manifestações contra a fraude eleitoral. pic.twitter.com/ipxvkWILNR
— Silima Pintovich ???? (@depintovich) December 8, 2024
“O poder caiu na rua”, repetem políticos, ativistas, jornalistas, académicos e moradores, um mês depois da grande marcha sobre Maputo, a 7 de novembro. A ação deveria culminar uma fase de protestos em que o povo assumiria o poder, como dizia então Venâncio Mondlane, o candidato apoiado pelo Podemos (Partido Optimista para o Desenvolvimento de Moçambique).
▲ Voltaram a registar-se confrontos violentos em Maputo, mas os piores relatos chegam de Gaza, Nampula, Pemba
AFP via Getty Images
Porém, abriu um novo ciclo em moldes diferentes, que ninguém sabe como vai terminar e muitos — como um alto quadro da função pública que falou com o Observador sob anonimato —, receiam que acabe num “banho de sangue”.
????????The reports in Chibuto are not at all pleasant, crying, dead and wounded up to this hour.
The hospital only has four nurses and it's a huge inconvenience as more and more wounded people arrive.
I'm asking for more doctors and nurses ????????????#MozambiqueProtests pic.twitter.com/8xvDpFwAZe— Wilker Dias???????? (@wilkerDias13) December 5, 2024
Augusto, de 13 anos, morto a tiro. “Crianças deviam ter alguma normalidade”
O que Paulo (o manifestante diário que fala ao telefone com o Observador) não consegue apagar da memória, é a imagem do corpo de um rapaz de treze anos, no meio de capim, baleado. Augusto Cumbane Júnior apareceu morto na quarta-feira, nos arredores de Maputo, assassinado “não se sabe por quem”, lamenta ao Observador um dos tios.
“Os pais saíram de manhã normalmente, do bairro Mussumbuluco, na Matola, onde vivem, para irem trabalhar, vender os seus produtos no cruzamento da Mozal, [empresa de fundição de alumínio nos arredores de Maputo], e deixaram o filho em casa”, conta. “Por volta das 11h00 apareceu um miúdo a correr: ‘Balearam mortalmente o seu filho na ponte’”. Foi a um quilómetro, mais ou menos, do local onde os pais vendiam.
Segundo o tio, testemunhas contaram que um grupo de crianças estava “na via pública, mas não a manifestar-se”, quando “chegou um homem num carro civil, que desceu e tirou uma arma. Quando a viram as crianças começaram a fugir”. Augusto também correu, “mas o homem foi atrás dele e disparou, já no começo do mangal”, descreve o tio, na véspera do funeral do “aluno da 7ª. classe”, este sábado. Há câmaras de vigilância no local, pertencentes à fundição Mozal, mas a família ainda não teve acesso às imagens.
“É uma criança”, lamenta Lisa Alberts, moçambicana de ascendência sueca que tem tentado apoiar vítimas da violência policial. “No meio deste caos, as crianças deviam ter algumas condições para ter alguma normalidade”, implora Lisa Alberts.
Venâncio Mondlane pediu para as crianças ficarem em casa mas elas estão nas ruas, também. Algumas até rasgam exames nacionais, saem das aulas e gritam para os polícias “me mata, me mata” em solidariedade com os professores em greve. Ou descobrem o que é o gás lacrimogéneo quando a escola “é invadida e atacada com esse gás, como sucedeu numa escola secundária em Cumbana (Inhambane) na quarta-feira”, continua Paulo.
????????Tear gas inside the Cumbana Secondary School in Inhambane
????????????#MozambiqueProtests pic.twitter.com/J9I91bBwxy— Wilker Dias???????? (@wilkerDias13) December 4, 2024
Violência na alma mater da Frelimo, gás lacrimogéneo no hospital e casas incendiadas
Augusto não foi o único jovem a morrer nos últimos dias. Em Chibuto, na província de Gaza (onde a Frelimo diz que ganhou com 100%), e que foi um dos locais com mais protestos e violência desde quarta-feira, tal como Chokwe, o outro centro urbano de Gaza, morreu outro menor, noticiou na sua página no Facebook, Wilker Dias, da Decide.
Chibuto como nunca antes visto
A (PRM) assassinou um jovem nas manifestações que subiram de tom em Chibuto, na província de Gaza.Hoje foi o funeral do jovem. Antes de partir para o cemitério a população foi fazer uma passeata na esquadra com defunto. pic.twitter.com/uOFmnA4mFg
— O facilitador (@DuduDudufelex) December 7, 2024
A outra cena (na verdade são duas) que Paulo, moçambicano pertencente à minoria branca do país, não esquece é a de residentes de armas na mão a apontar aos manifestantes. Aconteceu nesta quinta-feira, num cruzamento no centro da cidade, o da Avenida 24 de Julho com a Salvador Allende: “Durante um cordão para cantar o hino, um carro forçou a passagem apontando-nos uma arma, aparentemente seria o dono de uma loja num dos malls da cidade”. Num outro dia, “um outro cidadão chinês na baixa de Maputo foi neutralizado pela população e entregue à polícia quando também puxou de uma arma”.
