Armindo Jesus faz hemodiálise desde os 76 anos. Todos os dias. Há oito anos. Às oito da manhã. A rotina tem sido sempre igual e, agora aos 84 anos, Armindo sabe-a de cor. Levantar-se, vestir-se e esperar o transporte que o leve do bairro do Forno da Cal, uma pequena localidade dos arredores de Alcácer do Sal, até ao centro de saúde de Grândola para o tratamento. Esta quinta-feira achava que a espera seria em vão: todas as estradas estavam cortadas, transformadas em rios com a subida do Sado em mais de dois metros. E a aldeia ficou completamente isolada.
Cercado por água e com a casa sem eletricidade ou qualquer acesso por terra, Armindo só pensava naquela rotina que sabe que não pode falhar: todos os dias, às oito da manhã, ir ao centro de saúde para fazer hemodiálise. “Vêm buscar-me todos os dias”, explica, com a voz calma de quem já se habituou à disciplina da doença. Mas desta vez não conseguiram. A ambulância que normalmente o transporta não passou. E Armindo ficou ali, cercado de água barrenta, à espera, sem saber como iria voltar a casa nem como iria sair.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Foi o genro, o militar Ferreira da GNR, quem ligou aos bombeiros a pedir ajuda. Pouco depois, não foi uma ambulância que lhe apareceu, mas um bote de borracha. A Marinha Portuguesa organizou o resgate com o apoio da corporação de bombeiros de Alcácer do Sal e, quando o barco apareceu, Armindo emocionou-se. “Quando vi o barco chegar, fiquei emocionado. Fiquei mesmo. Nunca pensei que viessem até aqui por mim. Quando vi o barco para me vir buscar só me apetecia chorar”, conta, de mão dada com os militares da Marinha.
Armindo pede desculpa várias vezes àqueles militares. “Não quero incomodar”, repete, como se pedir ajuda fosse um incómodo e não uma necessidade vital. A gratidão sobrepõe-se ao medo. “Fiquei muito agradecido. Nunca tinha visto uma coisa destas em 84 anos de vida. Isto nem parece real”, conta Armindo, enquanto é ajudado a entrar no bote pelos militares.
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Armindo Jesus recorda um amigo que morreu depois de decidir abandonar a hemodiálise. Ele prefere manter-se disciplinado. “Tenho medo, não quero morrer”, diz. Muitos anos ligados a uma máquina, muitos anos a cumprir horários, muitos anos à espera de transporte. Ainda assim, Armindo continua. Todos os dias, às oito da manhã fica à espera. Mas esta manhã tinha-se resignado à ideia de que iria falhar o tratamento. Não falhou. Não foi às oito da manhã, mas não falhou por causa do bote de borracha da Marinha Portuguesa, dos militares e do bombeiro António. Bombeiro que conhece aquela zona esteja ela com água ou a seco, e que ajudou o barco a fazer o trajeto sem que embatesse em nenhum carro submerso, ponte submersa, sinal de trânsito submerso.
Enquanto o barco se afasta da casa onde vive há mais de seis décadas, Armindo olha em volta para a água que engoliu o bairro. “Vi muitas cheias”, repete. “Mas nunca vi nada como isto.”
E, talvez por isso, a emoção. Não só pelo medo da tempestade, mas pelo momento raro em que percebeu que, mesmo isolado pela água, alguém veio buscá-lo. Armindo foi levado da sua aldeia isolada para um local onde a ambulância conseguiu ter acesso. “Não sei como é que vou voltar para casa…”, exclama para o ar. “Que raio… vou eu levá-lo”, grita um dos militares. “Estou muito agradecido. Quero muito oferecer um jantar aos senhores”, convida Armindo.
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“Estamos aqui para ajudar. Quer vir connosco? Venha connosco”
Os senhores a que Armindo se refere são dois militares da Marinha Portuguesa, mergulhadores profissionais e que estão perfeitamente treinados para situações reais de resgate como esta. O Grumete Mergulhador Martins Nunes, o mais novo e de apenas 19 anos, está há pouco mais de um ano na Marinha e é o braço direito do Segundo Sargento Nuno Santos, que está ao leme da pequena embarcação de borracha que os leva até aos locais que estão completamente inacessíveis por estrada.
São eles, em cooperação com o bombeiro António, que vão buscar quem não consegue sair das casas. Em muitas delas, as pessoas, já com a água pela cintura, pedem “por favor” para as tirarem de lá. Estes três homens “varrem” desde a madrugada de quinta-feira todas as casas da baixa ribeirinha de Alcácer do Sal para ajudar o mais rapidamente possível quem esteja em aflição. Apesar de haver muita gente que se recusa a sair, não têm mãos a medir para a quantidade de missões (é assim que chamam a cada resgate ou a cada entrega de comida) que lhes é pedida desde as últimas horas.
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A coordenação entre o elemento do corpo de bombeiros de Alcácer e os militares da Marinha é fundamental. Porque é ele que sabe o que ali está debaixo da água: muros, vedações, sinais de trânsito e tanta outra coisa. Embater com o motor daquele pequeno barco num destes obstáculos era sinónimo de abortar missão e atrasar todos os resgates que têm de ser feitos o mais depressa possível.
