Duas horas de debate, oito candidatos, o troublemaker do costume: mesmo num formato que não privilegia as trocas mais acesas de argumentos, acabou por ser André Ventura a assumir o centro da discussão, distribuindo ataques contra alguns dos seus principais adversários. É um bom resumo do que pode vir a ser a história destas presidenciais: Ventura contra todos à primeira volta; todos contra Ventura na segunda.

No debate desta manhã, organizado pelo Observador, TSF, Antena 1 e Rádio Renascença, João Cotrim Figueiredo tentou assumir-se como o outro agitador de serviço. Quanto as demais candidatos, Luís Marques Mendes conseguiu uma espécie de feito: apesar de ter sido um dos mais visados pelos adversários, o antigo líder do PSD conseguiu sair do debate sem fazer uma única crítica aos adversários, cumprindo a estratégia que trazia para este confronto — Mendes não respondeu nem mesmo quando ouviu Henrique Gouveia e Melo a contestar a sua idoneidade.

À esquerda, uma dinâmica interessante: o debate começou com João Cotrim Figueiredo a desafiar Catarina Martins, António Filipe e Jorge Pinto a revelar se vão ou não desistir a favor do socialista António José Seguro. Os visados rejeitaram o repto (ainda que Jorge Pinto não tenha sido particularmente convincente), mas nunca atacar diretamente António José Seguro, que também poupou a esquerda à esquerda do PS.

André Ventura. O campeão dos ataques poupou Gouveia e Melo e Cotrim

Ataques a António Filipe: 3
Ataques a António José Seguro: 3
Ataques a Catarina Martins: 4
Ataques a Luís Marques Mendes: 3
Ataques a Jorge Pinto: 1

André Ventura foi o campeão dos ataques aos adversários, tendo poupado apenas Henrique Gouveia e Melo e João Cotrim Figueiredo (que, por sua vez, apontou a mira diversas vezes ao líder do Chega). Luís Marques Mendes foi um dos alvos preferenciais de Ventura, com tentativas claras de colar o adversário ao Governo e ao sistema, desde logo no tema da Justiça, onde deu conta de “estranheza” e “incoerência” ao ver o social-democrata apoiar uma reforma da justiça quando “o PSD está no Governo e não fez nada por isso, rejeitando todas as propostas no Parlamento que vão nesse sentido”. Apesar dos ataques em diferentes circunstâncias, Ventura deixou Mendes incólume no tema do lobby.

À esquerda, ninguém saiu ileso dos ataques de Ventura, não só quando entrou na discussão das desistências para António José Seguro, como quando atirou diretamente a Bloco de Esquerda e PCP. O ambiente aqueceu quando Catarina Martins, à boleia do tema do lobbying, referiu que o Chega foi financiado por privados ligados à privatização da TAP, e Ventura, picado, ripostou em força, atirando que o partido que lidera “não foi financiado a vender imóveis” e “muito menos a despedir grávidas”, uma referência a dois temas polémicos do Bloco de Esquerda. Catarina Martins não gostou, foi assegurando que era mentira, e Ventura voltou a reforçar que “os casos do Chega nunca chegarão ao saco de casos do Bloco de Esquerda”.

As acusações de mentiras estenderam-se ao confronto entre André Ventura e António José Seguro, desta vez quando o ex-líder socialista levou para o debate o almoço entre Gouveia e Melo e o presidente do Chega. André Ventura recuperou a temporada de debates (em que tinha assegurado que já esteve com Seguro e foi desmentido) e não foi de meias-palavras, acusando o adversário de “mentir” quando diz que nunca estiveram juntos. Enquanto Seguro tentou argumentar que não se encontraram “numa reunião ou encontro”, Ventura ia disparando que o socialista está a fazer-se de “arauto” e de “homem mais independente de todos”, assegurando que pode até dizer o dia e a hora. “É falso”, repetiu Seguro.

António Filipe. Um ataque, um alvo

Ataques a André Ventura: 1

António Filipe foi um dos candidatos da esquerda a apontar exclusivamente contra Ventura, mas fê-lo uma vez. Sobre a regulação do lobby, foi o único a mostrar-se contra, tal como aconteceu com o PCP na votação da lei Parlamento. Ainda assim, quis distanciar-se da ideia de que é um candidato partidário. “Eu não estou aqui pelo PCP, o André Ventura estará pelo Chega”, respondeu à provocação candidato que falou antes de si. “Sou apoiado com o Chega com muito gosto”, disse Ventura. “Não tenho vergonha do PCP, o senhor é que não tem vergonha nenhuma”, atirou António Filipe.

Quanto ao conteúdo da nova lei, o comunista defendeu que “as atividades de tráfico de influência que estão no limite da legalidade passam a ser completamente legais”. Numa ronda rápida sobre conflitos de interesses, falou sobre a sua experiência pessoal após uma longa carreira como deputado. “Nunca fiz negócios. A única coisa que fiz foi ser professor e nem as notas negociava com os meus alunos”, respondeu.

