Pedro Nuno Santos tentou manter o sigilo da informação, mas durou pouco. A escolha de Alexandra Leitão começou por circular num pequeno grupo de confiança, mas voltou a ser revelada — tal como já tinha acontecido com o candidato ao Porto — à revelia do líder. E deixou o partido surpreendido com a forma e a candidata, tendo em conta que nas estruturas locais o nome que estava a ser mais falado e preparado era o de Mariana Vieira da Silva. O nome não galvanizou as estruturas — onde ainda se recordam as críticas de Leitão a Ricardo Leão — e levanta dúvidas sobre a desistência do centro e o acantonamento do partido à esquerda.
Nas primeiras horas após a revelação que Pedro Nuno Santos só confirmaria quase 24 horas depois, o PS agitou-se de imediato em preocupações com uma excessiva colagem à esquerda e o deixar a descoberto do centro político ao avançar com uma candidata como Alexandra Leitão. É uma socialista da ala mais à esquerda do partido e isso foi sempre assumido sem reservas pela própria que foi, aliás, uma das primeiras a apoiar (e a ter papel de destaque) a candidatura de Pedro Nuno à liderança do PS. O líder disse publicamente que a capacidade de Leitão congregar a esquerda não tinha sido um fator decisivo, mas várias fontes garantem ao Observador que isso terá tido influência — com mais ou menos sarcasmo.
Um socialista ouvido pelo Observador refere, por exemplo, que “ninguém melhor pode reunir a ala esquerda do PS, o Livre e o Bloco de Esquerda. Fica resolvido o problema da esquerda, agora vamos ver o que isso vale“, contrapõe logo de seguida em tom irónico referindo que essa frente, “neste momento, não chega a 30%”. “Para ganhar, um candidato do PS tem de ter capacidade para entrar no centro e Alexandra Leitão não alarga ao centro“, diz outro destacado socialista pouco animado com a escolha de Pedro Nuno Santos.
Nesta frente teme-se que a sua imagem política esteja mais colada ao “radicalismo de esquerda” e que acabe por afunilar a candidatura socialista que, mais adiante, deve vir a colher os apoios do Bloco de Esquerda e do Livre (que já foi coligado com Fernando Medina em 2021). Sendo certo que no PS ainda há dúvidas sobre se o Bloco potenciará uma candidatura, com um socialista a apontar como uma das “várias incógnitas” se “o BE consegue acrescentar votos e peso à já existente coligação do PS com o Livre“.
À esquerda, o nome é bem visto e Pedro Nuno Santos sabia que este anúncio seria acolhido com agrado. Nas conversas que foram tendo nestes últimos meses de preparação de uma decisão, os socialistas perceberam que Leitão teria o apoio fácil de partidos como o Bloco de Esquerda ou o Livre, sustentando essa convicção na relação mantida entre as bancadas (e a do PS liderada por Leitão) no Parlamento.
“Mariana Vieira da Silva seria mais fácil de colar a Medina“, acrescenta ainda fonte conhecedora do processo em conversa com o Observador, apontando, por outro lado, a facilitação do “diálogo à esquerda” que Alexandra Leitão pode trazer. Além disso, argumenta-se ainda com a possibilidade deste nome conseguir pressionar os comunistas a juntarem-se a uma frente de esquerda na corrida à Câmara de Lisboa.
O PCP já anunciou há muito que vai voltar a candidatar João Ferreira à Câmara de Lisboa e não tem dado sinais de estar interessado em voltar atrás nesse processo. Além disso, no PS não é unânime que Leitão conseguisse surtir grande efeito junto dos comunistas. Se há quem aposte que este nome vai “criar incómodo” aos comunistas que vão temer ficar de fora de um acordo de esquerda encabeçado por Alexandra Leitão, também há quem esteja convencido de que Leitão “não vai conseguir esvaziar o PCP”. O mesmo socialista que o diz argumenta com o discurso de Leitão que vê como mais próximo daquilo que se encontra no Bloco de Esquerda do que no PCP — e não contribuirá para aproximações comunistas.
Mesmo entre os socialistas que aparecem mais convencidos da escolha de Pedro Nuno para Lisboa, a estratégia eleitoral é apontada com cautela. “Fazer campanha com Mariana Vieira da Silva podia ser difícil, mas Alexandra Leitão tem outros desafios, como por exemplo, não deixar instalar a ideia de radicalismo em que tanto Luís Montenegro como Carlos Moedas vão insistir”, diz um dirigente ao Observador.
“Moedas vai tentar colar a imagem de extremista ao Bloco de Esquerda coligado”, acrescenta outro dirigente do PS que nem refere a questão de a cabeça de lista ser Alexandra Leitão — mas apenas a junção ao BE. Certo é que, esta segunda-feira, mal saíram as primeiras notícias a falar em Leitão, o vice do PSD e ministro Paulo Rangel usou logo estes mesmos argumentos sobre Alexandra Leitão numa entrevista à SIC-Notícias. A decisão de Pedro Nuno Santos parece ter animado o lado social-democrata em Lisboa, tal como explica aqui o Observador.
Moedas ganha balanço contra Alexandra Leitão no ataque a PS “colonizado” pela esquerda
Publicamente, Pedro Nuno Santos aparece sobretudo apostado na “dimensão política” e no “perfil de realização e de concretização” de Alexandra Leitão. Nas primeiras declarações que fez sobre esta sua escolha à CML, o líder socialista apontou-lhe ainda “determinação”, “força” e “capacidade de resolução de problemas”. E apontou-a mesmo como a figura “mais importante do PS”, depois dele mesmo e do presidente do partido.
