Qual era mesmo a primeira regra do Fight Club?

26 Junho 2016149

"Clube de Combate" faz 20 anos, com uma reedição e uma novela gráfica. Para assinalar tudo isto, falámos -- muito pouco -- com o autor, Chuck Palahniuk, e com fãs que não largam o livro (nem o filme).

Não é fácil entrevistar Chuck Palahniuk. O autor de Clube de Combate, que assinala este ano 20 anos da sua data de publicação, anda ocupado com Fight Club 2, uma sequela do romance em forma de novela gráfica. Dizem-nos que a entrevista será apenas possível por e-mail e que o autor só responderá a quatro questões. Exigências que seriam mais que suficientes para se desistir do trabalho? Não, nada disso.

E porquê? Porque Clube de Combate é um dos grandes livros de culto dos anos 1990 cujo sucesso se estende até hoje. Se milhares se renderam às páginas de Chuck Palahniuk, foram milhões os que chegaram à história através do filme de David Fincher, estreado em 1999 e protagonizado por Edward Norton e Brad Pitt. Hoje, 20 anos depois do seu lançamento, livro e filme continuam a ser uma referência para muitos. E vão agora chegar a uma nova geração de leitores, não só através da novela gráfica que o autor acaba de lançar nos EUA como pelo facto de David Fincher já ter avançado estar a planear fazer um musical a partir do romance (soa estranho, sim, mas esperemos para ver). Por cá, a Marcador acaba de fazer uma nova edição da obra, celebrando os seus 20 anos, com uma nova tradução, assinada pelo escritor e jornalista Hugo Gonçalves.

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A capa da nova edição de “Clube de Combate” da Marcador

E, se Tyler Durden está de volta na sequela que agora é editada nos EUA, é ele que domina, também, as páginas do romance de 1996 – bem como a mente do narrador. Esta é a história de um homem que, para combater as insónias que o impedem de dormir à noite, começa a frequentar diversos grupos de ajuda (para problemas que não o seu). Acaba por conhecer a mítica personagem, Tyler Durden, e, com ele, forma um grupo de combate, um secreto grupo de homens que se junta regularmente com o propósito de lutar. Regras há poucas: não falarás sobre o clube de combate; não falarás sobre o clube de combate; se alguém disser “pára” a luta acaba; uma luta de cada vez; sem camisa, sem sapatos; a luta dura o que tiver de durar; se for a tua primeira noite no clube de combate, tens que lutar.

Com temas recorrentes da literatura, como o duplo e a identidade, Clube de Combate é, também, uma critica ao capitalismo e ao consumismo, bem como uma reflexão sobre a solidão que se vive nas cidades, o isolamento, a pertença à comunidade. Escrito sem artifícios, com uma linguagem directa, dura, trouxe até à literatura muitos que nunca tinham sequer pegado num livro. E deixou lastro: embora secretos, consta que foram vários os clubes de combate criados a partir do livro.

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A capa da nova novela gráfica “Fight Club 2”, de Chuck Palahniuk e Cameron Stewart

Não é fácil fazer apenas quatro perguntas sobre o livro. Às quatro combinadas com a agente de Palahniuk, o Observador juntou uma quinta. E foi conversar com Hugo Gonçalves, Patrícia Reis e Tiago R. Santos que, tantos anos depois, ainda guardam o seu exemplar da obra. Pedimos-lhes que quebrassem a regra principal e falassem sobre Clube de Combate.

O sintético autor

Vinte anos depois do seu lançamento Clube de Combate é ainda um grande sucesso. E nesta altura há novos lançamentos no mercado Está a trabalhar para os que leram o livro nos anos 1990 ou para uma nova geração?
Talvez o livro tenha estado um pouco à frente do seu tempo. De início teve apenas alguns leitores e só agora está a ter uma grande audiência. Entre todos os meus livros Clube de Combate é o que atrai mais leitores homens, sobretudo homens jovens que querem explorar a ideia de masculinidade e potencial.

Os temas que envolvem a história não perderam importância. No essencial, o mundo mudou ou continua o mesmo?
Esse tipo de temas – a paternidade, o isolamento, o consumismo – agudizaram-se e são hoje muito mais prementes e exagerados do que eram nos anos 1990. Os anos 1990 parecem um paraíso quando comparados com o mundo de hoje. Por isso o livro comunica com o leitores hoje mais do que nunca.

A paternidade não é tão explorada na adaptação de David Fincher como é no livro. Porque é um lado mais pessoal da obra?
O meu avô morreu quando o meu pai era muito novo. O que fez com que o meu pai tivesse capacidades paternais reduzidas. Talvez essa ausência da figura paternal em duas gerações da minha família seja o que me leva a explorar o tema. Mas é preciso ter em conta que “Clube de Combate” é apenas um dos meus livros, que exploram muitas ideias.

