Rita Matias acredita que PS e PSD estão a apostar numa estratégia de colocar “escândalos do Chega” na comunicação social para travar votos em André Ventura, reconhecendo que a política nacional vive numa altura em que estão “todos a tirar ao alvo” e “a tentar mostrar qual é que é o partido com mais telhados de vidro”. Assume que há casos — designadamente o de Nuno Pardal, acusado de prostituição de menores — que fragilizam o partido por atingir diretamente uma das principais bandeiras do Chega, e reitera, tal como fez André Ventura, que “devia ser quimicamente castrado”.

Em entrevista no programa Vichyssoise, da Rádio Observador, mostra-se orgulhosa por ser candidata à Câmara Municipal de Sintra, que considera estar na “Champions” das autárquicas, mas admite que “preferia não estar envolvida no percurso autárquico”. À boleia do caso das malas afirma que o Chega foi sempre acompanhando a “proximidade de Miguel Arruda ou de outros grupos que são apelidados de extrema-direita”, apontando que muitas vezes essa associação é feita de “forma abusiva”, enquanto assume que há outros grupos que a preocupam mais. Diz ainda que “Mário Machado dá muito jeito ao sistema” por acreditar que serve para “polarizar”.

Ainda sobre Nuno Afonso, que lançou recentemente um livro muito crítico do Chega, acredita que “devia poupar-se” porque está a passar “apenas e só pelo ressabiado que já teve tudo na mão e perdeu tudo”.

“É difícil Chega ter pior resultado em Sintra do que em 2021”

Vai ser a candidata à Câmara de Sintra nas eleições autárquicas. Ter um resultado pior do que aquele que teve Nuno Afonso em 2021 seria uma derrota grande?
Sem querer parecer pouco humilde, parece-me difícil, para não dizer impossível, o Chega ter um resultado pior do que aquele que teve nas últimas eleições autárquicas, mais que não seja porque Sintra tem sido um dos grandes bastiões do Chega. Aliás, mesmo no distrito de Lisboa, onde o resultado do Chega não foi tão forte como noutros distritos, Sintra foi dos conselhos que registou um maior aumento. Portanto, acredito que a grande base eleitoral do partido no distrito está lá. Tenho sorte por concorrer num concelho onde há uma grande adesão ao discurso do Chega, desde logo porque as causas que o partido representa traduzem-se muito na vida de um concelho que tem uma parte mais rural, uma parte mais suburbana.

Está a desvalorizar o facto de ser a candidata em Sintra?
Não, estou a desvalorizar o facto de ser eu a candidata em Sintra. Estou a brincar. Não vou ser polémica, não vou lavar roupa suja ou pelo menos tento não fazê-lo. Estou acima de tudo a dizer que o partido foi crescendo, independentemente das controvérsias que foi tendo ao longo dos anos. Isso é um bom sinal, mostra que os eleitores olham mais às causas do que aos representantes dessas causas e isso é bom, numa altura em que parece que estamos aqui todos a tirar ao alvo, a tentar mostrar qual é que é o partido com mais telhados de vidro e com mais cadáveres no armário. É bom saber que os eleitores mantêm uma certa maturidade e querem acima de tudo ver as suas ideias traduzidas em políticas públicas.

Ou olham não só para as causas, mas para a pessoa, e quando votam no Chega estão sempre a votar em André Ventura.
Diria que não. Temos agora 308 concelhos onde não vão estar a votar diretamente em André Ventura, vão estar a votar em candidatos do Chega, e isso é bom sinal. Quando nos associarem a André Ventura é um elogio, tendo em conta que acho que é um dos melhores políticos na área atual, por outro lado também é bom perceber que esta imagem de que o Chega é um partido e um homem só, depois não bate certo com aquilo que têm tentado fazer nos últimos dias, de tentar mostrar que afinal as escolhas de André Ventura são todas muito más. Ou é um partido e um homem só e centramos tudo em André Ventura, ou se de facto há mais pessoas e essas escolhas são más, a narrativa cai por terra.

