Há um mês que os socialistas andam às turras. A luta dos Antónios começou pouco fraterna. Dentro das reuniões tratam-se por camaradas, mas António José Seguro e António Costa já são, em todos os lados da barricada (dentro das reuniões partidárias, para a comunicação social e nas redes sociais), adversários com tácticas bem apuradas. Objetivo: ganhar o partido e ser o candidato do PS a primeiro-ministro. Resultado: o PS está dividido numa luta pouco fraterna, de consequências imprevisíveis para o dia seguinte. Como diria Jorge Coelho, numa versão adaptada: Quem se meter com o PS nas redes, leva!

Nas reuniões partidárias já houve incidentes físicos (Braga) e insultos (Ermesinde). Nas declarações públicas de ambos já houve ataques pessoais e pedidos para que esses ataques parassem, de parte a parte. Nas redes sociais (e blogosfera), as palavras têm sido mais duras. E apesar de o tempo ainda não ser de verão, as temperaturas têm estado bem quentes entre os socialistas das duas fações. E nem o próprio líder do partido se colocou de fora.

Tó Zé sondagens 7-6

O desabafo nas redes de António José Seguro caiu mal do outro lado. Costa, na última comissão nacional de Ermesinde, chegou mesmo a dizer que só participaria em debates se acabassem os “ataques pessoais”. Mas em defesa do autarca saltaram vários apoiantes, que fizeram trocadilhos com o nome do líder e usaram até a expressão usada pelo próprio Seguro: “Habituem-se”.

José Lello 7-6

Já Isabel Moreira preferiu retirar conclusões das sondagens:

Isabel

O PS desceu nas sondagens. Se do lado dos apoiantes de Costa isso significa que o PS não está com força suficiente, do lado de Seguro isso só quer dizer que a disponibilidade do autarca deu cabo do trabalho feito até aqui.

Miguel Laranjeiro

No debate interno, a guerra presa pela interpretação dos estatutos do partido, que dominou as duas comissões nacionais realizadas em três semanas, aqueceu as trocas de argumentos nas redes. O deputado Carlos Zorrinho, que apoia António José Seguro, relembrava outras guerras fraticidas.

Carlos zorrinho 22-06

No parlamento e no facebook

Mas não há volta a dar. Na batalha pela liderança do PS, seja em frente aos microfones ou nos bastidores das reuniões partidárias, não dá para um militante ficar no limbo: ou escolhe António José Seguro ou escolhe António Costa. E mais de metade da bancada parlamentar (45 deputados) usou um abaixo-assinado como posição de força para pedir a Maria de Belém, presidente do partido, para marcar um congresso extraordinário em vez de primárias, apoiando a posição de António Costa. E nas redes, o ataque foi direto por parte da direção. O secretário-nacional do PS, Eurico Brilhante Dias, tem sido dos mais ativos na defesa de Seguro. E usou essa iniciativa dos deputados para dizer que estes estavam “desorientados” e “ansiosos”.

Reação eurico brilhante dias a abaixo-assinado de deputados

Ana Paula Vitorino, uma das deputadas que apoia António Costa e que assinou o abaixo-assinado não gostou e respondeu. Eurico não se calou e voltou ao ataque

Eurico comentário

A resposta não se fez esperar. As críticas a estes deputados por parte do membro da direção mereceu contra-ataque imediato. É que estes deputados foram os mesmos que assinaram em 2012 um pedido de fiscalização preventiva para que o Tribunal Constitucional analisasse o Orçamento do Estado. Iniciativa que não foi apoiada pela direção. Usaram o trunfo, para dizer que se agora os apoiantes de António José Seguro os criticam por não fazerem frente ao Governo, foram eles que fizeram frente ao Governo – sem apoio de Seguro.Joao Galamba 14-6

As críticas fizeram-se também sentir quando António José Seguro decidiu faltar ao debate da moção de censura do PCP, alegando que os comunistas estavam a fazer um “frete” ao Governo. Seguro falou ao mesmo tempo nos corredores da Assembleia e a justificação não passou ao lado da bancada parlamentar.

Galamba debate 30-5

Concurso de misses?

Enquanto no debate interno se continuava a discutir a possibilidade de um congresso extraordinário com a possibilidade de eleições diretas antes, a direção do PS fazia passar a ideia de que queria debates com António Costa e este os recusava. O autarca disse que era prematuro fazer debates, mas a recusa na altura fez disparar a ironia no Rato.

Eurico Brilhante 15-6

Não foi o único comentário do dirigente socialista. Dias mais tarde, depois das agressões em Braga, na comissão política da federação que discutiu uma resolução para a realização de um congresso extraordinário, Eurico Brilhante Dias lamentava as “cenas tristes” e as “votações fantasmas”, além das “agressões a funcionários do partidos”. Neste caso, um tweet do deputado João Galamba dando conta dos resultados terá sido publicado antes de ter havido votação, o que deixou os socialistas do lado de Seguro a lançar acusações.

Eurico brilhante 21-6

Os comentários constantes de Brilhante Dias no facebook levaram José Lello a dirigir-se diretamente ao secretário nacional do partido.

Lello 18-6

A batalha entre os dois lados da disputa pela liderança do PS é indisfarçável. E tornou-se pessoal.

a falsa partida NO TWITTER

Ainda mal o Observador escrevia a primeira notícia e já a campanha arrancava nas redes sociais. Os apoiantes de António Costa criaram a conta “Capacitar Portugal”.

https://twitter.com/CapacitarPT/status/471258912717824000/photo/1

Continuou rapidamente… e deu polémica. Num blog de apoio ao autarca de Lisboa – entretanto o blog foi encerrado -, um apoiante comparou Seguro a Hitler. Entretanto a conta foi fechada.

APOIOS RÁPIDOS

Assim que António Costa mostrou disponibilidade para ser líder do partido – ainda não se colocava a questão das eleições primárias para a escolha do candidato a primeiro-ministro -, vários dos que o tinham apoiado há um ano, fizeram questão de mostrar apoio público.

Foi o caso do deputado Pedro Marques…

Pedro Marques 28-5

… da deputada Isabel Moreira

Isabel Moreira apoia costa

e do deputado João Galamba.

joao galamba 27-5

E se uns apoiam, os outros chamam à disponibilidade de Costa uma “encenação” ao estilo de D. Sebastião.

João soares 30-5

Foram vários os episódios que mereceram ironias nas redes sociais de parte a parte. Desde posts sobre a quantidade de militantes presentes em iniciativas de cada um dos candidatos a candidatos a primeiro-ministro, a discussões sobre os estatutos do partido. Os incidentes já mereceram reparos da presidente do partido, Maria de Belém, que pediu em comunicado que “todas e todos os envolvidos no debate interno se pautem por regras de conduta à altura das responsabilidades cívicas e de cidadania que nos honram como partido fundador da democracia em Portugal”.

Seguro seguiu-lhe o exemplo e na entrevista que deu esta terça-feira à Rádio Renascença lembrou a crispação que tem existido no partido e, referindo-se não só aos incidentes de Braga como também aos insultos de Ermesinde e à campanha “nas redes sociais contra” si, disse que estes “são censuráveis e devem ser evitados”. Costa, na SIC-Notícias, disse também ontem que a campanha tem de ser mais serena. Nas intenções, empatam. O que parece faltar é uma ordem às tropas. Ainda faltam três meses para as primárias.