Com Clube de Combate, bem como com os seus outros leva, chegou a muitas pessoas que não são, ou não eram, leitores, pelo menos não regulares. Para muitos, aliás, Clube de Combate terá sido o primeiro livro que leram. Porque acha que chegou até essas pessoas? O que lhe dizem?
A minha única responsabilidade é entreter-me a mim próprio decentemente enquanto estou a escrever e manter a minha própria atenção aumentando constantemente a tensão da história. Talvez seja a isso que os meus leitores respondem.

Qual é o futuro de Clube de Combate? O musical vai avançar? Tem mais alguma sequela ou prequela planeada?
Peço desculpa mas não posso falar sobre o musical. Quanto à sequela, grande parte dela já está escrita, mas não tenho pressa. É difícil ultrapassar e fazer melhor que as primeiras duas versões do livro. Mas vou consegui-lo.

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Chuck Palahniuk nasceu em Pasco, no estado de Washington, em 1962

Os dedicados fãs

O que leva um leitor a criar uma relação especial com um livro? Pode um livro influenciar o futuro de alguém? O que leva uma pessoa a guardar um livro duas décadas? Hugo Gonçalves, o tradutor, descobriu em Clube de Combate um mundo de testosterona e liberdade. Tiago R. Santos chegou às páginas do romance através do filme de Fincher. Patrícia Reis é a prova de que, ao contrário do que sistematicamente é dito, este não é um livro de homens. É literatura. E a literatura não tem género.

Patrícia Reis (escritora)

“A minha relação com este livro é antiga, por razões óbvias, mas implica alguma fidelidade. Tenho por hábito desfazer-me dos livros que não voltarei a ler e este ainda aqui está, passa sempre esse escrutínio. Porquê? Sempre gostei da personagem Tyler, da sua anarquia, da forma pouco ortodoxa de entender a sociedade.

"Lembro-me de um amigo me ter dito que era 'um livro de homens e para homens'. Confesso que descartei esse rótulo, apreciei a narrativa, a forma como está escrita, o poder da personagem feminina, a ligação em triângulo, e ainda a violência. Não creio que existam livros para homens e livros para mulheres, o leitor identifica-se ou não, é isso que faz da Literatura uma grande bênção."

De certa forma, creio que existe um sub-texto no livro que sempre me remeteu para um universo homo erótico. Há vinte anos não era tão vulgar quanto hoje, pelo menos não era vulgar nos livros que eu lia habitualmente. Lembro-me de um amigo me ter dito que era ‘um livro de homens e para homens’. Confesso que descartei esse rótulo, apreciei a narrativa, a forma como está escrita, o poder da personagem feminina, a ligação em triângulo, e ainda a violência. Não creio que existam livros para homens e livros para mulheres, o leitor identifica-se ou não, é isso que faz da Literatura uma grande bênção.

Vi o filme há pouco tempo, tenho sempre uma certa relutância em ver filmes adaptados de livros que mexeram comigo por qualquer razão. Não posso dizer que o filme seja uma desilusão, creio que o realizador segue a linha do livro, porém – como acontece quase sempre – há muitos pormenores que escapam, que se perdem e nem o Brad Pitt ou o Edward Norton (actuações extraordinárias) são o suficiente para eu dizer que vou comprar o DVD e guardá-lo vinte anos.

Há outro aspeto que posso salientar, o autor de Fight Club, Chuck Palahniuk, terá desenvolvido uma sequela em versão novela gráfica, ele que é um grande fã da banda desenhada, e isso parece-me abrir todo um outro universo. Ainda não li, mas se alguém me quiser oferecer, por favor, eu agradeço.”

Tiago R. Santos (argumentista)

“O primeiro contacto que tive com o Clube de Combate — e o trabalho do Chuck — foi indireto. Para mim, tudo começou com o filme do Fincher, que achei brilhante, revolucionário e clínico na sua crítica à sociedade contemporânea e ao papel que o indivíduo (e o homem em particular) desempenha nas suas próprias expectativas – e, ainda hoje o considero uma das melhores comédias negras da história do cinema. As pessoas esquecem-se disso: o texto é absolutamente hilariante, sem qualquer medo de chocar ou contorcer padrões narrativos, quebrando constantemente a quarta parede e brincando de uma forma quase inédita com a meta-ficção. A sensação, quando vi o filme pela primeira vez, foi que nunca tinha assistido a nada assim.

"Tornou-se claro para mim a excelência do trabalho do Jim Uhls, o argumentista que adaptou o romance ao grande ecrã, e acredito que essa perceção tenha sido um dos gatilhos para o que faço na minha vida hoje. Calculo que o pensamento tenha sido qualquer coisa como 'este tipo pegou numa boa ideia e tornou-a ainda melhor, percebeu o tema e o tom de um livro que já era muito visual e acrescentou-lhe novas camadas."