Muitos começam a zangar-se com as barricadas que impedem a circulação, com as “portagens ilegais” que cobram para os deixarem passar, com a venda de crachás com a cara de Venâncio ou o símbolo do Podemos que funcionam como livre-trânsito.
▲ Depois das panelas o protesto evoluiu para os apitos e vuvuzelas, a polícia deteve mesmo vendedores de apito. Problema: a venda de crachás de Venâncio como livre-trânsito para passar barricadas
LUÍSA NHANTUMBO/LUSA
“A situação é gravíssima. O poder literalmente caiu na rua em algumas regiões do país, incluindo na capital”, admite ao Observador Manuel de Araújo, o autarca de Quelimane que tem mantido a cidade num quase oásis no meio do caos. O experiente político da Renamo (é presidente da câmara há 14 anos e desde 1994 que disputa eleições, tendo sido deputado), destaca “um caso atípico, Chibuto, em Gaza, a alma mater da Frelimo”.
Ouça aqui a entrevista de Manuel de Araújo, autarca de Quelimane eleito pela Renamo.
A sede do município de Chibuto, a casa do autarca (que teve de fugir) e a de um polícia que terá matado uma pessoa, bem como o clube Pamodzi, que será da família do ex-Presidente Joaquim Chissano, foram incendiados. A prisão foi assaltada e terão sido libertados 80 presos, os revoltosos também pegaram fogo a uma discoteca, supostamente pertencente a um membro da Frelimo e um complexo turístico propriedade de chineses foi vandalizado face a rumores de serem sócios de Filipe Nyusi, assim como um supermercado, também de chineses, foi atacado e saqueado devido a uma suposta ligação com o presidente da câmara de Chibuto.
Os membros do governo distrital fugiram, enquanto a governadora provincial dormiu no hospital de XaiXai para escapar à fúria popular que atingiu o bastião da Frelimo nos últimos dias.
A tensão em Chibuto foi de tal ordem que a polícia chegou a lançar gás lacrimogéneo dentro do hospital, havendo relatos de que terá perseguido manifestantes dentro das instalações hospitalares, confirma ao Observador Wilker Dias.
É “uma crise generalizada em todo o país”, continua Manuel de Araújo, antes de enumerar vários exemplos: “Aqui na Zambézia tivemos um tribunal incendiado; a sede do partido Frelimo em Morrumbala teve igual destino (o mercado também), e na sede do partido de Alto Molócue a bandeira do Podemos foi içada”. Mais: “A fronteira de Milange [com o Malawi] esteve encerrada dois ou três dias e a polícia anda aos tiros na rua, e a estrada nacional número 1 foi cortada”.
See with your own eyes. Security forces' vehicles are blocked by protesters who literally closed (since yesterday 8am) the main national road N1 that allows entry to the country's capital, Maputo city????
No one enters or leaves the capital via the N1 or N4-Ressano Garcia Border,… pic.twitter.com/Xtezmzwnjp
— Cídia Chissungo (@Cidiachissungo) December 8, 2024
A lista dos distúrbios vai crescendo e atinge mesmo um símbolo nacional: na capital de Cabo Delgado, “em Pemba, a estátua de Alberto Chipande, o homem que supostamente deu o primeiro tiro na luta da libertação de Moçambique de Portugal, em 1964, foi derrubada”, adianta Manuel de Araújo. Depois foi arrastada pelas ruas e atacada com paus e pedras. Chipande, o primeiro ministro da Defesa de Moçambique independente, tem hoje 85 anos e é membro da comissão política da Frelimo.
This is the statue of Alberto Chipande, the man who is said to fired the gunshot that started the colonial liberation war in Mozambique. Protestors in Pemba brought it down. This is the new generation of Mozambicans. They don’t care about what Frelimo did in the past – they were… pic.twitter.com/QCTE2tD8I4
— Zenaida Machado (@zenaidamz) December 6, 2024
A cena da estátua do Chipande em Cabo Delgado foi mesmo terrível. pic.twitter.com/J7wg1kIX3k
— Aly Caetano (@Aly_Caetano) December 6, 2024
A linha férrea bloqueada e a avioneta obrigada a decolar
O setor económico não tem escapado à zanga dos manifestantes. “A linha férrea que transporta o carvão e os minerais de Moatize, em Tete, para Nacala esteve bloqueada, algumas linhas aéreas pararam voos, dezenas de pessoas dormem no aeroporto de Maputo à espera de viagem, em Moma, a multinacional Kenmar foi invadida pela população, uma avioneta que estava a aterrar quando viu as pessoas a correr para ela teve de decolar… Estes são só micro-exemplos”, elenca Manuel de Araújo.
