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ZEIN AL-RIFAI/AFP/Getty Images

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Quem são, o que querem e o que fazem os rebeldes de Ghouta que combatem Assad?

Entre os rebeldes de Ghouta que combatem Assad, há desde grupos jihadistas a organizações que já entraram nas negociações de paz em Genebra. Tal como o regime, atropelam os Direitos Humanos há anos.

Uma cidade de cada vez. Desde o início, a guerra na Síria tem consistido em combates localizados. Na sua fase inicial, em 2011, a insurreição de vários grupos rebeldes levou à perda de cidades inteiras por parte do regime de Bashar al-Assad, que chegou a estar confinado a um corredor na zona Oeste do país. Latakia (o principal bastião pró-Assad) e a capital Damasco serviam então de jóias numa coroa que começava a escapar das mãos do ditador sírio. A queda do regime parecia estar por momentos.

Porém, com a intervenção russa e o crescimento de conflitos entre vários grupos rebeldes, que acabaram por ter uma guerra civil dentro de uma guerra civil, o país começou a voltar para as mãos de Bashar al-Assad. Homs, Alepo, Daraya, Raqqa. Aos poucos, impondo aos rebeldes e às populações violentos cercos, a Rússia ajudou o regime sírio a retomar grande parte do controlo do seu país. Sete anos depois do início da guerra, Bashar al-Assad está mais perto de voltar a controlar o país que o pai, Hafez al-Assad, lhe deixou em herança.

Mas para dar a guerra como vencida Bashar al-Assad ainda tem de voltar a controlar aquele que é um dos principais centros da revolução síria e onde os grupos da oposição são mais bem organizados: a região de Ghouta, mesmo aos pés de Damasco.

“A única coisa que o regime sírio pensa quando vê os rebeldes é: ‘Temos de destruí-los’. Assad e os seus aliados não combatem por razões ideológicas, eles combatem por razões militares. Mesmo que os rebeldes fossem sociais-democratas suecos eles iam continuar a querer rebentar com eles todos.”
Thomas Pierret, investigador sénior do Instituto de Investigação e Estudos do Mundo Árabe e Muçulmano, da Universidade de Aix-Marseille

A região de Ghouta é neste momento um dos pontos mais quentes da guerra na Síria e o seu nome figura já no negro glossário deste conflito onde já morreram 350 mil pessoas. Situada junto Damasco — Zamalka, uma das cidades desta região que fica mais perto da capital, está a menos de 15 quilómetros em linha reta —, estima-se que ali vivam cerca de 400 mil pessoas, sujeitas a um dos cercos mais duradouros desta guerra. Nas última semanas, têm sido alvo dos ataques mais intensos do conflito, por parte de Bashar al-Assad.

Da parte de Damasco e dos seus aliados, os bombardeamentos têm uma justificação dita a uma voz: Ghouta é dominada por terroristas, e estes têm de desaparecer.

“Vamos continuar a lutar contra o terrorismo”, disse Bashar al-Assad, perante o cessar de hostilidades declarado pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, que levou menos de um dia até ser violado. “A operação de Ghouta é a continuação dessa luta contra o terrorismo.” E este domingo, numa visita às tropas a combater em Ghouta, disse-lhes: “Esta batalha é maior do que a Síria, é uma guerra global, onde cada bala que vocês disparam para matar um terrorista muda o equilíbrio do poder internacional.”

Da parte da Rússia, o tom foi ainda mais claro. “Como é sabido, pelo menos na Rússia sabemo-lo muito bem, há bombas que até o território da Embaixada da Rússia [em Damasco] atingem. Será que vamos tolerar isto para sempre? Não, claro que não”, disse Vladimir Putin. E o chefe da diplomacia russa comentou os bombardeamentos a Ghouta com uma frase paradigmática do pensamento de Bashar al-Assad e da Rússia nesta guerra: “Achamos inaceitável distinguir entre bons terroristas e maus terroristas.”

Desde que a Rússia entrou na guerra da Síria para ajudar o exército leal a Assad, o regime sírio tem conseguido virar a seu favor uma guerra à qual perdia o controlo (LOUAI BESHARA/AFP/Getty Images)

LOUAI BESHARA/AFP/Getty Images

Assad e Putin não ignoram que estão a morrer — e a matar — civis em Ghouta. Porém, também aí explicam que estes são usados como “escudos humanos” — uma prática ilegal, proibida pela Convenção de Genebra, em que um grupo armado usa a presença de civis e de prisioneiros de guerra em alvos militares, como forma de dissuadir um ataque inimigo.

