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VASCO COELHO/OBSERVADOR

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Seguro ignora esquerda e secundariza apoio do PS. Foco passa para centro e direita

Candidato presidencial tem-se esquivado a colagens ao PS e apoio de Pedro Nuno foi reduzido a mais um, preferiu destacar o de Lídia Jorge e outros que alargam a candidatura até onde quer chegar.

O apoio estava mais do que combinado para aparecer no arranque da última semana de campanha, ainda assim, quando finalmente Pedro Nuno Santos fez o seu endorsement à candidatura de António José Seguro, o candidato pareceu atrapalhado. Na campanha tinha acabado de entrar o apelo aos “moderados” e o dia ia ficar marcado pela expressão do apoio do socialista que nas últimas legislativas não conseguiu descolar da imagem de radical de esquerda. Um canto onde Seguro tem mostrado que não quer ficar.

O apelo à concentração dos votos à esquerda já tinha ficado no início da campanha e perdeu espaço, em definitivo, no discurso de Seguro depois do episódio do desiste-não-desiste de Jorge Pinto. O candidato apoiado pelo Livre acabou por praticamente desistir sem desistir e Seguro ganhou com isso, sem sequer ter de ficar com mais um partido às costas. O assunto-esquerda “ficou arrumado”, comenta um dos seus apoiantes socialistas com o Observador.

O problema maior é o PS. Na candidatura existe a perceção de que a oficialização do apoio socialista teve como efeito imediato, com uma queda inicial de Seguro nas sondagens no final de outubro. A gestão deste apoio tem sido feita com pinças e muito em especial neste período oficial de campanha, com Seguro a valorizar sempre mais apoios de independentes ou que venham de outras áreas políticas que não a sua, do que propriamente os do PS.

Ainda na noite desta segunda-feira, num comício no auditório Paulo Quintela no final do dia em que chegou à candidatura o anúncio do apoio de Pedro Nuno, António José Seguro preferiu apontar para outro. Durante esse mesmo dia também a escritora e conselheira de Estado Lídia Jorge tinha tornado pública a sua preferência pelo candidato nestas presidenciais e, no comício, o socialista destacou isso mesmo e ignorou completamente o outro anúncio do dia, o do ex-líder do PS.

▲ Em Barcelos, Seguro recebeu umas meias da mesma loja onde, em 1986, Mário Soares levou também umas.

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A distância de segurança em relação à esquerda

Aliás, de manhã, em Barcelos, quando foi confrontado pelos jornalistas com o que Pedro Nuno tinha escrito sobre a sua candidatura, Seguro disse estar “contente”, mas deixou perceber que não faz questão que o ex-líder do PS apareça ao seu lado. Foi questionado várias vezes sobre se iria ter Pedro Nuno Santos na campanha e se aquele apoio concreto somava ou subtraía mais à sua candidatura. Mostrou-se claramente desinteressado nessa possibilidade e disparou várias vezes: “Eu é que sou o candidato”.

Insistiu também que é “um candidato moderado” (o que soou a oposição à imagem de “radical” que ainda pode estar associada a Pedro Nuno) e ainda apontou para os outros apoios que tem tido nas outras áreas políticas: “Ainda ontem, em Viana, estava um ex-deputado do CDS, e em Matosinhos uma ex-deputada do PSD”, disse aos jornalistas. “Uns vêm da esquerda, outros da direita e outros de quadrante nenhum. Sinto-me um candidato abençoado por ter apoios de tantos lados”, concluiu, esquivando-se sempre a responder às perguntas sobre se convidou o ex-líder do PS a estar presencialmente em algum momento.

O engrossar de apoios do PS é real e é também gerido com cada vez mais parcimónia pela candidatura. Quem quiser aparecer, aparece, mas a norma é deixar o púlpito para os mandatários independentes e o candidato. Só raras vezes fala um presidente de câmara ou dirigente local do PS — que têm tido principalmente a função de compor as salas dos comícios e contactos de rua pelo país.

Mesmo no sábado, Seguro quase gelou a sala socialista, do almoço no distrito de Braga, quando começou por dizer que era “suprapartidário” e assim se queria manter. Só depois de um aplauso contido, disparou com o “abençoado” que se sente por ter os socialistas no barco. A sala descongelou mas com o candidato a atirar logo de seguida, como sempre faz quando o assunto é o seu partido, que a candidatura consegue ir além da sua família política.