Mas o Chega está a ser alvo de algum tipo de perseguição ou de campanha de que os outros partidos não estão a ser alvo?
Não diria que seja uma campanha concertada, até porque isso parece teoria da conspiração e não tenho dados para dizer isto. O que sei é que os últimos quinze dias, vinte dias, foram dramáticos para todos os partidos no geral, todos tiveram telhados de vidro. Acho que só faltava o PCP, mas esta manhã vimos mais uma notícia de uma trabalhadora que foi despedida pela CGTP. Confesso que não abri essas notícias porque até é desmotivador perceber a forma como temos estado a fazer política atacando os partidos e tentando mostrar as hipocrisias dos partidos. Parece que nos últimos vinte dias deixámos de discutir ideias, parece que o país parou, que não há problemas na saúde, na imigração, na habitação, parece que o tema agora é só quem é que são os dirigentes políticos. Acho que o escrutínio é muito importante e ainda bem que esse escrutínio existe. Tem é sido desproporcional e pode ter uma consequência negativa que ninguém está a falar: há algumas pessoas no centro, PS e PSD, e vemos essa atitude na Assembleia da República, que acham que com esta estratégia de colocar semana sim, semana sim, escândalos do partido Chega cá fora, de dirigentes, alguns mais influentes, outros que são menos conhecidos, as pessoas vão deixar de votar no Chega. O que me preocupa é que há muitos eleitores do Chega que eram abstencionistas e, portanto, aproximaram-se da democracia participativa novamente através do voto no Chega. Não sei se estas pessoas vão fazer uma transferência de voto para o PSD ou para o PS ou para a Iniciativa Liberal. Sinceramente, acho que estas pessoas que já eram desacreditadas na política, ao ficarem desacreditadas no Chega deixam simplesmente de participar. Portanto, em vez de estarmos todos a ganhar com isto, além de muitas vezes estarem apenas a promover aqui pequenas quezílias pessoais, há muitos partidos ou individualidades que estão a aproveitar a ocasião para achincalhar André Ventura e o Chega em praça pública neste momento e guardaram os temas até agora, não estão verdadeiramente comprometidos com as instituições e com a democracia. E isso preocupa-me.

Falou do PS e do PSD, sugerindo, que estes partidos é que faziam questão de ver estas notícias cá fora. Acha que são estes dois partidos que têm dado as notícias à comunicação social?
Não tenho mesmo a mínima prova sobre isso e também nem quero saber, porque sou uma pessoa que precisa de estar motivada e acreditar no melhor que as pessoas têm para continuar ativa e espero mesmo que não seja dessa forma. Mas sei, e vimos, algumas pessoas em alguns órgãos de comunicação social dizerem que já tinham conhecimento de certos casos no Chega, alguns até dos quais me envergonho, e que lamento imenso que não tenhamos detetado antes, e terem guardado, não sei muito bem porquê. Se calhar podíamos ter evitado que algumas pessoas permanecessem no exercício de um cargo público se estes dados estivessem vindo a público mais cedo.

Os mais graves nem sequer era possível guardar: um foi apanhado a roubar malas em flagrante e ninguém sabia disso antes. E no caso de Nuno de Pardal também ninguém sabia previamente que ele tinha pago por sexo a um menor através de uma app.
E por isso o Chega não conseguia prever esses casos.

“Preferia não estar envolvida no percurso autárquico”

O Chega tem anunciado vários candidatos, mas ainda não tem nenhum nome para Lisboa. Devia apostar alguém independente ou alguém do partido?
É uma boa questão, o próprio Chega tem estado em debate interno e parece que agora querem também sugerir que o Chega tem que apertar a malha no escrutínio dos candidatos. Esta campanha que está a acontecer, por ordem do acaso ou mais concertado, não sei, pode afetar o desejo de pessoas estarem ao serviço da causa pública. Porque foi transversal: 60 arguidos no caso do Tutti Frutti e no caso do Bloco de Esquerda com os despedimentos, um secretário de Estado que legislou, não necessariamente em função de, mas coincidentemente ao mesmo tempo que abria negócios na área da gestão agrícola e florestal. Tudo isto desincentiva as pessoas de estarem ativamente na política. No entanto, acho que o Chega vai apresentar um bom candidato. Estou convicta que esse nome será, eventualmente, um outlier, pelo menos é aquilo que nos corredores se vai falando. Será alguém que não é tão expectável, eventualmente, no quadro da militância do Chega, pelo que vou sabendo. Se calhar daqui a uns tempos vou estar a ser desmentida e verificada. Mas, por agora, corre por aí essa informação e espero que se confirme.

