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Rumo ao Net Zero, qual o papel das soluções de base natural?

Foi no dia 26 de fevereiro que teve lugar, no Salão Nobre do Instituto Superior de Agronomia, o evento que colocou o papel das soluções de base natural na captura de carbono no centro da conversa.

Portugal assumiu o compromisso de atingir a neutralidade carbónica até 2045. Para lá chegar, existem um conjunto de etapas que não podem ser deixadas para depois. No caminho da descarbonização, projetos de redução das emissões de CO2, mas também do seu sequestro assumem-se como cruciais e complementares aos roteiros de descarbonização, enquanto as soluções de base natural para a captura de carbono trazem ao de cima vários benefícios, como a proteção da biodiversidade e apoio às comunidades locais.

A estratégia definida no Plano Nacional de Energia e Clima foi aprovada e vem estabelecer, entre outros parâmetros, uma redução de 55%, em relação aos níveis de 2001, dos gases com efeito de estufa, já para os próximos cinco anos. Foi também instituído o mercado voluntário de carbono, em 2024, e, mais recentemente, criada a Agência para o Clima. É de olhos postos em todas estas mudanças e na importância das soluções de base natural em todo este processo, que a Fundação Repsol dá início em Portugal ao calendário de eventos de 2025 Open Room, com uma conferência totalmente dedicada a esta temática, com o nome de “Rumo ao Net Zero: soluções de base natural para a captura de CO2”.

Foi na manhã do dia 26 de fevereiro que todos os caminhos foram dar ao Salão Nobre do Instituto Superior de Agronomia de Lisboa, parceiro desta iniciativa, que contou também com o Observador como Media Partner, e onde todas as intervenções tiveram um mesmo objetivo: dar início ao debate que se propõe a falar de futuro.

“Na Península Ibérica, a Repsol está a realizar uma das maiores transformações industriais da sua história. Estamos a transformar as nossas instalações em centros multienergéticos, capazes de gerar produtos de baixa, ou mesmo nula, pegada de carbono, apostando, por exemplo, em eficiência energética, em combustíveis renováveis, em produção de eletricidade renovável, etc. Neste sentido, a neutralidade tecnológica terá um papel crucial nesta jornada rumo ao objetivo de emissões líquidas zero, garantindo que todas as tecnologias, sendo viáveis, sejam também exploradas para alcançar a neutralidade carbónica”.

Joaquim Reis, Diretor da Fundação Repsol Portugal, foi o responsável por iniciar a manhã de trabalhos e aproveitou a oportunidade para fazer um balanço do esforço desenvolvido, acrescentando: “Portugal assumiu um compromisso ambicioso, de alcançar esta meta até 2045. Este objetivo exige um esforço da parte de todos e as soluções de base natural para a captura de carbono como, por exemplo, os projetos da reflorestação, a proteção de ecossistemas marinhos e a gestão dos solos agrícolas apresentam-se como iniciativas fundamentais e complementares àquelas iniciativas industriais e tecnológicas. Todas estas iniciativas fazem com que se torne relevante debatermos hoje estas soluções de base natural como uma oportunidade”. Para o Diretor, os dados estão lançados e torna-se fundamental “que continuemos a investir em pesquisa, políticas e práticas que apoiem estas funções, garantindo um futuro mais sustentável para todos”.

Dadas as boas-vindas, “Uma Visão Compreensiva das Soluções de Base Natural”, dirigida pela Professora Associada Nova School of Law, Assunção Cristas, e o “Projeto Sal C – Valorização das Salinas para o Sequestro de Carbono”, a cargo de Rui Santos, Presidente do BlueZ C Institute, foram as primeiras apresentações da manhã, antes de se dar início ao primeiro painel do dia.

“As Diferentes Soluções Naturais para um Problema Global” foi o mote da conversa, moderada pelo jornalista João Miguel Santos, e teve como participações as intervenções de Álvaro Mendonça e Moura, Presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal, Nuno Gaspar de Oliveira, Diretor Executivo da Natural Business Intelligence, Ana Alexandre, Investigadora no Centro de Ciências do Mar do Algarve, e Paula Soares, Professora Associada no Centro de Estudos Florestais do Instituto Superior de Agronomia.

De que forma podem os agricultores, por exemplo, contribuir para o sequestro de carbono? O que podem eles fazer? Foi uma das perguntas do painel, à qual Álvaro Mendonça e Moura não hesitou em responder: “Os agricultores não são parceiros, são atores indispensáveis. Sem eles não há proteção do ambiente. O que é que é que se pode fazer? Primeiro, eliminar ou reduzir substancialmente a movimentação de solos; segundo, rotação de culturas; terceiro, utilizar culturas de cobertura do solo a seguir ou em paralelo com a cultura principal; quarto ponto, os resíduos; E quinto ponto, a maneira como se controla o mato”.

