Sá Pinto. “O Schmeichel dava cabo do pobre Kasper”

24 Março 2018581

Vencedor da Taça da Bélgica no último sábado, ao serviço do Standard, eis o co-inventor daquela célebre dança tribal nos festejos do golos do Sporting nos anos 90 a falar de missangas, gel e Bobó.

Bélgica é sinónimo de Poirot, Spirou, Tintim, Dupond e Dupont, Estrumfes, Lagaffe, Lucky Luke. E bola, que é bom? Há o Standard Liège, recém-vencedor da Taça da Bélgica (1-0 ao Genk, em Bruxelas). O treinador é Sá Pinto. O pingue-pongue no Whatsapp é interessante: enviamos-lhe mensagem escrita, ele responde-nos de viva voz. O encontro está marcado para a academia do Standard, fora de Liège, a uma quarta-feira. Para chegarmos até lá, apanhamos um táxi. O senhor é grego e fala pelos cotovelos sobre o Euro-2004. No hard feelings.

De repente, “onde você está sentado, já esteve o Sérgio Conceição”. A sério? “Sim, sim, ele é boa gente, mas fou, fou, fou, completamente fou” e parte-se a rir a bater no volante. Acto contínuo, bate no volante para barafustar com o trânsito enquanto desabafa mercredi, mercredi, putain. Então? Não há aulas na 4.ª feira à tarde na Bélgica e as ruas enchem-se de carros com pais e filhos etc. e tal. Putain. O grego vai-se embora, entramos na academia. Sá Pinto acaba o treino e recebe-nos na sua sala, partilhada por mais portugueses, todos a oferecer café, água e dois dedos de conversa-ou-mais-muito-mais: José Guilherme (preparador físico), Rui Mota (adjunto) e Ricardo Pereira (treinador de guarda-redes). Tudo gente fina. Chega Sá Pinto, senta-se na mesa atrás de um painel cheio de peças vermelhas e começa o fartote.

A sala onde fomos recebido por Sá Pinto

Há quanto tempo, hein?
Ai sim, já tinha visto o Rui?

Uma vez, antes do Newcastle-Sporting, apanhou o meu pai a falar comigo ao telemóvel e interrompeu a conversa para perguntar quem era antes de dizer ‘Olá Rui’.
Ahahahahah, já não me lembrava. Olha, vamos tratar-nos por tu? É melhor assim.

Bora aí. Essa história do Newcastle é 2004-05.
É a campanha para a final da Taça UEFA.

Era um objectivo desde a pré-época ou aquilo foi jogar e logo se vê?
Quando percebemos que a final era em Alvalade, a motivação era total. Ainda para mais, a equipa era boa, muito bem comandada pelo José Peseiro, com um futebol de grande qualidade. A gente divertia-se mesmo a jogar e fomos acumulando bons resultados. Primeiro na fase de grupos, depois a eliminar. Há a tal eliminatória crucial, essa do Newcastle para os ¼ final. Perdemos lá 1-0 e começámos a perder 1-0 em Alvalade. Ou seja, eram precisos três golos para passar às meias-finais e nunca deixámos de acreditar. Por nós, equipa, e por eles, adeptos. Foi um jogo memorável, sobretudo a partir do 2-1. Lembro-me perfeitamente de os ver todos em pé, aos saltos e aos berros, a puxar intensamente. Houve ali uma ligação qualquer entre nós e eles que nos ajudou a superar o Newcastle. O Niculae faz o empate, Beto o 3-1 e Roca o 4-1. Grande noite, como já falámos. Inesquecível a comunhão entre adeptos e jogadores, sempre a acreditar na qualificação para as meias-finais, com o AZ Alkmaar.

Depois CSKA Moscovo.
É o momento mais triste da minha carreira como jogador. Fizemos uma primeira parte fantástica e podíamos ter chegado ao intervalo com dois ou três-zero. Depois, eles deram a volta na segunda parte.

O acordo com a Real Sociedad só ia para a frente se o castigo fosse de seis meses. Quando saíram os 13 meses, fiquei abananado, claro. Mas eles, da Real, acreditaram em mim e ficaram comigo. Foi uma demonstração inequívoca de persistência, também porque ficaram estupefactos pela forma como treinava afincadamente.

