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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Reportagem. Por entre ruínas e esperança, a "cidade mártir" de Homs volta à vida. Mas o medo para alguns não desapareceu

Síria. Homs foi o epicentro da revolução contra Assad e uma das cidades mais atacadas. Os regressados festejam o fim da guerra, mesmo entre a destruição. Mas alauítas e cristãos têm medo do futuro.

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Reportagem dos enviados especiais do Observador à Síria

“Foi às quatro da manhã, estávamos a dormir. Um dos rockets atingiu o tecto do prédio e parte do andar de cima colapsou. Acordei com algo a atingir-me a cabeça, fiquei ferido.” Naquela madrugada, Abdullah Mokhaibr acordou em pânico com a chuva de mísseis que caíram no seu prédio, no centro do bairro de Baba Amr, em Homs. A sua família e as outras três que viviam no prédio precipitaram-se escadas abaixo para a maior segurança do piso inferior, enquanto o tecto colapsava. Ninguém morreu, mas muitos ficaram feridos, incluindo duas pessoas que iam a passar.

Abdullah não teve dúvidas do que estava a acontecer. “O regime estava a tentar marcar uma posição: ou saem ou são mortos”, decreta ao Observador, de lábios cerrados. Os seus intensos olhos azuis fixam-nos, para sublinhar a gravidade do momento.

O ano era 2011 e Baba Amr era o epicentro da guerra civil que havia rebentado na Síria meses antes. Aqui, na cidade de Homs, a revolução contra os Assad começou primeiro e não tardou a que o regime reagisse com toda a força. Daí à formação de milícias civis foi um passo. E Baba Amr tornou-se um bastião da oposição a Bashar al-Assad, encabeçada pelo Exército Livre da Síria (ELS).

▲ Abdullah vê a destruição do seu prédio

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Não muito longe da casa de Abdullah, um prédio serviu de base a uma destas fações armadas. O Exército sírio estava instalado num grande edifício ao fundo da rua, mesmo em frente ao liceu. As rajadas de tiros eram disparadas dos dois lados, continuamente. Mas o regime contava com uma vantagem: a Força Aérea, que bombardeava as posições dos rebeldes continuamente, das seis da manhã até longas horas da noite.

Num prédio do outro lado da rua, uma célula do ELS resistia. E, quando a fome apertava, os combatentes telefonavam a Shadia Toukhadi, que vivia em frente. “Eles diziam ‘Precisamos de algo para comer’ e eu ia lá.” Shadia recorda esses dias a partir da varanda do seu prédio, onde não há uma parede intocada. Vive ali com o marido, Youssef, e vários filhos, noras e netos. Tem agora “70 e tal anos”, nem sabe ao certo quantos. Toda a família se abriga nesta construção precária, com o cimento das escadas exposto e ferros descarnados a furar as paredes, onde as crianças se empoleiram para brincar. Não há uma parede que tenha uma demão de tinta.

A casa da família tinha acabado de ser construída 15 dias antes por um dos sobrinhos, quando este foi morto. Tinha reforçado as fileiras do ESL e era um dos soldados a quem Shadia ia levar comida ao prédio em frente — agora uma carcaça de betão, metade das paredes desfeitas a colapsarem de um dos lados da estrutura. Uma das filhas mostra uma foto do jovem com a filha pequena e outras duas abrem uma tarja com o rosto dele e de outro familiar. “São mártires”, dizem.

▲ Várias gerações da família de Shadia Toukhadi (ao centro, de óculos, com um dos netos)

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À medida que os combates se intensificavam, Shadia e a família decidiram partir de Baba Amr. Foram como refugiados para o Líbano, onde viveram durante 14 anos. “Como tínhamos dois mártires na família, tínhamos medo que o Governo viesse atrás de nós, por isso não podíamos regressar”, conta a matriarca da família. Até que chegou o dia 8 de dezembro de 2024. Shadia estava num hospital em Beirute, onde tinha sido recentemente operada. No elevador, uma mulher disse-lhe “Deve estar feliz, agora que a guerra na Síria acabou”. “Fui direita à varanda e comecei a gritar. As pessoas diziam-me ‘Você acabou de ser operada, tenha cuidado’ e eu dizia ‘Não quero saber, já não estou doente!’ Eu só queria gritar, estava tão feliz.”

Poucas semanas depois, estavam de regresso ao bairro. Quando entraram na rua, depararam-se com os escombros daquilo que em tempos tinha sido a sua casa. Decidiram ficar. “Eu só fazia duas coisas nessa altura: rezava e insultava o Assad.”

