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epa12683327 A handout photo made available by the press service of the 65th Separate Mechanized Brigade of the Ukrainian Armed Forces shows Ukrainian servicemen testing a combat ground drone armed with a 12.7mm Browning M2 machine gun, during their training in the Zaporizhzhia region, Ukraine, 26 January 2026, amid the ongoing Russian invasion. Russian troops entered Ukrainian territory on 24 February 2022, starting a conflict that has provoked destruction and a humanitarian crisis.  EPA/Press service of the 65th Mechanized Brigade HANDOUT HANDOUT  HANDOUT EDITORIAL USE ONLY/NO SALES
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Press service of the 65th Mechanized Brigade HANDOUT HANDOUT/EPA

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Rússia sem ganhos, Ucrânia com avanços e a ajuda da primavera. Cinco respostas sobre "a melhor situação da Ucrânia dos últimos dez meses"

Pela primeira vez em dois anos, a Rússia terminou o mês sem ganhos territoriais e a Ucrânia forçou os combates na frente sul em Zaporíjia. Primavera pode ajudar Kiev mas não deve mudar rumo da guerra.

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Ao longo do último mês, os olhos da comunidade internacional estiveram fixos num único palco de guerra: o Médio Oriente. À terceira semana desta guerra, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, avisava que “o foco devia continuar na Ucrânia”, mas a mudança de atenção — principalmente dos Estados Unidos, agora envolvidos no seu próprio conflito — foi reconhecida como um “risco” por Kiev.

“Queríamos muitos que os Estados Unidos não se afastassem do tópico da Ucrânia por causa do Médio Oriente”, declarou o Presidente ucraniano em meados de março. Na altura, Volodymyr Zelensky expressou preocupação com a possibilidade de se verificarem “atrasos na entrega de certas armas e redução no volume de material defensivo essencial”.

Porém, apesar das preocupações expressadas por Zelensky e pelos líderes europeus, da possível falta de atenção internacional e de apoio norte-americano, o mês de março ficou marcado por vitórias ucranianas e derrotas russas na frente de batalha, entre as quais se destaca o facto de, pela primeira vez em mais de dois anos, a Rússia ter terminado o mês sem ganhos territoriais. “Houve um relatório dos meus serviços secretos e uma análise dos serviços secretos britânicos. Eu recebi o ponto de situação do MI6 sobre a frente de batalha, nomeadamente sobre esta ser a melhor situação para a Ucrânia dos últimos dez meses”, declarou o chefe de Estado ucraniano esta sexta-feira.

Rússia perde território na frente sul, mas continua a avançar a norte de Donetsk

Ao fim de quatro anos de guerra, a Rússia ocupa hoje 19% do território ucraniano. A maior parte dos avanços foram feitos nas primeiras semanas de guerra, logo em 2022. Depois disso, 2025 foi o ano em que Moscovo registou mais avanços: mais de 5 mil quilómetros quadrados, o dobro dos territórios conquistados em 2023 e 2024 somados. O início de 2026 pôs fim aos avanços do ano anterior. Em janeiro, a Rússia conquistou pouco mais de 300 quilómetros quadrados, em fevereiro cerca de 120 quilómetros quadrados — os números mais baixos desde abril de 2024.

Os números são da análise de informações de fonte aberta feita pelo Institute for the Study of War (ISW) que dá agora conta de a Rússia ter terminado o mês de março sem novos ganhos. Mas isto não quer dizer que a frente de batalha tenha ficado inalterada. As forças russas continuaram a avançar a norte de Donetsk, na direção das cidades de Kramatorsk e Sloviansk, duas cidades de importância estratégica, por serem as últimas grandes cidades da região e ponto de passagem de autoestradas e caminhos de ferro.

Além de estes avanços serem muito mais modestos que em meses anteriores, a verdadeira derrota da Rússia registou-se a sul de Donetsk, na linha da frente até Dnipropetrovsk e perto da cidade Zaporíjia. No final de janeiro, a Rússia ocupava mais de 400 quilómetro quadrados na linha da frente sul. Agora, no final de março, ocupa 144 quilómetros quadrados, segundo os números do ISW.

Sem ganhos territoriais, Rússia continua ativa

A ausência de ganhos territoriais não se traduziu, contudo, num impasse militar. A Rússia continuou a recorrer a operações de infiltração além da linha da frente, em que pequenos grupos de soldados avançam a pé ou de moto. A Rússia reclamou vários avanços nestas operações, mas estes não foram reconhecidos por Kiev, nem confirmados pelas informações de fonte aberta e análises independentes, como a do ISW.

