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MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR

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Sofia Colares Alves: "Com a reputação de Elisa Ferreira seria de esperar uma pasta de relevância" /premium

No arranque do SummerCEmp, Sofia Colares Alves elogia a escolha de Elisa Ferreira para comissária e espera uma pasta relevante, apesar de alertar para "negociações muito complicadas" no processo.

Sofia Colares Alves tornou-se chefe da representação da Comissão Europeia em Portugal no verão de 2016, em plena crise das sanções. Admite que, em três anos, muito mudou. Não só não houve sanções, como se construiu aquilo que considera uma “relação de confiança mútua” entre a Comissão Juncker e o governo português. Na manhã desta terça-feira soube-se quem é a nova comissária portuguesa. Sofia Colares Alves elogia a escolha e prevê que Elisa Ferreira possa ter uma pasta de “grande relevância”.

Sobre o SummerCEmp — que arrancou esta terça-feira e decorre até sexta-feira, dia 30 — Sofia Colares Alves fala sobre a estratégia de debater assuntos duros de forma descontraída e promete que no próximo ano haverá nova edição, apesar de mudarem os protagonistas da Comissão Europeia. Mantém-se crítica da forma como decorreu o debate político durante a campanha das eleições europeias, pois lamenta que pouco se tenha discutido a Europa. Admite que o processo de ajustamento deixou uma “ferida aberta” que ainda não está sarada e que ainda há pessoas “muito zangadas” com a Comissão Europeia.

Foi hoje comunicado pelo primeiro-ministro que a nova comissária portuguesa será Elisa Ferreira. Isto é bom para Portugal?
A Comissão Europeia não deve opinar sobre as escolhas feitas pelo primeiro-ministro, mas conhecendo obviamente o passado e a experiência de Elisa Ferreira quer no Parlamento Europeu, quer depois no Banco de Portugal, é uma pessoa com muita experiência europeia, que fez um excelente trabalho no Parlamento Europeu, que tem uma enorme rotação, com certeza uma grande rede já na Europa. E, claro, eu sendo mulher tenho também de enaltecer e agradecer ao primeiro-ministro por designar uma mulher para exercer um cargo que nunca uma mulher exerceu no passado por Portugal. Nunca houve uma comissária. Portugal e a Finlândia eram os únicos Estados-membros mais antigos que nunca tinham designado uma mulher para ocupar este cargo. Portanto, o facto de termos uma mulher como a Elisa Ferreira, com a experiência e o conhecimento dela em assuntos europeus é de celebrar.

Ser uma mulher é então uma vantagem?
Acho que sim. Desde o mandato do presidente Juncker que se está a tentar ter uma comissão paritária, equalitária. Acho que vários candidatos a presidente da Comissão Europeia puseram isso na agenda como objetivo. E fico muito contente que a presidente designada tenha tido esse objetivo também e que possamos pela primeira vez, e já com o século XXI bastante avançado, ter uma comissão europeia mais paritária e com mais mulheres no colégio.

"Pelo facto de ser uma mulher com a experiência que Elisa Ferreira tem na Europa, e com a reputação que ela já tem, seria de esperar que lhe dessem uma pasta de relevância, mas estas coisas dependem de negociações muito complicadas"

Há cinco anos, quando o presidente Juncker estava a formar a atual comissão, pediu a Portugal uma mulher sob pena de ter uma pasta mais irrelevante. Não foi bem o que aconteceu porque a pasta de Carlos Moedas tem relevância, mas podia ter sido ainda mais relevante. Agora o facto de ser mulher pode ser sinal de que Portugal pode ter uma grande pasta?
Por ser uma mulher com a experiência e reputação que Elisa Ferreira já tem na Europa, seria de esperar que lhe dessem uma pasta de relevância, mas estas coisas dependem de negociações muito complicadas. E, claro que depois vai depender muito do resultado dessas negociações. O que gostaria de dizer é que os comissários também fazem a pasta. É claro que há pastas à partida que são relevantes. As pastas não são necessariamente recortadas da mesma maneira. Há assuntos que se vão unindo e desunindo em função dos presidentes e da visão que eles têm para o trabalho da comissão. Mas os comissários fazem a pasta e gostaria de destacar o trabalho que Carlos Moedas fez na pesquisa, na ciência e na inovação, que não é de todo uma pasta irrelevante. É uma pasta onde se gere muitíssimo dinheiro, uma grande parte do Orçamento, mas era uma pasta com pouca visibilidade e Carlos Moedas deu a essa pasta uma grande visibilidade por toda a Europa e pô-la na estratégia do futuro da Europa.

MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR

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Se houver uma pasta como os assuntos económicos, que tem uma influência maior, e, sendo Elisa Ferreira, fala-se que pode ser essa a pasta. A isso junta-se o facto de Portugal ter o presidente do Eurogrupo. A acontecer, é a prova de que o país já ultrapassou o estigma de ser incumpridor?
Sinceramente, trabalho na Comissão há muitos anos e nunca vi esse estigma pairar sobre Portugal, de que não é um país cumpridor. Nós tivemos foi aquele período do programa de ajustamento, que foi um período complicado, mas desde muito cedo se percebeu que Portugal tinha vontade de voltar a uma situação de estabilidade económica. Claro que sou suspeita porque sou portuguesa, mas continuamos a ter a capacidade de ter pessoas muito boas e que se destacam muito quando exercem cargos internacionais. Essa reputação é que nos está a dar este trampolim para conseguirmos ter a influência que temos nos cargos de diplomacia internacional. Não estou a falar só de António Guterres, mas também de António Vitorino, agora Elisa Ferreira e também Mário Centeno à frente do Eurogrupo. Para um país tão pequeno de 10 milhões num quadro de mais de 500 milhões de pessoas, de facto, temos um papel preponderante nos cargos europeus internacionais e isso deve-se à reputação e ao trabalho das pessoas. E também dos diplomatas e do governo português, obviamente.

"Continuamos a ter a capacidade de ter pessoas muito boas e que se destacam muito quando exercem cargos internacionais. Essa reputação é que nos está a dar este trampolim para conseguirmos ter a influência que temos nos cargos de diplomacia internacional"

E há aqui reciprocidade? No ano em que a Sofia chegou a chefe da representação, 2016, falava-se em sanções. Agora Portugal já é novamente o bom aluno. Isso também se nota ou os portugueses ainda olham para a comissão como o papão de Bruxelas?
De facto as coisas mudaram muito em três anos. Quando cheguei, foi exatamente no verão da sanção/não sanção e naquele período muito complicado. E isso foi uma decisão [de não aplicar sanções] que a comissão tomou para dar aquele trampolim que Portugal precisava para sair da crise. E acho que houve um voto de confiança mútuo entre Portugal e a Comissão. Isso obviamente também se tem traduzido na boa vontade, nos incentivos que as pessoas e que as instituições europeias têm em colaborar com a Comissão Europeia. Claro que o meu trabalho foi muito facilitado a partir daí porque tivemos um governo muitíssimo cooperante, com excelentes relações. E também com os partidos da oposição, temos excelentes relações com todos. Mas o período de ajustamento deixou, apesar de tudo, uma ferida profunda na imagem da União Europeia e da Comissão Europeia em Portugal. Há pessoas que, com razão ou sem razão, estão muito zangadas. Foi um período muito difícil para os portugueses e isso ainda se nota no nosso trabalho. Há pessoas muito amargas. E, portanto, isso é algo que vamos ter de continuar a trabalhar.

Sei que deve estar satisfeita com a presidência de Jean-Claude Juncker, foi ele que a nomeou, porque fez trabalho no sentido de melhorar a ideia da comissão. Mas espera que a nova presidente da comissão possa trazer alguma mudança e alguma coisa nova?
De todos os desafios que tivemos nos últimos anos acho que esta comissão conseguiu deixar uma imagem muito positiva para a União Europeia. Normalmente, aquilo que nos vem à cabeça é o trabalho que não foi feito ou que não se conseguiu fazer, e penso muitas vezes na questão dos fluxos dos migrantes, dos refugiados, que é sempre vista como um fiasco. Apesar de se ter feito muita coisa nessa área, não se alcançou obviamente tudo aquilo que pretendíamos alcançar nos últimos cinco anos. O presidente Juncker teve a capacidade de ter uma relação absolutamente fantástica com o país nas decisões que foram tomadas pela comissão. Penso, por exemplo, no sistema de Proteção Civil Europeu, no EURescue, que foi moldado também em função dos incêndios de 2017 e das necessidades que resultaram desses incêndios. Das lacunas que o sistema demonstrou. Portanto, houve várias coisas em que houve uma sensibilidade muito grande por parte da comissão e muito em particular do presidente.

Mas o que pode alterar a nova presidente?
[Sobre o que será a atuação] desta nova presidente é impossível saber, já que estas coisas são tratadas com enorme sigilo, porque ainda é uma presidente designada. Mas ficaria muito admirada se esta presidente não trouxesse algumas alterações, quer à própria organização da comissão, quer à distribuição das pastas, quer à forma de fazer as coisas. Qualquer presidente vai querer, por muito que considere o trabalho feito pelo anterior, demarcar-se, vai querer marcar o seu cunho, fazer as coisas de forma diferente. E penso que esta presidente designada, e esta comissão, irá fazer com certeza coisas diferentes.