Qual é o sentimento dominante na ressaca desse jogo?
Frustração. É um momento único, chegar a uma final europeia e, ainda por cima, em casa. Ao intervalo, 1-0. E perdemos. É frustrante, muito frustrante. Foi uma coisa inacreditável, infelizmente.

O que é mais frustrante, o ténis ou o futebol?
Ahahahahahah.

Jogaste ténis, não foi?
Joguei federado até aos 14 anos e acumulava com o futebol. A partir de uma certa altura, o meu calendário batia muito e tive de escolher. Jogava ténis no Estrela e Vigorosa Sport, um clube perto do Estádio das Antas e do qual sou sócio há 25/26 anos. Adorava ténis, é o meu segundo desporto.

Tinhas referências?
Tinha, claro: Borg e Lendl. O McEnroe nem tanto, admirava pessoas mais calmas que eu. A nível nacional, Pedro Cordeiro, Cunha e Silva, Nuno Marques.

Ganhaste algum troféu?
Não, a única coisa que fiz foi chegar a número 2 do Estrela e Vigorosa Sport sem ter aulas sistemáticas com um professor. Quer dizer, tinha uma aula ou outra muito de vez em quando. Quem jogava sempre comigo era o meu pai. Portanto, era federado sem aulas nem professor. A nível competitivo, cheguei a cabeça-de-série de um torneio do Sport Goofy. Fiz os regionais e ainda passei a primeira ronda. Na segunda, apanhei o número 1 ou 2 do Porto que era o Jorge Rocha, muito bom jogador, e aí não tive hipótese.

Então?
O Jorge jogava em topspin e tal, as bolas pesadas e topspinadas, não dei conta daquilo. Perdi 9-2 ou 9-3.

Nove?
Na altura, acabava aos nove.

E a tua vida no futebol?
Metade da formação no Porto, a outra metade no Salgueiros, onde cheguei à selecção portuguesa pelos sub-21. Depois Sporting e, dois meses depois, apanhei a geração de ouro. Foi assim o começo. Meteórico, não? Ah ah ah ah.

Foste campeão no Porto?
Só a nível regional, tanto nos infantis como iniciados. No Salgueiros, ainda chegámos às fases finais. Uma vez, e isto é engraçado, jogámos uns ¼ final do campeonato nacional com o Farense em Alvalade.

Alvalade?
Deve ter sido em Alvalade, porque era a meio caminho tanto do Salgueiros como do Farense. Esse momento é engraçado porque representa a minha estreia futebolística em Alvalade. Um Salgueiros-Farense, ah ah ah ah ah. No campo número 2 do Sporting. Perdemos.

Nesses anos do Porto, apanhaste quem como companheiros de equipa?
Rui Óscar, Bino. Depois, no Salgueiros, o Nélson.

O lateral-direito?
Esse mesmo. Apanhei o Nélson e o irmão, o Albertino. Até teve piada com o Nélson, porque subimos a seniores no Salgueiros e reencontrei-o no Sporting.

E na selecção?
Siiiiim, naquela famosa final do Euro sub-21, perdida para a Itália com um golo de ouro de Orlandini. Foi uma pena, até merecíamos mais pelo jogo que fizemos. Ainda me lembro bem do golo deles. Eu faço um carrinho e até toco na bola, só que sobra para ele, que avança e atira uma bola indefensável. [Sá Pinto faz o gesto de foguete] A bola entra mesmo no ângulo, incrível. Sem hipótese. E, pronto, golo de ouro. Acabou ali, daquela maneira, fria, mesmo à italiana. Essa geração merecia mais, até porque eliminámos a Espanha por 2-0 na ½ final.

Vou então mostrar-te a primeira foto.
Iiiiiiii, que coisa tão feia. Aquele colarzinho de Verão, todo da moda.

Ahahahahahah.
Inda pá, espectacular. Isso é o início do Sporting. Vejo aqui ao de leve o patrocínio do Queijo Castelões. Na altura, usavam-se esses colares e as camadas de gel.