▲ Shadia e o marido Youssef

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“Livrámo-nos dele. Livrámo-nos do burro do Assad”

Caminhar hoje pelas ruas de Baba Amr é quase como avançar por um estaleiro dentro. Não há um edifício intacto — nem o velho cemitério foi poupado, como se pode ver pelos vários túmulos de pedra partidos. Ao virar uma esquina dá-se de caras com o que resta de um parque infantil, estruturas de ferro enferrujado de onde os bancos dos baloiços parecem ter sido removidos há muito.

Mas a vida continua. As crianças jogam à bola no meio do entulho, há ovelhas e um burro nos campos e a venda improvisada de vegetais e fruta reúne dezenas e dezenas de pessoas na principal rua do bairro, que não tem nome oficial, mas que ficou conhecida como “o beco dos snipers”. Ali, as forças da Assad posicionavam-se nos telhados para atingir a tiro quem quer que tentasse sair.

Foi o que aconteceu a vários familiares de Roza, incluindo um dos seus filhos, que foi atingido com um morteiro naquela rua e ficou com uma deficiência motora permanente nas pernas. É nesta mesma rua que Roza, de origem beduína, vende agora frutas e vegetais — bananas, romãs, tomate e couves do tamanho de bolas de basquete. Conta que só na sua tribo 91 pessoas morreram ali em Baba Amr. Mas Roza não se quer demorar a chorar o passado. Prefere repetir, uma e outra vez, a mesma ideia: “Livrámo-nos dele. Livrámo-nos do burro do Assad, isso é o mais importante”, vai dizendo, com um grande sorriso.

▲ Vista da rua conhecida como "beco dos snipers"

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Em 2012, a sua família decidiu abandonar de vez o bairro. Tal como a família de Shadia, partiram para o Líbano. “Foram treze anos a viver em tendas, como esta”, diz, apontando para a barraca improvisada que serve agora de tecto ao negócio. “Tratavam-nos muito mal, era horrível.”

Um ano depois do fim da guerra, Baba Amr volta a encher-se, mas os números estão longe do que foi em tempos. Quando os combates rebentaram em 2012, viviam ali 80 mil pessoas; hoje são apenas três mil, de acordo com dados das Nações Unidas. A maioria procurou refúgio noutros países e não regressou, um espelho da realidade do país.

O discurso da maioria dos habitantes é de desprezo profundo por Assad e celebração dos combatentes do ELS. Mas a realidade nunca é a preto e branco — Hatem, de 26 anos, tem memórias diferentes das que têm alguns dos seus vizinhos. “Havia bombardeamentos, aviões…”, recorda. “A culpa era dos dois lados. Toda a gente matava toda a gente, não interessava de que grupo eram.”

No bairro de Baba Amr, grande parte das casas ficaram destruídas
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Numa das ruas perpendiculares à principal, o comércio começa a ressurgir
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Várias bancas de vegetais ocupam agora o "beco dos snipers"
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Várias pessoas convivem e bebem café sentados nos escombros
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Um local marcado por centenas de mortos é agora frequentado por famílias
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Numa das ruas perpendiculares à principal, há comércio
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Um local marcado por centenas de mortos é agora frequentado por famílias
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Vários tipos de comércio começam a aparecer, como barbearias
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Numa das ruas perpendiculares à principal, já há comércio
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Praticamente todas as paredes dos prédios estão cravadas de balas
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O regime do “príncipe” Al Sharaa e os alauítas alvos de vingança

“Um país, um só povo”. O cartaz verde assinala o aniversário do final da guerra na Síria, que se irá celebrar daqui a quatro dias. Adivinham-se festejos intensos para marcar a tomada do território pelas forças do Hay’at Tahrir al-Sham (HTS), o grupo armado sunita liderado por Ahmed Al Sharaa, que é agora o Presidente de facto do país.

Estamos na rotunda de Al Nuzha, mesmo no centro da cidade de Homs, onde o ambiente é mais cosmopolita do que no bairro de Baba Amr. Em vez de uma zona composta sobretudo por sunitas, o centro sempre foi casa de uma mistura de etnias e religiões e, por isso, foi menos massacrado pelos ataques do regime, por não ser visto como um bastião da resistência. Em vez de prédios destruídos e marcas de tiros nas paredes, há lojas e restaurantes com néons coloridos. A pé passam mulheres vestidas de preto dos pés à cabeça, apenas os olhos visíveis, mas também outras com roupas que não destoariam na capital de qualquer cidade europeia. Numa árvore, alguém pendurou um cartaz com uma mulher vestida das duas formas: no lado em que está coberta lê-se “legal pela religião, agrada a Deus”, “não define a forma do corpo”, “não chama a atenção”, etc.; do outro, “não agrada a Deus”, “roupa curta, apertada e chamativa” e “mostra os pés”.

