Às 10 da manhã de 7 de outubro de 2023, Roni Kaplan tirou o uniforme do armário e fardou-se. “Nunca mais tirei a farda”, diz ao Observador no kibutz de Nir Oz, a cerca de 1,5 km da Faixa de Gaza. É um dos milhares de reservistas que se voluntariaram para regressar ao ativo depois do ataque de larga e surpreendente escala lançado pelo Hamas naquela manhã. Uma ofensiva que originou um novo e sangrento capítulo na guerra entre israelitas e palestinianos e que está agora em pausa.
Encostados a um portão na vedação do kibutz e com vista direta para Gaza, Kaplan inicia a visita com um discurso, por certo, já muitas vezes repetido: “ Os terroristas entraram por este mesmo portão no dia 7 de outubro às 6h29 da manhã. Eram uns 140. E também entraram por outros quatro pontos. Aqui, ali no portão amarelo, outro ponto é nesta direção [e aponta] e um quarto ponto é nesta direção [aponta para outro lado]. Eles tinham mapas do kibutz. Primeiro foram assassinar o chefe do esquadrão de segurança do kibutz.”
Roni Kaplan detém-se na explicação por instantes e pergunta se o seu ‘portuñol’ “está bem?”. Nasceu no Uruguai e depois veio para Israel. Fala um português açucarado com aquele toque sul-americano de inspiração brasileira. A missão que lhe foi atribuída é guiar (em visitas autorizadas) jornalistas e visitantes pelos escombros de um kibutz, onde viviam 417 pessoas — entre moradores e trabalhadores, muitos de origem tailandesa e filipina — e onde hoje sobram os gatos, alguns militares e um punhado de pessoas. As casas estão unidas umas às outras em ruas sem carros no meio de árvores, estão esventradas, de janelas partidas, queimadas e com marcas de sangue no chão e nas paredes. Os brinquedos, os livros, as roupas, os utensílios de cozinha estão espalhados, foram atirados pelo ar ou derrubados nas lutas corpo a corpo entre moradores e os operacionais do Hamas naquele dia fatídico. Os kibutz são aldeamentos, comunidades agrárias assentes na partilha e não na propriedade privada. São uma espécie de sonho socialista, que ajudou Israel a ocupar território e a desenvolver-se.
▲ O que resta da casa de Amitai Ben Zvi. Um terço da casas de Nir Oz foram queimadas
RICARDO CONCEIÇÃO/OBSERVADOR
Roni Kaplan, major reservista, assume que o exército falhou. Uma falha que abriu caminho à invasão. Os militares demoraram horas a responder, demasiadas horas na opinião de muitos com quem o Observador falou em Israel. O cicerone debita números que ajudam a perceber a dimensão do ataque, mas sobretudo o tamanho da dor e da estupefação dos israelitas. “117 pessoas foram ou assassinadas ou sequestradas, ou seja, 28% da população aqui no kibutz. Mais de uma em cada quatro pessoas. Foram quatro massacres nesse dia. Um aqui, outro em Be’eri (onde Pérola esteve trancada 20 horas com as netas num quarto). E outros dois, em Kfar Aza e no Festival Nova (onde Lotan Abir, de passaporte português, foi uma das vítimas).”
Um terço das casas estão queimadas
Nir Oz fica no sul de Israel, a 1,5 km em linha reta do enclave palestiniano, a 14 km da fronteira entre Israel, Gaza e Egito. O major Kaplan relata que as forças armadas só chegaram seis horas depois do início do ataque, tantas como o tempo de viagem entre Telavive e Lisboa numa ligação direta. Usa por diversas vezes o termo “falha”. Falha do comando, falha do exército, falha do serviço secreto, falha no auxílio às populações. Mas também refere que o número de homens e meios usados na invasão foram avassaladores.
Estamos no telhado do quarto seguro (safe room) de Amitai Ben Zvi. A casa foi destruída pelo fogo. Restam os metais. Amitai, de 80 anos e com doença de Parkinson, estava na cama no quarto seguro. Jimmy Pacheco, o funcionário filipino e cuidador, estava com ele e não o quis abandonar. Os operacionais do Hamas iam e vinham. Numa das vezes conseguiram abrir a porta e disparar assassinando o idoso. Jimmy Pacheco ficou escondido debaixo da cama. Quando regressaram, os invasores encontraram o cuidador e levaram-no para Gaza. “Foi libertado no dia 51 da guerra. Hoje estamos no dia 480, Daniela?”, pergunta Kaplan à militar de 18 anos que nos acompanha e que também pertence à equipa de porta-vozes do exército. Daniela diz que sim com a cabeça. Cita de cor o dia específico quando fala nos acontecimentos importantes para a vida das vítimas. Andamos uns metros para o lado e entramos na casa Oded Lifshitz, ou no resta dela. Uma habitação simples, como é habitual nos kibutz, com uma sala agora ampla por já não existirem paredes. Está tudo queimado. Restam metais retorcidos e as cordas de um piano ainda presas à armação. É ao lado do que sobra do instrumento musical que o cicerone regressa à manhã de terror. Lifshitz de 84 anos foi jornalista e músico. Foi raptado e deverá ser resgatado nesta primeira fase do cessar-fogo. É o refém mais velho e não se sabe se ainda estará vivo ao fim de 15 meses de cativeiro.