Em topito na Kenmare saga continua está manhã a população invadiu estaleiro duma subcontratada e levaram os carros com destino a Moma com intenção de atacar casa do secretário da FRELIMO pic.twitter.com/NXDWt2X2lu
— Dick Son*???? (@FilhodeDick) December 7, 2024
“Uma boa parte do país está paralisado, as instituições públicas não estão a funcionar, os exames não decorreram em 20 a 50 escolas secundárias, os professores contratados à última hora para fazer os exames tiveram que entrar saltando o muro porque não os deixavam entrar”. Em alguns locais “a polícia tentou impor a ordem e os alunos saíram com os exames na mão solidarizando-se com os professores que não recebem os seus salários tal como os médicos, as forças de segurança, exército, polícia. O Estado está a dever a todos [4 a 5 meses de salários] e quando se deve a todos perde-se o respeito e a autoridade”.
Esse é um ponto chave para Manuel de Araújo. O candidato a governador da Zambézia, que também diz que as eleições de 9 de outubro foram fraudulentas, reivindicando a sua vitótia na província, responsabiliza o Estado, “impotente para garantir a ordem e segurança públicas”.
Recorda que há cinco dias, na véspera do início da “4×4”, o ministro da Administração Interna garantiu que as manifestações iriam ser travadas e três horas depois um representante da Polícia da República de Moçambique (PRM) “disse às pessoas que podiam ir à escola, trabalhar, sair para a rua porque iam garantir a ordem e segurança”. Porém, no dia seguinte, “queimaram um autocarro, assaltaram bens públicos e privados. E onde estava esse ministro? Uma autoridade faz uma promessa, não cumpre, e depois desaparece da circulação. Pessoas morreram porque acreditaram nele. Quem vai assumir as consequências? É como se fosse um circo”, acusa.
▲ "Os 'moluenes' são jovens que vivem na rua, vivem no desenrasca da sobrevivência diária, miúdos que estão habituados a ter fome, a viver no lixo, a não ter saúde", diz João Feijó
DR/página de Facebook de Venâncio Mondlane
“Ainda vamos assistir a uma reedição do massacre do Soweto”
A revolta desta massa popular não abrandou desde 21 de outubro, pelo contrário. “Temos vindo a assistir a uma escalada contínua deste levantamento e agora vemos situações em que a polícia tem que obedecer aos manifestantes”, refere ao Observador o investigador moçambicano João Feijó, a partir de Maputo. São “polícias que em muitos locais têm consciência de que não são quatro ou cinco agentes mal armados, sem balas suficientes para aquela gente toda, que vão resolver o assunto e acabam por obedecer aos manifestantes quer por incapacidade de os confrontar, quer por medo, quer porque eles mesmos estão desmotivados com a situação”.
O sociólogo com um doutoramento em assuntos africanos lembra que também os polícias “têm maus salários, más condições de trabalho, estão descontentes com o tipo de governação e sentem que são atirados para enfrentar uma multidão furiosa de uma forma inglória numa luta em que eles não acreditam“. Sabem bem “que a população não quer a Frelimo, a Frelimo não percebe que a população não os quer, ou então não o assume”.
A vontade de mostrar o desagrado com o partido é de tal ordem que na Ilha de Moçambique, quando foram proibidas as manifestações nas ruas, as pessoas foram para o barcos e gritaram e apitaram do mar e da praia.
‼️Protesto nas Águas: O Mar como Palco de Luta pela Liberdade na Ilha de Moçambique
O Ato reflete a criatividade e a resiliência das comunidades na ilha de Moçambique em se manifestarem diante de restrições impostas pelo Governo. Optar pelo mar como espaço de protesto não… pic.twitter.com/3t3HhJaRBn
— Janu!! (@janiario2) December 6, 2024
Atingiu-se assim “uma situação de caos, ninguém obedece à polícia, o ministro ainda pensa que manda, vem fazer discursos ameaçadores, dizer que não pode haver manifestações e a resposta é uma chacota, é uma desautorização total do governo”, frisa Feijó.
“Chega ao ponto de as crianças em muitas escolas se recusarem a fazer os exames nacionais, rasgam os exames e depois vão marchar nas ruas inclusivamente para a sede do partido Frelimo, em Maputo, Xai-Xai, Chibuto, em Gaza, província onde a Frelimo ganhou com números norte-coreanos e onde agora as crianças vão para a rua e a polícia dispara”, denuncia.
É verdade que “dispara para o ar, mas estamos a chegar a um ponto da reedição do massacre de Soweto [em 1976, na África do Sul, quando as forças especiais atiraram contra estudantes matando entre 90 a mais de 100 jovens]. Vai ser um escândalo porque vai haver imagens, espero que não, mas tudo indica que vamos acabar aí”, teme o especialista.
Chibuto, Gaza.
Isso só acontece em Maputo, pois não? Segundo consta, a média está proíbida de noticiar o que acontece naquela província. Mas há redes sociais para o mundo ver.#MozambiqueElections #MozambiqueProtests#TeachersStrike#NoPayNoExams pic.twitter.com/qslxcvEAkc— Bayano Valy ???????? (@BayanoValy) December 4, 2024
“Depois a população assalta as esquadras da polícia, rouba os jeeps e passeia-se pela cidade, usa os carros da polícia para ir fazer a recolha do lixo”, inexistente porque os carros do lixo têm medo de circular. Isto mostra também que, “no meio deste caos, desta anarquia, há mecanismos informais de organização muito débeis”, frisa João Feijó.
