Rui Rio passou o dia 12 de dezembro em Lisboa, onde durante a manhã participou numa reunião da bancada do PSD, embora tenha faltado à sessão plenária da tarde. À noite foi a Tomar a uma ação de campanha das diretas com militantes do distrito de Santarém no âmbito da candidatura “Rui Rio — Portugal ao Centro”. O presidente e candidato à liderança do PSD chegou perto das 19h ao Complexo Cultural Levada de Tomar — mas em vez de se deslocar num carro da candidatura, utilizou uma viatura do partido (matrícula 76-JB-92) e foi conduzido ao local por um motorista do PSD (Paulo Nunes).

O Observador teve acesso a fotografias e relatos de militantes que comprovam que Rio chegou à rua João Carlos Everdad conduzido por um motorista do PSD e confirmou que a matrícula em causa corresponde a um veículo que tem seguro em nome do PSD desde 2010. Problema: Rui Rio estaria a utilizar meios do partido, o que significaria uma vantagem face aos outros dois candidatos à liderança. Questionada pelo Observador, a assessoria de Rui Rio justifica que “o presidente do PSD e do grupo parlamentar todos os fins de semana se desloca em viatura do partido, de Lisboa para o Porto, no exercício das suas funções. Nessa sexta-feira, dia 12 de dezembro, interrompeu o respetivo percurso para participar numa ação de campanha em Tomar”.

O presidente do PSD assume, assim, que foi a uma ação enquanto candidato no carro do partido — mas apresenta como atenuante o facto de ter sido apenas um desvio numa viagem Lisboa-Porto. E acrescenta:

Não se vê qualquer prejuízo para o partido porque a viagem tinha de ser feita“, diz a resposta enviada ao Observador pela equipa de Rui Rio.

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Na resposta há um pequeno lapso: dia 12 não era sexta-feira, como diz a equipa de Rio, mas quinta-feira. Na sexta-feira, dia 13 de dezembro, Rui Rio também teve ações de campanha das diretas a sul do Porto, em particular com militantes em Coimbra.

Rui Rio na sessão da candidatura Portugal ao Centro, em Tomar, no dia 12 de dezembro. Fotografia: “Rui Rio — Portugal ao Centro”

O caso não é, porém, isolado. Há outros registos de que a candidatura de Rui Rio utilizou meios do próprio partido. Num requerimento entregue no Conselho de Jurisdição, sabe o Observador, a candidatura de Luís Montenegro queixou-se precisamente ao órgão que faz de “tribunal” do partido que Rui Rio estava a utilizar meios do partido para a candidatura à liderança.

Na resposta ao Observador sobre os vários casos, a equipa de Rui Rio destaca que “esta direção, nomeadamente o seu presidente e a secretaria-geral, sempre mantiveram uma atitude de rigor e responsabilidade na gestão do partido, basta constatar os relatórios de contas apresentados nestes dois anos e ver a redução significativa das dívidas e o rigor nas despesas feitas”. E acrescenta: “Não nos limitamos às palavras. Gostamos de mostrar os resultados”.

Encontro no bar de vinhos. “A caminho de Mirandela fez paragem em Viseu”

Antes da ida de Rui Rio a Tomar na viatura do partido, já o secretário-geral do PSD tinha feito o mesmo a 22 de novembro de 2019. Nesse dia, ao final da tarde, José Silvano teve um encontro com alguns dos principais apoiantes de Rui Rio no restaurante Delux Garrafeira, em Viseu. Para chegar a este espaço, que também funciona como bar de vinhos, José Silvano (que de manhã estivera na sessão plenária no Parlamento) deslocou-se — segundo garantiram ao Observador militantes do PSD que estavam no local — no carro do partido normalmente utilizado pelo secretário-geral (o mesmo Audi em que já andava um dos seus antecessores, Matos Rosa). José Silvano teve o encontro na qualidade de membro da candidatura de Rio e não como secretário-geral. Mas, em vez de usar um carro da candidatura, usou um do partido.

