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Tony Blair tinha tomado posse como primeiro-ministro do Reino Unido há apenas 25 dias quando discursou em Paris, durante a cimeira NATO-Rússia. Na sua intervenção perante os pares internacionais, o novo chefe do Executivo britânico louvou o facto de fazer parte da “primeira geração capaz de contemplar a possibilidade de viver a vida inteira sem ir para a guerra”. Essa “contemplação” rapidamente se dissipou. Quando em 2007 abandonou o cargo, Blair não só tinha envolvido o Reino Unido em mais do que uma guerra, como acabou por se tornar no líder britânico que mais tropas destacou desde a II Guerra Mundial, recorda a TIME.
Mas mesmo com uma década de envolvimento em conflitos militares por todo o globo, Tony Blair nunca desistiu da possibilidade de “pôr fim às guerras”. No mesmo dia em que saiu de Downing Street, em 2007, tornou-se enviado do Quarteto — o grupo composto por Estados Unidos, Rússia, União Europeia e Nações Unidas focado em mediar o processo de paz entre Israel e Palestina. Os resultados ao longo dos oito anos em que esteve no cargo foram mínimos, mas a resolução a longo prazo do conflito, que dura há décadas na região, tornou-se a sua “obsessão”, relataram colegas ao Telegraph.
Agora, Blair terá novamente oportunidade de se envolver diretamente no processo de paz. O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apresentou esta segunda-feira um plano de 20 pontos que procura pôr fim à ofensiva na Faixa de Gaza, que Israel desencadeou no final de 2023, em resposta aos ataques do Hamas do 7 de Outubro. O plano inclui a criação de um “Comité da Paz”, com o objetivo de supervisionar a administração e reconstrução do território palestiniano, que seria liderado pelo atual chefe de Estado norte-americano e pelo antigo primeiro-ministro britânico.
A presença de Blair no Comité é facilmente explicável com dois fatores. Por um lado, a boa relação com israelitas e líderes árabes e o conhecimento da região, construídos ao longo de anos de trabalho como primeiro-ministro, enviado internacional e consultor do setor financeiro. Por outro lado, pelo interesse pessoal em pôr fim ao conflito, que o levou a apresentar, ao longo dos anos, em público e privado, diferentes propostas para alcançar a paz — propostas essas que foram tomadas como rascunho para o plano apresentado esta segunda-feira por Trump.
▲ Blair juntou-se a George W. Bush na invasão do Iraque em 2003
(PAUL J. RICHARDS/AFP/Getty Images)
Contudo, o longo currículo de Tony Blair no Médio Oriente também o torna extremamente impopular entre os palestinianos. Em causa, está o seu envolvimento num conflito particular na região: o Iraque. “Ele tem uma reputação negativa aqui. Se mencionares Tony Blair, a primeira coisa que as pessoas vão mencionar é a guerra do Iraque“, alertou Mustafa Barghouti, secretário-geral do partido Iniciativa Nacional Palestiniana, ao Washington Post.
“Os argumentistas perderam o fio à meada”: como o Iraque se tornou o maior erro de Blair (e do Labour)
Quando o Labour ganhou as eleições de 1997 e Blair entrou em Downing Street pela primeira vez, o Médio Oriente ainda assistia ao rescaldo da assinatura dos Acordos de Oslo, que tinham sido assinados quatro anos antes. Blair não tardou a mostrar o seu total apoio pelo plano delineado em Oslo, que estabelecia a Autoridade Palestiniana (AP) e traçava o caminho para a consolidação de dois Estados.
Já no cargo, foi um dos apoiantes da Cimeira de Camp David, que colocou frente a frente o líder palestiniano Yasser Arafat e o primeiro-ministro israelita Ehud Barak — com quem, mais tarde, Blair também viria a consolidar uma boa relação —, mediados pelo Presidente norte-americano Bill Clinton. Em 2003, é creditado como um dos principais apoiantes do “mapa para a paz”, por ter pressionado George W. Bush a apresentá-lo aos líderes israelitas e palestinianos — que, então, eram Ariel Sharon e Mahmoud Abbas.
Porém, esse mesmo ano também foi um ponto de viragem que viria a marcar negativamente a sua liderança, depois de ter mobilizado as tropas britânicas para participar na invasão do Iraque, ao lado dos norte-americanos. A guerra veio como resposta à acusações — que viriam a revelar-se falsas — de que o regime de Saddam Husein tinha desenvolvido armas de destruição em massa, quer nucleares, quer biológicas.