O responsável pelo Observatório do Meio Rural relata ainda como “a população manda parar os carros dos ministérios, os chamados machibombos, carrinhas que transportam os funcionários públicos, para levar as pessoas alegando que se os carros são do Estado, então são para servir o povo.”
“Nova estratégia de protesto torna o país caótico”
Sem dúvidas de que “o poder está a cair na rua”, Feijó vai atrás para perceber quando é que “a revolução, digamos assim”, começou a ganhar esta dimensão. Aponta três marcos importantes deste processo.
O primeiro deu-se em 2023. “Foi o ano da escandalosa fraude eleitoral nas municipais em que Venâncio Mondlane ganha claramente o município do Maputo e a Renamo ganha na Matola e em outras cidades do país. Houve inclusivamente tribunais eleitorais que mandaram repetir eleições, cancelaram os resultados, mas depois o Conselho Constitucional invalidou essas decisões dos tribunais de primeira instância”.
O segundo é já nesta crise. O assassinato de Elvino Dias, advogado e figura-chave da campanha de Venâncio Mondlane tal como o de Paulo Guambe, mandatário do Podemos. “Esta crise agrava-se aqui, precipita uma parte da população para as ruas, por todas as circunstâncias. Até hoje não está esclarecido esse crime, foi cometido com armas automáticas, quem as tem são as forças de defesa e segurança, mas com toda a panóplia de câmaras que existem naquela zona ninguém é capaz de identificar quem foram os criminosos; não se vai investigar esse assunto”, considera João Feijó.
Maputo viveu cenário de guerra mas não sabe o que vai ser o dia seguinte
O terceiro momento surge no dia em que “Venâncio convoca uma manifestação no Kalunga, onde o Elvino foi assassinado e a polícia responde com gás lacrimogéneo contra ele e os jornalistas. Esse é ponto sem retorno”, afirma o investigador. “A partir daí assiste-se a uma escalada contínua de violência que procurou atingir o clímax a 7 de novembro com a marcha sobre Maputo mas que acabou por esbarrar no centro da cidade”.
Dá-se então uma mudança em que “Venâncio, consciente de que é impossível concentrar a população num só ponto, percebe que a única estratégia é descentralizar o protesto e cada bairro tem que se organizar e fazer a contestação por si, sabendo que é impossível a polícia estar em todos os locais”, acrescenta o sociólogo.
É esta estratégia de protesto “que torna o país caótico, porque a população em praticamente todos os bairros da cidade desce à rua e começa a fazer bloqueios nas estradas e a polícia entra em confronto com a população”. João Feijó deixa bem claro que “quem inicia é a polícia: primeiro dispara e depois é que as pessoas respondem com pedras, e depois, quando há feridos mortais, leva-os a vingar-se destruindo sedes da polícia e sedes do partido Frelimo, vandalizando-as por completo”.
O ativista Wilker Dias vai no mesmo sentido. “Toda a ação tem a sua reação”, começa por dizer ao Observador o coordenador da Plataforma Eleitoral Decide, que agrega várias organizações não governamentais. “População não está a atacar sem nenhuma razão, é quando a polícia ataca que a população se zanga e vai queimar sedes, arremessa pedras, etc. Já vi nas manifestações os polícias a passarem normalmente e ninguém fazia nada”.
Differently from phase 1-3, this time pans and pots were replaced by whistles and vuvuzelas for noise strike ????
Xipamanine Market, Maputo????#FreeMozambique #MozambiqueElections pic.twitter.com/gWOTS90JG2
— Cídia Chissungo (@Cidiachissungo) December 6, 2024
Wilker Dias passa os dias no terreno, a tentar defender os detidos ilegalmente e repete as explicações que ouve: “Depois de mais de um mês a tentarem marchar pacificamente e a sentirem a resposta não adequada da polícia, vendo familiares e amigos a serem mortos, baleados, as pessoas começam a vingar-se“.
▲ Disparar balas contra os manifestantess e dizer que são vândalos ou marginais "é regar o fogo com gasolina", avisa João Feijó
AFP via Getty Images
Isto por um lado. Mas não há só causas políticas neste levantamento popular. Com elas cruzam-se as sociais. O desemprego, a pobreza, a falta de cuidados de saúde, de educação, de justiça, só para citar alguns.
Wilker Dias dá o exemplo do que aconteceu, esta semana, em Nampula. Uma multinacional, a mineradora Kenmare, foi invadida pelos habitantes da região que ocuparam instalações, apreenderam autocarros e camiões. Ainda conseguiram fazer um acordo com a empresa que nunca desenvolveu o distrito apesar da sua atividade largamente lucrativa e que é acusada de usurpar terras da comunidade. Em Moatize, Tete, “há décadas que a população se queixa da poluição das minas de carvão e ninguém faz nada, agora as pessoas manifestam-se”.
Residents in Topuito trying to stop and burn an aircraft, in Nampula ????
