Elogios, sorrisos e até um vestido reutilizado. Felipe VI e Letizia aterraram esta segunda-feira na China, onde estão de visita oficial. Os monarcas espanhóis já estiveram na cidade de Chengdu, onde marcaram presença num fórum económico organizado entre os dois países. Os representantes da Coroa têm encontros marcados com os altos dirigentes chineses, incluindo o Presidente Xi Jinping, e terão direito a um jantar de gala esta quarta-feira. Esta é mais uma forma de fortalecer os laços entre Madrid e Pequim — em contraciclo com as restantes capitais da União Europeia (UE).
Desde o regresso de Donald Trump à Casa Branca, o presidente do governo espanhol tem-se aproximado da China. Pedro Sánchez considera que Espanha e também a União Europeia devem procurar outros parceiros económicos e comerciais face à imprevisibilidade do líder dos Estados Unidos da América (EUA). A China — a principal rival dos EUA — tem sido uma aposta de Madrid, que tem também transmitido a mensagem de que esta cooperação não deve ser vista como uma ameaça a outras parcerias internacionais. Mas se internamente a escolha não é contestada pelos parceiros de governo à esquerda do PSOE, na União Europeia a ação já foi criticada.
Apesar da incerteza oriunda do outro lado do Atlântico, a maioria dos Estados-membros da União Europeia ainda consideram os Estados Unidos um parceiro preferencial — e olham para a China com muita desconfiança. Ainda recentemente, a Alemanha anunciou que ia rever o comércio com Pequim, formando uma comissão para estudar melhor os setores em que Berlim deve reduzir a dependência. Na mesma senda, França tem defendido uma maior autonomia estratégica em relação à China.
????????Los Reyes, junto al presidente de la República Popular China, Xi Jinping, y la primera dama, Peng Liyuan, en Zhongnanhai.
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— Casa de S.M. el Rey (@CasaReal) November 11, 2025
Indiferente a alguma apreensão que reina na União Europeia em relação ao gigante asiático, Pedro Sánchez mantém a mesma postura de aproximação à China. Segundo avança a rádio espanhola Onda Cero, a viagem foi “cuidadosamente” incentivada pelo chefe de governo espanhol, sendo que cabe ao executivo supervisionar e definir o teor político das visitas oficiais dos reis: “A viagem tem uma visão estratégica que procura posicionar Espanha como um interlocutor privilegiado de China dentro da União Europeia”.
O que quer Espanha da China? Investimentos e um parceiro para a UE
A visita oficial dos reis tem um verdadeiro significado simbólico e diplomático. É a primeira viagem de um monarca espanhol em 18 anos à China; o último a visitar o país foi Juan Carlos. Além disso, a Coroa espanhola afasta-se da neutralidade que pauta a relação recente entre muitas casas reais europeias e o governo chinês, sendo que o último rei a visitar Pequim foi o norueguês Harald V em 2018.
Na comitiva que acompanha Felipe VI e Letizia, estão também vários membros do governo de Pedro Sánchez, como o ministro da Economia, Carlos Cuerpo, ou o ministro dos Negócios Estrangeiros, José Manuel Albares. No Fórum Económico de Chendgu, estiveram também representadas 180 empresas espanholas, de maneira a apresentá-las ao mercado chinês. Em abril deste ano, o líder do governo espanhol já tinha estado em Pequim, onde foi recebido com pompa e circunstância por Xi Jinping.
▲ Bandeira chinesa e espanhola na Praça Tian'anmen
VCG via Getty Images
Mesmo que a viagem tenha sido organizada diretamente pelo chefe de governo espanhol, o Rei Felipe VI pareceu concordar com os seus objetivos. Num discurso em Chengdu, o monarca declarou que existem “grandes oportunidades para continuar a avançar com a cooperação em setores estratégicos, como as energias renováveis e o setor automóvel, essenciais para a transição para uma economia baixa em carbono”. Sublinhou igualmente a “crescente complexidade” na “estabilidade geopolítica” e no “desempenho” das economias, frisando que Espanha e a União Europeia defendem um “sistema internacional baseado em regras claras, transparência e o respeito pela legalidade”.
O Rei Felipe VI garantiu que Espanha se “consolidou como um sócio fiável” para a China e como um “destino cada vez mais atrativo para o investimento e para a colaboração empresarial chinesa”. Numa conferência de imprensa em Chengdu, o ministro da Economia ainda foi mais longe e descreveu as relações comerciais entre Madrid e Pequim como uma “prioridade indiscutível” para o executivo.
Para justificar essa prioridade, Carlos Cuerpo enfatizou, em primeiro lugar, que Espanha tem uma “relação muito assimétrica no âmbito comercial com a China”, esperando um aumento de exportações. O mercado chinês tem um “enorme potencial” e o governo de Pedro Sánchez pretende aproveitá-lo também para atrair investimentos que podem “gerar emprego e supor uma transferência de tecnologia” para as empresas espanholas.