No carro do PSD, juntamente com José Silvano, seguia também o cabeça de lista pelo Porto nas últimas legislativas e apoiante de Rui Rio, Hugo Carvalho. No encontro privado estiveram apoiantes de Rio como Fernando Sebastião (antigo presidente do Instituto Politécnico de Viseu e mandatário distrital), Manuel Teodósio (presidente dos TSD no distrito de Viseu) ou Domingos Nascimento (número sete da lista ao distrito nas legislativas, por indicação da direção de Rio).

Mais uma vez, a justificação da equipa de Rio é que se tratou de uma paragem e não de uma deslocação propositada. “O secretário-geral, nesse dia (sexta-feira, 22 de novembro) deslocava-se de Lisboa para Mirandela no exercício das suas funções. Em direção a Mirandela fez uma paragem em Viseu, onde reuniu com algumas personalidades durante uma hora”, lê-se na resposta enviada ao Observador. A conclusão da assessoria de Rio é a mesma do caso relativo ao presidente do partido: “Também não se vê que daí tenha resultado qualquer prejuízo para o partido ou abuso dos meios do partido“.

De qualquer forma, o Observador sabe que, depois das primeiras denúncias sobre este uso de automóveis do partido, Rui Rio e José Silvano têm-se deslocado pelo menos desde o dia 16 de dezembro em carros da candidatura e não, como fizeram nos casos referidos, em viaturas do partido.

Reunião de candidatura na sede do Porto e anúncio nas redes sociais do partido

Outro caso, que incomodou militantes do PSD de Viana do Castelo que apoiam outras candidaturas, foi o facto de Rui Rio receber dois autarcas de Arcos de Valdevez, João Manuel Esteves e Olegário Gonçalves, na sede distrital do Porto. Para os militantes, o problema não é Rio receber os autarcas na sede, mas sim encontrar-se com eles no seu escritório como líder do partido para falar especificamente das diretas.

Sobre este assunto, a candidatura de Rui Rio considera que este é um “ato perfeitamente normal“, já que, “como é publicamente assumido, o presidente do PSD utiliza a sede distrital do PSD no Porto para trabalho político“. Ora, foi “no âmbito de várias reuniões que mantém com personalidades do partido” que, “nesse dia, recebeu o senhor presidente da Câmara dos Arcos de Valdevez e o seu vice-presidente”.

Há mais um caso que levou a críticas de apoiantes das outras duas candidaturas: o facto de Rui Rio utilizar a página de Facebook do PSD e a conta oficial do partido no Twitter para transmitir em direto o anúncio da recandidatura à liderança do PSD. O cenário do anúncio não enganava: foi a estreia do slogan “Rio — Portugal ao Centro”.

O vídeo continua disponível na página oficial do Facebook do PSD, que tem mais de 15 mil seguidores (contra os pouco mais de três mil da página “Rui Rio — Portugal ao Centro”). Os adversários de Rio não puderam usar as redes sociais do partido e tiveram que recorrer às das suas candidaturas. “Luís Montenegro — A Força que Vem de Dentro” tem cerca de 4 mil seguidores e “Miguel Pinto Luz — O Futuro Diz Presente” tem cerca de 1,9 mil seguidores. Desde 21 de outubro, o vídeo de Rui Rio teve mais de 38 mil visualizações.

Imagem do vídeo de recandidatura de Rui Rio

Sobre este último ponto, a candidatura de Rui Rio confirma que “ela foi objeto de queixa ao Conselho de Jurisdição Nacional por parte da candidatura de Luís Montenegro” e que “este órgão recebeu as respostas a todas as questões por parte da direção do partido, não encontrando qualquer ilegalidade ou abuso de meios do partido“.

O Observador falou com fontes do Conselho de Jurisdição que dizem que aos elementos deste órgão apenas chegaram pedidos de esclarecimento sobre se José Silvano poderia ocupar o cargo a tempo parcial. Alguns membros, sabe o Observador, queixam-se que vários assuntos durante as diretas — como o caso da Madeira, onde dirigentes do PSD tentaram inpugnar as eleições — estão a ser decididos pelo presidente Nunes Liberato sem que todos os membros tenham conhecimento.