Chegou a esta campanha perante a desconfiança e até animosidade de parte do PS — uma parte bem vocal nas críticas. Fê-lo depois de dez anos de amargura com o partido que liderou até António Costa desafiar, a frio, a sua liderança. Começou tímido nas sondagens, depois disparou. Agora acredita que está ao seu alcance fazer desta eleição um mano a mano com Ventura e já pede o primeiro lugar na primeira volta. Repete, a cada comício, que esta “já não é uma candidatura”; “é um movimento de esperança”. Aconteça o que acontecer, é para ficar por aqui: Belém ou nada.
É o próprio que o garante ao Observador na “Última Chamada” dos candidatos. Quando questionado sobre se o tal “movimento”, caso a eleição lhe corra mesmo bem, pode ter caminho para construir uma nova alternativa partidária ou um movimento, nega três vezes: “Não, não, não. A maioria que me elegerá, se tiver a confiança dos portugueses, vai-se extinguir no momento da eleição.”
A ideia que daqui podia nascer um novo movimento ou partido era um rumor que corria nos corredores da política nacional e que se baseia, essencialmente, no que aconteceu em 1985 com o PRD — fundado sob o patrocínio de Ramalho Eanes, o primeiro Presidente da República eleito, para ocupar um vazio ao centro. Apesar de tudo, e ainda que tenha colocado o PS numa segunda linha nesta campanha, Seguro nunca deu qualquer sinal de querer romper com o seu partido de sempre. Aliás, aproveitou em cada comício o melhor que a máquina socialista tinha para lhe dar.
Há um outro exemplo, mais próximo a todos os níveis. Nas eleições presidenciais de 2006, o histórico socialista Manuel Alegre teve um resultado eleitoral expressivo contra Cavaco Silva (20%, quando o candidato apoiado pelo PS, Mário Soares, teve apenas 14%). Na sequência disso, foi fundado o “Movimento Intervenção e Cidadania”. Não era um partido, era uma estrutura de intervenção política e cidadã — que deixou de ter atividade pública há uns anos.
Nesta campanha, a conversa sobre a vontade de criar uma estrutura partidária depois das eleições presidenciais até surgiu no lado do almirante — que entretanto veio corrigir o tiro. Mas Henrique Gouveia e Melo não pertence a um partido. António José Seguro, esse, nunca se desfiliou do PS. Nem agora para concorrer à Presidência da República. Ainda que garanta que esta é uma campanha “suprapartidária” — e que seja aí que se queira manter para evitar “contaminações” —, a relação com o PS continua viva.
▲ Durante o dia, Seguro passou por Vila Franca de Xira, Amadora, Mafra e ainda Lourinhã,
VASCO COELHO/OBSERVADOR
Mano a mano com Ventura. Segurança entra na campanha de Seguro
As mais recentes sondagens — sobretudo a da Universidade Católica Portuguesa para a RTP e jornal Público — têm permitido a António José Seguro tentar cavar uma distância em relação ao campo político onde se move André Ventura. Nos últimos dias, aliás, o socialista tem insistido que esta campanha é agora entre ele e o líder do Chega. A ideia é mesmo bipolarizar a corrida e agregar todos os moderados. Nem mesmo o estudo de opinião que o coloca em quarto — e que rompe o padrão das últimas sondagens — abalou as expectativas do candidato. “Estou moralizadíssimo”, reagiu aos jornalistas.
“Sinto que há dois candidatos em condições de passar à segunda volta. Mas não é indiferente quem passa em primeiro lugar”, insistiu o socialista, em Mafra. “A democracia precisa que passe o candidato moderado.” À noite, num jantar-comício na Lourinhã, dramatizou ainda mais, dizendo que “está em causa se em primeiro passa um democrata ou um representante da extrema-direita.”
Nesta luta particular a dois são precisos argumentos de peso e Seguro agarrou já um, a questão da Segurança. Não estava na agenda da passagem de António José Seguro por Vila Franca de Xira, mas depois de visitar o mercado, o candidato acabou por ir até à esquadra da polícia, onde o superintendente é Bruno Pereira, que também é presidente do Sindicato Nacional de Oficiais de Polícia. A marcação a André Ventura começava a ganhar forma.
Em declarações aos jornalistas, depois de cerca de meia hora de reunião dentro da esquadra (sem comunicação social), Seguro disse que não pegava no tema por “uma questão de eleitorado” e que o tema “não tem quadrante político”, porque é “essencial para que as pessoas vivam em liberdade”. Horas antes, ainda no mercado, o mesmo Seguro já tinha admitido que não dá “nenhum eleitorado como perdido”, o que reforça a ideia de que o socialista está mesmo disposto a agarrar politicamente o tema.
O tema da Segurança entrou tão de supetão na sua campanha que o candidato pareceu algo impreparado, passando grande parte do dia a tentar explicar porque queria fazer desta questão uma “prioridade” no seu mandato presidencial. Por um lado, apontava para a importância do tema; por outro, nunca foi capaz de responder concretamente sobre se há ou não um problema de insegurança no país.
Na Amadora, confrontado com essa questão, respondeu com os problemas nos transportes e com a necessidade de “melhorar a qualidade de vida nas áreas metropolitanas”. Também assumiu que “em algumas zonas há insegurança”. E acrescentou que, quando lhe “falam de insegurança”, tenta primeiro “compreender o que se está a passar”. Perante a insistência, ensaiou uma fórmula. “Há pessoas que sentem esse problema e temos de dar respostas a essas pessoas”.
Mais tarde, em Mafra, mais uma vez a pergunta dos jornalistas sobre o mesmo tema, dessa vez sobre se não estaria a basear a sua posição sobre o assunto em perceções que lhe chegam, optou por criticar André Ventura, recusando “estigmatizar um território” concreto: “Eu sei que há muita gente que se alimenta dos problemas e a partir deles cria dificuldades, mas eu não venho para fazer esse tipo de manipulações”.
VASCO COELHO/OBSERVADOR