A decisão de Tony Blair ficou marcada na lembrança de muitos árabes que assistiram de perto aos oito anos de guerra que se seguiram. Entre esse grupo estão os palestinianos, como relembrou Mahmoud Barghouti. Além das suas decisões sobre o Iraque, o líder político considera que os palestinianos têm uma outra razão para desconfiar de um líder britânico: o facto de a Palestina já ter estado, entre 1920 e 1948, sob “o colonialismo britânico“, enquanto Londres exerceu um mandato da Liga das Nações sobre o território. Mais: foi o Governo britânico que assinou, em 1917, a declaração de Balfour, que previa um Estado judeu no território da Palestina e que é considerada o primeiro rascunho para o estabelecimento do Estado de Israel na região, em 1948.
▲ Keir Starmer (à esquerda) é o primeiro primeiro-ministro trabalhista desde Tony Blair (ao centro)
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Contudo, as decisões de Blair sobre o Iraque não deixaram cicatrizes apenas no Médio Oriente. Numa dimensão política, o Iraque ainda pesa sobre o Labour. Apesar de ter conseguido três vitórias em eleições consecutivas, a queda de popularidade devido ao arrastar da guerra levou Blair a apresentar a demissão da liderança trabalhista, em 2007. Nas eleições seguintes, em 2010, o Labour for derrotado pelos Conservadores, iniciando-se um longo período de liderança conservadora, que só foi quebrado por Keir Starmer no ano passado.
Reunidos esta semana em Liverpool para a conferência do partido, vários membros do Labour ouvidos pelo Financial Times, admitiram estar “incrédulos” com a “escolha terrível” de Tony Blair para integrar um “Comité de Paz” no Médio Oriente. O sentimento era principalmente predominante entre os deputados mais próximos da causa palestiniana, mas também se faz sentir no seio do Governo. “É como uma mini-série em que os argumentistas perderam o fio à meada. Já viu dias melhores e tem de ser retirada do ar”, comparou um secretário de Estado britânico.
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Irlanda do Norte deu a Blair “confiança para resolver os problemas mais difíceis do mundo” — incluindo a desmilitarização do Hamas
De volta a 2007, Blair apresentou a demissão como líder do Labour, vagou Downing Street e rumou a Jerusalém como enviado do Quarteto. Foi recebido pelo cônsul britânico em Jerusalém, Richard Makepeace, que o alertou para as complexidades da região e para uma situação “quase impossível” de resolver, escreve o autor e antigo jornalista Tom Bower na biografia Broken Vows: Tony Blair, The Tragedy of Power (sem edição em português). “Não pode ser assim tão mau”, desvalorizou o antigo primeiro-ministro. “Eu resolvi a Irlanda, e isto é só mais um problema“.
A resolução na Irlanda é uma referência aos Acordos de Sexta-feira Santa, assinados entre Reino Unido, Irlanda e vários partidos irlandeses em 1998 e 1999, que puseram fim a 30 anos de conflito na Irlanda do Norte. Uma e outra vez, Blair utilizou os acordo assinados nos primeiros anos da sua liderança para expressar a sua confiança na capacidade de alcançar a paz entre Palestina e Israel. Aliás, a sua “confiança” é um dos traços chave da sua personalidade, considera outro biógrafo do britânico, John Rentoul.
“Há uma forte componente na sua personalidade, esta espécie de enorme confiança de que pode resolver os problemas mais difíceis do mundo“, comentou Rentoul com o Washington Post. Essa confiança era visível em 2007 e é visível agora, para surpresa do também jornalista. “Achei que ele já tinha desistido de tudo isto. Mas ele não desistiu da ideia de que pode resolver coisas que mais ninguém consegue”, afirmou.
▲ Os Acordos de Sexta-feira Santa puseram fim ao conflito na Irlanda do Norte e ao IRA
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A resposta, segundo Blair, está em utilizar o mesmo sistema que foi implementado na Irlanda do Norte. Só que em vez do IRA, olha-se agora para o Hamas. Em 2010, poucos anos depois de ter assumido a diplomacia do Quarteto, Blair dizia, em entrevista, que a solução tinha de passar por integrar o Hamas no processo de paz, levando-o a desmilitarizar-se, e comparava os dois casos. No caso do IRA, este ponto foi alcançado através da implementação de um longo processo de “desativação” das armas, em que o grupo entregou as armas para serem destruídas ou desativadas por observadores independentes. Em vez do termo “desmilitarizar”, eram utilizados os termos “desativar” ou “inutilizar”, porque isso significava que o IRA não tinha de assumir “ter sido derrotado na guerra”, explicava a TIME em 2001.