Não deixou de aproveitar a deixa para procurar atingir o principal adversário à direita, ao afirmar que “da esquerda à direita começa a ser muito presente a ideia de que Carlos Moedas trabalha bem a sua imagem, mas não consegue resolver problemas aos lisboetas”. E as críticas a Moedas não ficaram por aqui, com Pedro Nuno a dizer que “é clara a sua incapacidade de resolver problemas como o da higiene e da segurança, o da mobilidade e do trânsito na cidade de Lisboa e mesmo o da habitação” — ao mesmo tempo deixou a lista de prioridades do PS na capital.
[Já saiu o quinto episódio de “A Caça ao Estripador de Lisboa”, o novo Podcast Plus do Observador que conta a conturbada investigação ao assassino em série que há 30 anos aterrorizou o país e desafiou a PJ. Uma história de pistas falsas, escutas surpreendentes e armadilhas perigosas. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo, aqui o terceiro e aqui o quarto episódio]
As sequelas do caso Leão e o nome “mal recebido” nas estruturas
A líder parlamentar não tem um histórico recente fácil junto da estrutura federativa. Foi ela uma das vozes socialistas da atual direção mais audíveis na polémica de Ricardo Leão em Lisboa. “É uma escolha que não está a ser bem recebida por uma boa parte dos militantes e dirigentes”, diz ao Observador um dirigente socialista que aponta mesmo para esse episódio em Loures como um dos problemas, sobretudo entre os militantes dessa concelhia e também na de Odivelas (duas das maiores): “A forma como geriu internamente e publicamente esse processo deixou uma grande parte da estrutura da federação descontente com a sua postura.”
Na sequência desse caso, Alexandra Leitão demitiu-se mesmo da Comissão Política da Federação da Área Urbana de Lisboa (FAUL), uma decisão que não foi compreendida, por exemplo, pelo presidente da Mesa, Marcos Perestrello, que o assumiu numa entrevista ao programa Vichyssoise na rádio Observador, em tom crítico. Recorde-se que um dos nomes que mantém uma influência de peso no PS Lisboa, Duarte Cordeiro, também foi muito crítico de quem avançou, nessa altura, contra Leão — apontou sobretudo a António Costa, que assinou um artigo de opinião nessa altura.
A história está fresca, mas na federação também não se antevê que isso possa criar problemas quando o nome escolhido por Pedro Nuno Santos for a votos na concelhia e na federação. “Vai haver ruído, mas não levantará nenhum problema”, acredita um dirigente. “Nas autárquicas existe sempre uma grande mobilização”, diz outro que sublinha que Pedro Nuno Santos “puxou a si a decisão”, ou seja, será também toda dele a responsabilidade do resultado que vier a existir em Lisboa.
As estruturas locais do partido estavam convencidas de que a escolha recairia sobre Mariana Vieira da Silva e algumas das movimentações mais recentes eram vistas nesse sentido. Não só tinha sido ela a cabeça de lista escolhida por Pedro Nuno para o círculo de Lisboa, nas legislativas, como foi a mandatária de Carla Tavares nas eleições intercalares à presidência da FAUL. A candidatura era a que recolhia (e recolheu, com uma vitória de 71% na sexta-feira passada) o apoio maioritário das concelhias e a proximidade entre Carla Tavares e Mariana Vieira da Silva é antiga e conhecida no meio: na Câmara da Amadora, onde Carla Tavares foi vice e, depois, presidente, trabalhou muitos anos a mãe da deputada socialista.
Artigo de Costa e demissão de Alexandra Leitão empurraram Ricardo Leão para a saída
“Já se estava a trabalhar numa candidatura de Mariana Vieira da Silva”, comenta um dirigente ao Observador, que ainda esta segunda-feira durante a tarde ouvia alguns dirigentes convencidos de que seria a ex-ministra de Costa a escolhida. Ao que o Observador apurou, Mariana Vieira da Silva não foi contactada por Pedro Nuno Santos durante o processo. Uma coisa é certa, nos dois últimos dias estiveram juntos várias horas na sede nacional do partido e já falaram sobre o assunto, segundo apurou o Observador. E isto porque Mariana Vieira da Silva é a vice-presidente da bancada parlamentar que está responsável pela área da saúde e o líder socialista promoveu várias reuniões com ordens, sindicatos e responsáveis do sector da Saúde estas segunda e terça-feira.
Depois de uma longa tarde de reuniões que já terminaram depois das sete da tarde desta terça-feira, Pedro Nuno ainda demorou a vir à sala de conferências de imprensa da sede nacional do partido onde era aguardado por jornalistas para uma síntese dos encontros, mas sobretudo para falar pela primeira vez da candidatura a Lisboa — e também daquela que tinha ficado pelo caminho. Só não disse (e foi questionado sobre isso) se este nome, a quem reconheceu “grande capacidade e qualidade política”, ainda pode entrar na corrida autárquica. O Observador noticiou no início de dezembro que a direção socialista estava a testar Mariana Vieira da Silva em Sintra e que a ex-ministra seria a mais bem posicionada entre os socialistas que foram postos à prova nos estudos de opinião (Ana Mendes Godinho, António Mendonça Mendes e Bruno Parreira, vice na Câmara).
PS ainda hesita nos candidatos autárquicos para Lisboa e Sintra