Já não usas isto?
Muito difícil, ahahahah. Quer dizer, gosto das pulseiras, sabes? Olha aqui duas [Sá Pinto arregaça as mangas do braço esquerdo]. Isto, ainda gosto. Agora o resto, jesus. Ahahahahahah.

Passaste bons tempos no Sporting?
Muito, muito, diverti-me imenso com uma equipa fantástica. Ainda apanhei Figos, Balakovs, Iordanovs, Valckxs. Na primeira época, ganhei a Taça de Portugal. Aquele 2-0 ao Marítimo, numa época em que ainda se jogava de 1 a 11. Entrei a meio com o 15 e ainda estive ali a estorvar a acção de um defesa do Marítimo no lance do bis do Iordanov. Foi um jogo histórico, que devolveu o Sporting aos títulos. Depois, seguiu-se a Supertaça.

Aquele ao Porto?
Exactamente, marquei dois golos ao Eriksson em Paris. Ganhámos 3-0, outro resultado extremamente positivo para o Sporting.

Pelo meio, há aquela dança tribal por cada festejo de golo.
Ahahahahah, pois é.

Quem é que a inventou?
Dominguez, eu e Oceano, acho. Foram tempos divertidos.

E aqui?
Esse cabelinho também é demais. Já sem missangas, mas o cabelinho está cá com uma pinta. Usava-se assim nessa altura. Agora olho para mim e o que é isto? Ahahahah. Esta foto marca um momento positivo e, ao mesmo tempo, negativo.

Então?
É a apresentação na Real Sociedad, para onde fui um bocado forçado, porque não podia jogar em Portugal, alvo daquele castigo [Artur Jorge]. O castigo internacional era para ser de seis meses, só que depois esticaram para 13. Ora bem, o acordo com a Real Sociedad só ia para a frente se o castigo fosse de seis meses. Quando saíram os 13 meses, fiquei abananado, claro. Mas eles, da Real, acreditaram em mim e ficaram comigo. Foi uma demonstração inequívoca de persistência, também porque ficaram estupefactos pela forma como treinava afincadamente. Via-se mesmo na cara dos jogadores e até dirigentes o espanto deles, como quem diz ‘só vai jogar daqui a mais de um ano e trabalha para o jogo do próximo fim-de-semana’.

E esses 13 meses sem jogar?
Duro, duríssimo. Interminável.

Quem é que te ajudou?
Quem me ajudou? Os meus pais, a minha irmã, a minha mulher, que tinha acabado de dar a Leonor à luz.

E a malta em San Sebastian?
Muita garra, muito nacionalista e também muito afável. Comigo, o tratamento foi sempre excelente, quer nas ruas, quer no estádio. E aquela rivalidade com Espanha, porque eles dizem-se bascos, é uma coisa intensa.

É uma cidade divinal, um paraíso escondido.
Para comer, não há melhor. Não sei se é a melhor cidade do mundo, mas espanhola é de certeza. Basta ver a quantidade e qualidade dos chefs bascos: Martin Berasategui, Juan María Arzak, Karlos Arguiñano e por aí fora. Todos os chefs fora de série são bascos e eu, que me divirto a comer, passei uma boa época em Sanse.

E desportivamente: marcaste na estreia?
Pois foi, ao Oviedo. Foram duas boas épocas [seis golos em 76 jogos] e joguei com os grandes.

Real Madrid e Barcelona?
Nem mais. Quer dizer, ser da Real Sociedad é um pouco fora da caixa porque olham-te de lado por tudo aquilo que disse antes sobre nacionalismo e garra. Éramos o patinho feio, um pouco à parte de Espanha. Em casa, seja com Real Madrid ou Barcelona, empatávamos ou ganhávamos. Fora é que era mais difícil. Mesmo que começássemos melhor, sofríamos sempre um golinho no fim e lá perdíamos.