Seguro agradece o trabalho da máquina, mas tem resumido a sua ligação de mais de 40 anos ao PS (de que não se desfiliou para se candidatar a Belém) a um: “Toda a gente conhece as minhas convicções e valores“. Quando tem de destacar apoiantes no meio da assistência prefere ir para a área política oposta, para provar capacidade de alargar a base de apoio. Foi o que fez, por exemplo, no comício de Viana do Castelo, este domingo. A dada altura apontou a presença de Abel Batista, antigo deputado do CDS que apoia a sua candidatura. Nada disse sobre a ex-ministra da Habitação, a socialista (e pedronunista) Marina Gonçalves, que também estava na sala.

Aliás, o seu argumento mais focado à esquerda tem surgido apenas quando fala na reforma laboral do Governo e no veto que imporia ao que foi posto em cima da mesa. Esta terça-feira, em Bragança, também defendeu que a Saúde e a Segurança Social “não podem ser privatizadas” e que “têm de ser universais e de acesso para todos e todas os portugueses independentemente dos recursos que têm no banco e no bolso”. Mas de resto, tem agitado mais com o fantasma da grande coligação da direita para rever a Constituição.

A distância de segurança em relação à esquerda aparece não só por a candidatura considerar que o assunto da concentração do voto já ficou firmado — ainda que exista receio de que Seguro possa não passar por pouco e se conclua, no fim das contas, que os votos à sua esquerda seriam suficientes para o conseguir. A tal barreira higiénica acontece também numa fase em que o socialista sabe que a esquerda está nos seus mínimos e pode trazer um nível de toxicidade elevado — Seguro é especialmente crítico da incapacidade deste campo político ter apresentado respostas concretas aos problemas, estando a sofrer uma sangria por isso mesmo.

Seguro disse estar “contente” com apoio de Pedro Nuno, mas deixou perceber que não faz questão que o ex-líder do PS apareça ao seu lado. Foi questionado várias vezes sobre se iria ter Pedro Nuno Santos na campanha e se aquele apoio concreto somava ou subtraía mais à sua candidatura. Mostrou-se claramente desinteressado nessa possibilidade. "Eu é que sou o candidato."

“Moderação firme” soa a “abstenção violenta”

A aposta maior do candidato nesta altura passa mesmo pela captação de indecisos e descontentes. É dirigido a estes que vai garantindo que é um político com capacidade de ação ou, como já prometeu, de “dar vários murros na mesa”. Mas no discurso o mais que vai é até à afirmação de uma “moderação firme” ou, ao estilo Miterrand, de uma “força tranquila”. Expressões com palavras contrastantes a fazer lembrar a famosa “abstenção violenta” no Orçamento do Estado para 2012 — e pela qual foi atacado à esquerda e dentro do partido que liderava.

Mas o caminho que quer seguir para cativar o centro é mesmo através desta ideia e o apoio de Pedro Nuno Santos apareceu por escrito em plena fase de tentativa da candidatura entrar nos “moderados”, com este discurso. Nos últimos dias, António José Seguro tem insistido neste grupo de eleitores, tentando conquistar sobretudo eventuais descontentes com a candidatura de Marques Mendes, que é o único concorrente que encara como adversário no ataque a esta frente.

Em Bragança, foi mesmo claro no apelo a este voto, juntando tudo o que podia e estendendo-se até ao campo político de Mendes, quando chamou os “indecisos à esquerda e do centro-esquerda e mesmo aos de centro e de centro-direita“. Já na semana passada, em Santarém da casa do Campino, tinha começado a piscar o olho diretamente à direita, num apelo muito semelhante: “Venham de onde vierem, da esquerda da direita ou do centro“.

Aliás, não há nunca uma hostilização do eleitor social-democrata, com Seguro a fazer questão de diferenciar PSD e Chega sempre que fala no risco de “extremismos” e no desequilíbrio do sistema político atualmente. E isso tem sido vincado em vários dos discursos que tem feito desde o arranque da campanha oficial (como também não entra em choque com Luís Montenegro). Quando fala no “novo campo político”, aponta aos perigos da influência crescente do Chega, isolando o PSD ao referi-lo sempre como “partido fundador da democracia“.

Já André Ventura e João Cotrim Figueiredo são colocados dentro do mesmo saco, e, respetivamente, referidos como “radicalismo mais expressivo” e o “encapotado” — como fez esta segunda-feira um comício em Vila Real ao final da tarde. Inicialmente as investidas mais fortes reduziam-se a Ventura mas nos últimos dias, e com o avanço de Cotrim nas sondagens diárias, o ataque estendeu-se também para esse lado. Nunca se sabe o que virá no domingo.

▲ Seguro passou esta segunda-feira por Vila Real e, de manhã, também por Barcelos, onde esteve na Santa Casa da Misericórdia (cujo porvedor é antigo deputado do PSD) e na rua.

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