Nuno Afonso disse que a Rita Matias tinha sido uma boa candidata a Lisboa.
Agradeço o elogio. Era uma responsabilidade demasiado grande para mim.

Mas ponderou? 
Não, de todo. Aliás, mesmo Sintra foi uma surpresa para mim. Honestamente, do ponto de vista pessoal, preferia não estar envolvida no percurso autárquico pelas várias coisas que pretendia fazer na esfera da vida familiar neste ano. Mas percebo que o partido necessite que estejamos todos ao serviço e, acima de tudo, gostei do argumento que me foi apresentado. Sintra é, de facto, a Champions das câmaras municipais, sem querer desvalorizar nenhuma outra, um dos sítios onde os partidos apostam grandes nomes. E gostei que André Ventura tivesse dado este sinal de querer jovens como candidatos, apostar nos jovens, e, por isto, também apostar numa candidata jovem em Sintra, onde poderia ter apostado em outros nomes, talvez com mais experiência política, mais anos de vida, mais experiência profissional. Mas quis dar este sinal e eu agradeço imensamente.

Ainda voltando a Lisboa, entre os colegas de bancada que ainda não estão destinados a câmaras vê alguém com capacidade para abraçar este desafio em Lisboa?
Eu vejo mais 48 com capacidade. Não 48, na medida em que alguns já estão anunciados, não sei agora de cor quantos é que ainda estão disponíveis. Mas acredito que muitos teriam o perfil indicado para abraçar este desafio.

“Mário Machado dá muito jeito ao sistema”

André Ventura pediu a Miguel Arruda que renunciasse para que o mandato ficasse para uma pessoa do Chega. O facto de o deputado não ter renunciado não é um sinal de uma liderança fraca de André Ventura?
Não é sinal de uma liderança fraca de André Ventura e é algo que acaba por ser recorrente. A deputada Cristina Rodrigues, que hoje está connosco, já foi, a dado momento, deputada não inscrita do PAN, até o PCP, que costuma ser muito corporativista e ter aqui um espírito muito em prol do coletivo, chegou a ter deputados não inscritos que de repente sentavam-se no fundo da bancada. Isto para dizer que André Ventura fez os possíveis, apelou ao deputado Miguel Arruda que abdicasse do mandato, que renunciasse ou que suspendesse até a Justiça poder fazer o seu trabalho, o seu percurso. Até porque aquilo que nós temos vindo a assistir honestamente entristece-me.

Aquilo foi uma saudação nazi?
Estava de costas, não vi o momento e por isso mesmo não consigo adjetivar. Agora, acaba por ser curioso ver como Rui Tavares, o Livre, tem esta estratégia de crescer polarizando com o Chega ou com pessoas que sejam desta família política, com proximidades.

São conhecidas as proximidades de Miguel Arruda ao grupo 1143 e o próprio faz questão de partilhar nas redes sociais e já acontecia antes deste caso de Justiça. Isto não preocupava o Chega? Não houve aqui alguma intenção de pedir a Miguel Arruda que pelo menos parasse publicamente com isso?
O Chega foi sempre acompanhando esta proximidade de Miguel Arruda ou de outros grupos que são apelidados de extrema-direita, muitas das vezes parece-nos de forma abusiva também.

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Mas acha que o grupo 1143 não é de extrema-direita? 
Sinceramente nunca perdi muito tempo a conhecer a fundo o grupo 1143. Aquilo que vou conhecendo são pessoas que muitas vezes não têm a profundidade política necessária sequer para afirmar ou não se são de extrema-direita ou não são de extrema-direita, se são mais convictas ou menos convictas. Aquilo que sabemos é que por vezes escolhem métodos que nos parecem um pouco formais de fazer expressar a sua voz. Acredito que os partidos existem para conter a violência e introduzir a violência em discurso.