E tu acabaste a carreira com dois golos ao Real Madrid.
Um na Taça UEFA, outro na Liga dos Campeões. Não é fácil marcar ao Real Madrid, sobretudo quando as forças são desequilibradas. Ou seja, o Sporting era inferior ao Real Madrid e, mesmo assim, demos luta, muita luta. Sobretudo naquela eliminatória da Taça UEFA em que merecíamos muito mais e fomos eliminados pela regra dos golos fora. Quer no Bernabéu, quer em Alvalade, demos espectáculo.

Até atiraste ao poste no Bernabéu.
Exactameeeeeente [Sá Pinto fala como se estivesse a reviver a jogada], eu atirei e o Figo também. Foi um grande jogo do Sporting, encostámos os gajos. Nesse lance da bola ao poste, faço um cabrito ao Martín Vázquez, nunca mais me esqueço [Sá Pinto está mais animado que nunca]. O lateral-esquerdo desse jogo era o Luis Enrique. E o direito o Quique Flores.

E esta hein?!
Epá, que gira esta foto. Não a tenho, envias-me?

Claro, por e-mail. Isto foi o quê?
Não sei.

Não sabes?
Não me lembro deste evento, não tenho memória disso.

Estiveste com o Pete Sampras e não te lembras? Ahahahahah.
Não me lembro, a sério.

Se calhar é melhor perguntar à Leonor.
Ahahahahah. Coitada, tão nova, ali ao meu colo. Isto deve ter sido o Masters de Lisboa, organizado pelo João Lagos e ganho pelo Guga. Como fui do ténis e jogava na selecção, devo ter ido levar a camisola ao Sampras. Que engraçada, a foto. Não me lembro de nada. Nada. Como é possível? Como é possível esquecer-me do Sampras?

Mais uma.
Iiiiiiii, o Serginho, o Fernando e eu. Isso é o Portugal-Alemanha do Euro-2000?

Nem mais.
Joguei todo rebentado, devia ter vindo para casa sem jogar o torneio.

Então?
Rebentei o lateral interno a dois dias do início do Euro. Ia jogar a titular com a Inglaterra e estava numa forma tremenda, sentia-me forte, rápido, confiante. O meu azar foi também a sorte do Nuno e ainda bem porque ele fez um Europeu do além, com cinco golos. Fiz uma distensão grave e fui premiado com o meu espírito guerreiro. Demos três secos à Alemanha, campeã europeia em título. Lembro-me do guarda-redes, o Kahn. E lembro-me de um alemão querer trocar comigo de camisola. E trocou. Tenho lá a camisola em casa, sabes quem era a defesa da Alemanha?

Nem ideia.
Nem eu. Sei que houve um alemão que me pediu a camisola. Eles estavam de cabeça perdida, 3-0 de Portugal, estás a ver, não é?

Como é que foi viver esse dia histórico?
Foi um momento óptimo, sobretudo do Sérgio. Quer dizer, três golos à Alemanha é uma proeza rara, diria única. Ainda por cima, o hat-trick perfeito: cabeça, pé direito e pé esquerdo. Que noite sensacional. E só foi pena sairmos nas meias-finais daquela maneira, merecíamos outro final. Nenhuma selecção devia sair de uma grande prova daquela forma: é mão, não é mão, é penálti, não é penálti. Enfim.

Mas é ou não?
Estava a aquecer na linha de fundo, juntamente com o Robert Pires, e estou no enfiamento do árbitro assistente [Sramcka, da Eslováquia].

E?
Ele não pode ter visto aquilo.

Porquê?
Ele não pode ter visto. Eu estou no enfiamento como ele e não vejo, há muitos jogadores à frente, há muitas pernas, não dá, simplesmente não dá. Fico, diria triste. É uma decisão difícil de aceitar, até porque é um golo de ouro e acaba com qualquer esperança. Já quatro anos antes, no Europeu em Inglaterra, tínhamos saído injustamente com o golo lá do Poborsky.

Ainda bem que falas desse Europeu.
Aaaaaaaah pois, isso é o golo à Dinamarca.

Ao Schmeichel.
Quando percebo que a bola vai cair ali perto de mim, lembro-me perfeitamente de olhar para a baliza e vejo uma coisa enorme. Perguntei-me ‘como é que vou fazer golo a este tipo?’

