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Primeira semana de campanha eleitoral, muita gente nervosa, muitas oscilações no discurso. Numa corrida tão renhida, os candidatos têm procurado cada declaração aos jornalistas e cada intervenção política para roubar votos aos rivais. Mas a evolução nas sondagens — sobretudo na tracking poll da TVI/CNN — tem tido um impacto evidente na campanha, provocando mudanças de estratégia e alternância nos alvos a abater.
Luís Marques Mendes, que começou esta campanha a defender-se das acusações de Henrique Gouveia e Melo, acabou a primeira semana a atingir João Cotrim Figueiredo, que parece representar, neste momento, a maior ameaça para o social-democrata. O liberal tem procurado fazer o mesmo, num duelo particular que se tornou tema central desta campanha.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Luís Marques Mendes. Do discurso pela positiva ao tiro a Cotrim
A campanha de Marques Mendes tem ajustado o tom e os alvos do seu discurso à medida que os dias passam (e que os números das sondagens se tornam menos simpáticos). Inicialmente, os ataques contra os adversários cabiam sobretudo aos apoiantes de peso que convidava para aparecerem nos seus almoços e comícios – basta lembrar que no primeiro debate alargado Mendes manteve-se à margem de discussões e fez um discurso pela positiva, enquanto Luís Montenegro e Sebastião Bugalho arrancavam a campanha oficial distribuindo críticas por Gouveia e Melo, Ventura e Cotrim.
Com o passar dos dias, Mendes passou a assumir mais alguns ataques em nome próprio. Gouveia e Melo, um dos seus concorrentes mais diretos mas também o adversário que escolheu atacá-lo de forma mais consistente desde o princípio, foi merecendo o rótulo de candidato que “adora dissoluções”. Aliás, um dos principais eixos do discurso de Mendes tem sido mesmo a defesa da estabilidade do Governo contra os “fatores de instabilidade” em que, garante, os rivais se transformaram. Quem quer manter o Executivo da AD em funções até ao fim, insiste e repete, tem de votar Mendes.
Mas as sondagens apontam para outro dado claro: não só o eleitorado da AD é o mais disperso como Cotrim Figueiredo é o adversário que mais facilmente seduz esses votantes. Mendes, que inicialmente acreditava que Cotrim estaria a correr numa pista partilhada com Ventura, parece ter concluído que a disputa pelo eleitorado da AD se faz mesmo contra o liberal, e afinou a mensagem contra o ex-líder da IL.
Assim, nos últimos dias Mendes começou a acusar Cotrim de dividir o espaço da direita e acabou a concluir que as aproximações do liberal ao Governo, mostrando-se “apaixonado” por Montenegro e companhia, caem “completamente no ridículo”. A disputa à direita aumenta quanto mais as sondagens mostram os simpatizantes da AD divididos entre os dois, e Mendes começa a ir buscar propostas “de loucos” da IL, da privatização da Caixa Geral de Depósitos à flax tax para o IRS, provando que a campanha foi ativamente ao baú procurar argumentos contra o ex-líder dos liberais. Este sábado, Rangel insistia nos ataques às propostas (legislativas) da IL, avisando que o Palácio de Belém não é lugar para uma “aventura liberal”.
Maria João Gala
Cotrim. Cada ataque de Marques Mendes é um momento feliz
Virou tudo muito rapidamente. João Cotrim Figueiredo começou esta semana ao ataque a Marques Mendes, a dizer que era uma “prova de fraqueza” chamar o primeiro-ministro para o defender logo no início da campanha, e depois passou a ter apenas de responder a ataques, o que faz toda a diferença.
O candidato liberal já admitiu mesmo que é “bom sinal” ser um alvo dos adversários. A sua campanha estava a precisar de ser atacada, para não sair do centro do combate político. A dinâmica de crescimento transmitida pelas sondagens diárias da tracking poll da CNN também dá ânimo ao candidato e é usada para desmoralizar o principal adversário, Marques Mendes.
Disputam entre ambos o eleitorado da AD, o que coloca Cotrim num permanente exercício de equilibrismo, para tentar fragilizar o principal concorrente sem beliscar ou hostilizar o primeiro-ministro — e assim tentar não afugentar nem assustar os eleitores que lhe deram a vitória nas legislativas. Daí a carta que lhe escreveu a oferecer-se para ser um “aliado fiável” a partir de Belém, caso consensualizem três reformas estruturais das dez que a AD tem no seu programa.
O cuidadinho que Cotrim põe em todas as referências a Montenegro é em si também um ataque a Marques Mendes. Da mesma forma, cada elogio a Passos Coelho (que não apoia o candidato da AD apesar de ser ex-presidente do PSD) faz ricochete e transforma-se em mais um tiro ao Mendes.