Conhece os casos, por exemplo, de Mário Machado, uma pessoa cujo percurso é conhecido. Acredita que ele é um líder de extrema-direita ou não? 
Mário Machado dá muito jeito ao sistema, honestamente, se puder ser polémica. Muitas das vezes duvido até que ponto é que Mário Machado não é utilizado como a extrema-direita que, entre aspas, foi criada para podermos polarizar, quando realmente existem grupos que me preocupam muito mais e que estão a surgir e têm uma adesão cada vez maior nos jovens e estes sim, querem retrocessos, por exemplo, ao nível dos direitos das mulheres, ao nível de uma discussão de imigração que tem que ver mais com tons de pele e não tanto com o que as pessoas aqui estão a fazer, se vêm por bem, se não vêm por bem.

Que grupos são esses? 
São grupos que têm surgido em redes sociais, não queria nomear particularmente nenhum, até porque normalmente os mais conhecidos acabam por não ser os reais grupos perigosos, basta olhar para as caras e para os perfis dos próprios, muitas das vezes acabam por ser caricaturas criadas.

Mas dizia que Mário Machado dá jeito ao sistema. Neste momento está a dar jeito a Mário Machado e ao grupo 1143 ter um deputado como Miguel Arruda na Assembleia da República?
Não sei se eles mantêm qualquer ligação ou não, sei muito pouco, e aquilo que vou sabendo nos corredores é sempre apenas e só da esfera familiar de Miguel Arruda. Tenho a preocupação de lhe perguntar quase diariamente pelas filhas, [porque] são pessoas que de repente se viram completamente expostas, de repente tivemos reportagens à porta de casa a filmar o interior da casa, a expor o pai. Os dados são demasiado evidentes, ainda assim, existe um processo que está sujeito à presunção de inocência também. Não tendo eu conhecimento, não queria estar a culpabilizar, nem estar a dizer que o 1143 está a usar Miguel Arruda de qualquer forma. Acho que há muitas pessoas que estão a usar Miguel Arruda e vou falar das que sei. Sei que vi muitos deputados do PS e do PSD aproximarem-se de Miguel Arruda naqueles dias mais críticos, onde esteve iminente a renúncia ou não, e sugerirem-lhe que permanecesse, ou tentarem acicatar Miguel Arruda contra o Chega, sem perceberem que estavam a falar com alguém que visivelmente não estava bem. Se compararem as imagens, Miguel Arruda parece que envelheceu 10 anos em 10 dias. Era alguém que estava fragilizado do ponto de vista mental e que foi um pouco utilizado pelos partidos maiores para desestabilizar o Chega, com sucesso, conseguiram desestabilizar em certa medida, mas o que me custa particularmente é que há um impacto pessoal, do qual sinceramente acho que dificilmente se vai livrar, sobretudo sendo de uma ilha, de um meio tão pequeno, dificilmente se vai livrar deste rótulo.

“Caso de Nuno Pardal fragiliza naturalmente porque esta é uma das principais bandeiras do Chega”

Miguel Arruda passou a deputado não inscrito, o líder da bancada do Chega, Pedro Pinto, disse que não se responsabilizava pelo que a bancada podia fazer se Miguel Arruda continuasse sentado junto aos deputados do Chega. Isto era uma ameaça física ao deputado não inscrito?
Espero que não, sinceramente. E até vamos vendo alguma cordialidade que permanece entre deputados. Acredito que o que Pedro Pinto queria dizer é que, se se recordarem, Miguel Arruda era um deputado muito vocal, com muitos apartes, alguns excessos por vezes, que tínhamos a missão de tentar controlar e, por isto, imagino que em momentos de conflitualidade, onde estamos a discutir propostas diferentes, ou onde estamos a discutir até o facto de nos queremos desvincular de uma pessoa que neste momento não está a fazer bem nem ao partido, nem sequer às instituições democráticas… Perdemos mais tempo a discutir o caso de Miguel Arruda, que é tão absurdo, de malas, e é bizarro, depois quando vende na Vinted de por um euro, do que a discutir, por exemplo, 60 arguidos no caso Tutti Frutti.