Esta não é, porém, uma avaliação consensual. Entre os vários especialistas consultados pelo Observador, todos lançam várias dúvidas em torno das justificações usadas pelo regime sírio e da Rússia para justificar a sua atuação no terreno, agora que estão na mó de cima desta guerra.

“Não são escudos humanos porque eles não estão a bombardear apenas alvos militares. Estão a bombardear hospitais e mercados. Isso são zonas civis”, diz ao Observador Thomas Pierret, investigador sénior do Instituto de Investigação e Estudos do Mundo Árabe e Muçulmano, da Universidade de Aix-Marseille, e especialista no estudo dos vários grupos que combatem Bashar al-Assad na Síria.

“A única coisa que o regime sírio pensa quando vê os rebeldes é: ‘Temos de destruí-los’. Assad e os seus aliados não combatem por razões ideológicas, eles combatem por razões militares. Mesmo que os rebeldes fossem sociais-democratas suecos eles iam continuar a querer rebentar com eles todos”, garante o académico belga.

Mas, se não são sociais-democratas suecos, o que são os grupos armados que ainda resistem a Bashar al-Assad em Ghouta e que ali mandam desde 2012? O que pensam, o que defendem, como agem? Como é que se financiam?

Jihadistas, islamitas moderados ou adversários do Estado Islâmico

Neste momento, quatro grupos armados resistem a Bashar al-Assad em Ghouta. Do mais pequeno para o maior: Hayat Tahrir al-Sham, Ahrar al-Sham, Faylaq al-Rahman e Jaysh al-Islam.

O Hayat Tahrir al-Sham, muitas vezes designado pela sigla HTS, é um grupo que surge da Frente al-Nusra, nome pelo qual era conhecida a célula da al-Qaeda na Síria. Estima-se que tenham entre 200 a 300 soldados, sendo que os relatos mais recentes apontam para que, na região de Ghouta, estejam confinados apenas a Harasta, uma cidade com cerca de 30 mil habitantes. Neste grupo, que tem maior força no Norte da Síria, só entram soldados que sejam recomendados por alguém de dentro.

Além de ser considerado um grupo terrorista pela Síria e pela Rússia, o HTS também merece essa designação por parte dos EUA. Porém, a União Europeia ainda não acompanha esta designação, apesar de incluir a Frente al-Nusra na lista de terroristas. Num comunicado emitido a 6 de março, a Alta Representante da União para os Negócios Estrangeiros, Federica Mogherini, dizia que “a mera presença do HTS em Ghouta oriental não pode justificar a continuação de bombardeamentos indiscriminados contra a população civil e contra estruturas hospitalares, como está a acontecer”.

Ao Observador, Fadi Hussein, ativista sírio e investigador da guerra no seu país, do qual fugiu em 2013 depois de ter sido preso em Damasco por participar num protesto, não hesita em designar este grupo de “terrorista”. “Custa-me usar esse tipo de palavra para falar de pessoas que estão a lutar contra o regime sírio, mas, se pensarmos friamente, eles são terroristas, até porque mantêm a ideologia salafista da al-Qaeda”, diz ao Observador numa conversa por telefone, a partir de Los Angeles, cidade onde vive desde 2014.

Thomas Pierret refere por sua vez que, quando comparado com a maioria dos restantes grupos, este é um dos mais radicais. “Eles têm um mundo e uma ideologia totalmente à parte. É a típica ideologia jihadista, mesmo que recentemente tenham procurado mudar o seu discurso e parecer que estão alinhados com os ideais da revolução”, diz.

Entre os quatro grupos armados que restam em Ghouta, dois são jihadistas (HTS e Ahrar al-Sham) e os outros dois já estiveram sentados nas negociações de paz de Genebra, com mediação das Nações Unidas. O Faylaq al-Rahman é o mais moderado de todos, mas o Jaysh al-Islam é o maior — e mais bem organizado.

Numa linha semelhante ao HTS está o Ahrar al-Sham, por vezes designado como Harakat Sham al-Islam, que é unanimemente considerado pela Síria, Rússia, EUA e União Europeia como um grupo terrorista. Com origens em Marrocos, este grupo já foi aliado da Frente al-Nusra e ajudou o Estado Islâmico a conquistar a cidade de Raqqa, que veio a ser a capital daquele grupo terrorista na Síria. Vários relatórios indicam que receberam financiamento da Turquia, do Qatar e do Kuwait. Neste último caso, destacaram-se os donativos de privados, como os xeques Hajjaj al-Ajmi e Irshid al-Hajri, sobretudo nos primeiros anos da guerra. Após um donativo de 400 mil dólares, o Ahrar al-Sham agradeceu publicamente àqueles dois homens: “Que Alá os recompense e a todos os que estão por trás deles com as melhores das recompensas.”