According to @Canal_Moz local population always wanted to protest against the multinational Kenmare, exploiting heavy sands.I never thought I could see what’s happening in Mozambique right now. It’s a total… pic.twitter.com/v1cHXI6X7n
— Cídia Chissungo (@Cidiachissungo) December 5, 2024
Por isso, é “uma revolta contra todo o processo governativo”, conclui Wilker Dias, em linha com o pensamento de Manuel de Araújo: “São várias crises que se juntam à crise eleitoral”.
“Continuarem a viver neste sofrimento é rotina diária, não é sofrimento”
São crises explosivas e de “longo curso”, avisa João Feijó. É verdade que “há algum desalento em certa classe média, que vinha apoiando o Venâncio e que estavam envolvidas nesta revolução”. Quando regressam a casa, porque moram nas periferias, “enfrentam barricadas e têm de pagar portagens informais ilícitas, aumentando os custos, ficando em risco os próprios carros. Os pequenos empresários do setor formal, limitados na sua mobilidade sentem-se afetados, queixam-se que querem viajar e não podem apanhar o avião pois não conseguem chegar ao aeroporto, têm problemas de saúde e não conseguem chegar à clínica privada (porque a classe média não vai aos hospitais públicos) “.
Maputo, Mozambique streets unstable post election results pic.twitter.com/yJwKgJSybX
— IamLegend ???????? (@DarkSideAdvcate) December 8, 2024
E então começam a alegar os “direitos constitucionais de circulação esquecendo que as pessoas que se estão a manifestar não têm qualquer direito de cidadania, nem saúde nem educação” realça João Feijó.
Estes descontentes “são pessoas que acedem à saúde e educação privada e estão a criticar aqueles que não têm nada a perder, estes ‘moluenes’, jovens que vivem na rua, vivem no desenrasca da sobrevivência diária, miúdos que estão habituados a ter fome, a viver no lixo, a não ter saúde, a não ir sequer ao hospital — porque estar doente é um luxo, não se pode, ou se tem dinheiro para ir ao privado ou se vai ao público e aí fica-se horas para ser atendido, paga-se para ser atendido, se for atendido é-se despachado, não há medicamentos… problema da saúde em Moçambique é crónico e muito grave”. Então, “estes miúdos não têm nada, não têm alimentação, não têm nada a perder”.
Por isso “estão preparados para uma manifestação de longa duração porque eles vivem no limiar de sobrevivência há várias gerações. Há muito que estão habituados a viver em condições indignas, logo, para eles, continuarem a viver neste sofrimento é rotina diária, não é sofrimento, é uma catarse, uma forma de se poderem manifestar”, explica João Feijó antes de deixar um alerta.
“Muito cuidado com esta população, lutar contra massas que não têm nada a perder é uma luta inglória, uma atitude imbecil e suicida“. Pior ainda “é disparar balas contra estes indivíduos, quando para eles a vida não vale nada, eles não vivem, estão vivos mas aquilo não é vida, para eles a diferença entre estar vivo ou estar morto não é assim tão significativa, não têm nada a perder”. Assim, adverte o sociólogo, “lutar contra eles e ainda por cima disparar balas, enervá-los ainda mais, acusá-los de vandalismo, de marginalidade, é regar o fogo com gasolina, é uma falta de sensibilidade política que é assustadora e que tem um preço muito caro. A Frelimo está literalmente a destruir o país com esta forma de governação”.
Wilker Dias não está preocupado com a classe média. “É a que tem trabalho formal, tem salário, consegue alimentar-se e etc, mas não é maioria que vai à rua. Pode estar incomodada mas não incomoda. Tenho trabalhado com os detidos e visto quem são as pessoas presas: estudantes, licenciados desempregados e desempregados, comerciantes de pequeno porte, trabalhadores insatisfeitos, ‘mamãs’ dos mercados (este é o grupo que deveria mais reclamar que estas manifestações estão a afetar o negócio delas e não o fazem). E este grupo vai aguentar”.
Para o líder da Plataforma Eleitoral Decide, “a Frelimo está a tentar vencer as pessoas pelo cansaço, mas isso não está a resultar”.
O poder está com os manifestantes, assegura: “Vi carros pessoais de comandantes, altas patentes da própria polícia e da Unidade de Intervenção Rápida que já andam com cartazes a dizer ‘povo no poder’. Têm medo. As pessoas na rua não querem saber, mesmo sendo carros pessoais, vão agredir com tudo sabendo que é a polícia. O poder está mesmo nas ruas”, diz Wilker Dias.
E isso pode ser “perigoso quando não há uma voz de comando. Tenho receio que depois do anúncio do Conselho Constitucional se crie uma espécie de anarquia instalada. Se agora parece que está a fugir ao controlo em alguns pontos, então depois isto poderá virar um autêntico caos de forma automática”, receia Wilker Dias.
“Eles estão dispostos a morrer por Venâncio”
Ora aqui está uma data decisiva: dia 23, quando se prevê que o Conselho Constitucional (CC) anuncie a sua decisão. “E depois ainda vai ser pior do que agora”, prevê Wilker Dias. “Ao que tudo indica, o CC está a preparar-se para não anular as eleições e manter a vitória da Frelimo”, acrescenta João Feijó, lembrando que “houve um parecer da Procuradoria-Geral da República no sentido da anulação, o documento tornou-se público e ato seguinte o Presidente Nyusi demitiu a procuradora-geral”.