Outra mudança interessante: depois de se ter pegado no início da semana com o seu colega do Parlamento Europeu Sebastião Bugalho, que assumiu ataques mais duros em nome próprio para salvaguardar Marques Mendes, Cotrim tomou a decisão de deixar de responder a franco-atiradores (mesmo que sejam ministros ou ou líder parlamentar do PSD, Hugo Soares) e concentrar os seus comentários nos ataques dirigidos pelos próprios adversários.
Quando o próprio Marques Mendes acusou o candidato Liberal de ser um “catavento“, Cotrim exibiu perante os jornalistas o print de uma notícia de 2017, em que o comentador chamava, precisamente, “catavento” a Pedro Passos Coelho. Mas os ataques ao candidato da AD não são feitos apenas nos discursos e nas declarações bi-diárias aos jornalistas.
São também capitalizados nas redes sociais, com outra linguagem: os dois exemplos mais recentes são os vídeos que comparam Cotrim e Mendes a dar murros com luvas de boxe (Cotrim mais enérgico, Mendes mais inusitado); e a dança ritmada ao som de merengue do candidato Liberal em comparação com a pose pitoresca do ex-comentador de braços erguidos e corpo esticado numa aula de aeróbica.
Os outros candidatos do top 5 são praticamente paisagem para a campanha de Cotrim: vêm à baila por atacado, para tentar demonstrar porque é que não são opção (para o eleitorado que quer cativar) — Seguro por ser mais do mesmo do PS; Ventura porque não vai ganhar na segunda volta; e o Almirante por não se saber bem o que pensa. Mas João Cotrim Figueiredo sabe que não é aqui que está o grosso dos votos que pode ir buscar. É em Marques Mendes, o seu alvo preferido.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Gouveia e Melo. Depois de rivalizar com Mendes, Seguro tornou-se o alvo principal
Henrique Gouveia e Melo arrancou a campanha oficial com uma estratégia bem definida: atacar os “dois candidatos do sistema”. Depois de — entre o frente-a-frente com o candidato apoiado pelo PSD e a ida para estrada — se ter especializado na modalidade de tiro-a-Mendes ficou claro que entrou na campanha oficial com o objetivo de fazer um ataque duplo a Mendes e Seguro e não deixou nada por dizer: chamou-lhes “sapos reciclados”, que “não conseguiram ganhar os próprios partidos”, que “nem sequer fazem o pleno” em PS e PSD. E depois adornava o confronto com mimos personalizados: um era o “facilitador de negócios” e outro o “indeciso”.
Nessa primeira fase da campanha oficial (até quinta-feira à noite) ficou claro que Gouveia e Melo se quis apresentar como uma alternativa aos partidos, uma espécie de anti-sistema moderado. Tese que, aliás, continua a querer firmar. Simultaneamente, tentou sempre evitar o choque com André Ventura, o que foi outra tónica da primeira semana de campanha.
O final da semana trouxe, porém, três novidades. A primeira é que houve mais ataques, e mais duros, a António José Seguro e uma nova ofensiva paralela a João Cotrim Figueiredo — que até quinta-feira à noite ou não existia ou era muito ténue. Já Mendes é desvalorizado e deixou de ocupar tanto espaço nos discursos, como se já não fosse concorrência. O efeito trackingpoll parece ter mudado a dinâmica discursiva da campanha.
No caso de Cotrim, isso aconteceu porque o liberal era no início da semana um parceiro útil para roubar votos a Mendes (e facilitar a passagem à segunda volta), mas de repente passou a ser ele também uma ameaça para seguir embarcar numa viagem que só tem dois bilhetes. Se até quinta-feira à noite só havia uma crítica mais genérica ao “neoliberalismo” (de 10 segundos, em frente à estátua de Sá Carneiro), em 48 horas os ataques quadriplicaram, com a sugestão que Cotrim se está a aproveitar dos idosos (“vejo muitos candidatos a ir ver o lar de idosos, com ar muito piedoso, mas durante anos no sistema político não tiveram a preocupação com os mais velhos”). Já disse até que o liberal é um “lobo”, no sentido Wall Street do termo, “disfarçado de cordeiro”.
No caso de Seguro — que já ultrapassou Mendes como piñata favorita do almirante — os ataques intensificaram-se no final da semana. O almirante chama-lhe agora “cházinho”, sugere que se vendeu aos costistas a troco do poder, vende-o como um “líder fraco” e chega a chamá-lo de “miss mundo”. Seguro passou a ser um adversário aparentemente mais sério do que Mendes e, também por isso, passou a ser mais seriamente atacado.