Independentemente dos termos utilizados, a solução seria a mesma: desarmar o Hamas. Mas o plano de Trump revela uma abertura a negociar com o Hamas que não estava presente em planos anteriores e que passa pela possibilidade de conceder amnistia aos líderes palestinianos que escolherem participar neste processo e passagem segura para outro país àqueles que não quiserem fazer parte.
No entanto, apesar do sucesso da implementação desta medida na Irlanda do Norte, é preciso notar que o desarmamento do IRA se tratou de um processo bastante prolongado. Os acordos foram assinados em 1999, já depois de o grupo ter começado a entregar as armas em 1997, e só foi concluído em 2005. Ou seja, o processo de desmilitarização que Blair destaca na Irlanda do Norte e que quer implementar na Palestina durou mais de oito anos — uma cronologia a médio prazo que não parece estar prevista no plano a curto prazo de Trump.
O enviado e consultor que criou uma boa relação com israelitas e árabes, mas se viu relegado para tarefas menores
Enquanto enviado do Quarteto, o objetivo de Tony Blair era trabalhar no desenvolvimento económico da Palestina, trabalho no âmbito do qual visitava frequentemente a Cisjordânia para discutir investimentos financeiros. A realidade com que se confrontou nessas viagens “chocou-o”, escreve Tom Bower na biografia do ex-primeiro-ministro. “[Blair] apercebeu-se que o progresso económico era impossível sem estabilização política”.
O estabelecimento do Estado da Palestina assumiu, assim, um papel mais relevante. Em 2008, numa intervenção no Parlamento Europeu, alertou que a estratégia da comunidade internacional não estava a resultar e que era necessária “uma mudança significativa no contexto, nas realidades no terreno”. No entanto, o trabalho de Blair enquanto enviado era principalmente simbólico — em 2011, um conselheiro do antigo primeiro-ministro israelita Ehud Olmert terá comparado o seu trabalho ao do Papa.
Blair rapidamente se apercebeu dessa limitação quando os Presidentes norte-americanos George W. Bush e Barack Obama procuraram reencetar negociações entre Telavive e Ramallah e excluíram Blair desses diálogos. Blair viu o seu papel reduzido a tarefas menores, como o investimento na habitação ou nos sistemas de telecomunicações e energia da Cisjordânia. A aparente “incapacidade de media um acordo” ficou ainda patente no facto de nunca se ter deslocado à Faixa de Gaza, onde o Hamas tinha ganhado as eleições em 2006, devido a uma ameaça contra a sua vida que teria sido transmitida pelas secretas israelitas.
Os críticos, escreve Bower, acusaram-no de estar a obedecer a Benjamin Netanyahu, que voltara a assumir a liderança do Governo israelita em 2009 e procurava isolar o Hamas. Independentemente de ter obedecido ou não a “Bibi”, como lhe chama (invocando a alcunha de juventude do primeiro-ministro israelita), Blair consolidou uma boa relação com o líder israelita ao longo dos anos seguintes. “Com Blair e Bibi dava para ver que se davam bem“, relembrou agora, ao Washington Post, uma pessoa que fez parte da equipa do britânico. Outras pessoas próximas dos dois líderes garantiram ao jornal que as relações entre ambos se mantêm “calorosas”.
Com a possibilidade de protagonizar grandes progressos políticos na região protagonizados pela comunidade internacional, principalmente por Washington, Blair dedicou-se aos investimentos financeiros. Primeiro, como conselheiro do banco de investimentos JP Morgan Chase. Depois, através do estabelecimento da Tony Blair Associates (TBA), uma firma de consultoria. Foi através da TBA que geriu o Mubadala, um fundo de investimento do governo dos Emirados Árabes Unidos, consolidando, assim, boas relações com Abu Dhabi. Ao mesmo tempo, a sua mulher, Cherie, geriu atividades comerciais em conjunto com o Qatar, através de duas organizações sediadas nos Estados Unidos.
Apesar de o trabalho como consultor lhe ter permitido criar laços pessoais com várias capitais árabes — em 2017, veio ainda a trabalhar com Riade num projeto pessoal do príncipe herdeiro saudita — também o tornou novamente alvo de críticas, de ter utilizado o seu trabalho com enviado do Quarteto para favorecer os negócios da TBA. As críticas prejudicaram a visão que o Médio Oriente tinha de Blair enquanto mediador de uma paz entre Israel e Palestina, argumentou Francis Beckett, autor do livro Blair Inc: The Man Behind the Mask (sem edição em português).