O investigador frisa que “ninguém acredita que vão anular as eleições“. O Conselho Constitucional “abriu as portas aos jornalistas, a TVM [televisão estatal de Moçambique, orgão oficioso da Frelimo] já deu a notícia que os 300 quilos de editais que foram entregues pelo Podemos são uma simples duplicação das atas que já existem por isso não vão ser considerados”, critica João Feijó.
“Ninguém tem dúvidas de que vão dar a vitória à Frelimo, provavelmente vão reduzir um pouco a percentagem do partido de forma a dar mais deputados ao Podemos, para tomarem posse, e depois se sentirem mais acomodados financeiramente”, acrescenta.
Mas “não são os deputados que se estão a manifestar na rua, é o povo, e esse já demonstrou que se quiser paralisa o país e tem uma obediência canina em relação ao que diz Venâncio“, salienta o investigador. O pastor evangélico “tem uma grande capacidade de mobilização do povo, tem um carisma que já não via desde o Presidente Samora [Machel]. Eles estão dispostos a morrer por ele”.
▲ Os jovens não dão sinais de abrandar o seu protesto, e acatam fielmente, por vezes extravasando, as ordens do seu ídolo, Venâncio Mondlane
LUISA NHANTUMBO/LUSA
A nível nacional, “o macua do Norte, o macua muçulmano do litoral de Nampula está disposto a morrer por um evangélico cristão machangana do sul de Moçambique, e isto mostra que esta revolta não é uma questão étnica, o que está aqui em causa é uma questão de classe”.
Venâncio Mondlane “tem um discurso dirigido às condições objetivas da existência das pessoas, ao sofrimento diário das populações. Surge como um Messias e ele mesmo encarnou que tem uma missão de orientar e salvar o seu povo. Acha que tem uma revelação e quando juntamos fé e política temos uma mistura muito forte. Não tenho dúvidas de que este processo é muito irreversível”, diz Feijó.
O palito de fósforo que vai acender o barril de pólvora antes do Natal
“A situação vai piorar antes de melhorar”, acredita Manuel de Araújo. “Estamos todos à espera do palito de fósforo do CC que vai acender o barril de pólvora”. Vai haver um “novo climax de violência, mesmo tendo a decisão sido adiada para 23 de dezembro”, concorda João Feijó.
Venâncio Mondlane já disse que “este ano não há Natal, nem Ano Novo”, lembra Wilker Dias. Uma decisão que surpreendeu Manuel de Araújo: “Nem na guerra civil tivemos uma situação de ‘cancelamento” do Natal. O Venâncio é cristão e é pastor; um pastor cancelar a celebração do Menino Jesus parece um contrasenso. Por outro lado, acabar com as festividades do fim de ano afasta a classe artística e classe média, que já tinham os contratos para os espetáculos e vivem disso”.
Foram duas medidas “que podem afetar algumas classes, mas como Venâncio diz, todos temos de nos sacrificar para conseguir um bem maior, a longo prazo. Vamos ver qual será a reação da igreja católica e do Vaticano e das outras igrejas”, questiona.
João Feijó não crê que a época natalícia esfrie o protesto. “Não sei se isto acalma com as festas. A população não vai esquecer, isto foi um momento muito forte, de catarse, de comunhão coletiva, de criação de uma identidade muito forte anti-Frelimo”, defende. “Esta revolta popular muito intensa vai provocar feridas muito fundas, a Frelimo vai ter muita dificuldade em inverter isto, até porque dentro do partido há uma mediocridade de ideias assustadora e não percebem, ou percebem, mas não têm a coragem política de mexer nos quatro ou cinco aspetos para melhorarem a vida das pessoas”.
População invade sede local da Frelimo e encontra centenas de cartões de eleitores
Sim, admite Feijó, será um “Natal violento”. Mas “a história de Moçambique é a história da violência do Estado contra a população. Então o Natal será mais um dia de violência. Imagino que as pessoas vão celebrar o Natal nas ruas, que vão grelhar a galinha nas artérias principais de Maputo, da Beira, na avenida de Moçambique, portanto esses grandes corredores económicos vão ser novamente ocupados”.
Um quadro para o qual o governo, “que tem perdido legitimidade e que se tem demitido”, está a “empurrar o país” atira Manuel de Araújo. “Não se ouve ministro algum, até parece que esta situação interessa ao próprio governo, uma estratégia de deixar o poder na rua para depois instaurar um estado de emergência que suspende as liberdades fundamentais e permite a continuação do Presidente no poder”, analisa o autarca de Quelimane. “Esse é um dos grandes sonhos de Nyusi, porque vai impedir que os tribunais internacionais, o de Londres e o dos Estados Unidos o possam julgar pelo seu envolvimento no processo das dívidas ocultas”.