O que é que Pedro Pinto queria dizer, o que é que podia acontecer? Disse que não se responsabilizava, era pelo quê?
Espero que não estivesse a fazer qualquer alusão, por exemplo, ao Parlamento italiano, onde às vezes acaba tudo à chapada, ou ao parlamento britânico que também tem mais agressividade e apartes do que o Parlamento português. Acredito mesmo que falava de tensões que podem surgir e que se podem introduzir por discussões. Já nem é só aquilo que fazemos, é como percecionamos. Nesse dia em particular, cruzei-me com Miguel Arruda no corredor e perguntou-me se me podia dar um abraço. Repare a fragilidade com que ele estava naquele momento. Estivemos um pouco a conversar e eu voltei a reforçar…

Mas não o deixou dar-lhe um abraço? 
Acabei por lhe dar um abraço. Sou uma pessoa generosa.

O deputado Miguel Arruda, naquilo a que chamava de lavar a roupa suja, faz acusações que podem ter ou não correspondência com a realidade. Uma delas era que o deputado Pinto Pereira promovia a filha na juventude do Chega. Está a ser promovida de alguma forma?
Permitam-me só concluir a ideia que estava a trazer: neste diálogo que tive com Miguel Arruda houve quem relatasse, jornalistas e pessoas de outras bancadas, como um momento de intimidação. Acho que com um abraço ainda não intimido um homem daquele tamanho e o interesse, sinceramente, era de ouvi-lo e de poder dar-lhe também uma palavra de força, porque, independentemente de tudo, somos todos pessoas, mesmo com as nossas falhas. Respondendo à questão, uma vez mais, se estivermos a falar em Miguel Arruda poder estar a ser utilizado, eu nunca vi Miguel Arruda com qualquer animosidade, quer com António Pinto Pereira, quer com Pedro Frazão, que também foi um dos visados nesses tweets, e também não me parece que seja a forma de escrever e de se expressar de Miguel Arruda. Portanto, fica no ar, quem é que poderá estar a aproveitar-se ou não desta presença, deste mandato.

Mas a filha do deputado faz parte da juventude do Chega ou não? 
A filha do deputado não tem qualquer cargo, tanto quanto sei. A estrutura é grande, estamos representados em todo o território.

É só membro da juventude? 
Sei que é militante da juventude em Cascais e que tem uma presença tão notória como qualquer outro jovem, portanto, nunca foi nomeada em função de ser filha de ninguém, mas, a bem, na verdade, e também seria hipócrita se dissesse de outra forma, normalmente, quando vemos familiares do Chega na política, tendem a ter qualidade. Muitas das vezes também fui apontada por estar onde estou em função da filiação que tenho, ou muitas das vezes vi o meu irmão, que acho que é uma pessoa com muita qualidade também, afastado porque é irmão da deputada Rita Matias e, normalmente, ao contrário de outros partidos, quando não conseguimos perceber muito bem qual é que é o talento, parece que é só mesmo o sangue, por exemplo, da família César. Não sei muito bem porque é que Patrocina César é uma assessora indispensável à vida do Partido Socialista, que também nunca se esforçou por explicar. Ou porque é que os irmãos Mendes estiveram sentados na mesma bancada no governo passado, e, de repente, parece que quando é noutros partidos à direita ou no Chega já é um escândalo. Isto para dizer que se a filha de António Pinto Pereira, que acho que tem 15 ou 16 anos, vier a ter qualidade no futuro, pelo menos se eu ainda estiver à frente da juventude, não a vou afastar em função do pai que tem, porque ela não pediu para ter aquele pai.

E no caso da acusação a Pedro Frazão era de que recrutava para Opus Dei, assistiu a algo desse recrutamento?
Sinceramente, de todo, Pedro Frazão já foi até um deputado muito mais participativo em eventos de jovens do que tem sido agora nesta fase, até pela família que tem, pelas obrigações que tem, parece-me infundado aquilo que é dito, e volto a dizer, não reconheço em Miguel Arruda aquele tipo de vocabulário, e espero mesmo que não tenha sido o próprio, porque acredito que, independentemente das questões políticas e partidárias que possamos ter agora de divergência, os laços humanos deviam prevalecer tanto quanto possível.

Tem alguma ideia de quem é que pode estar a escrever por ele?
As informações que tenho é que Miguel Arruda tem dois assessores, uma secretária e um assessor, alguns deles já foram próximos do partido ou ainda estão próximos do partido. Pode ser sempre aquele típico ressabiado que existe em todos os partidos e que depois aproveita certas fragilidades para pôr cá fora algumas mágoas e sei também que Miguel Arruda tem uma agência de comunicação, se não estou em erro, a trabalhar com as suas redes, pelo menos esta é a informação que corre.

