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Gouveia e Melo só atacou Ventura quando questionado diretamente pelos jornalistas.
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Gouveia e Melo só atacou Ventura quando questionado diretamente pelos jornalistas.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Gouveia e Melo só atacou Ventura quando questionado diretamente pelos jornalistas.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Gouveia e Melo poupa Ventura e dá força ao pacto de não agressão

Nos dois debates coletivos ficou evidente que os dois não se atacaram e, mesmo no frente-a-frente, foram brandos. Na campanha, almirante tem evitado atingir Ventura. A simpatia tem sido recíproca.

Henrique Gouveia e Melo tem evitado o confronto com André Ventura e, em seis dias de campanha oficial, já atacou dezenas de vezes os que chama de “candidatos do sistema”, mas tem poupado o líder do Chega. Mesmo quando questionado diretamente pelos jornalistas sobre Ventura, o almirante limita-se a afastar-se do discurso do Chega sem nunca personalizar o ataque no líder, como faz com Seguro e Mendes. A postura dá força à tese de que ambos têm um pacto de não-agressão a pensar em proveitos eleitorais mútuos.

Fontes da campanha negam haver uma intenção declarada de não atacar Ventura, mas apoiantes com vasta experiência política ouvidos pelo Observador admitem uma não-agressão estratégica. “Ele não ataca o Ventura, primeiro porque é o melhor para enfrentar à segunda volta; depois porque tem a ideia que a eleição em si, mesmo que o Ventura passe à segunda volta, é disputada a três: ele, Mendes e Seguro”, diz um desses apoiantes. “Há também muita gente do Chega que acha que o almirante é melhor para Presidente e o Ventura para primeiro-ministro. O que é que ele ganhava em atacá-lo?”, questiona outro apoiante.

As declarações têm, de facto, mostrado essa contenção e cuidado. No segundo dia oficial de campanha, em Campo Maior, o candidato foi questionado sobre Luís Montenegro o ter acusado de ser um populista como André Ventura. Gouveia e Melo preferiu atacar o chefe de Governo e negar ser populista sem sequer se referir ao líder do Chega: “O primeiro-ministro pode chamar-me o que quiser, mas eu não sou aquilo que ele me que chamar. Nunca fui populista e os senhores jornalistas sabem muito bem que eu digo um conjunto de coisas e adoto uma atitude que não tem nada a ver com o populismo. Não digo as coisas fáceis”.

No dia anterior, na Feira do Relógio, em Lisboa, foi várias vezes desafiado por feirantes ciganos a dizer mal de Ventura, mas Gouveia e Melo fugiu sempre à crítica direta ao líder do Chega. Sobre ciganos disse que “Portugal tem de avançar com todos os portugueses” e, sobre imigrantes, foi um pouco mais longe, mas sempre sem nomear o líder do Chega: “É preciso respeitar o imigrante, seja do Brasil, seja do Bangladesh ou do Paquistão”.

Mesmo quando desafiado pelos jornalistas a comentar as críticas que ouviu sobre Ventura, foi sempre destacando que apenas defende a “união“. Só foi mais longe quando disse que “a Presidência não é um lugar executivo; é mais um lugar de influência”. Acrescentado: “Pode ser uma influência positiva. Pode simplesmente não apagar-se ou ser, em casos extremos, uma influência negativa para o sistema”.

Na Feira de Reis, em Alijó, o almirante voltou a ser questionado diretamente sobre o líder do Chega e sobre se seria uma “perigo” ter um Presidente da República que apoia as políticas de Trump. Até na sequência do que se passou na Venezuela. Só, aí, e muito a custo, disse o nome de André Ventura, mas nunca para atacar as suas características pessoais — apenas para registar o que tem sido dito em todas as análises políticas. “Eu acho que André Ventura nunca será Presidente da República. Por isso, esse perigo não me parece um grande perigo“.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Uma espécie de pacto de não agressão

Entre os cinco candidatos favoritos à passagem à segunda volta, Ventura foi mesmo o mais poupado. Nem Cotrim escapou nos primeiros cinco dias de campanha oficial. Junto à estátua de Sá Carneiro, na segunda-feira, Gouveia e Melo atirou-se ao antigo presidente da IL: “Estes neoliberalismos que nos cercam, esquecem muitas que o mercado não resolve tudo”, disse. Voltaria a repetir a crítica a Cotrim num jantar em Fafe.

Horas depois de a campanha ter negado ao Observador não atacar Ventura, uma referência ao Chega foi, pela primeira vez, acrescentada às críticas aos que se arrogam ser herdeiros de Sá Carneiro. “Sá Carneiro era um verdadeiro democrata e um partido com ideias anti-democratas não é certamente o herdeiro de Sá Carneiro”, disse o almirante no discurso do jnatar com apoiantes. Foi a crítica mais contundente e, mesmo assim, foi mais dirigida ao Chega do que a Ventura. Mas foi, aparentemente, um caso isolado.

Até porque o próprio viria a confirmar, no dia seguinte, que estava de facto a evitar as críticas a Ventura. “Isso [atacar o líder do Chega] já fiz e não tenho de repetir”, respondeu aos jornalistas. “Se tivessem estado atentos ao percurso dos últimos 11 meses veriam que me distanciei. Disse que não era nenhum extremo, que era uma pessoa equilibrada e ao centro. Fi-lo na altura para me dar a conhecer aos portugueses.”

Houve também, fora do contexto de ações da “volta” da campanha, duas ocasiões em que Gouveia e Melo teve recentemente a oportunidade de atirar a André Ventura, mas optou por não fazê-lo: no Debate da Rádio e no debate nas televisões. Mais uma vez atacou, com alguma intensidade, Mendes e Seguro, mas poupou o líder do Chega. Mesmo quando dá exemplos de candidatos partidarizados, fala logo a seguir em PS e PSD, embora Seguro e Mendes sejam ex-líderes e Ventura seja atualmente o líder em funções.

Já tinha acontecido algo de muito semelhante numa fase mais prematura da pré-campanha. No frente a frente entre ambos, a generalidade das análises foi no sentido de um pacto de não-agressão entre ambos. Nestas três ocasiões, Ventura ou foi brando ou simplesmente não atacou Gouveia e Melo. E o mesmo para o almirante.

Esta ausência de ataques tem tido eco na campanha de André Ventura. O líder do Chega tem-se colocado acima do caos da campanha porque sente que beneficia com a troca de acusações em que se envolveram Mendes, Cotrim, Gouveia e Melo e, num registo diferente, António José Seguro. Apesar de tudo, Ventura encontrou uma formulação para atacar os candidatos apoiados por PS e PSD, deixando de lado grandes referências ao almirante.

Nem no momento mais difícil para Henrique Gouveia e Melo, quando a notícia do inquérito do Ministério Público aos contratos da Marinha se tornou no centro da campanha, Ventura aproveitou para atingir o militar. O mais longe que o líder do Chega foi para recordar os apoios que o almirante recolheu nesta candidatura, de Rui Rio a Isaltino Morais. Sem mais. É relativamente fácil perceber porquê: mesmo reduzidas, Ventura terá mais hipóteses de vencer a segunda volta se Gouveia e Melo estiver do outro lado. É bem possível que o almirante pense o mesmo do adversário.

Ventura procura reinar acima do caos

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