▲ Rainha Letizia em Chengdu
Getty Images
Depois, o governo espanhol justificou que a aposta em novos laços com a China se deve ao facto de a Casa Branca ter adotado várias tarifas alfandegárias e ter um comportamento indefinido e pouco claro na temática. O ministro da Economia lembrou que Espanha tem feito um “esforço para evitar que haja barreiras ao comércio” global, mesmo que Madrid esteja consciente de que o “principal sócio comercial da União Europeia” continuam a ser os Estados Unidos.
Adicionalmente, Carlos Cuerpo usou o argumento da questão geopolítica. O governante explicou que — se a União Europeia se quer manter um “ator principal” num momento em que se estão a “redefinir as regras geoestratégicas e geoeconómicas” — deve “encetar conversações e negociações” com todas as potências: “E uma delas claro que tem de ser a China”.
Para Espanha, a China é um parceiro fiável num mundo mais conturbado e turbulento. Na visão da diplomacia espanhola, a União Europeia deve seguir uma linha de aproximação com Pequim, diversificando as relações com outras potências. Ainda que os Estados Unidos assumam um papel ainda bastante importante, não deve ser o único país a ter em conta. “O reforço da cooperação entre Espanha e a China serve também para reforçar a relação entre a União Europeia e a China. É um win-win tanto para Espanha como para os parceiros europeus”, destacou o ministro da Economia espanhol.
As tensões com os Estados Unidos e Espanha — e como isso beneficia Sánchez
Ao longo deste último ano, multiplicaram-se as tensões entre Espanha e os Estados Unidos. Por exemplo, em julho, os norte-americanos apresentaram um ultimato ao governo espanhol sobre os contratos que foram assinados com a tecnológica Huawei. Para os norte-americanos, aquela empresa é encarada como um braço das secretas chinesas — e ameaçaram deixar de partilhar informações confidenciais com Madrid, que acabou por recuar e ceder à pressão oriunda da Casa Branca.
Além disso, o Presidente norte-americano tem manifestado o seu desagrado com Madrid no quadro da NATO. Contrariamente aos restantes 31 Estados-membros, o governo de Pedro Sánchez não concordou em gastar de 5% do PIB em Defesa, algo que ficou acordado na última cimeira da Aliança Atlântica. “Vou fazer pagar-lhe o dobro”, já ameaçou Donald Trump, tendo também já deixado ameaças de aplicar sanções ou mesmo expulsar Espanha da organização militar.
Em resposta, Pedro Sánchez defende que Espanha é um “país confiável e é um país que cumpre com os seus compromissos” com os Estados Unidos. O chefe do governo espanhol tem referido que “o presidente Trump sabe” que Madrid está a respeitar as “obrigações e capacidades atuais” perante a NATO. Em vez de uma postura combativa, o líder socialista tem optado por um tom institucional, evitando confrontar diretamente o chefe de Estado norte-americano.
▲ Relações entre Donald Trump e Pedro Sánchez têm sido marcadas por alguma hostilidade
AFP via Getty Images
Mesmo assim, a administração Trump já avisou Espanha que preferir a China em detrimento dos Estados Unidos equivale a “cortar a própria garganta”. “É uma aposta perdida”, avisou o secretário do Tesouro, Scott Bessent. Uma aproximação entre Pequim e Madrid está a ser acompanhada pelo outro lado do Atlântico com muita atenção e Pedro Sánchez caminha em gelo fino por causa dos gastos em Defesa.
No entanto, para Pedro Sánchez, uma relação negativa com os Estados Unidos até beneficia a coesão da sua coligação extensa que continua a governar Espanha. Composta maioritariamente por partidos mais à esquerda com uma visão bastante negativa da administração Trump — considerada de direita radical —, a coligação chefiada pelo líder do governo espanhol soma pontos internamente ao confrontar o Presidente norte-americano.
Numa altura em que o Junts per Catalunya (o partido de Carles Puigdemont) entrou em rota de colisão com a coligação progressista que governa Espanha e em que subsistem várias tensões para aprovar o Orçamento do Estado, a política externa continua a ser um domínio em que Pedro Sánchez pode cerrar fileiras em redor de si e manter a aliança composta por partidos de esquerda e independentistas mais ou menos unida.
▲ Pedro Sánchez e Xi Jinping na visita a Pequim em abril
ANDRES MARTINEZ CASARES / POOL/EPA
Ideologicamente, partidos como o Sumar, o Unidas Podemos ou independentistas de esquerda, sempre apresentaram um discurso anti-americano e contra Donald Trump. Em contrapartida, são bastante mais recetivos a uma aproximação com Pequim. Por exemplo, na celebração do Dia Nacional da China, em meados de setembro, a ministra do Trabalho, Yolanda Díaz, reiterou o “compromisso de Espanha de caminhar com China num futuro partilhado tendo como base o respeito mútuo e a cooperação”.
Em declarações à Reuters, Alicia Garcia-Herrero, membro do think tank Bruegel, aclarou também que a China pode ser uma “alternativa” para Espanha no que toca aos investimentos norte-americano. Isso “faz sentido” para cativar empresas chinesas a investir na economia chinesa, mas é uma decisão que a analista vê como “muito política”: “É Espanha a não apostar em Trump”.