Teme vir a ser uma das visadas de Miguel Arruda?
Poderei vir a ser e acho que o escrutínio é sempre interessante. Sinto que cresci muito mais politicamente cada vez que estive no olho do furacão do que quando estou encostada às cordas a ver o que é que se passa no ringue. Se for, espero que não, porque tentei sempre ser cordial, mas se for, será certamente uma oportunidade para voltar a crescer e a aprender qualquer coisa.

Nuno Pardal, apesar de não ser deputado na Assembleia da República, era uma figura muito próxima do núcleo de Chega, trabalhava na sede, organizava eventos. O facto de estar acusado do crime que está em causa é uma mancha para o partido?
Não vou esconder, nem vou ter uma postura pouco humilde, noutros fóruns já tive frases mais acesas e sei que há quem tenha ficado magoado com isso. Quando nós erramos temos que ter humildade de reconhecer que erramos. E, portanto, o Chega só tem uma palavra a dar, que é o pedido de desculpa por não termos detetado mais cedo. Obviamente não nos podemos responsabilizar por qualquer ação que tenha sido cometida, mas se esta ação é cometida em 2023, sendo este senhor militante já há 3, 4 anos, com algumas funções dentro do partido, não podemos ter qualquer outra postura que não reconhecer que estivemos mal. Fragiliza naturalmente porque esta é uma das principais bandeiras do Chega, não posso esconder.

Devia ser quimicamente castrado?
Devia ser quimicamente castrado. Não sei se recordam, na pandemia, uma das manifestações que o Chega promoveu foi precisamente relativamente ao tema da pedofilia, fazendo várias alusões ao caso Casa Pia, não podemos ser inocentes, nem sou daquelas que gosta de esconder a cabeça na areia e dizer, que os nossos eleitores estão mais firmes do que nunca porque viram que André Ventura foi exemplar. Sim, André Ventura foi exemplar, teve uma atuação distinta dos outros partidos porque tem, tanto quanto possível, afastado todos os suspeitos ou pessoas que não sabem justificar porque é que estão na praça pública a ser escrutinados. No entanto, esses casos são de evitar e assusta-me muitas pessoas que pensam ‘então, agora é que eu não posso mesmo envolver-me com o Chega’. Não, é o contrário. Tenho n amigos que são professores académicos, empresários, pessoas brilhantes e que têm receio de dar a cara pelo Chega porque sofrem represálias. Eu trabalhava numa universidade e, não podendo ser despedida, o meu cargo foi extinto, que é uma forma legal de afastarmos alguém, em função de ser do Chega e isto é público e já foi super noticiado. Sei que as pessoas têm receio disto, aquelas pessoas de bem, mas eu prefiro ter pessoas de bem a militar no Chega e a ser deputados do Chega ou deputados municipais do que Nunos Pardais da vida.

Nuno Afonso, na Vichyssoise, disse que Ventura fingiu que não sabia de nada em situações mais graves do que a de Miguel Arruda. Tem conhecimento de alguma situação desse género?
Sinceramente, não. Aliás, a de Miguel Arruda então foi super surpreendente, não tenho conhecimento de nenhuma situação que tenha sido abafada e, pelo contrário, normalmente André Ventura é mesmo implacável internamente com várias situações. Temos exemplos onde André Ventura antecipou-se questões que nem vieram a público e colocou as pessoas no seu devido lugar.