▲ Uma mulher passa ao pé do cartaz com regras de vestuário feminino

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Basta andar poucos metros para cima da rotunda para entrar no bairro de Al Nuzha e questionar até que ponto a mensagem do cartaz sobre um único povo é assim tão simples. Al Nuzha é uma zona predominantemente alauíta, a minoria religiosa a que pertencia a família Assad. É ali que vive Sumar (nome fictício), de 24 anos, uma jovem alauíta que aceita encontrar-se com o Observador, mas que pede para não ser identificada. Teme pela sua segurança. Desde o dia 8 de dezembro que a guerra terminou, mas a violência não: os ataques de retaliação a alauítas, vistos como próximos do regime, têm-se multiplicado.

Há pouco mais de dez dias, a 23 de novembro, um casal de beduínos sunitas foi assassinado nos arredores da cidade, na aldeia de Zaidal. O homem foi atingido na cabeça e ficou com o crânio esmagado; a mulher foi queimada. Na parede, alguém deixou a mensagem “Ó Alá, ó Hussain”, associada a grupos xiitas e alauítas.

Sumar estava na clínica de fisioterapia onde trabalha. “Ao meio dia recebi um paciente que era da mesmo tribo do casal e ele disse-me. Pouco depois, já não podíamos sair. As ruas estavam cheias de beduínos, desconhecidos aleatórios com armas. Era um caos.” As mortes levaram a um raide de ataques vingativos de beduínos em vários bairros de maioria alauíta, como Al Nuzha. Dentro da clínica, a azáfama era muita. Um sunita e um cristão pegaram nas crianças, incluindo as alauítas, e saíram. Conseguiram passar incólumes. Depois, a dona da clínica levou as mulheres, incluindo Sumar, escondendo as alauítas na parte de trás do carro. Os homens passaram a noite no edifício.

▲ Sumar não quis ser identificada, por medo de represálias

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A história de Sumar ilustra as contradições que ensombram um país em pós-guerra, que sempre foi marcado por divisões sectárias. Durante o regime dos Assad, essas divisões foram acentuadas por um regime que reprimia duramente os sunitas e promovia os alauítas em cargos públicos e militares. Cristãos e druzes gozavam de algum desafogo por o regime ser visto como favorável às minorias, já que os seus próprios líderes vinham de uma — os alauítas correspondiam apenas a 12% da população.

Sumar hoje tem consciência dos benefícios de que alguns do seu grupo religioso gozavam. “Cresci em Alepo. Os meus pais são os dois engenheiros e ofereceram-lhes bons trabalhos públicos — o regime queria manter os alauítas juntos e controlados. Mas eles recusaram, porque, apesar de ser bom financeiramente, acharam que não era ético.”

“A primeira vez que tive consciência das minhas origens foi na escola. Uma vez perguntaram-me ‘És sunita ou alauíta?’”, recorda Sumar, mexendo nervosamente no cabelo. “Fui para casa e perguntei aos meus pais o que isso queria dizer. Eles não elaboraram, só disseram ‘Somos deste grupo, mas somos muçulmanos’. E disseram-me para me afastar desse tipo de conversa”.

Aos 12 anos, quando a guerra rebentou, a família decidiu mudar-se para Homs, onde o pai tinha nascido. Em Al Nuzha, Sumar passou uma adolescência tranquila, algo alheada do que se passava a apenas três quilómetros dali, em Baba Amr. “Só quando acabei o liceu, em 2019, é que comecei a perceber o contexto da guerra. Comecei a trabalhar com ONG e a ver a destruição de perto. Não entendia a dimensão sectária do conflito, como algumas áreas foram afetadas e outras não. As mais afetadas eram zonas sunitas e percebi que, para mim, tinha sido diferente. Senti que era minha responsabilidade ajudar, independentemente de onde eram as pessoas.”

▲ No centro de Homs, vários prédios têm agora néons e vários tipos de comércio

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Esse trabalho, porém, trouxe-lhe dissabores e deixou-a numa terra de ninguém. “Para mim é duplamente perigoso. Sinto que não era aceite pelos sunitas, por ser alauíta. Mas também não era aceite na minha própria comunidade, porque trabalhava a ajudar sunitas.”