"Ficaria muito admirada se esta presidente [Ursula von der Leyen] não trouxesse algumas alterações, quer à própria organização da Comissão, quer à distribuição das pastas, quer à forma de ela fazer as coisas. Qualquer presidente vai querer, por muito que considere o trabalho feito pelo anterior, vai querer demarcar, vai querer marcar o seu cunho"

Passando agora para o SummerCEmp, não sei se irá manter. Mudando a presidente da comissão e o comissário, há a garantia que no próximo ano temos nova edição?
Há essa garantia, porque este é um projeto da representação da Comissão em Portugal, que tem tido um imenso apoio da Comissão em Bruxelas. Aliás, temos tido vários colegas de outros Estados-membros que querem replicar o modelo. Nós é que não divulgamos a fórmula, que é secreta. Mas temos colegas, que vieram no ano passado. A colega sueca este ano também vai participar porque gostariam de replicar o modelo. Portanto, é um modelo com muito sucesso. Porque isto de se debater a Europa fora dos círculos políticos e fora dos círculos académicos é pouco usual. E é um esforço que nós, Comissão, andamos a fazer em toda a Europa. A tentar ir para os festivais jovens, ir para as feiras onde os jovens empreendedores estão. No fundo, não é trazer as pessoas até nós, mas ir até onde as pessoas estão. Este é um formato ligeiramente diferente, mas a ideia era exatamente essa, debater Europa num quadro muito informal.

MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR

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Na verdade têm pessoas que podiam estar no fórum de Davos, mas ao mesmo tempo os eventos são organizados quase como se fosse um unicórnio ou uma startup altamente moderna. Como é esse equilíbrio?
Imagino que o grande incentivo que os estudantes têm e aquilo que os atrai é o facto de termos um programa com oradores fantásticos. Não é todos os dias que se almoça, que se janta, que se toma um café ou que se tem a possibilidade de falar com comissários, com ministros, com secretários de Estado, com pessoas que ocupam altos cargos nas organizações internacionais. Enfim, é um bocadinho pelo programa e pelo facto de ser num sítio diferente, num sítio bonito, num sítio mais remoto, no pico do verão. Os oradores, ainda me pergunto hoje em dia porque é que eles vêm. (Risos) Não é verdade, acho que já descobri: no primeiro ano ficámos muito surpreendidos com o número de comissários e ministros, por exemplo, que quiseram participar. Penso que estamos todos um bocadinho fartos do mesmo modelo. Estão fartos, mesmo os ministros, de falar e debitar discursos e workshops onde não há grande interação e debate. E este formato permite isso. Por exemplo, o ministro Tiago Brandão Rodrigues veio no primeiro ano e agora não o conseguimos tirar de cá. Mas agradeço a todos eles, muitos deles abdicam do tempo das suas férias para virem cá. O SummerCEmp gera uma energia muito especial, as pessoas que estiveram nas outras edições perceberam isso e isto vai-se contagiando.

É ingrato perguntar, mas vou perguntar na mesma: há algum ponto alto que consiga destacar?
Olhando para o programa, não. Se me disser, o debate sobre inovação e ciência que se vai fazer no observatório [astronómico], claro que por si tem algo diferente. Por exemplo, falar com Hugo Messias, que é astrónomo e trabalhou para tirar aquela fotografia do buraco negro será com certeza um ponto alto. Claro que ter pessoas como Mário Centeno, Carlos Moedas ou Julian King ou outros ministros, sabemos que são pessoas que à partida são excelentes oradores, que vão fazer um debate muitíssimo interessante. Até porque nós vamos puxar por eles, não no sentido de nos darem um discurso institucional, mas darem mais as suas perceções e as suas opiniões pessoais. Os highlights vai ter de me perguntar depois no fim. O programa é este, tem muito para dar, mas vão ser os participantes que vão definir os momentos altos e os grandes debates, porque vai ser a interação deles.

Consegue explicar-me o que é a BeerCall?
É, no fundo, um momento de descontração, em que depois de um dia muito intenso, que começa muitas vezes às 08h00, nos juntamos todos para descontrair, para tomar um copo. Vai ser ao luar, com certeza sob as estrelas, num terraço aqui de Monsaraz, com esta vista absolutamente extraordinária e vamos todos fazer networking. Nós somos muitos. E com a organização, somos cerca de 130. Precisamos também de um momento de descontração. De: ‘olá, como te chamas?’; ‘Eu vi que estudas aqui´. ‘Vens desta universidade, eu também sou daquela’.