▲ O que resta da casa de Amitai Ben Zvi e a casa da família Bibas. Yarden Bibas foi libertado este sábado (1 de fevereiro), mas não sabe se a mulher e dois filhos estão vivos ou mortos.
RICARDO CONCEIÇÃO/OBSERVADOR
O cicerone chegou a Nir Oz no dia 8 de outubro. “Contei pessoalmente 41 corpos”, relata Roni Kaplan, que acrescenta que o número total de mortos é 57, contando com os cadáveres documentados em Gaza. Estivemos em Nir Oz a 28 de janeiro de 2025. Havia cerca de 90 pessoas reféns do Hamas, 29 pertenciam a este kibutz, “quase um terço dos reféns”, precisa o militar. Destes 29, nove estão mortos. “Ronen Engel é um dos first responders, um dos sete em Nir Oz. Ele tinha uma arma, saiu para lutar com os terroristas, foi sequestrado e sabemos que está morto, mas esperamos que volte. Sabemos isso porque os sequestrados viram-no ser morto.”
Todas as casas do kibutz têm um quarto seguro para fazer face aos projéteis disparados da Faixa de Gaza. As famílias estavam habituadas à estranha rotina de recolher sempre que soava a sirene. São quartos em betão com portas e janelas reforçadas preparados para resistir a explosões, mas não a invasões terrestres. Muitas das portas não trancavam por dentro. E a blindagem não é poderosa, permitindo a passagem de projéteis disparados por armas automáticas. Muitos dos que procuraram refúgio ficaram mortalmente encurralados nas próprias casas. Um terço das casas em Nir Oz estão queimadas.
“Encontramos somente dois corpos de terroristas. Um muito grande. Ele media uns 2 metros e 10 centímetros, e outro aí… entre os arbustos. Eles, os terroristas, conseguiram também levar os corpos da sua gente.” Roni vai parando e andando. Tem uma história terrível para contar a cada meia dúzia de passos. Há relatos de inacreditável violência contra novos e velhos, mulheres e homens, nem crianças ou bebés de poucos meses escaparam à brutalidade. Roni põe nomes, idades, caras em cada um dos relatos. Conhece todos os casos. Alguns conhecia pessoalmente. Num dos quartos seguros há sangue no chão e nas paredes, noutro há brinquedos espalhados e buracos de tiros disparados de dentro para fora, numa tentativa desesperada de conter os invasores. As casas estão voltadas do avesso, sinais de um sábado de horror.
▲ Um safe room da família Bibas que serviu de quarto de brincadeiras e agora tem as marcas de tiros nas paredes.
RICARDO CONCEIÇÃO/OBSERVADOR
“E no ponto mais alto do dia, às 11h30 da manhã, tinha 900 pessoas que estavam a atacar o kibutz”, prossegue Roni Kaplan no seu ‘portuñol’. Segundo os relatos, que também são citados por este porta-voz do exército, cerca de 600 civis palestinianos terão estado em Nir Oz nessa manhã. A fita do tempo é importante para entender a violência e a impunidade do ataque, que começou às 6h30. Durante seis horas foi possível destruir e matar com pouca ou nenhuma resistência. Kaplan diz que os palestinianos são “endoutrinados” no ódio, para “erradicar Israel do mapa”. E cita teólogos muçulmanos, como Yusuf al-Qaradawi, para dizer que “eles dividem o mundo entre fiéis e infiéis, entre o preto e o branco. E nós somos os infiéis que estamos perto deles. Mas vocês, na Europa, são os infiéis que estão longe. E isso está escrito. Alguns dizem que têm de conquistar a Europa pela espada, outros que têm de conquistar a Europa pelo sermão (pela palavra).” O cicerone também viaja pela História e novamente pela doutrina para colar o “ódio” ao radicalismo do Hamas imposto na Faixa de Gaza. “O Hamas preferiu praticar o mal altruísta, ou seja, atacar, quando eles sabiam que nós íamos devolver e haveria uma guerra”. Fala sem descansar entre os relatos dos acontecimentos, a análise e o enquadramento histórico.