Sobre o Ministério Público, António Filipe considerou “legítimo” que o Presidente da República “manifeste preocupações face ao funcionamento da justiça”, ainda que deva “dar o exemplo” no respeito pela separação de poderes. Já na discussão do envio de tropas portuguesas para a Ucrânia, puxou dos seus galões de constitucionalista para dizer que um referendo sobre a matéria “nem sequer é constitucionalmente possível”, segundo os estudos que fez sobre a matéria.

Seguro. Gouveia e Melo era alvo escolhido, mas foi com Ventura que mais se irritou

Ataques a Luís Marques Mendes: 1
Ataques a Henrique Gouveia e Melo: 1
Ataques a André Ventura: 1

Houve apenas um ataque de António José Seguro que vinha preparado, os outros dois que desferiu neste debate foram mais reativos. Foi quando negou conversas privadas com Jorge Pinto e atirou uma indireta a Gouveia e Melo ao dizer que nunca tinha tido “um almoço secreto, promovido por um empresário, para discutir presidenciais”. O detalhe tornou a indireta bem direta, tanto que teve logo resposta do almirante.

De resto, o socialista poucas mais ofensivas fez neste debate, dirigindo-se apenas de forma muito ténue a Marques Mendes, ao lembrar o adversário que não esteve propriamente desligado da política nos últimos anos já que fazer parte do Conselho de Estado é um cargo político. E de forma mais irritada atirou-se a André Ventura quando este o acusou de mentir por ter dito que nunca estiveram juntos”. Nessa altura subiu o tom para reclamar ser “falso” o que dizia o adversário.

Os três alvos de Seguro são precisamente os nomes que, nesta altura, aparecem como principais adversários na corrida presidencial. E Gouveia e Melo à cabeça, já que tem reclamado ter apoios no PS, daí o ataque mais dirigido do candidato apoiado oficialmente pelo partido. Seguro procurou, no entanto, colocar-se acima dessa ligação óbvia e chegou mesmo a dizer que a regulamentação do lóbi já “vem tarde”, quando Ventura apontava dedo ao PS pelos atrasos. E sacudiu que António Costa seja um problema, ao admitir que se for eleito quer reunir-se com o antigo rival, que é agora presidente do Conselho Europeu, em Belém.

Catarina Martins. A reedição do duelo a dois

Ataques a André Ventura: 2

A candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda teve André Ventura como alvo preferencial. Quando criticava a “nefasta confusão” entre interesses económicos e poder político, lembrou que privados que estiveram relacionados com a privatização da TAP financiaram o Chega. Referia-se a Humberto Pedrosa, líder do grupo Barraqueiro, que também financiou PS e PSD no passado.

“Os casos do Chega nunca chegarão ao saco de casos do BE. Despediram grávidas e contrataram-na a si”, atirou Ventura. Na sequência, Catarina Martins disferia outro ataque ao candidato mais bem posicionado nas sondagens para vencer a primeira volta. “Cada vez que André Ventura é apertado inventa duas mentiras contra os adversários”, atirou a bloquista naquele que foi o despique mais longo entre dois candidatos neste primeiro confronto no modelo “todos contra todos”.

No entanto, a antiga coordenadora do BE também se irritou com uma pergunta feita pelos jornalistas durante o debate das rádios. Aconteceu logo de início, quando questionada sobre uma possível desistência a favor de António José Seguro, que Ventura denunciou como estando “combinada”. “Não vou desistir. Já me fizeram a pergunta várias vezes e respondi sempre o mesmo. Acho insultuoso que a pergunta continue.”

João Cotrim Figueiredo. Ventura como alvo preferencial

Ataques a André Ventura: 3
Ataques a António Filipe: 2
Ataques a António José Seguro: 1
Ataques a Catarina Martins: 2
Ataques a Jorge Pinto: 2

Empenhado em mostrar que está no top cinco dos que podem passar à segunda volta, fugir ao voto útil e captar o eleitorado de Ventura, João Cotrim Figueiredo não precisou de mais de dois segundos para descrever os adversários entre um “André Ventura que não quer ser Presidente da República” e os três (António Filipe, Catarina Martins e Jorge Pinto) que “terão de desistir” nas próximas dias semanas. Foi o protagonista por lançar o tema das desistências e, no fim, concluiu que nenhum dos adversários ia sair a meio da corrida.

O candidato apoiado pela Iniciativa Liberal, tanto no início como no fim do debate, procurou mostrar-se como a “única hipótese de verdadeira mudança” fazendo sempre uma comparação com os restantes — leia-se “os candidatos que não têm hipótese na primeira volta ou no candidato que não tem hipótese na segunda volta”. Até pediu desculpa a Ventura, mas garantiu estar a basear-se em sondagens (que mostram que o líder do Chega perderia numa segunda volta para qualquer adversário).