Com o agudizar da guerra, passaram a procurar outras fontes de rendimento. Sequestros, extorsão, imposição de tarifas e exigência de pagamento para atravessar os seus territórios são algumas das formas que o Ahrar al-Sham encontrou para financiar os seus esforços de guerra.

Fadi Hussein explica que “nos últimos dois ou três anos também têm procurado mudar a imagem que passam para o mundo e começaram a colocar a bandeira da revolução ao lado das suas próprias bandeiras”. No entanto, este grupo pauta-se por uma imposição dura e radical da sharia às populações que vivem sob o seu controlo. “Já vimos muitas imagens do Ahrar al-Sham a castigar pessoas em público só porque não foram rezar”, acrescenta Fadi Hussein..

Além de combaterem no terreno, o Jaysh al-Islam e o Faylaq al-Rahman participaram nas negociações de paz em Genebra (FABRICE COFFRINI/AFP/Getty Images)

FABRICE COFFRINI/AFP/Getty Images

O segundo maior grupo em Ghouta é o Faylaq al-Rahman, que só a Síria e a Rússia consideram terrorista. Este grupo surgiu em Ghouta e é ali que concentra grande parte do seu poder. Aliado do Exército Sírio Livre e da Irmandade Muçulmana, rejeita o rótulo de organização jihadista, apesar de ter um cunho islamita e um braço religioso. Esta última componente foi fundada por desertores do exército sírio, que conseguiram logo em 2012 estabelecer-se em Ghouta. Fahdi Hussein descreve este grupo como “o mais moderado em Ghouta”. Em 2015 estiveram sentados à mesa das negociações de paz em Genebra — mas faltaram às de Astana, em 2017.

A permanência do Faylaq al-Rahman naquela região é marcada pelo combate ao regime de Bashar al-Assad, mas não de forma exclusiva. Além de ter combatido o Estado Islâmico, o Faylaq al-Rahman esteve envolvido em abril de 2016 num sangrento conflito com o Jaysh al-Islam, o maior grupo armado de Ghouta, naquilo que foi uma disputa de território na região. Neste conflito, o Faylaq al-Rahman teve o auxílio dos jihadistas do HTS. “Tiveram uma guerra civil dentro de uma guerra civil”, explica Pierre Thomas. Sensivelmente um mês depois do estalar do confronto entre o Faylaq al-Rahman e o Jaysh al-Islam, em maio, ambas as partes chegaram a um acordo de cessar-fogo.

Por fim, há o Jaysh al-Islam, cujo nome pode ser traduzido para Exército do Islão. Este é o maior e mais bem organizado entre os rebeldes de Ghouta Oriental — e, apesar de a instabilidade do conflito não permitir grandes certezas quanto ao número de soldados a combater por cada um dos lados, os especialistas ouvidos pelo Observador arriscam números entre os 8 e os 12 mil no que toca ao Jaysh al-Islam em Ghouta. A Síria e a Rússia consideram-nos terroristas — mas os EUA e a UE não.

"A situação na Síria é um pouco semelhante ao que muito provavelmente aconteceria nos EUA. Se de repente um grupo começasse a disparar contra uma aldeia ou uma pequena cidade, as pessoas que vivessem lá dentro iam pegar nas suas armas e defender o que têm a defender.”
Fadi Hussein, ativista sírio e investigador da guerra na Síria

Apenas Fadi Hussein discorda dessa avaliação, elevando o número para 40 mil soldados de facto. Isto porque, explica, é impossível não contar com civis que esporadicamente se juntam aos combates. “Há muitas pessoas envolvidas com eles. Quando acontece alguma coisa numa aldeia, num sítio, pequeno, pode haver 200 ou 300 combatentes do Jaysh al-Islam aos quais se juntam o dobro disso só em civis”, explica. “Curiosamente, a situação é um pouco semelhante ao que muito provavelmente aconteceria aqui nos EUA. Se de repente um grupo começasse a disparar contra uma aldeia ou uma pequena cidade, as pessoas que vivessem lá dentro iam pegar nas suas armas e defender o que têm a defender.”

Ao Observador, o investigador e diretor da consultora MENA Analysis, Tore Hamming, explica que “religiosamente o Jaysh al-Islam é um grupo muito conservador” mas rejeita a ideia de se tratar de um grupo terrorista. “O terrorismo é uma tática e para levá-la para a frente é preciso fazer ataques terroristas. E isso é algo que eles não fazem nem fizeram, não passa pelas prioridades deles”, explica, numa entrevista por Skype. Ainda assim, estabelece uma ligação entre o Jaysh al-Islam e os talibã, do Afeganistão. “Além de serem muito conservadores, são os dois muito nacionalistas”, explica.