“Não podemos mais viver ao lado do Hamas, perante o que eles fizeram”
A sociedade israelita revela dificuldade em entender como os europeus vêem o que se está a passar na Faixa de Gaza e criticam o Israel pelo morticínio de civis. Quem vive nos kibutz, por regra mais à esquerda e nalguns casos na extrema esquerda, pergunta-se como podem ser empunhadas bandeiras palestinianas em manifestações em Lisboa, Porto, Madrid ou Paris. E alguns acrescentam com tom de espanto: “Ao lado de bandeiras LBGT?!” Logo no arranque da visita, Kaplan faz questão de referir os 1,35 mil milhões “de quilogramas de ajuda humanitária” que seguiram para Gaza desde o início da guerra. Quer deixar claro que há uma preocupação com os civis — fonte oficial israelita dizia-nos esta semana que os dados avançados pelo Hamas não são credíveis, classificando-os de pura propaganda. E a incredulidade aumenta quando Roni Kaplan se refere aos milhares de palestinianos que trabalhavam “deste lado da fronteira”, que recebiam tratamento médico. Voluntários iam “buscar civis palestinianos” para os levar diariamente aos hospitais. “Eram gente pacifista. Queriam conviver com os seus vizinhos”. O 7 de outubro mudou esta forma de estar em todo o país. Cavou um fosso ainda mais fundo. “O Hamas deixou muito claro que eles não querem um Estado ao lado do nosso. Eles querem um Estado aqui em vez do nosso. Na sua teologia, a terra de Israel é Dar el-Harb. Ou seja, em árabe, é o lugar ou a casa da espada, a casa da guerra. Eu não vou começar a falar agora de história judaica, mas os judeus vivem aqui nesta terra, ininterruptamente, desde a época de Josué, depois de Moisés”, argumenta Kaplan.
▲ Um memorial às vitimas numa casa que albergava uma família de 5 pessoas
RICARDO CONCEIÇÃO/OBSERVADOR
Roni tem 42 anos e 6 filhos, cinco raparigas e um rapaz. Usa quipá (pequeno barrete colocado pelos judeus no alto da cabeça). O avô era polaco e a avó bielorrussa. Emigraram para o Uruguai em 1946. O pai já nasceu na América do Sul. Os avós não estiveram em campos de concentração nazis, mas os amigos que os visitavam no Uruguai, sim. Em Auschwitz e Treblinka, por exemplo. Tiveram uma vida difícil na Europa e no novo mundo. Roni é um homem religioso e cansado. Confessa que se sente triste, quando terminamos a visita no parque infantil de Nir Oz. Hoje, não há gargalhadas, nem correrias, bolas a voar, saltos, canções, desenhos. Não há crianças. A escola em betão reforçado, à prova de bomba, está fechada. Ouve-se o vento nas folhas, os pássaros e o miar dos gatos. É uma aldeia de casas carbonizadas e sem vida.
A avó de Roni perdeu os pais e cinco irmãos. “Era uma mulher cheia de esperança. A minha avó não contava nada sobre a guerra. Ergueu uma muralha perante um passado impossível de explicar para nos permitir um futuro de esperança e de bem. O nosso povo sofreu o maior crime da humanidade, o Holocausto. Ainda assim, nunca perdemos a esperança. Sempre mantivemos a intenção de fazer a paz com os nossos inimigos, porque a paz só se faz com os inimigos. Não sou otimista nem pessimista, tenho esperança. Podíamos jogar a carta das vítimas, mas seria muito mau. Somos responsáveis pelo o que aconteceu aqui.”
O discurso de encerramento da visita parecia ir num sentido, mas a indignação é profunda entre os israelitas. Kaplan muda a agulha e atira: “Eles pensavam que era o princípio do fim de Israel. 15 meses depois, é o início da decadência do eixo liderado pelo Irão. Não podemos mais viver ao lado do Hamas, perante o que eles fizeram. Os nossos objetivos são dois: que os reféns regressem e desmantelar o Hamas do ponto de vista militar e governamental. No sábado (25 de janeiro), pais israelitas receberam 4 filhas depois de 471 dias de cativeiro, mas assassinos de pais israelitas foram libertados do cárcere. Isto é porque o valor da vida se sobrepõe a tudo e a vida de cada um dos reféns é um mundo inteiro.”
O Observador está em Israel a convite da embaixada israelita em Portugal