“O pior de tudo é que quando ele ia a reuniões no Médio Oriente, ninguém sabia que Tony Blair é que estávamos a ver — se era o Tony Blair, enviado do Quarteto, ou o Tony Blair, patrono da Tony Blair Faith Foundation, ou o Tony Blair, diretor da firma de consultoria Tony Blair Associates”, elaborou à Al Jazeera em 2016.
▲ Jared Kushner e Tony Blair trabalharam juntos no plano apresentado por Trump
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Um órgão internacional de transição e o foco no Estado da Palestina: o trabalho de Blair com Kushner
Tony Blair abandonou o cargo de enviado do Quarteto em maio de 2015. Ao longo do ano seguinte, realizou uma série de “longas reuniões privadas” com os líderes políticos do Hamas Khaled Meshaal e o seu sucessor Ismail Haniyeh — que ocupou o cargo até julho do ano passado, quando foi morto por Israel no Qatar. No final de 2017, depois de seis reuniões, Blair declarou que a comunidade internacional tinha estado “errada” ao isolar o Hamas depois da sua vitória nas eleições de 2006. “Em retrospetiva, acho que devíamos, desde o princípio, tentado puxá-los para o diálogo e mudado as suas posições”, declarou, à data, em entrevista ao The Guardian.
Porém, menos de três anos depois, o seu tom com o grupo palestiniano parecia mais exasperado, devido à sua falta de disponibilidade para dialogar quer com israelitas — que “denunciavam” —, norte-americanos, — que “alienavam” — ou árabes — que “irritavam”. “Isto não funciona. Envolvam-se. Digam que o plano é inaceitável. Apontem o que tem de ser alterado. Exigem reuniões. Defendam-se. Mergulhem nos detalhes”, escreveu num artigo de opinião de 2020, em que dizia ser “uma das poucas pessoas que ainda acredita que a criação de um Estado da Palestina é tanto desejável como concretizável”.
Ao longo do último ano, à medida que Israel continuou a escalar a sua ofensiva na Faixa de Gaza, Blair, no âmbito da sua Fundação, dedicou-se novamente a delinear um plano concreto para tentar alcançar o que tantos antes — incluindo pela sua mão — tinham falhado em alcançar: uma paz a longo prazo. Os dois vetores principais do plano eram o estabelecimento de um “órgão internacional” de transição e o objetivo a longo prazo de passar a sua liderança para os palestinianos.
Mais recentemente, juntou-se a Blair Jared Kushner, genro de Donald Trump. Kushner foi conselheiro sénior durante a primeira administração Trump e tornou-se um dos rostos da assinatura dos Acordos de Abraão, que resultaram na normalização das relações entre Israel e vários países do Médio Oriente. Em agosto, o empresário norte-americano e o antigo primeiro-ministro britânico reuniram-se na Casa Branca para apresentar a Trump o “Plano Kushner-Blair”, como classificaram diplomatas ouvidos pelo Financial Times.
Trump acabaria por incluir “algumas das ideias de Blair no seu plano de paz”, notou um responsável israelita com conhecimento das negociações ao Washington Post. O elemento mais visível é a criação do “Comité da Paz”, liderado por Trump e Blair, que teria entre 7 e 10 elementos, “figuras internacionais com experiência executiva e financeira”, de preferência de Estados muçulmanos como o Egito ou os Estados do Golfo, e também um elemento tecnocrata palestiniano, segundo um rascunho a que o The Guardian teve acesso. O facto de o plano, aceite por Israel, não rejeitar o reconhecimento eventual do Estado da Palestina, também terá a mão de Blair, que insistiu no princípio “Gaza para os gazanos [os habitantes do enclave]”.
Para além deste objetivo a longo prazo, o plano inclui outros pontos que Telavive já tinha recusado. Ehud Barak, o antigo primeiro-ministro, já tinha antecipado, numa entrevista no sábado, a possibilidade de Blair fazer os israelitas mudarem de ideias, dado o “respeito” que têm por ele. “Ele sempre teve um canto do coração dedicado ao projeto inacabado de acalmar este conflito. É como se ele nunca tivesse ido embora”, notou. No entanto, continua por ver se Tony Blair terá um efeito semelhante no Hamas.