Entre os grupos armados que combate Assad em Ghouta, o Jaysh al-Islam é o mais bem organizado. Foi fundado por Zahran Alloush (segundo da esquerda), morto em 2015 (ABD DOUMANY/AFP/Getty Images)

ABD DOUMANY/AFP/Getty Images

Desde que foi formado, em 2011, o Jaysh al-Islam tem mantido uma estrutura militar e uma estrutura política. Esta última chega a sentar-se à mesa para negociar com as várias partes no conflito, incluindo o governo sírio e a Rússia — já o fez em Genebra e em Astana, por exemplo.

Porém, explica Thomas Pierret, a origem do grupo é precisamente religiosa. “Antes da guerra, eram missionários”, explica. O grupo foi liderado desde o seu início por Zahran Alloush, filho de Abdulla Alloush, que antes da guerra era diretor de um centro de estudos corânicos em Damasco. Os especialistas apontam que, apesar da morte de Zahran Alloush na sequência de um bombardeamento aéreo do exército sírio, o grupo não deixou de ser o mais bem organizado entre aqueles que permanecem em Ghouta. E, dentro da sua organização, há violações graves dos Direitos Humanos dos civis que vivem sob o seu controlo.

Tortura, fome, crimes de guerra: como alguns rebeldes violam os Direitos Humanos

“A maior parte dos civis detesta tanto os rebeldes como detesta Assad”, explica ao Observador Fadi Hussein. “Não há liberdade em Ghouta, ninguém é verdadeiramente livre ali. Mas eles não têm outra escolha, porque do outro lado têm Assad e a Rússia, que estão constantemente a bombardeá-los.”

É também essa imagem que Diana Semaan, que investiga para a Amnistia Internacional a guerra civil da Síria desde o seu início, explica ao Observador, numa entrevista por Skype. Depois de recusar atribuir rótulos aos rebeldes em Ghouta — “Não dizemos se são moderados, islamistas ou extremistas, não é essa a nossa função” — refere: “O que nós sabemos é que os civis estão presos entre duas partes de um conflito sangrento.”

Um dos objetivos que levam a Amnistia Internacional a apostar na pesquisa de violação de Direitos Humanos por parte do regime e dos grupos de rebeldes armados é o de juntar elementos suficientes para serem responsabilizados no futuro. “É importante divulgar e documentar todas as violações destes grupos armados, tal como do governo sírio, porque um dia eles podem vir a fazer parte de uma transição política da guerra para a paz”, explica Diana Semaan.

“Há muita documentação que prova que a maioria destes grupos armados cometera crimes de guerra. Por isso é que temos apelado várias vezes aos países que os financiam para deixaram de fazê-lo e também temos instado os grupos armados a pararem de cometer aqueles crimes. Infelizmente, isso não está a acontecer”, sublinha a investigadora da Amnistia Internacional.

“É importante divulgar e documentar todas as violações destes grupos armados, tal como do governo sírio, porque um dia eles podem vir a fazer parte de uma transição política da guerra para a paz.”
Diana Semaan, investigadora da Amnistia Internacional para a Síria

No relatório “Left To Die Under Siege”, publicado pela Amnistia Internacional em 2015, são referidas as várias violações aos Direitos Humanos que, a par do regime sírio, os rebeldes impõem às populações que controlam.

“Os cercos prolongados que o governo sírio e os grupos armados não-estatais impõem aos civis retira-lhes acesso a comida, necessidades básicas ou assistência vital, violando a legislação internacional e de Direitos Humanos”, lê-se naquele relatório.

Uma dessas violações consiste naquilo a que a Amnistia Internacional chamou de “economia de guerra”. “A economia de guerra que existe atualmente em Ghouta Oriental é gerida por ‘senhoras das guerra’, incluindo contrabandistas, outros membros de grupos armados e por agentes do governo sírio”, lê-se naquele relatório que, apesar de ser 2015, é em grande parte atual, segundo garante Diana Semaan, uma das autoras.

“Residentes, assistentes humanitários e ativistas disseram à Amnistia Internacional que aqueles que têm bons contactos com governo sírio e com os grupos armados usam-nos para trazer comida, combustível e medicamentos ao pagar subornos a soldados responsáveis pelos checkpoints. Os bens que eles trazem são mais tarde vendidos a preços altamente inflacionados”, diz o relatório da Amnistia Internacional.