China satisfeita com aproximação de Espanha, União Europeia nem tanto
Externamente, a ação de charme não motiva grande entusiasmo na União Europeia; alguns Estados-membros têm-se vindo a afastar de Pequim pelos riscos de segurança que isso acarreta para o bloco comunitário. Para muitos países da UE, a China é encarada como uma adversária — e não como uma eventual parceira.
▲ Presidente da Comissão Europeia já alertou para a excessiva dependência da China
ANDRE COELHO/EPA
Ainda em meados de outubro, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, avisou os Estados-membros para evitarem “novas e perigosas dependências”, em particular das terras raras da China, que poderiam transformar-se em “instrumentos de pressão”, após o endurecimento dos controlos às exportações chinesas.
“Os outros não estão parados: a China exporta quase o dobro de tecnologia limpa do que nós e isto representa um risco de empurrar as nossas indústrias para fora de mercados estratégicos, incluindo o nosso próprio”, disse. Numa alusão à dependência energética que muitos países europeus mantinham em relação à Rússia, a líder do executivo comunitário advertiu que “a qualquer momento, essas dependências podem transformar-se em instrumentos de pressão, [pois] podem ser impostas restrições à exportação de um dia para o outro”, o que leva a que “as rotas de abastecimento sejam interrompidas”.
Em termos de segurança, muitos países europeus olham com muita apreensão para a alegada neutralidade chinesa na guerra na Ucrânia. É certo que a China nunca apoiou publicamente o conflito desencadeado pelo Presidente russo, Vladimir Putin. Mas somam-se as provas de que Pequim está a contribuir para a máquina de guerra de Moscovo, enviando não só material logístico, como também continuando a comprar recursos naturais, em particular petróleo, à Rússia. E a enviar tropas.
▲ Alegada neutralidade chinesa na guerra da Ucrânia gera apreensão na União Europeia
ALEXANDER KAZAKOV/SPUTNIK/KREMLIN / POOL/EPA
Adicionalmente, paira no ar a possibilidade de que as Forças Armadas chinesas possam invadir a ilha de Taiwan, que rejeita o domínio do Partido Comunista Chinês. Essa hipótese tem sido motivo de apreensão para Bruxelas, num cenário em que a União Europeia poderia ser obrigado a tomar uma posição assertiva contra Pequim.
Por todos estes motivos, a União Europeia não terá visto com bons olhos a viagem dos reis espanhóis à China, apesar de a Comissão não se ter pronunciado oficialmente sobre o assunto. Em declarações ao jornal El Mundo, fontes europeias (da Alemanha, França, Itália e Países Baixos) denunciaram que a posição de Espanha se tornou uma “anomalia” no quadro da União Europeia ao aproximar-se de Pequim. “O ministro italiano da Economia já apelou à União Europeia para adotar uma posição unida contra a China para diminuir a ameaça para a nossa indústria. Existe o mesmo sentimento na Alemanha, onde o governo está a avaliar a política de comércio com a China.”
Em sentido inverso da UE, a China tem deixado vários elogios a Pedro Sánchez e à visita dos reis. “Esta é a primeira visita de Estado do rei Felipe VI à China após sua coroação e outra visita de um rei espanhol à China em 18 anos”, assinalou a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros Mao Ning numa conferência de imprensa, destacando a importância e o simbolismo da visita.
????????Los Reyes, a su llegada al Aeropuerto Internacional de Pekín, donde continúan su Viaje de Estado a la República Popular China.
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A porta-voz da diplomacia chinesa também sublinhou que “Espanha é um país importante na União Europeia e um parceiro estratégico importante da China na Europa”. Realçou também que, sob a orientação estratégica dos dois chefes de Estado, as relações bilaterais gozaram de um desenvolvimento robusto nos últimos anos.
A China quer usar Espanha como um exemplo para os restantes Estados-membros mais reticentes de que podem confiar em Pequim enquanto parceiro. Ao jornal Global Times, Pan Deng, professora na China University of Political Science and Law, explicou que a visita dos monarcas espanhóis mostra que a “essência das relações entre a China e a União Europeia é de cooperação e não o do confronto — e as áreas de consenso superam em muito as diferenças”.
“Mesmo sob pressão geopolítica, os países europeus podem salvaguardar os seus interesses estratégicos, enquanto a relação entre a China e a UE se torna mais saudável através do desenvolvimento estável da cooperação pragmática com a China”, prosseguiu a especialista. Mais do que Espanha, Pequim interessa-se em cativar a União Europeia; e eventualmente ganhar algumas vantagens na relação com a UE através de Madrid, no que também seria uma vitória em relação à administração Trump.
▲ Xi Jinping pretende ganhar vantagens com a relação com Pedro Sánchez
ANDRES MARTINEZ CASARES / POOL/EPA
Em abril, Pedro Sánchez esteve em Pequim. Sete meses depois, é a vez do Rei Felipe VI visitar a China. A diplomacia espanhola ensaia agora um novo passo nas relações com a potência asiática: que Xi Jinping visite Madrid em breve. Vários Estados-membros da União Europeia não estão agradados com esta movimentação diplomática, mas o chefe de governo de Espanha não deverá abandonar esta estratégia — em que pode somar pontos internamente.