Só depois, pela inevitável curiosidade intelectual que me provocou, é que procurei o romance. Ler mais tarde o livro provocou duas coisas, ambas fundamentais: primeiro, tornou-se claro para mim a excelência do trabalho do Jim Uhls, o argumentista que adaptou o romance ao grande ecrã, e acredito que essa perceção tenha sido um dos gatilhos para o que faço na minha vida hoje. Calculo que o pensamento tenha sido qualquer coisa como ‘este tipo pegou numa boa ideia e tornou-a ainda melhor, percebeu o tema e o tom de um livro que já era muito visual e acrescentou-lhe novas camadas. Não me importava nada de fazer isto’. A outra, e apesar de achar o texto do filme bem melhor do que as páginas do romance, foi interessar-me o suficiente pelo trabalho do Palahniuk para procurar outros dos seus títulos: rapidamente li o Invisible Monsters, Survivor ou Choke e, nessa busca, li uma crítica onde se referiam a ele como ‘o Don Delillo desta nova geração’ – o que me fez procurar esse grande escritor americano que se tornou também uma referência. (White Noise continua a ser um dos livros da minha vida, assim como Underworld). Por tudo isso, porque me ajudou, mesmo indiretamente, a perceber o que queria fazer da minha vida e por ter servido de plataforma à descoberta de outros e melhores escritores, não podia estar mais agradecido ao Palahniuk.

Ainda por cima, entrevistei-o uma vez, por telefone, no auge da minha “Fight Club Mania” e não podia ter sido um tipo mais simpático. Isso também conta muito.”

Hugo Gonçalves (editor e escritor)

“Como leitor, a minha relação com o livro é um pouco como as memórias que tenho da adolescência ou do princípio da idade adulta — umas férias grandes, um namoro de verão. Algo colorido e intenso no álbum das lembranças. Primeiro vi o filme — até porque o livro não estava traduzido na altura, o livro era, aliás, um fenómeno de culto de nicho — foi o filme que catapultou o livro. Tive uma relação emocional com aquela história — eu era um rapaz, que tinha estudado num colégio só de homens, com irmão (todos rapazes) que treinava boxe por essa altura (mas que também queria ser escritor).

Toda aquela testosterona estilizada, a insolência, a oposição ao instituído, tudo isso, no livro e no filme, ressoou no rapaz que eu era. A ideia de liberdade e de revolução, a expressão através do físico — mas também das palavras. Ser eloquente, engraçado, assertivo. Como Paul Valérie disse: a escrita deve ser leve como uma pena mas precisa como um pássaro.

"Por mais que lesse Dickens ou estivesse a descobrir Saramago e Lobo Antunes e Cardoso Pires, não havia nenhuma voz, especialmente em português, que tratasse e refletisse um mundo que me era contemporâneo -- um mundo de marcas, e consumismo e MTV e filmes. Era uma linguagem afiada, espirituosa, pop, cinematográfica, tinha mais a ver com a forma como eu via o mundo (o mundo em que crescera)."

Numa entrevista, que cito no posfácio, o autor disse ‘Fuck me for saying this but I dont want any peace until the day I die’ — isso fazia todo o sentido para o desassossego do rapaz que eu era quando li livro — a vontade de comer o mundo à dentada, a insolência, a ideia meio romântica do anti-herói.

Eu estava habituado a ler escritores mortos ou muito mais velhos. Por mais que lesse Dickens ou estivesse a descobrir Saramago e Lobo Antunes e Cardoso Pires, não havia nenhuma voz, especialmente em português, que tratasse e refletisse um mundo que me era contemporâneo — um mundo de marcas, e consumismo e MTV e filmes. Era uma linguagem afiada, espirituosa, pop, cinematográfica, tinha mais a ver com a forma como eu via o mundo (o mundo em que crescera).

Julgo que se lesse hoje o livro pela primeira vez, aos 40 anos, a experiência seria diferente, mas ao traduzi-lo, e ao escrever sobre ele, apercebi-me da sua importância na minha escrita, não tanto por influência de estilo, mas por ter sido um empurrão num processo de libertação da tradição mais fechada e poética da literatura portuguesa. Como quando se toma LSD pela primeira vez e se tem uma espécie de epifania — o livro ajudou a ser mais livre e a ter coragem de ser mais autêntico. Algo como: ‘Ah, a final podem-se escrever estas histórias? Então vou escrever as minhas histórias.

Durante a tradução também percebi melhor os mecanismos de construção do livro — ser escritor e editor é, muitas vezes, uma tirania, porque nunca mais somos os mesmos leitores, estamos sempre à procura das costuras nos livros, a técnica, o avesso, os truques. E este é um livro extraordinário. Pode até não ser uma obra-prima da literatura mundial no sentido clássico do termo, mas é um livro extraordinário — um murro no estômago e no cérebro.

Ah, claro, e o humor. É, de facto, um livro inteligentemente engraçado, e isso nota-se porque ao traduzir — a terceira vez que li o livro na vida – e mesmo sabendo algumas passagens e frases emblemáticas, ri-me muitas vezes sozinho.”

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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