Sumar engole em seco antes de começar a explicar a parte mais difícil da sua história: como foram os primeiros dias depois do 8 de dezembro. Assim que Homs foi tomada, a família partiu para a aldeia do pai, com receio. Ao perceber que tudo parecia relativamente tranquilo, voltaram. Mas, ao chegar perto do hospital Razi, numa das entradas da cidade, foram mandados parar num checkpoint. Tiveram de atravessar vários — um caminho que demoraria cinco minutos até ao bairro demorou uma hora. “Em alguns dos checkpoints obrigaram-nos a dizer ‘Allahu akbar’ [expressão que significa ‘Deus é grande’ e que é usada sobretudo pelos sunitas] e a fazer o sinal de vitória com os dedos. Filmaram-nos a insultar o Assad, de forma humilhante. Insultaram-nos a nós, disseram coisas muito más. Até que dois tipos nos pediram desculpa e nos deixaram passar.”

Quando chegaram a Al Nuzha, encontraram um bairro vazio: “O nosso carro era o único na rua”. Ao longo dos dias seguintes, os vizinhos foram regressando. Mas, ao mesmo tempo, as ruas iam sendo ocupadas por homens armados, nem todos do HTS. “Havia muitas facções e era perigoso, porque não sabemos qual íamos encontrar.” Quando Sumar se cruzava com um homem armado, era habitual vir a pergunta “És sunita ou alauíta?” Em janeiro, foi imposto um recolhimento obrigatório no bairro. Sumar lembra-se de ter tentado perceber o que se passava e de ter ido à varanda espreitar. “Uns homens gritaram-me logo ‘Vai para dentro, esta é uma ordem do príncipe.’” O príncipe era, é claro, o Presidente Sharaa.

Oficialmente, o novo Governo sírio apressou-se a declarar que os direitos das minorias iriam ser respeitados, incluindo dos alauítas. As autoridades enfatizam que qualquer forma de vingança ou retribuição deve ser a decretada pela Justiça e não a aplicada pelas próprias mãos. E, no entanto, a violência continua. Em Latakia, cidade costeira onde se concentra grande parte da população alauíta, 1.500 membros da minoria religiosa foram mortos ao longo do último ano. Aqui em Homs, de acordo com o Observatório Sírio para os Direitos Humanos, só no mês de dezembro houve 17 homicídios de alauítas.

▲ A nova bandeira da Síria está por toda a parte, algumas já gastas ao fim de um ano

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“Até aos massacres na costa achava que eles andavam só a divertir-se connosco. Mas depois comecei a achar ‘Posso ser a próxima’”, desabafa Sumar, justificando assim o desejo de não querer ser identificada. Acaba por dizer que um amigo seu “desapareceu” e foi provavelmente morto. Não quer falar muito sobre ele, mas sublinha que tinha pouco mais de 20 anos — “era demasiado novo para ter feito algo na guerra…”

Entre os sunitas, há sentimentos confusos em relação aos alauítas. “Os alauítas bons que não cometeram crimes podem viver de forma pacífica, desde que não estabeleçam células adormecidas”, dizia em fevereiro ao The Guardian Saido Junaid, um jovem cuja irmã e cunhado foram torturados pelo regime. Mas os alauítas responsáveis, acrescentava, devem ser também torturados.

Sumar continua o seu dia a dia, fazendo diariamente a pé o percurso de casa até à clínica onde trabalha. “Tenho medo, mas quero continuar a trabalhar e a seguir com a minha vida.” O sonho de voltar a trabalhar com ONGs é mais difícil, diz, por haver “discriminação” contra os alauítas. “Fui recentemente a uma conferência de ONGs e conheci um tipo do gabinete político do Sharaa. Ele disse-me que gostava que eu me juntasse a eles, mas que não era a altura certa.”

A pacificação prometida pelo regime, diz, não é real. “Quando querem fazer demonstrações de inclusão convidam cristãos, mas não os alauitas.” Sumar garante que continua a tentar comunicar com os vizinhos e conhecidos sunitas, que não quer fechar-se demasiado na bolha do seu bairro. “Percebo alguns, mas não percebo todos. Há quem seja louco.”