Mais do que este tipo de picardia sobre quem pode ou não fazer a diferença em termos eleitorais, Cotrim aproveitou ainda para atirar a Ventura na questão da Ucrânia, justificando que o apoio não pode ser baseado em quanto custa ou “se Zelensky é corrupto”. O presidente do Chega ainda se defendeu, sublinhando que é preciso garantir que “o dinheiro não ande a pagar coisas que não deve”, o que levou Cotrim a atirar: “Isso é perto do discurso de Putin, só falta chamá-los nazis.”

Jorge Pinto. O problema maior continua a ser a sombra da desistência

Ataques a André Ventura: 1

Jorge Pinto teve de entrar neste debate a desviar-se da suspeita de uma desistência da corrida a favor de António José Seguro, depois de um golpe de Cotrim Figueiredo. Acabou por não negar com todas as letras, preferindo outras formulações bem menos conclusivas: “Estou aqui para ser Presidente da República”; “Não me parece que seja tema para este debate”.

Sem a sombra totalmente desfeita, tentou passar por este debate a responder a tudo o que podia e ainda a tentar trazer para cima da mesa temas que não estiveram, como “o risco de uma revisão constitucional feita apenas de um lado do espectro político”. Não entrou em picardias e apenas se contabiliza um ataque muito ligeiro, quando recusou responder a provocações de André Ventura.

De resto ficou a zero, não atacou ninguém e também não se destacou de forma muito vincada em nenhum dos temas. A sua intervenção mais veemente foi quando falou no Ministério Público e disse estar “farto” de “a dia de eleições, haver sempre notícias mais ou menos filtradas pelo MP sobre alguém que vai e votos e muitas vezes sem fundamento”.

Henrique Gouveia e Melo. Ataques vagos e Mendes na mira

Luís Marques Mendes: 1

A contabilidade só mostra um momento de tensão, mas a conta é difícil de fazer: na verdade, o almirante lançou vários ataques sem escolher destinatário (e recusando mesmo revelar a quem se referia de cada vez que era desafiado a fazê-lo), o que torna mais complicado explicar quem escolheu como adversário principal – embora seja seguro concluir que a maior parte das farpas foram atiradas na direção de Marques Mendes.

O social democrata, que tem sido o principal alvo de Gouveia e Melo nesta campanha, ouviu desde logo referências do almirante à “opacidade sobre os interesses” (presumivelmente os de Marques Mendes): “Não podemos fingir que não existem problemas de opacidade.  Claro que se pode estar na política e ter negócios, desde que se seja claro”.

Houve outros momentos em que Gouveia e Melo lançou ataques, mas sem especificar, mais uma vez, a quem se referia em concreto – falou de candidatos que estão há muitos anos no sistema político, que “tiveram responsabilidades partidárias” e “deviam ter atuado no devido tempo” mas agora só fazem uma “conversa redonda sobre princípios bonitos” no que toca à reforma da Justiça — “há muitos anos que este problema existe e ninguém faz nada”. Poderia ser um ataque dirigido a Mendes ou até a Seguro, mas ninguém acusou o toque.

Outro dos principais alvos do almirante não estava na sala: Gouveia e Melo não poupou o estado da justiça, dizendo ver “sinais de alarme” na demora dos processos, na sua opacidade e na forma como parecem “críticos do sistema político”. Já quando foi interpelado – nomeadamente por Seguro, que logo no arranque usou o “almoço secreto” com Ventura como arma de arremesso – arrumou o assunto rapidamente: “São almoços privados, não são secretos. Sobre motivos de almoços, cada um tem os seus e os meus são conhecer os atores políticos”.

Luís Marques Mendes. A tentativa de passar por entre os pingos da chuva

Zero ataques

Tem sido o principal alvo de vários adversários durante a campanha, sendo questionado e atacado com frequência pelas suas atividades como consultor (Gouveia e Melo preferiu rotulá-lo como “lobista e facilitador”) e por não divulgar – por motivos de sigilo, defende – os seus clientes na Abreu Advogados, ao contrário do que fez com a sociedade familiar que entretanto dissolveu.

Talvez por isso, Mendes quis resguardar-se neste debate. Tendo a vantagem de ter sido muito menos atacado do que nestas semanas de pré-campanha, também não incentivou ou alimentou qualquer bate-boca e preferiu deixar apenas algumas garantias, em resposta às insinuações que Gouveia e Melo ia atirando sem o interpelar diretamente: “Nunca tive nenhum problema com a Autoridade Tributária nem com o Ministério Público. Não há nenhuma opacidade de espécie nenhuma.”

O que Mendes fez foi lançar de volta outro ataque para o ar, também sem destinatário especificado mas desenhado para atingir Gouveia e Melo, ao defender que em democracia deve haver democracia e escrutínio mas não “devassa, insinuação e suspeita”, como tem existido nesta campanha. “Não podemos dizer que os melhores devem vir para a política e depois criar um clima que tem o efeito contrário”, avisou, pedindo uma “reflexão” sobre isto aos adversários. Seguiu focado em falar nas suas propostas para a Presidência, a começar pelo Conselho de Estado que quer conduzir sobre a reforma da Justiça, e sempre a evitar meter-se em discussões que lhe complicassem a tarefa. Os adversários ajudaram.