“Vai haver uma reedição do Abril de 74 em dezembro ou janeiro”
Seja como for, “esta situação tem que ter um fim”, pede Zito Ossumane, que também adivinha “violência extrema” depois do 23 de dezembro. “Mais dois, três meses nisto são insustentáveis, os negócios vão todos à falência”, diz o empresário da comunicação social. Aponta para a realidade de dependência externa de Moçambique. “A Zambézia, por exemplo, é do tamanho de Portugal, mas o pais depende da África do Sul para receber tomate, frutas, e até a carne de vaca ou de frango é importada. Com o fecho das fronteiras, esses produtos não vão chegar”.
O ativista e jornalista apela ao sentido de Estado de Frelimo e Venâncio Mondlane, para encontrarem uma solução, “tem de haver cedências dos dois lados”, acentua. Defende que chegou o momento de o candidato do Podemos fazer “um esforço titânico” para sair desta situação, criando equipas jurídicas, de comunicação, diplomáticas e políticas para encontrar uma solução”. E ponto não dispiciendo, “dar garantias às multinacionais que estão no país que aí poderão continuar a trabalhar, mediante acerto de condições mais justas”.
▲ Nem todos os bloqueios são violentos, há pessoas que dançam, comem e jogam às cartas nas barreiras que erguem nas principais vias
ESTEVÃO CHAVISSO/LUSA
Já João Feijó deposita as esperanças noutro setor. “Está tudo nas mãos dos militares. Os subalternos e os capitães e tenentes, que comandam as missões, estão do lado de Venâncio. O problema da partidarização está ao nível superior, a maior parte dos oficiais são da Frelimo, mas há muitos descontentes, há grande divisão”.
O investigador está convencido de que vai haver “uma reedição do Abril de 74” em dezembro ou janeiro. “Os militares, conscientes de que o Estado está em crise, que as instituições não funcionam, podem sair à rua, ocupar um conjunto de repartições e depois entregar o poder a alguém que tem que aparecer, ou de uma vertente mais radical do partido [Frelimo], ou mais moderado, ou então à oposição, ou podem constituir um governo de transição de unidade nacional”.
Há ainda outros atores a ter em conta, as embaixadas. “Poderão nos bastidores estar a fazer qualquer coisa, porque estão claramente preocupadas com os investimentos internacionais nestes corredores económicos e não lhes interessa nada que o poder caia na rua”, sustenta.
Quanto aos atores políticos e jurídicos, Feijó já perdeu a esperança. O CC não vai anular as eleições e a tentativa do Presidente Filipe Nyusi de organizar o diálogo com os adversários políticos foi “um teatrinho cínico que não convenceu ninguém, essa hipótese está falhada”.
▲ "A intenção da Frelimo é cansar os jovens", diz Wilker Dias, mas "não está a resultar"
LUÍSA NHANTUMBO/LUSA
Zito Ossumane também não tem ilusões. “O governo está a fazer um jogo que não é muito elegante. Chama pessoas interessadas no processo para encontrar medidas paliativas. Encontrou outro tipo de agenda, as questões sociais, falando com outros interlocutores da sociedade, como os académicos, quando a verdadeira questão é a reposição da verdade eleitoral”, critica o jornalista.
Partos com lanternas e turmas de 200 alunos em região de rubis
A promessa de que “querem melhorar a vida das pessoas é vaga, demagógica, populista e enganadora”, garante João Feijó. Explica porquê: “Para reconstruir o estado social têm de ter financiamento e para isso têm de mexer em minas, em terras, em isenções fiscais, nos contratos abusivos com o Estado que só estão a expropriá-lo, têm de descentralizar e isso não querem fazer”.
A razão é simples, para o sociólogo: “A estratégia deles é conquistar o poder central e através da conquista do poder central aceder a todos os recursos do Estado: minas, terras, negócios com o Estado, empregos, subsídios, licenças de exploração pesqueira, florestal, mineira, etc., que adquirem a título simbólico de 50 meticais por hectare e depois colocam no mercado a preços de mercado em aliança com o capital estrangeiro. Entram com a proteção política e fiscal e a seguir entram com UIR (Unidade de Intervenção Rápida) para bater na população quando é preciso expropriá-la. Este é o modo de trabalharem e não estão interessados em prescindir dos seus privilégios. Têm a ideia ingénua de que é possível continuar a governar desta maneira”.
Não é, assegura João Feijó. “A população já percebeu que o país é rico em recursos naturais e não beneficia a população”. Dá o exemplo de uma zona que visita regularmente em trabalho, Montepuez, onde se produzem rubis que “batem os recordes mundiais de produção, e que chegam a ser vendidos por 30 milhões de dólares”. No entanto, “nas unidades sanitárias à volta dessas empresas de extração de rubis não há energia, os partos são feitos com as lanternas dos telemóveis, crianças não se sentam em carteiras mas no chão, em turmas de 200 alunos”.
O sociólogo lembra que o centro e norte do país são zonas rica em recursos minerais, carvão, ouro, cobre, areias pesadas, graffiti, pedras preciosas, gás, plantações florestais, etc., “mas isto não beneficia a população”. A política é extrair e exportar, “é uma economia extrativa e extrovertida sem nenhuma relação com o tecido económico local, gera poucos empregos, tem exagerados benefícios fiscais e as pessoas veem as seus recursos a sair para o exterior, como a madeira exportada para a China ilegalmente. Não é para consumo interno não é para promover a indústria transformadora do país, são exportação de matérias primas. É aquele projeto colonial de transformar Moçambique num corredor energético para exportação e estabilização dos preços nos mercados globais”.