▲ No centro da cidade de Homs, não há sinais visíveis de destruição

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“No verão, usava óculos escuros e ninguém me via chorar. No inverno, a chuva lavava-me as lágrimas e ninguém me via chorar”

Essa aparente inclusão dos cristãos esbarra com a brutalidade que irrompe onde e quando menos se espera na Síria. Em junho, um bombista ligado ao Estado Islâmico fez-se explodir na igreja de Mar Elias, em Damasco, matando 25 pessoas. Os incidentes de violência contra os cristãos são menos do que contra os alauítas — o mesmo não pode ser dito dos druzes, que foram vítimas de um massacre no verão passado, que Israel usou para justificar um ataque ao sul do país —, mas o equilíbrio entre a estabilidade e o caos é ténue.

“Antes da queda do regime não sentia que éramos alvos. Mas agora oiço tiros e fico logo aterrorizada, penso nas histórias de vingança. Talvez seja o trauma da guerra, não sei.” Swasoun Asfohr vive no bairro de Bab Al Siba’a, ligeiramente a norte do de Sumar. Ali, cristãos e sunitas sempre viveram paredes meias, de forma pacífica. E, por enquanto, esta cristã acredita que assim continuará: “Eles defendem-nos, dizem que somos vizinhos de coração.”

▲ Swasoun Asfohr vive sozinha com o filho desde que o marido morreu

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O que mais atormenta Swasoun não é o risco da violência sectária no futuro, mas sim o passado. Na sala de estar desta mulher de 60 anos há terços, ícones e dois Pais Natal no centro da mesa — “não tenho mais nenhuma decoração de Natal porque morreu agora uma irmã minha, não estou no espírito”, explica. Swasoun faz questão de preparar café para servir aos convidados, antes de se sentar nos estofos floridos para desfiar as suas memórias da guerra civil.

“Foi terrível. Estávamos assustados.” Quando os primeiros tiros se começaram a ouvir em Bab Al Siba’a, Swasoun e o marido, Emil, decidiram rapidamente mandar o filho Rami, de 12 anos, para casa de familiares na aldeia de Wadi al-Nasara, conhecida como “Vale dos Cristãos”, a oeste de Homs. Emil disse que teria de ficar, para proteger a fábrica da família, mas que a mulher era livre de partir. Swasoun rejeitou: “Dei-lhe a mão e disse: ou vivemos juntos ou morremos juntos.”

Não tardou até a situação se degradar. Os rebeldes organizavam-se no bairro, construindo buracos nas paredes, a partir de onde disparavam contra as forças do regime. Estas retaliavam violentamente. A maioria dos vizinhos começou a atirar as coisas pela janela e a partir. Mas Swasoun teimava em ficar.

▲ Na casa de Swasoun, está o retrato do marido Emil, vários ícones e terços

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Num certo dia, decidiu ir à aldeia visitar o filho, para um reencontro emotivo. “Estava exausta, com frio e adormeci rapidamente. Sonhei com o meu marido, um sonho mau. Assim que acordei, liguei e um vizinho disse-me ‘Ele está ferido, mas não é grave, é só na mão.” Quando Swasoun regressou a casa, foi direta para o hospital e percebeu que a situação era pior do que lhe tinham dito. “Entrei no quarto e ele estava cheio de ligaduras. O corpo todo, o corpo todo…”, vai murmurando.

Voltou depois para casa e conseguiu reconstruir o que acontecera. O bairro tinha sido entretanto completamente ocupado pelo Exército — “Vi tanques pela primeira vez na minha vida, parecia um filme”. A sua casa estava ligeiramente destruída, um morteiro tinha ali caído. No bairro espalhava-se a notícia do homem que tinha morrido dentro de casa e só tinha sido encontrado três dias depois. Com medo, Emil fez uma mala improvisada e saiu. De um lado tinha os rebeldes, do outro o Exército. Antes de atravessar a estrada, foi atingido a tiro pelas forças do regime, que provavelmente o tomaram por um dos rebeldes. “Encontrei no chão o chapéu dele e uma poça de sangue.”

Emil morreu dez dias depois, a 25 de março de 2011. “É muito doloroso para mim. Vivo no mesmo sítio onde ele foi morto, vejo isto todos os dias”, diz, apontando para o pedaço de alcatrão onde esteve aquela poça de sangue. Foi então que começou o verdadeiro calvário de Swasoun. “A fábrica foi saqueada e a nossa casa também. Roubaram tudo”, diz, incluindo a porta de casa. “Encontrei o meu microondas à venda na rua e comprei-o de volta.”