O almirante vai dizendo que “não mudou a estratégia” e que se limita a apontar o que “está mal” no discurso dos adversários. Porém, curiosamente, a tendência começou por ser atacar Seguro e Mendes e agora atira-se a Seguro com mais força, fala menos de Mendes e já ataca Cotrim. Ventura, esse, continua a ser poupado.
VASCO COELHO/OBSERVADOR
Seguro. Dieta de ataques para ver se é o único a caber no fato de Presidente
O momento do debate a onze, na RTP, deixou clara como água a estratégia de António José Seguro para esta campanha. Quando tudo arde, pôr-se ao fresco, à margem dos bate-boca que correm entre os seus principais adversários na corrida, Marques Mendes, Gouveia e Melo e André Ventura. E também sem tocar no Governo. É um quase jejum (por vezes intermitente, já que vai deixando indiretas) de ataques.
“Estou nesta campanha para elevar o debate público”. Com a frase dita no debate procurava diferenciar a sua postura dos candidatos que ali ao lado se digladiavam com acusações sobre clientelismo. Mesmo que tenha entrado nesta fase da campanha oficial a contribuir ele mesmo de forma evidente para manter à tona a polémica sobre os eventuais conflitos de interesses de Luís Marques Mendes. “Comigo em Belém os interesses ficam à porta”, declarou o socialista que apontou mesmo a existência de “interesses partidários, económicos e financeiros” entre os seus adversários na corrida.
Mas a sua principal ginástica tem sido evitar respostas directas a ataques que venham do outro lado da barricada, à procura de mostrar um perfil mais presidenciável. O dia de quarta-feira do candidato, o seguinte ao debate em que Mendes e Gouveia e Melo entraram num despique significativo, foi revelador de tudo isto. De manhã esteve várias horas fechado numa sala a ouvir 15 especialistas em Ambiente para, à noite no comício em Santarém, poder dizer que “enquanto” os seus “adversários se entretêm a atacar-se uns aos outros”, a sua candidatura “discute os problemas do país”.
Também tem evitado o confronto com o Governo, mesmo quando a Saúde ocupa a ordem do dia e a pressão sobre a ministra da pasta sobe. Em Évora, esta quinta-feira, os jornalista insistiram com perguntas sobre as condições de Ana Paula Martins no Governo, mas o socialista chegou mesmo a irritar-se recusando entrar por aí e responsabilizando todos — e não só o Governo — pela situação e respectiva solução. Nos dias seguintes, com o tema da saúde a continuar a ferver, o mais longe que chegou foi quando disse que “estão identificadas as soluções, é preciso é coragem para agir. O Governo tem que ter essa coragem.” Não foi mais longe.
DIOGO FARIA REIS/OBSERVADOR
André Ventura. Soft em ataques, focado no tiro ao Governo
O André Ventura dos ataques implacáveis tirou férias nesta campanha eleitoral. Com os adversários Marques Mendes, Cotrim Figueiredo e Gouveia e Melo bastante ativos e preocupados com o confronto direto e a captura de votos uns dos outros, o candidato presidencial apoiado pelo Chega tem-se dedicado a trabalhar para o eleitorado conquistado pelo partido nas últimas eleições legislativas, que, tendo em conta as sondagens e a dispersão de candidaturas, deve ser mais do que suficiente para o levar à segunda volta.
Ainda assim, olhando para os rivais, há um que sofre mais, normalmente levando por tabela com os ataques ao Governo: Luís Marques Mendes. Com a estratégia montada para chegar a “100% dos eleitores do Chega”, Ventura tem apostado nos temas que mobilizam o seu eleitorado (corrupção, imigração e tudo o que é problema para as pessoas, desde a saúde, às pensões baixas e à fuga de cérebros para o estrangeiro) e em todos eles prepara o tiro ao alvo ao Governo.
É aí que Mendes é constantemente apontado como “marioneta do Luís Montenegro”, com a leitura de que “não é sequer o candidato do PSD, é o candidato do montenegrismo”. Num dos ataques mais vocais, Ventura chegou mesmo a questionar em que é que Marques Mendes seria interventivo em Belém, provocando que só se fosse a “levar o café e o chá a Luís Montenegro”.
António José Seguro e Henrique Gouveia e Melo acabam, assim, por ser menos atacados por Ventura. Porém, o presidente do Chega vai dizendo que o socialista “não tem uma ideia” e, quanto ao almirante — que poupou em muitas ocasiões —, só vai recusando que seja antissistema e que possam definir-se dessa forma. O argumento mais repetido é mesmo que o adversário está rodeado por políticos como “Isaltino Morais ou Rui Rio” e que é “impossível” considerá-los como alguém fora do sistema.
