Finalmente um adversário com rosto e que pode ser combatido. A entrada em cena de Alexandra Leitão como candidata socialista à Câmara Municipal de Lisboa veio resolver um problema a Carlos Moedas e, simultaneamente, dar-lhe uma narrativa. Por um lado, o autarca passa a ter alguém a quem fazer oposição na corrida e não está apenas numa posição defensiva em relação às críticas; por outro lado, Alexandra Leitão, por ser uma figura mais associada à ala esquerda do PS e por ter um perfil mais combativo, permitirá a Moedas tentar agregar, com outros argumentos, o espaço da direita e do centro.
Pelo menos é nisto em que acreditam os homens mais próximos de Carlos Moedas. Para já, as reações à candidatura de Alexandra Leitão estão a ser geridas com pinças e ninguém quer embandeirar em arco — assumir que a vitória está no bolso seria, além de perigoso, contraproducente para a narrativa eleitoral do social-democrata (veja-se, aliás, o que a aconteceu a Fernando Medina, que viu voar 26 mil votos e, consequentemente, a presidência da Câmara).
Mas a candidatura de Alexandra Leitão vem clarificar, em definitivo, as linhas com que se vão coser as próximas eleições autárquicas em Lisboa: dois blocos definidos, direita contra esquerda, Pedro Nuno Santos contra Luís Montenegro (que parece levar vantagem nas taxas de aprovação), a linha oficial do PS contra uma das figuras mais apreciadas pelos sociais-democratas — basta ver as reações que, mais de três anos depois da vitória de Lisboa, ainda consegue despertar sempre que discursa em congressos ou eventos do partido.
Até aqui, Carlos Moedas sentia-se numa posição ingrata. Com problemas na cidade por resolver ou a acumularem-se — falta de habitação acessível, ineficiente recolha de lixo, aumento da perceção de insegurança —, o presidente da Câmara de Lisboa era alvo de todas críticas da oposição socialista sem ter um adversário formal com quem comparar medidas, soluções e programa político. Estava a combater uma alternativa indefinida, sem rosto e sem passado. Com Alexandra Leitão em jogo, Carlos Moedas poderá perguntar aos lisboetas se preferem a sua candidatura ou a alternativa protagonizada pela ex-ministra da Modernização do Estado e líder parlamentar do PS — e, acredita naturalmente a equipa do autarca, sair a ganhar na comparação direta.
Ao mesmo tempo, Alexandra Leitão vai protagonizar uma candidatura mais à esquerda do que aquela que seria protagonizada, por exemplo, por Mariana Vieira da Silva, cuja candidatura chegou a ser ponderada por Pedro Nuno Santos, como contava aqui o Observador. O próprio perfil de Leitão antecipa uma campanha mais crispada e polarizadora. Ora, mesmo que poucos na equipa de Moedas queiram comentar escolhas próprias dos órgãos do PS, em teoria, uma adversária com estas características permitirá a Carlos Moedas dramatizar mais, apelar ao voto útil do eleitorado de centro e evitar dispersão de votos à direita.
“Alexandra Leitão é a personificação de uma deriva frentista do PS em Lisboa e a consumação de uma viragem ideológico-geracional de um PS corbynista e bloquizado“, argumenta um influente social-democrata da capital em declarações ao Observador. Grande parte da narrativa eleitoral da coligação de direita para esta corrida à revalidação do mandato será feita nestes termos: provar que o PS não é solução para a cidade porque está demasiado condicionado por uma alegada agenda radical de esquerda.
O facto de Alexandra Leitão ser politicamente próxima de Pedro Nuno Santos (ao contrário do que era Mariana Vieira da Silva) permitirá aos sociais-democratas fazerem desta eleição também um combate à atual direção do PS, assumidamente mais à esquerda do que direções anteriores, cavalgando a partir daí a ideia de que os socialistas se enquistaram e radicalizaram. “As pessoas gostam de sensatez. De tranquilidade, de moderação. Detestam frenesim e agitação fátua“, antecipa a mesma fonte do PSD.
“O PS de Pedro Nuno está hoje colonizado pelo BE”
Tudo isto é bonito no papel, mas o próprio Carlos Moedas tem problemas para resolver dentro de casa, como explicava aqui o Observador. Falta menos de um ano para voltar a correr por Lisboa e parece cada vez mais difícil encaixar todas as peças na grande frente de direita que deve enfrentar o outro bloco liderado pelo PS e que deverá contar com o apoio do Bloco de Esquerda e do Livre.
Moedas tem um número dois que não se entende com o partido de origem, um parceiro de coligação que continua exigente apesar de não ter a força de outros tempos, um possível futuro parceiro que critica abertamente o executivo de Moedas, e muitas queixas, tensões e desconfianças nos bastidores. Uma direita dividida seria o pior que poderia acontecer ao atual presidente da Câmara — espera-se que a concorrência de Alexandra Leitão ajude a colar todos os cacos.
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Antes mesmo de ser conhecida a escolha de Alexandra Leitão para ser sua adversária, Carlos Moedas já antecipava grande parte do discurso que vai levar para a corrida à reeleição. No sábado, numa mensagem em vídeo enviada a propósito do encontro dos Autarcas Sociais Democratas, em Ovar, o autarca antecipava um combate duro pela Câmara Municipal de Lisboa. “O PS tentará ganhar a todo custo, mesmo que para tal tenha de fazer uma campanha negra, tal como fazem os populistas e os extremistas”, começava por dizer o social-democrata.
A preocupação em colar os socialistas à ideia de radicalização foi evidente ao longo dos cinco minutos de vídeo. “O PS de Pedro Nuno Santos está hoje colonizado pelo Bloco de Esquerda. O PS de Mário Soares já não existe. Não só nos métodos que usa, mas também na mensagem política. Não podemos ter receios dos seus ataques radicais. Temos de ser o que sempre fomos: moderados”, defendeu o mesmo Carlos Moedas.
Nem de propósito, nesse mesmo sábado, Alexandra Leitão foi a grande protagonista do PS na manifestação organizada pelo movimento “Não nos encostem à parede” — que Luís Montenegro classificou de “extremo”, equiparando-o à vigília promovida pelo Chega no mesmo dia. Moedas tem passado os últimos três anos a dizer que os dois extremos são perigosos e a tentar empurrar o PS para o campo do radicalismo.
A partir de Braga, onde participava na apresentação de candidatos do partido ao distrito, Pedro Nuno Santos respondeu a este ataque acusando o presidente da Câmara de Lisboa de estar a “inventar fantasmas que não existem” como forma de distrair os munícipes e eleitores dos problemas que “não foi capaz de resolver” ao longo do mandato. “Carlos Moedas não é mais do que um produto de comunicação e de imagem”, rematou o socialista. Numa altura em que faltam sensivelmente oito meses para as autárquicas, avaliando pela amostra, o combate pela cidade de Lisboa vai ser aceso.