“Perdi o meu emprego, depois o meu marido. Era uma mulher sozinha com um filho, o que ia fazer? Era muita pressão”, recorda. A sua voz fica mais aguda e Swasoun vai amachucando o lenço de papel nervosamente nas mãos. “Só precisava de ter alguém ao meu lado, alguém que me pusesse a mão no ombro e dissesse ‘Vai ficar tudo bem’”, diz, enquanto as lágrimas que tentava conter saltam. “Entre a morte do meu marido e o meu filho acabar o liceu, chorei todos os dias. No verão, usava óculos escuros e ninguém me via chorar. No inverno, a chuva lavava-me as lágrimas e ninguém me via chorar. Foi muito doloroso. Ainda é.”

▲ Swasoun e o filho Rami a chegarem a casa, no exato local onde o marido Emil foi assassinado

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A situação acabou por melhorar, aparentemente. A guerra tinha ficado para trás — o cerco a Homs terminou em 2014, quando os últimos rebeldes abandonaram a cidade e o Governo assumiu o controlo total — e o filho Rami estava encaminhado para a Universidade. Mas foi aí que a vida pregou outra partida a Swasoun. Em 2020, foi-lhe diagnosticado um cancro da mama, que reduziu drasticamente as suas idas à igreja. Em breve, vai fazer um novo exame para saber se está oficialmente em remissão ou não.

Apesar da doença e do frio que se sente na rua, Swasoun aceita sair de casa para ir à igreja. Acende uma vela e reza em frente a um ícone. Pára em frente ao altar, em silêncio. Perante os desafios que a vida lhe atirou, teve a sua crise de fé. “Quando o meu marido morreu, pensei ‘Porquê eu? Eu faço as minhas orações, eu faço o meu jejum. Porquê eu?’. Mas continuo a acreditar.”

De olhos na cruz que representa a sua fé, a fé de apenas 300 mil sírios (antes da guerra chegaram a ser três milhões), Swasoun reza. Pelo quê? “Peço saúde e segurança, que a Síria volte a ser um país grande. Chega de sangue, chega de vingança.”

▲ Swasoun reza numa igreja de Homs

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Uma puxada de eletricidade, uma cisterna e tapetes persa. Como se reconstrói um prédio bombardeado

A menos de quatro quilómetros dali, nos arredores da cidade, Abdullah também pede que a Síria volte a ser um país grande. Quando fugiu de Baba Amr depois de um míssil ter caído no seu prédio, esteve com a família em campos de refugiados em Idlib, depois Qah e depois Afrin.

Com a queda dos Assad em 2024, decidiu regressar a Homs. Tem agora 31 anos, muito menos do que a sua barba branca indicia, e a sua primeira decisão foi a de oferecer os seus serviços às novas autoridades. Trabalha agora como militar — “seguro armas para poder voltar à minha casa, para não sermos novamente expulsos”, — mantém um segundo emprego numa loja e, nos tempos livres, põe mãos à obra para reconstruir o seu prédio. Não quer esperar pela reconstrução prometida pelo regime, embora mantenha a esperança de que ela irá ser feita.

Abdullah já reparou parte do telhado e restaurou uma das paredes, onde se nota o cimento ainda fresco. Mas, lá em cima, o grande buraco por onde caiu o míssil naquela noite continua visível.

▲ Abdullah no último piso da sua casa, que foi atingida por um míssil

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Para além do jovem solteiro — “não me posso casar, ainda não tenho dinheiro que chegue para isso” —, regressaram ao prédio alguns dos seus vizinhos. Trouxeram com eles várias crianças, cujos sapatos coloridos estão espalhados pelos degraus de cimento. Apesar de a grande maioria dos apartamentos estar completamente inabitável, conseguiram acomodar-se num deles: pintaram as paredes interiores de branco, fizeram puxadas de eletricidade e montaram uma cisterna no pátio para recolher água da chuva. No chão, há confortáveis tapetes persa para ajudar a combater o frio do inverno. No rádio toca uma canção sentimental em árabe.

Enquanto Abdullah mostra a destruição do edifício, um dos vizinhos faz questão de levar às visitas uma bandeja prateada com chávenas de porcelana cheias de café, acompanhadas de um pote de açúcar — porque ser bom anfitrião é importante para os sírios. Perguntamos ao jovem qual foi a primeira coisa que pensou no dia em que regressou e viu a casa onde crescera completamente destruída. Abdullah sorri e responde: “Tão bonito”.

*Reportagem com Majd Al-Boukai

O Observador viaja a convite da Fundação AIS — ACN Portugal

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