Grande golo, a bola é indefensável.
Cabeceei com convicção, com força e para o chão. A bola foi bem puxada ao canto, foi.

E ainda o encontraste no Sporting?
Um grande colega e um jogador fantástico. Mesmo a 60/70% das suas capacidades, deu-nos uma força interior enorme para chegarmos àquele título de campeão nacional em 2000. Guardo-lhe um grande carinho, porque deu-me um livro dele autografado sem lhe pedir nada. E também me deu umas luvas.

Ele era mesmo alto, alto, alto?
Alto e largo, era um armário, ahahahahah.

Vocês foram apanhados de surpresa pela chegada dele ao Sporting?
As coisas começam a perceber-se lá dentro, falava-se do Peter e tal. De repente, ei-lo à nossa frente. Sempre gentil, porreiro com toda a gente, brincalhão, bom espírito, via-se que estava em paz naquele momento da vida. Ele foi para o Sporting com o objectivo de acabar a carreira em grande e a verdade é que foi campeão num clube que não o era há 18 anos.

E o Kasper?
Beeeeem, ainda me lembro: o Peter matava o filho no final dos treinos, dava mesmo cabo dele, sem misericórdia nenhuma. Pobre Kasper.

Então?
Metia-o à baliza e o miúdo, com 14 anos, sujeitava-se ao bombardeamento de bolas do pai. Mas bombardeamento à séria, só remates de força.

Ahahahahahah.
A sério, pobre do miúdo. Nós, que o considerávamos o benjamim, atirávamos à baliza mais em jeito e tal. O Peter, não. Era com cada tiro, ahahahahah. Pimba, pimba, pimba, pimba.

E o Kasper?
Pequenino, franzino, ia a todas. Não se acobardava nem se intimidava, gostava até desse desafio.

De volta ao Euro-96: como é que conviver com o golo do Poborsky?
Nem me fales. Eu já tinha saído, acho que fui substituído ao intervalo. Foi uma frustração imensa, porque até tivemos uma ou duas oportunidades na primeira parte e estávamos francamente bem no jogo, enquanto eles nem tinham volume de jogo por aí além. O golo é um belo chapéu, claro. Um momento técnico muito bom. No meio daquela pressão, o Poborsky levantou bem a bola. Mas a República Checa estudou-nos bem, foi pragmática e até chegou à final com a Alemanha com uma equipa boa, em que havia três ou quatro fenómenos que apareceram nesse Europeu. O Poborsky foi um deles.

Acabamos assim.
[Sá Pinto inclina a cabeça para ver melhor] Ééééééé, não acabes assim, Rui. Isto é a final da Taça de Portugal perdida para a Académica, o momento mais desgosto da minha carreira de treinador.

Acabo como então?
Com uma foto do jogo em Manchester, quando eliminámos o City. Ou então uma em Bilbao, na meia-final da Liga Europa 2011.

Pois ééééé, City e Bilbau.
Foi a quinta meia-final europeia do Sporting.

E tu foste a duas?
Exactamente, como jogador em 2005 e como treinador em 2011.

Como é que foi a eliminatória com o Athletic?
Fantástico em Alvalade, nunca deveríamos ter sofrido o golo. Aliás, até devíamos ter ganho por mais, uma do Carrillo na cara do guarda-redes. Se fosse 4-1, não seria nada anormal. Também é verdade que eles, sem fazerem por isso, também podiam ter chegado ao 2-2 num lance do Llorente, acho. Aqueles lances de bola parada e tal. Bem, fomos para Bilbau a defender a vantagem mínima e somos eliminados no último minuto. Houve uma infelicidade monstra.

E o City?
Aí foi espetacular. O Porto, campeão nacional, tinha levado seis do City na eliminatória anterior e toda a gente pensava que íamos ser goleados. Até me lembro de um jornalista dizer que nem valia a pena ir jogar, que ia ser uma desgraça e sei lá o que mais. Achei engraçado e lá os eliminámos.

A eliminatória até chegou a estar em 3-0.
Isso, 1-0 em Alvalade, 2-0 em Manchester. Depois eles fizeram a reviravolta.