No livro que lançou a semana passada, Nuno Afonso também escreveu, visando Rui Paulo Sousa: “Também ainda durante a campanha presidencial circulou uma notícia que confirmei com o pai da Rita Matias e com outra pessoa que assistiu, mas este caso guardarei, por agora. Correu o partido e foram os próprios amigos que puseram esta história cá fora”. Que caso é este? O Rui Paulo Sousa fez-lhe alguma coisa?
Acho sempre engraçado a forma como tentamos, quando não temos capacidade de desviar os nossos oponentes políticos pela via da qualidade, pela via da oratória ou pela via das nossas ideias, muitas das vezes tentamos o ataque pessoal. Nuno Afonso era o número 2 do partido nunca foi responsabilizado publicamente pelas assinaturas falsas que foi ele que coordenou e que foram entregues ao Tribunal Constitucional, nunca foi responsabilizado por má gestão por exemplo ao nível contabilístico do partido, portanto acho sempre curioso utilizar ataques pessoais para tentar afastar outros colegas que ultrapassaram Nuno Afonso na proximidade que têm evidente à André Ventura. Não tenho nada a comentar em relação a Rui Paulo Sousa, aliás estamos sentados lado a lado na bancada diariamente e se Rui Paulo Sousa alguma vez tivesse sido verdadeiramente inconveniente certamente não contaria com a minha presença ao seu lado nem com os meus aplausos nas intervenções.

Mas Nuno Afonso é uma das pessoas que está a querer lavar roupa suja com este livro? São feitas muitas afirmações principalmente de conversas privadas onde não há propriamente uma prova de que aconteceram.
Sinceramente ainda não vi o livro de Nuno Afonso, nem sei se vou ler. Sei, por exemplo, que o meu pai, que pelos vistos é citado nesse livro, não foi tido nem achado para confirmar os factos e sei de outros casos que Nuno Afonso relata que pelo menos cronologicamente não estão corretos, há imprecisões e por isto sinceramente acho que Nuno Afonso devia poupar-se a si próprio àquilo que está a fazer porque passa apenas e só pelo ressabiado que já teve tudo na mão e que perdeu tudo e, acima de tudo, por alguém que nunca vai conseguir fazer aquilo que André Ventura fez, que foi criar um partido que depois de 50 anos de democracia conseguiu desestabilizar o sistema. Sinceramente parece aquelas relações de namorados que tiveram uma relação muito próxima e de repente depois quando terminam têm que vir cá para fora para contar os podres uns dos outros. Tento não viver a vida dessa forma e acho que Nuno Afonso podia fazer o mesmo a bem dele próprio, que também dedicou muito tempo da sua vida, da sua família, a esta causa. Não correu bem para ele, mas não é por isto que o projeto deixa de fazer sentido.

“IL e PSD têm permitido que o Chega faça o trabalho sujo, de combate”

A direita uniu-se ontem para aprovar mudanças nos relatórios de segurança, designadamente para passarem a ter a nacionalidade de quem comete os crimes. André Ventura acusou a Iniciativa Liberal de copiar o Chega, a esquerda também disse que havia uma adesão da Iniciativa Liberal ao discurso securitário. O Chega teme que os liberais possam capitalizar algum eleitorado com este tipo de posicionamento? 
Acho que o Chega não teme muito a Iniciativa Liberal porque a Iniciativa Liberal também não sabe muito bem o que é a Iniciativa Liberal. Tem andado à deriva, ora são liberais clássicos ora expulsam liberais clássicas do partido, ora são mais libertários.

Pensei que só havia dois géneros.
Para mim só existem dois géneros, para a Iniciativa Liberal depende dos dias, porque às vezes dizem que o wokismo morreu, outras vezes têm muita dificuldade em rejeitar a bandeira coletivista LGBT, que nada tem a ver com a possibilidade de as pessoas viverem a sua orientação sexual como quiserem, mas sim com o facto de defendermos políticas identitárias ao ponto de nos definirmos por características que tenhamos, seja a nossa orientação sexual, seja a raça, seja o credo, o que seja. A Iniciativa Liberal não se consegue posicionar, o exemplo clássico que tenho citado agora tem sido Javier Milei que tive a oportunidade de conhecer em 2022 se não estou em erro, penso que talvez tenha sido a par de André Ventura, das primeiras pessoas em Portugal a divulgar imagens com ele e a apoiá-lo publicamente quando ainda era difícil, quando ele ainda parecia só um louco que gritava em comícios e que vinha vestido a rockeiro e que dizia umas asneiras. Nessa altura defendemos-lo e agora que começa a ter alguns resultados diferentes e positivos na Argentina, pelo menos o povo continua satisfeito com aquilo que Javier Milei tem feito é que a Iniciativa Liberal acordou para Milei.