Paula Soares aproveitou a deixa para introduzir o tema das florestas e que estratégias lhes estão associadas, reforçando que, neste caso específico, há um fator do qual dificilmente nos poderemos distanciar: o tempo. A Professora salientou ainda o fator da conservação dos stocks de carbono, salientando a importância de se manter as florestas antigas, “grandes armazéns de carbono”, desenvolvendo também florestas mais resilientes e resistentes, servindo-nos das estratégias que existem para que essa se torne uma missão possível.

A esta equação, juntou-se ainda a questão das cidades. As cidades também podem exibir um papel importante da preservação e valorização dos ecossistemas. De que forma? “Tem tudo a ver também com a maneira como podemos gerir as chamadas infraestrutura verdes e as verdes azuis. Em ecossistemas urbanos é muito importante nós percebermos também a ligação entre aquilo que nós queremos como desenvolvimento, qualidade e reabilitação do espaço urbano”, quem o disse foi Nuno Gaspar de Oliveira, terminando com o reforço de que “enquanto olharmos para o tema do carbono, do mercado voluntário do carbono, da biodiversidade, como custos, teremos um problema”.

No caminho do progresso, a informação assume uma fatia grande e fundamental. Os fornecedores de conhecimento, como as Universidades, são elementos-chave na hora de auxiliar projetos que se propõem a fazer a diferença. Ana Alexandre, sublinhou precisamente essa ideia. “É preciso apoiar a comunidade científica, através de projetos que nos permitam desenvolver ferramentas cada vez mais eficientes, atuar precocemente e impedir a degradação dos ecossistemas”.

Francisco Martinez, Cofundador do Grupo Sylvestris, subiu ao palco, e partilhou algumas lições sobre “A Importância da Floresta como Sumidouro de Carbono”.

Já o segundo e último painel do dia dedicou-se ao tema “O Mercado Voluntário de Carbono Português” e contou com as intervenções de Rita Pereira, Técnica Superior do Departamento de Alterações Climáticas na Agência Portuguesa do Ambiente, Hélder Rodrigues, Coordenador da Direção de Sustentabilidade e Mobilidade da ADENE – Agência para a Energia, José Sousa Uva, Coordenador do Inventário Florestal Nacional no Instituto da Conservação da Natureza e Florestas, e Norma Franco, Partner, Sustentabilidade & Alterações Climáticas na Ernst & Young. A moderação ficou novamente a cargo do jornalista João Miguel Santos, que não tardou em lançar a pergunta: mercado para quando?

“Entendemos que o mercado voluntário de carbono vai ser muito importante, principalmente, para o setor florestal. Portugal precisa de aumentar o seu sequestro de carbono, é uma excelente oportunidade de valorizar o território e, simultaneamente, criar incentivos que possam alterar o paradigma atual, mesmo em relação ao risco de incêndio”, começou por contextualizar Rita Pereira, respondendo por fim à verdadeira questão: “Esperamos que a primeira metodologia entre em consulta pública durante o mês de março. Depois em relação à plataforma de registo, esperamos que esteja em funcionamento no segundo semestre de 2025”. Hélder Rodrigues, da Agência para a Energia, insistiu também na necessidade de robustez e transparência do mercado, e nessa medida, a plataforma de registo do Mercado Voluntário de Carbono, pretende avaliar a origem dos créditos transacionados.

Já Norma Franco, complementou as palavras da colega, afirmando que é importante, quando se fala no mercado voluntário de carbono, “sensibilizar. Há ainda muita informação que tem de ser clarificada. Há aqui o entendimento de um grande desafio de curto e médio prazo que decorre daquilo que é uma fragmentação dos regulamentos e que vem incitar à necessidade implícita de começarmos a estabilizar aquelas que são as arquiteturas dos mercados voluntários de carbono. Numa perspetiva mais de longo prazo, é importante contextualizarmo-nos sobre aqueles que são os objetivos que também já falámos durante a sessão de hoje, uma Europa neutra em carbono até 2050”.

Perto do tempo final, sobrou ainda tempo para introduzir a temática do setor privado.“O papel do privado é essencial. Tudo o que seja estes grandes projetos, estas ações numa lógica de carbono ou da biodiversidade, têm de contar com o apoio dos privados. E também há uma grande oportunidade nesse aspeto”, quem o disse foi José Sousa Uva.

No encerramento, numa mensagem em vídeo, o Secretário de Estado do Ambiente, Emídio Sousa, destacou o desafio que Portugal enfrenta para alcançar a neutralidade carbónica até 2045, sublinhando a necessidade de um esforço conjunto. “Atingir este objetivo exige o compromisso de empresas, Estado, academia e cidadãos. A Fundação Repsol é um dos principais players no setor, e vejo com grande satisfação e pertinência a sua determinação em contribuir para a redução das emissões”, concluiu.

Depois de uma manhã repleta de trocas de ideias, de soluções e de objetivos, ficou no ar a certeza de que o caminho será construído por esforços comuns e que o futuro é o que faremos acontecer.

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