Para mudar o país, é “preciso mexer nestas coisas e não há coragem para isso”, lamenta. “Há um grupo de oligopólios, formados em torno das várias famílias presidenciais, Guebuza, Nyusi, Chissano e até Machel, que têm acesso a essas riquezas. São clãs que estão à volta dessas famílias e que são os grandes oligarcas deste país; 200 a 300 pessoas que controlam os recursos, que incluem indivíduos próximos da comissão política da Frelimo ou do comité central do partido”, denuncia.
“O partido Frelimo não é um partido, é um esquema para fazer negócios através da expropriação do Estado à custa da população que nada ou pouco beneficia com isto”, realça João Feijó.
▲ Barricadas e pneus a arder voltaram este semana a ser parte da paisagem das ruas de Maputo
LUÍSA NHANTUMBO/LUSA
Por isso não vê a solução no status quo. “O que estou a ver é um fenómeno de desobediência massiva em relação ao Estado, ninguém quer a Frelimo e não sei como vai ser possível governar com este nível de descontentamento”.
Aliás, pergunta como vai ser a tomada de posse de Daniel Chapo, o candidato da Frelimo que a Comissão Nacional de Eleições diz que venceu com mais de 70% dos votos. “Vão fazer um cinturão de segurança no raio de 500 metros e ninguém passa? Ou vão tomar posse à pedrada?”
“A desagregação de Moçambique”
O cenário de uma guerra civil ou do fim de Moçambique como nação tem sido colocado em cima da mesa por alguns analistas como o filósofo Severino Ngoenha, em declarações ao jornal País, por exemplo, ou Manuel de Araújo.
“Claro que pode levar a uma guerra civil. Com o estado de emergência as liberdades fundamentais ficam suspensas, a democracia fica suspensa, estamos literalmente numa guerra das instituições contra o povo e povo não vai aceitar isso de mão beijada”.
O autarca da Renamo antecipa “uma possível insurreição, aliás já há guerra em Cabo Delgado, algumas pessoas vão ponderar se não faz sentido juntar-se aos insurgentes, sobretudo na zona costeira mais islamizada como Angoche, Nacala, Ilha de Moçambique, Palma e Quionga, por exemplo”. Recorda que esta última só passou para o domínio português depois da Primeira Guerra Mundial para apontar “sensibilidades que é preciso ter em conta e isto pode levar à desagregação de Moçambique como o conhecemos. Este mapa que nós temos tem fronteiras bastante ténues, e podemos correr o risco de o ver a sofrer mutações”, alerta.
▲ Depois da fase "4x4" dos protestos, que implicou paralisação de carros das 8h às 16h00 e cantar o hino nacional em horas definidas, virá a V8, que ainda é uma "incógnita"
AFP via Getty Images
Podem ser várias insurreição em vários pontos do país “com interesses dispersos que se vão aproveitar da fraqueza do Estado de Direito“, diz Manuel de Araújo. “Uma das premissas de qualquer Estado é a existência de um monopólio no exercício da violência e agora isso não existe: a violência está na rua e qualquer um augura-se ao direito de exercer e fazer justiça pela próprias mãos”.
Para já, Manuel de Araújo começou a repetir uma das fórmulas que usou em 2023 e que obrigou o Conselho Constitucional a entregar-lhe o município de Quelimane depois de a Comissão Nacional de Eleições ter dito que tinha sido derrotado. Entre três a cinco mil pessoas marcharam pacificamente durante 44 dias ininterruptos contra os resultados eleitorais (é verdade que também desenvolveu uma ofensiva diplomática, visitando dez países em 15 dias, incluindo os EUA, a informar do que se passava, e uma guerra jurídica nos tribunais). “E não batemos em ninguém, não incendiámos nada”.
A julgar pelos vídeos que enviou ao Observador, a marcha deste sábado foi um momento de alegria (e de fuga de alguns apoiantes da Frelimo que tinham também decidido manifestar-se). Uma mole humana caminhava, dançando ao ritmo das colunas de som ou de um músico que cantava em cima de uma carrinha. Um contraste intenso com as imagens que chegavam de Maputo, Pemba, Nampula, uma vez mais com confrontos violentos entre as forças de segurança e a população.
Frelimo desiste de marchar e é encurralada pelos manifestantes em Quelimane
Informação completa no Jornal Txopela e na Rádio Chuabo FM
Imagens aéreas captadas por drone há momentos no Benfica em Quelimane. pic.twitter.com/87gsnLYqJN
— Zito do Rosário Ossumane (@zito_ossumane) December 7, 2024
O Observador enviou várias perguntas ao governo moçambicano durante vários dias, bem como tentou entrar em contacto com a Frelimo, mas em vão.
Texto atualizado às 6h56 com a correção do número de mortes no massacre do Soweto