Além das movimentações no terreno, a ofensiva russa traduziu-se em ataques aéreos sem precedentes. No passado dia 24 de março, a Rússia lançou quase mil drones, um dos números mais elevados num período de 24 horas. Ao todo, Moscovo lançou 6.462 drones e 138 mísseis em março. Se o número de drones aumentou, o número de mísseis diminuiu — no mês de fevereiro registaram-se 288 ataques com mísseis.

epaselect epa12846807 Pedestrians walk past the site of a Russian drone attack on the historic center of Lviv, in western Ukraine, 24 March 2026. Russia launched a massive 24-hour aerial assault on Ukraine involving hundreds of drones, leaving over a dozen people injured in the western city of Lviv.  EPA/MYKOLA TYS

▲ A 24 de março, a Rússia lançou um ataque com quase mil drones

MYKOLA TYS/EPA

Os avanços da Ucrânia em Zaporíjia que criaram um “efeito em cascata”

Desde o início do ano, a Ucrânia focou a sua atenção num contra-ataque em Zaporíjia, uma das zonas mais fluidas da batalha, e rapidamente conquistou terreno, notava o New York Times numa análise sobre o mês de fevereiro. Os avanços a sul “criaram efeitos operacionais em cascata”, escreve o ISW, pois obrigaram a Rússia a tomar decisões sobre onde alocar recursos: a sul, para fazer frente às novas movimentações ucranianas, ou a norte, onde continua a avançar numa direção estratégica.

As capacidades ofensivas da Ucrânia também se fizeram notar nos ataques aéreos contra a Rússia, destaca Kateryna Odarchenko num artigo de análise publicado esta semana. A analista do Atlantic Council destaca como exemplo os ataques com drones contra as infraestruturas energéticas e petrolíferas, que cortaram em pelo menos 40% a capacidade do Kremlin exportar petróleo — “a mais severa disrupção de abastecimento de petróleo na história moderna da Rússia”, segundo uma análise da Reuters.

Esta semana, Kiev salientou ainda as pesadas perdas impostas a Moscovo e o sucesso no bloqueio da ofensiva aérea russa. Na sexta-feira, Zelensky relatou que os ataques ucranianos com drones fizeram 33.988 baixas no Exército russo, entre mortos e feridos, aos quais se somam mais 1.363 soldados mortos em ataques de artilharia. Já o Ministério da Defesa avançou, na quarta-feira, uma taxa de interceção dos ataques russos de 89,9%.

A primavera e o bloqueio do Starlink ajudam a explicar sucessos ucranianos

A situação na frente de batalha não se explica apenas com os sucessos da estratégia militar ucraniana. O ISW destaca, na sua análise, o bloqueio no acesso da Rússia aos terminais dos satélites Starlink e de o Kremlin ter bloqueado, nos últimos tempos, o acesso ao Telegram na Rússia, devido às acusações de infiltração ocidental através da aplicação. Ambos os sistemas, ainda que de modo diferente, contribuem para a comunicação russa, quer para tomar decisões na frente de batalha, lançar avisos de um ataque com drones ucranianos ou analisar os padrões militares da guerra.

epa12742223 Ukrainian servicemen from an anti-drone mobile fire team prepare to intercept Russian drones at an undisclosed location in the Chernihiv region, northern Ukraine, 14 February 2026 (issued 15 February 2026), amid the Russian invasion.  EPA/ARTEM DERKACHOV

▲ O mau tempo prejudica a ação dos drones ucranianos

ARTEM DERKACHOV/EPA

Por outro lado, Zelensky atribuiu parte do sucesso à chegada da primavera. As anteriormente mencionadas operações de infiltração são combatidas com drones de vigilância, mas a operação dos drones fica limitada quando “está mau tempo“: o nevoeiro, a chuva e os dias mais curtos ou com menos luz dificultam a identificação de alvos e permitem o avanço das tropas russas sem serem detetadas. A chegada da primavera significa o oposto, destacou Zelensky em declarações aos jornalistas: mais sol e dias mais longos significa mais luz; o palco de operações perfeito para os drones entrarem em ação.

Vitórias ucranianas podem ter prejudicado ofensiva de primavera, mas não mudam direção da guerra

As derrotas impostas pela Ucrânia à Rússia ao longo dos últimos três meses podem ter um efeito a médio prazo ainda mais relevante do que o bloqueio da ofensiva no terreno. Os contra-ataques podem mesmo ter prejudicado ou atrasado os planos da Rússia para a ofensiva de primavera, que tem lançado ao longo dos últimos quatro anos, escreve o ISW. Nos anos anteriores, esta campanha começa na primavera, mas prolonga-se pelo verão até ao outono. A Ucrânia pode entrar para esta nova fase da guerra com uma vantagem (por comparação aos meses anteriores), mas alguns analistas duvidam que Kiev a consiga manter.

Michael Kofman, analista militar do Carnegie Endowment for International Peace, vê Zaporíjia como a zona onde será mais provável a Ucrânia manter esta vantagem. Em declarações ao New York Times, o analista argumenta que é improvável que a Rússia tente forçar um avanço em massa contra as forças ucranianas, tendo em conta a natureza fluida dos combates na região.

Porém, outros especialistas revelam-se céticos de que estas mudanças pontuais — de algumas semanas numa guerra que dura há anos — representem uma mudança mais alargada. “Só porque a Rússia teve ganhos mais lentos que a Ucrânia durante um ou dois meses, isso não quer dizer que tenha havido uma grande mudança”, argumentou Emil Kastehelmi, analista militar do Black Bird Group, ao jornal norte-americano.

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