De resto, há um adversário que Ventura vai acabando por descredibilizar quando é confrontado com os números dos jovens em sondagens: João Cotrim Figueiredo. Para o líder do partido que tem sido o campeão nessa faixa etária, as sondagens podem estar inflacionadas. Lembrou os cenários estudados nas legislativas, que dariam uma maioria entre AD e IL e repete o que disse na altura: “Não brinquem com as pessoas.” Já depois disso, Ventura ainda respondeu a Cotrim para dizer que votar nele ou em Mendes é “igual”. Para o líder do Chega, Cotrim até pode conseguir alargar o eleitorado da IL, mas não dobrando o valor que teve nas europeias.
LUSA
Catarina Martins. Seguro primeiro, direita depois e um pacto de não agressão
A mira de Catarina Martins tem um alvo claramente favorito: António José Seguro. E também tem um argumento favorito: nos anos da troika, o socialista deu respaldo aos cortes em subsídios de férias e Natal que seriam considerados inconstitucionais. A estratégia passa por pintar uma proximidade entre Passos Coelho e Seguro quando este era líder do PS, procurando pôr na cabeça dos eleitores de esquerda a imagem de um futuro de boa convivência com Montenegro, caso o socialista acabe mesmo em Belém.
Essa é uma das maneiras que a eurodeputada encontrou para vincar a linha que separa a sua esquerda da de onde vem Seguro. À procura de ser casa para o eleitorado do PS que se sente órfão, a bloquista coloca sempre a seu lado os antigos Presidentes Mário Soares, que “se levantou” contra a troika, e Jorge Sampaio, que demitiu Santana Lopes. Além disso, Catarina Martins tem apelado ao eleitorado que não encontra entusiasmo na postura presidencial que Seguro decidiu adotar já em campanha. Acusa-o de tentar “passar entre os pingos da chuva” e a “falta de ideias claras” do seu pacto para a saúde é mais um argumento para o colar ao Governo.
Acusação a que não escapam também Marques Mendes e Cotrim, que Catarina acredita estarem a competir para ver “quem apoia mais o Governo”. Gouveia e Melo e Ventura também são visados por afinidades com Montenegro, ou, pelo menos, com a sua política. O “perigo da extrema-direita” está muito presente no discurso da candidata presidencial, mas o líder do Chega é normalmente nomeado quando se discute a operação dos EUA na Venezuela, à qual reagiu “respondendo ao dono”, acusa Catarina. Crítica à qual os candidatos apoiados pela IL e PSD também não escapam.
Por fim, com António Filipe e Jorge Pinto existe uma espécie de pacto de não agressão. O melhor exemplo disso é a forma como Catarina Martins respondeu ao desafio do deputado do Livre para uma desistência coletiva que garantisse a presença da esquerda na segunda volta. Ao contrário de António Filipe, a bloquista não questionou a legitimidade da continuidade de Jorge Pinto — questionou apenas o método da proposta — e aproveitou a situação para atirar novamente a Seguro.
ANTÓNIO COTRIM/LUSA
António Filipe. As “ideias giras” do Livre e o candidato que “não é carne nem peixe”
Talvez não fosse o plano principal, mas a repetição dos apelos ao voto útil e até a uma eventual desistência obrigaram António Filipe a apontar baterias a António José Seguro, que tem merecido atenção isolada em todos os discursos do comunista. O candidato apoiado pela CDU vai tentando colar o socialista à direita, e já chegou a sugerir que não é mais do que um “candidato do Governo“. “Não se combate a direita votando em alguém que nunca a combateu”, tem dito repetidamente.
Entre “candidato mais ou menos”, que “não é carne nem peixe” e prefere “ficar em cima do muro”, a estratégia de Filipe tem sido de mostrar que nunca seria possível desistir em favor de alguém que “não diz alguma coisa de esquerda”. E, por isso mesmo, vai já sacudindo culpas de um possível cenário em que Seguro não consiga passar à segunda volta por não conseguir reunir todos os votos à esquerda.
E se a campanha se vai esforçando para mostrar um afastamento ideológico em relação a António José Seguro, também a Jorge Pinto o deve. Além do próprio socialista, o candidato apoiado pelo Livre é o grande responsável por a narrativa da “desunião” da esquerda se ter instalado na primeira semana de campanha, e depois de um debate em que Pinto abriu a porta (logo fechada por António Filipe e Catarina Martins) a um consenso em favor de Seguro, o comunista teve de reagir.