Reparei que a seleção de alunos não foi paritária, porque há 24 mulheres e apenas 16 homens.
O mundo está a virar ao contrário. O que quer que lhe diga? É o woman power. Com certeza que tínhamos dois terços de candidatas femininas e um terço de candidatos masculinos. Portanto, a seleção reflete um bocadinho a proporção de rapazes e raparigas que tínhamos como candidatos. Não foi de propósito. Não é por ser mulher que favorecemos as mulheres.

Quase dois terços dos alunos do SummerCEmp são mulheres. "O mundo está a virar ao contrário. O que quer que lhe diga? É o woman power."

A primeira edição foi no distrito de Castelo Branco, depois tem sido no Alentejo. Há outras regiões igualmente esquecidas, vão continuar por esta zona?
Isto é um bocadinho como as personalidades que estão no programa. Nós lançamos a proposta e depois vemos quem é que agarra nela. Nem todos agarram. Ou não têm condições de a agarrar. Tem havido propostas de vários outros distritos, quer do centro, quer do sul, do norte, não sei. Mas depois temos de ter determinadas condições, nomeadamente alojamento para cerca de 80 pessoas por noite num sítio relativamente pequeno. Não queremos que as pessoas estejam muito dispersas porque depois torna este networking e este convívio que é muito importante entre as sessões e depois à noite mais difícil e as pessoas acabam por dispersar. Portanto, as aldeias onde tem acontecido foram aquelas que responderam a esta proposta e que tinham as condições para o fazermos. Eu tenho consciência que temos de diversificar porque estamos a ficar muito concentrados na raia e no centro sul, mas isso é um desafio que depois fazemos às outras autarquias e às outras aldeias, mas nós temos de ter um mínimo de condições logísticas para o fazer. Mas claro que estamos abertos.

MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR

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É chefe da representação da Comissão Europeia em Portugal. Que função é esta? É uma espécie de embaixada da Comissão em Portugal?
Sim. É a figura institucional que é mais próxima daquilo que nós fazemos. A diferença é que nós trabalhamos para 28 Estados-membros, para 28 comissários, para 28 direções-gerais . O trabalho de reporte político, de representação política, de comunicação, de acompanhamento de visita de altas entidades é uma parte importante do que as embaixadas fazem.

Falou do mecanismo europeu de Proteção Civil. Hoje estamos aqui com 33 graus, suponho que haja incêndios por todo o país. Há até quem fale de uma Autoridade Europeia de Proteção Civil. É nestes momentos que a Europa tem de dizer presente?
Nós temos um grande lema nesta comissão que é: a Europa que protege. Porque isso passou a ser uma necessidade cada vez mais premente e gritante. Em Portugal é sob a forma de incêndios, noutros Estados-membros é sob a forma de terramotos e inundações, mas sabemos que as alterações climáticas começam a demonstrar as suas consequências e vamos ser confrontados cada vez com maiores catástrofes. É exatamente face a essas situações que faz sentido unirmo-nos. Unirmos os nossos meios e termos mais solidariedade na Europa. Não sei se vamos alguma vez ter uma autoridade para a proteção civil, mas não ficaria muito admirada se a tivéssemos. Faz todo o sentido. E foi esse projeto: transformar uma equipa de meios que eram unicamente nacionais e que a comissão se limitava a coordenar em verdadeiros meios comuns, que estão à disposição dos Estados-membros independentemente de a ou b quererem emprestar os aviões ou quererem enviar bombeiros. Portanto, é muito importante que a UE seja também autónoma nestes momentos. Que é isto também que as pessoas esperam, enquanto cidadãos, da Europa.

"Entristeceu-me que a campanha [das eleições Europeias] fosse tão pobre em debate europeu. É normal que as pessoas estejam preocupadas com outras questões, e que isso venha ao de cima na campanha eleitoral, mas francamente não acho normal que se tenha falado tão pouco de assuntos europeus. E depois não nos podemos queixar que as pessoas estão afastadas da Europa e não percebem o que é a UE."

Este ano tivemos eleições para o Parlamento Europeu e, nessa altura, lamentou que se debatessem mais questões partidárias do que europeias no debate da campanha. O debate político-partidário continua a contaminar o debate europeu?
Eu sei que é difícil que assim não seja em todos os Estados-membros, em todos os países. Mas, sim, entristeceu-me que a campanha fosse tão pobre em debate europeu. É normal que as pessoas estejam preocupadas com outras questões, e que isso venha ao de cima na campanha eleitoral, mas francamente não acho normal que se tenha falado tão pouco de assuntos europeus. E depois não nos podemos queixar que as pessoas estão afastadas da Europa e não percebem o que é a UE. Porque se nestes momentos, de cinco em cinco anos, não lhes explicamos, não debatemos e não procuramos informar, então não sei quando o poderemos fazer. Foi uma oportunidade perdida.

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