Crianças enchem recipientes de água potável em Douma, cidade de Ghouta que o exército da Síria está a conseguir reconquistar lentamente ao Jaysh al-Islam (HAMZA AL-AJWEH/AFP/Getty Images)

HAMZA AL-AJWEH/AFP/Getty Images

No caso específico do Jaysh al-Islam, este grupo armado impõe “tarifas e impostos informais” nos produtos que entram nas zonas que tem sob controlo, o que resulta no encarecimento de comida, combustível e medicamentos, que ficam a preços inalcançáveis para a maioria dos civis.

À Amnistia Internacional, um ativista de Douma, uma das cidades de Ghouta sob controlo do Jaysh al-Islam, conta como aquele grupo armado recorre a métodos coercivos para inflacionar o preço da comida e outros bens essenciais. “Durante o inverno, o Jaysh al-Islam vai buscar a maior parte dos géneros ao mercado, o que aumenta os preços para o triplo. Uma pessoa vai dormir e no dia a seguir acorda e descobre que não há comida e os preços estão altos”, lê-se no relatório.

“Quando sabiam que a procura era alta, escondiam produtos nos armazéns para os preços ficarem mais caros. Quando sabem que a procura é baixa, fazem o oposto: metem os produtos no mercado para poderem escoar os armazéns”, explica Diana Semaan ao Observador. “Estão a manipular o mercado.”

Além disso, o Jaysh al-Islam tem nos seus territórios centros de detenção. Segundo os vários relatos que surgem do terreno, muitos daqueles que estão ali encarcerados são vítimas de detenções arbitrárias, sendo ali vítimas de maus-tratos e até de tortura — acusações que são extensíveis ao regime de Bashar al-Assad. Em 2015, chegaram a ser divulgados vídeos que mostravam prisioneiros alauítas (etnia xiita em minoria na Síria e da qual faz parte Bashar al-Assad) fechados em jaulas em zonas civis de Ghouta, principalmente mercados ou bairros residenciais. Além do fator de humilhação do inimigo, esta era então uma estratégia usado pelo Jaysh al-Islam dissuadir um ataque das forças do regime.

Além de ser difícil estar em Ghouta, também é difícil sair de lá. Em 2015, a Amnistia Internacional dava voz a um residente de Ghouta, que contava como era difícil sair daquela cidade. “Quem me dera poder sair”, diz. “Mesmo que eu conseguisse subornar as autoridades do governo, o Jaysh al-Islam nunca me deixaria sair. As pessoas que tentaram ter permissão para sair foram todas presas.”

Desde o dia 15 de março, a Síria e a Rússia abriram um corredor humanitário, por onde já terão saído quase 20 mil civis — um número tímido, tendo em vista que se estima que vivam 400 mil pessoas em todas as cidades, vilas e aldeias que compõem a região de Ghouta.

As evacuações anunciadas na semana passada são desvalorizadas pelo Centro de Documentação de Violações na Síria (CDVS), em email enviado ao Observador. Quando perguntamos por que razão não há mais civis a sair de Ghouta, Mona Zeineddine, diretora de comunicações do CDVS, responde: “As pessoas não estão a conseguir sair de Ghouta oriental porque o regime tem mantido um cerco apertado e não está a permitir que as pessoas saiam através de rotas da sua escolha. Muitos receiam ser punidos assim que cheguem a Damasco, o que acontece particularmente com médicos e com ativistas.”

Soldados do exército sírio festejam depois de capturarem a cidade de Saqba, na região de Ghouta, ao Faylaq al-Rahman (LOUAI BESHARA/AFP/Getty Images)

LOUAI BESHARA/AFP/Getty Images

Embora reconheça que os grupos rebeldes são responsáveis por violações de Direitos Humanos em Ghouta, Thomas Pierret rejeita colocar os rebeldes e o regime de Bashar al-Assad no mesmo patamar. “Muito do que se fala de detenções arbitrárias e de repressão é verdadeiro, mas não estou nada confortável com a ideia de pôr isso lado a lado com os bombardeamentos do regime, como se fossem a mesma coisa”, diz.

Segundo o investigador belga, os rebeldes instauraram um “sistema com vários centros de poder” em Ghouta, onde se destacam conselhos eleitos para gerir áreas como a justiça ou religião. “Claro que depois estes conselhos são sujeitos a pressão por parte dos grupos armados, isso é evidente, mas é uma atmosfera muito mais pluralista do que em Damasco, onde só há uma cor”, sublinha.

“Eles estão sob um cerco militar do regime”, insiste Thomas Pierret. “Essa é a primeira e principal razão porque estão presos em Ghouta. O resto veio depois.”

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