E há aquela defesa do Patrício no último minuto.
Isch, muito boa, a defesa. Mas, sinceramente, não sei se a bola entrava. Acho que roçava no poste, quanto muito. Eles tinham uma equipa eischhhhhhh.

Já tinham Agüero?
Agüero? Tinham Agüero, Dzeko, Balotelli, Kolarov. Mais, mais? Nasri, Kompany, Richards, Hart. E tudo no seu melhor. Aquilo era assim: olha, hoje não jogas tu, jogas tu, está bem? E conseguimos eliminá-los. Agora, de volta à foto da final da Taça de Portugal. Correu-nos tudo mal, nunca pensámos que pudéssemos perder com a Académica.

O que é correu mal?
Tudo, tudo, tudo. Desde as condições do relvado, seco, com a bola a colar, até a uma série de incidências do jogo. A começar pelos primeiros minutos. Um miúdo nosso, de quem gosto muito, faz uma falta sobre o Polga, o árbitro nada e o golo nasce daí.

O miúdo é o Adrien?
Exactamente. É daquelas coisas que não percebo, como é que miúdo que é nosso joga contra nós? Faz uma entrada sobre o Polga, o Polga no chão, à rasca, e o árbitro manda seguir. Na sequência, 1-0 do Marinho. Uma coisa muito engraçada: nós sabíamos que eles, ali nos três quatros, junto à linha lateral, faziam cruzamentos longos em que a bola passava pela zona do penálti até ao outro extremo da área. Foi falta, entrada violentíssima do Adrien, o árbitro nada, nós ficámos à espera do apito e o lateral deles mete a bola tal e qual como tínhamos ensaiado. O Marinho obriga o Insúa a fechar para o lugar do Polga e há uma descompensação evidente. Golo. A partir daí, eles fecharam-se lá em baixo e nós tentámos tudo, mas o relvado estava seco e a bola não andava. O terreno parecia uma selva, era final de época com jogadores a acusar o toque e o Paulo Baptista foi uma vergonha. Uma arbitragem ina-cre-di-tá-vel, apitava tudo contra nós. Há dois penáltis que ele não marca e há ainda possibilidade de golo do Ricky e ainda do Jeffrén. Enfim, tudo correu mal.

Pelo meio, entre Sporting jogador e treinador, acabas a carreira no Standard.
Foi um desgosto não ter acabado a carreira no Sporting, idealizei sempre esse momento, mas não foi possível e nem vale a pena falar disso. Então, aventurei-me para aqui e ainda fiz uma época no Standard.

Havia interessados em Portugal?
Siiim, recebi muitos convites, mas não queria jogar contra o Sporting e decidi emigrar. O Standard recebeu-me de braços abertos, num patamar diferente, claro. Ainda por cima, arranquei os ligamentos do pé no início da época e parei dois meses.

Xiiiii, e nunca perdeste a motivação?
Nunca, era só o que faltava. Agora já não era a mesma de outros tempos, até porque já tinha 35 anos. Mas ainda fui à final da Taça da Bélgica, perdida para o FC Brugge.

Jogaste a final?
Não participei, não. Mas tive um papel importante na meia-final com o Anderlecht: entrei, saquei um penálti e fiz uma assistência para a reviravolta, 2-1.

Dez anos depois, estás de volta à Bélgica e ao Standard.
O destino prega-nos cada partida, não é? Foi um projecto engraçado, que está a dar-me imenso gozo, porque o Standard acabou de cumprir o objectivo principal para esta época.

Que era?
A qualificação para o play-off de campeão, algo que não atingia há três anos.

E a final da Taça da Bélgica?
É um título maravilhoso, o primeiro da minha carreira. Ou melhor, também ganhei o campeonato de juniores pelo Sporting em 2011, embora tivesse saído no final da época regular para assumir a equipa sénior.

E saíste dos juniores sem qualquer derrota.
Nem mais, foi uma época sensacional. A equipa era boa, cheia de miúdos talentosos, e deu-se sequência a esse trabalho.