O rádio, com sinal SIRESP, não pára. As solicitações que lhes chegam do posto de comando montado no centro da cidade de Alcácer são mesmo muitas. São constantes os gritos das pessoas que se ouvem nas ruas agora silenciosas da baixa da cidade, com água acima das portas. “Aqui, aqui, têm águas ou comida?” pergunta uma mulher de uma janela no primeiro andar, por cima do snack-bar “D’Aldeia”, embora só seja perceptível que ali existe um café pelo letreiro tapado a meio pela água. “Estamos aqui para ajudar. Quer vir connosco? Venha connosco”, grita o Segundo Sargento Nuno Santos na tentativa de ser ouvido pela mulher. “Não, mas ali à frente há quem precise mais, um senhor acamado”, responde ela de volta.
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O mergulhador Nunes, de apenas 19 anos, segue na frente, saltando vezes sem conta barco fora, numa tentativa de amarrar o bote o melhor possível cada vez que era preciso colocar alguém lá dentro para o levar para terra firme. Uma das vezes fê-lo à porta do prédio de Sílvia, que implorou para abandonar a sua casa assim que a água atingiu a altura da entrada, o equivalente a um primeiro andar, cerca das 6h da manhã. Nunes amarrou o barco com uma das cordas ao interior do prédio e a outra ao corrimão da entrada. Sílvia, visivelmente emocionada, despediu-se ali da sua vizinha “de anos”, que preferiu não sair. Mas não saiu sozinha, dentro de uma cesta de vime, dois cães minúsculos a tremer de frio vieram com ela.
Desde o início desta tempestade que foram retiradas de casa mais de 170 pessoas, a maior parte delas idosas que, finalmente, obedeceram às orientações das autoridades para abandonar as suas casas. Na tarde de quinta-feira mais de oito povoações do concelho de Alcácer do Sal estavam completamente isoladas.
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“Só estou neste barco porque quero ir ter com o meu filho de um ano”
“É preciso ir para outra missão já. Cinco pessoas do outro lado da ponte precisam de ser resgatadas. Há um cão, tragam o cão”, ouve-se através do intercomunicador que os militares têm agarrado ao peito. No mesmo segundo saltam novamente para o barco, e logo depois os bombeiros que estavam em terra já têm água pelos joelhos para os empurrar e poderem pôr-se em movimento.
Agora o percurso, oposto ao que foi feito durante toda a manhã, é mais perigoso. Há dezenas de carros submersos e o motor do pequeno barco não pode trabalhar nas perfeitas condições. Durante o caminho até ao destino um grito vindo de uma janela: “Aqui, aqui. Há uma família que quer sair”. A água já estava acima do primeiro piso da vivenda. Foi-lhes respondido que seguiriam nos próximos minutos, iam mandar vir outro barco: a missão era grave e urgente. Um homem em estado de hipotermia, uma família, um cão e duas mulheres extremamente nervosas.
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A viagem de barco até ao ponto indicado demora o triplo do tempo: o vento estava bastante mais forte que de manhã e a ondulação fazia com que o bote não pudesse andar à velocidade desejada. Todos os ocupantes ficaram como se tivessem dado um mergulho.
Os mergulhadores da Marinha, experientes neste tipo de cenários, tiveram de ultrapassar uma série de árvores que estavam só com os ramos mais altos de fora da água. Os troncos eram um problema sério para depois passar com pessoas que precisavam de ajuda.
Chegados ao destino no Bairro da Barrosinha, cerca de duas dezenas de pessoas começaram a aplaudir. Desta vez, o barco não vinha só resgatar quem precisava, mas também entregar garrafões de água e sacos gigantescos com comida. Mais uma localidade que ficou completamente isolada, sem qualquer acesso devido à subida do Sado.
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Sónia Dimas e São Vaz são amigas e colegas de trabalho. Conheceram-se no hotel que existe ali na terra — e que neste momento alberga mais de 40 idosos. Vão todo o caminho do barco, cerca de 30 minutos, de mãos dadas. São é a que está mais nervosa. A agitação marítima deixa todos bastante inquietos. Há gritos, há muito choro e todos ficam completamente encharcados. “Só estou neste barco porque quero ir ter com o meu filho de um ano”, grita São a agarrar a mão de Sónia com a maior força que pode. O bebé está no outro lado da margem com o pai e São tudo o que quer é estar ao lado da sua família.
Também a pequena cadela Zoe, uma pastor alemã de apenas quatro meses, completamente encharcada, não dá descanso ao seu dono, Abel de 28 anos. Ladra, chora e tenta soltar-se. O barulho do motor do bote, a ondulação forte e a água por todo o lado deixou-a nervosa, como aos humanos. Os militares da Marinha tentam acalmar. Dão as mãos às pessoas e, no fim, mal chegam a terra firme, fazem questão de abraçar os que acabaram de resgatar.
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“Que alívio. Que alívio, chegámos”, grita São Vaz agarrada à mão da amiga Sónia e do mergulhador Nuno Santos. Sai do barco e senta-se numa cadeira que prontamente os bombeiros lhe arranjam. Agora já está a salvo e a minutos de se reencontrar-se com o pequeno Tomás.
Quem também já está pronto, em Grândola, para o tratamento de hemodiálise é Armindo. Espera agora que tudo passe rapidamente, para oferecer um jantar em sua casa aos militares Martins Nunes e Nuno Santos.
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