Está a correr atrás do prejuízo?
Não sei se estão necessariamente a correr atrás do prejuízo. Acho que quando as ideias são boas fazem o seu caminho e todas as pessoas têm direito a mudar de posição. Fico satisfeito é de ver as ideias se singrarem, mas quer a Iniciativa Liberal quer o PSD, a direita, tem permitido que o Chega faça o trabalho sujo, de combate. Passámos anos a alertar para uma série de temas sobre a imigração, de insegurança, as questões de género, a disciplina de cidadania, a forma como a escola deixou de ser usada para formar e mais para doutrinar…

Acha que a Iniciativa Liberal mudou de ideias nestes últimos anos?
Foi mudando de ideias ao sabor do vento e por isso é que eu não estou convicta que seja de facto uma mudança real e que são agora anti-woke, que são realmente libertários que querem outra vez os liberais clássicos a militar ao seu lado, ou se estão meramente, de forma oportunista, a querer captar os poucos votos que possam garantir a sua sobrevivência, tendo em conta que eles aparecem sempre com 3, 4% em sondagens.

“Gouveia e Melo nunca esteve nas minhas opções”

Num debate no canal Now referiu-se à expressão ratos sem concretizar se se referia a imigrantes. Foi acusada pelo PS de o fazer. Tem aqui oportunidade de esclarecer: chamou ratos a imigrantes ou não?
Era a última pessoa que poderia chamar ratos a imigrantes, tendo em conta que tenho uma avó e uma mãe moçambicana e que já viveram na pele as dificuldades de integração que Portugal continua a manter décadas após décadas. Mesmo naquele debate percebi que nem sempre estamos bem, às vezes jogamos com o pé em riste percebi que se calhar foi uma expressão que podia levar a uma má interpretação, mas tive o cuidado de dizer cara a cara que não era aos imigrantes que me queria referir, era um trocadilho com o Largo do Rato e disse na cara daquele jovem eurodeputado que me estava a referir aos ratos socialistas. A masculinidade é algo que se tem perdido no Ocidente e lamento que ele não tenha tido coragem suficiente para naquele momento contrapor, porque é que acha que o PS não é um partido de ratos? Ratos normalmente são aqueles que abandonam o navio primeiro. António Costa abandonou o país, tinha uma maioria absoluta e conseguiu ver-se envolvido parcialmente, porque afinal foi mesmo lateralmente, só envolvido neste escândalo e foi premiado no cargo que tem. Poderia ter tido a capacidade de contrapor tudo isto, mas preferiu levar para o lado fácil do discurso do agitar consciências de colocar o Chega contra os imigrantes e vice-versa pelo menos não é minha prática falar das ideias nestes termos e, portanto, obrigada pela oportunidade de esclarecer.

André Ventura ponderou apoiar Gouveia e Melo, não sei se corresponde aos requisitos de masculinidade que considere atuais, mas depois disse que o candidato não era unânime. Fazia parte das pessoas que achavam que o almirante era uma boa opção ou não?
Independentemente da masculinidade que uma farda normalmente sugere, Gouveia e Melo nunca esteve nas minhas opções, acima de tudo pelo trabalho que fez na pandemia. Mais do que não conhecermos as posições políticas dele, que é natural porque é um militar, foi responsável pela implementação de um plano de vacinação que teve mais sucesso em Portugal do que noutras latitudes e infelizmente teve mais mortalidade excessiva e estão por apurar as consequências da vacinação massiva.

Se André Ventura não passar à segunda volta votaria em Gouveia e Melo, tendo em conta os outros que se perfilam?
Tendo em conta os outros… espero que surja alguém melhor porque Deus nos livre de termos essas escolhas que andam por aí.

Vamos avançar para o segmento Carne ou Peixe, onde o convidado tem de escolher uma de duas opções. Que cara tapava numa segunda volta das presidenciais: Mariana Leitão ou Luís Marques Mendes?
Luís Marques Mendes.

Quem é que levaria a um jogo do Sporting: Nuno Afonso ou Miguel Arruda?
Miguel Arruda.

Com quem passaria uma semana de férias: Pedro Nuno Santos ou Mariana Mortágua?
Pedro Nuno Santos.

Quem recrutava para a Juventude Chega: Bernardo Blanco ou Alexandre Poço?
Alexandre Poço.