Volto ao Standard.
É um clube grande, o maior da Bélgica, que passou por uma crise financeira e ainda está a levantar-se. Daí a falta de títulos, daí a falta de participações no play-off. Demos esta época a volta ao texto, com a conquista da Taça e o apuramento para o play-off de campeão.

E de uma forma heróica, a perder 2-0 ao intervalo em Oostende.
Foi assim a época toda, nem imaginas.

Como é que se motiva uma equipa ao intervalo?
Não se motiva, acalma-se. A nossa primeira parte em Oostende é extraordinária e devíamos estar a ganhar, só que entregámos os dois golos. Mudei ligeiramente o sistema para dar mais dinâmica ofensiva e arriscámos tudo para chegar à vitória, o que acabou por acontecer: 3-2.

Pelo que vejo no instagram dos jogadores, isto é uma festa. Foi sempre assim?
Tudo ao contrário. Cheguei cá e não havia união nem equipa. Havia medo, insegurança. A pressão era muita e os jogadores estavam bloqueados.

Isso da pressão nota-se na cidade, em Liège?
Muito. É como te disse, o Standard é o maior clube da Bélgica e já não estava a ganhar nada há muito tempo. Estava a ser gozado pelo país inteiro e nem tinha voz dentro das organizações. Hoje em dia, dentro das federações, das comissões de arbitragem etc. e tal, quem está no centro decisório é o presidente de Anderlecht, Charleroi, Brugge. Nós, nada. É promíscuo e não me parece normal, mas é o que é. Aceita-se e pronto. Dou-te um exemplo: aqui em Liège, o rival do Standard é o FC Liège, que está na 3.ª divisão. O presidente do FC Liège, que é jurista ou advogado, foi a pessoa que julgou o meu caso em que sou vítima e levo três jogos de suspensão. Isto é um à parte para percebermos como funcionam as coisas aqui: até um presidente da 3.ª divisão tem mais poder, tem mais voz que o Standard.

Esse caso é o do Anderlecht-Standard?
Nem mais. Levo com um copo desde a bancada e sou eu o julgado. Quer dizer, deviam pedir-me desculpas e quem sai prejudicado sou eu. É triste. Os media também têm culpa nisso, porque agarram-se a qualquer coisa má do Standard. [Sá Pinto começa a mexer as mãos] Eles afastam todo o bom material. De repente, apanham uma laranja podre e fazem gala disso. É sempre assim e lutámos todos os fins-de-semana com isto. Na Taça, então, fizemos um percurso impecável e fomos empurrados.

Como assim?
Na 2.ª mão da meia-final, perdemos 3-2 em Brugge, mas fomos empurrados constantemente. O árbitro só apitava faltas perto da nossa área. Faltas, faltas e mais faltas, foi um ver-se-te-avias, uma ver-go-nha. E passámos. Por isso é que é uma grande vitória a conquista da Taça mais o apuramento para o play-off de campeão.

Na ressaca dessa vitória na casa do Anderlecht, há aquele famoso vídeo. Vês aquilo e?
Não dei importância a isso, sinceramente. Ouvi alguns personagens a falar mas não dei importância. Valorizo as pessoas que conheço e reconheço qualidades humanas. Enfim, a piada fácil é muito fácil. Gosto é da piada inteligente.

Para fechar, no outro dia entrevistei o Bobó e ele…
Foste tu que entrevistaste o Bobó?

Já o entrevistei, mas ainda não foi publicada [na altura desta entrevista].
Ah, okay. É que um amigo meu telefonou-me e contou-me a história dele a um site sobre um Salgueiros-Boavista em que lhe chamei preto. Não lhe chamei preto coisa nenhuma, o gajo está maluco da cabeça.

A história que ele me contou é só a de uma agressão dele, não mete palavreado desse.
O gajo deu-me aquela porrada, partiu-me o nariz e foi visitar-me ao hospital no dia seguinte, a pedir desculpas, quase a chorar. Eu na cama, todo lixado, a dizer-lhe “’tá bem, ’tá bem, chau, agora desaparece’.

Ahahahaha.
A sério, deixa-me mas é sossegado ò Bobó.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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