Logo na manhã seguinte, sugeriu que o adversário não quer ser mais do que um satélite de outra candidatura, e que se pretendia desistir, a decisão só a ele lhe competia. Uns dias depois, e depois de ouvir os lamentos de Rui Tavares pela “política do costume” dos candidatos à esquerda, Filipe atirou de volta: “A política do costume é a política neoliberal, e é contra ela que eu me candidato a Presidente da República”, explicou, lembrando que as presidenciais são mais do que um “concurso de ideias giras” para provocar o porta-voz do Livre e o candidato que apoia.
Já Catarina Martins vai merecendo pouca atenção por parte de António Filipe. O candidato já assumiu que inclui a oponente na espaço da esquerda (e por isso que não é o único que lá está), mas nem a bloquista se livra de um ou outro recado. “Candidaturas de esquerda que surgiram depois da minha não contribuíram para a convergência. Eu acho que isso é um dado objetivo, nem sequer é uma crítica”, chegou a dizer. O comunista considera que cabe à antiga coordenadora do Bloco (e também a Jorge Pinto) explicar porque avançaram para a corrida quando já havia uma candidatura de esquerda no terreno. “Essas candidaturas é que devem ter o ónus de explicar porque é que não se identificam com a minha candidatura”.
O outro grande alvo, este mais tradicional, é um coletivo, e inclui quase metade das candidaturas que vão estar no boletim no dia 18 de janeiro. Os “candidatos do consenso neoliberal” — leia-se André Ventura, Luís Marques Mendes, Henrique Gouveia e Melo, João Cotrim Figueiredo e António José Seguro — são sempre assim referidos e nunca de forma individual, e são apontados por António Filipe como responsáveis pelos principais problemas do país, da crise da habitação à “degradação” do SNS, passando, claro, pelos salários baixos. “São candidatos que lamentam as consequências das políticas que defendem”, explica o comunista.
MANUEL FERNANDO ARAÚJO/LUSA
Jorge Pinto. Uma promessa de paz quebrada e uma mira apontada a António Filipe
Jorge Pinto não gosta de atacar os oponentes. Aliás, a certo ponto decretou que não iria “gastar nem mais um segundo a criticar outros candidatos de esquerda”… Mas a promessa acabou por cair em saco roto. Ainda que ligeiras, o candidato apoiado pelo Livre teceu algumas críticas e apontou algumas incoerências, sempre com uma base lógica por trás na tentativa de recusar ataques “gratuitos”.
De fora da lista de visados ficam apenas — pelo menos até ao momento — Henrique Gouveia e Melo e António José Seguro. Luís Marques Mendes e André Ventura também ouviram algumas críticas — por não terem pedido dispensa da reunião de Conselho de Estado e, o segundo, por “mentir diariamente”. Mas Jorge Pinto tem os alvos definidos e parece não estar a querer focar-se nestes dois candidatos.
Na sua mira têm estado principalmente Catarina Martins e António Filipe, que não aceitaram a proposta de desistência coletiva (em prol de António José Seguro) feita por Jorge Pinto. O candidato mais novo na corrida a Belém acusa-os de não terem “a mesma visão de urgência em dar resposta” à ameaça que o país corre: uma revisão Constitucional feita exclusivamente pela direita e extrema-direita.
Mas entre estes dois candidatos de esquerda, António Filipe tem mesmo sido o mais atacado. A tensão na relação destes dois candidatos tem crescido dia após dia, com Jorge Pinto a dizer que, se o candidato apoiado pelo PCP considera as suas propostas para o país “ideias giras” é porque “servem os portugueses”. “António Filipe está a reconhecer o mérito da minha candidatura”, troçou.
Nos últimos dias, na lista de alvos de Jorge Pinto tem estado também João Cotrim Figueiredo, ao dizer valorizar a Cultura (área que consta também na lista de prioridades de Jorge Pinto). Foi no debate com todos, na televisão, que o candidato apoiado pelo Livre apontou ao liberal: diz querer defender a Cultura, mas no processo de revisão constitucional, tentou retirar a “linha do direito ao acesso à cultura”, disse.
E talvez por Cotrim ser um dos candidatos que mais aparenta ter crescido nas últimas sondagens, Jorge Pinto não cessou os ataques aqui. Atirou ainda ao liberal por admitir que poderá ser um “aliado” do Governo caso Luís Montenegro adote medidas na área da Saúde, Economia e Segurança Social. Mas o “Presidente da República não tem de ser aliado de ninguém a não ser dos portugueses”, defendeu Jorge Pinto.