A campanha oficial das presidenciais só arranca na próxima semana. Mas os vários adversários de Marcelo andam na estrada e têm estado a dar entrevistas. Talvez por isso, os índices de notoriedade (reconhecimento, pelos eleitores, de quem são os candidatos) sobe em toda a linha. E como é que isso se traduz em votos? Nesta primeira sondagem de 2021, Marcelo volta a perder margem para o segundo lugar e Ana Gomes segura uma posição — precisamente, o segundo lugar — que há várias semanas André Ventura dá sinais de querer agarrar. Não há alterações de posição no pódio, mas há mudanças discretas e sinais de continuidade que vale a pena analisar.

Nesta terceira semana consecutiva, há resultados da sondagem Observador/TVI/Pitagórica que começam a ganhar consistência. Em primeiro lugar, Marcelo é (apesar de tudo, com grande vantagem) a primeira escolha nas intenções de voto e o vencedor natural mesmo para aqueles eleitores que não pretendem entregar-lhe o seu voto. No início de dezembro, era isso que diziam 92% dos inquiridos. Neste momento, essa é já a certeza de 97% dos eleitores que participam na sondagem. Mas também se percebe que a folga com que o Presidente da República partiu para esta tracking poll (quando estava muito perto de alcançar o resultado recorde numas presidenciais — Mário Soares, com 70,95%, em 1991) se vai esbatendo a cada semana. Agora, as intenções de voto em Marcelo ficam pelos 66,5% (já com distribuição de indecisos). Numa campanha em que será Marcelo contra todos, como sempre acontece quando um Presidente parte em busca da reeleição, será interessante perceber como vai Marcelo gerir esta vantagem: consegue reforçá-la? Ou irá perder terreno em função dos “ataques” políticos que cada um dos adversários guardou para cada frente-a-frente com o favorito da corrida?

Em segundo lugar, e em estreita ligação com a ideia anterior, é cada vez mais certo que a eleição para a Presidência da República não obrigará os eleitores a regressar às urnas depois do dia 24 de janeiro. O mesmo é dizer que deveremos estar perante uma eleição a uma única volta. Como, aliás, tem sido tradição desde que Mário Soares obrigou Freitas do Amaral a uma segunda volta, nas eleições de 1986. Essa que foi uma corrida histórica, com o socialista a virar o tabuleiro eleitoral a seu favor e a ultrapassar Freitas, passando de 25,43% na primeira volta para 51,18% dos votos no embate decisivo. Deixando os arquivos de lado, no que diz respeito à eleição deste ano, tudo parece apontar para um desfecho à primeira. Já foram 83% dos inquiridos a acreditar nesse cenário. Agora, chegam aos 87%.

Em terceiro lugar, neste somatório de sinais mais estáveis da sondagem Observador/TVI/Pitagórica, Ana Gomes volta a ser apontada como a mais bem posicionada candidata a disputar o lugar com Marcelo, ainda que a probabilidade de a eleição escorregar para a segunda volta seja um cenário absolutamente longínquo. Isto não significa que a ex-eurodeputada seja dona e senhora do segundo lugar da eleição — até porque isso, em bom rigor, só a 24 de janeiro se saberá. Até esse dia, valemo-nos das sondagens e dos sinais que elas nos vão dando.

São essas as variações semanais referidas anteriormente. Alterações que, não se antevendo que possam influenciar o resultado final — no que respeita ao vencedor —, podem ter impacto no futuro da campanha de alguns dos candidatos.

Sobe e desce: Ana Gomes e André Ventura

É, precisamente, o caso de Ana Gomes e André Ventura. Na última sondagem, a ex-eurodeputada agarrava-se às duas décimas de vantagem que tinha sobre o líder do Chega. Ventura tinha dado um salto significativo (1,7 pontos percentuais) e beneficiava, ao mesmo tempo, da queda de uma décima da socialista. Agora, com a campanha à porta e os debates a arrancar a todo o gás (ressalva para a data de recolha destas respostas, entre os dias 17 e 27 de dezembro), Ana Gomes descola do seu adversário mais direto.

A socialista recolhe 13% das intenções de voto. Uma subida de 2,1 pontos percentuais e que contrastam com a perda de uma décima de André Ventura, que cai para os 10,6% de intenções manifestadas pelos inquiridos. Ana Gomes perde, por uma linha ténue, para o candidato apoiado pelo Chega no eleitorado masculino (13% contra 14%) e vence no feminino (9% contra 4%). Os dois candidatos empatam nos votos dos eleitores mais novos (9% para cada lado) e na faixa entre os 45-54 anos. Ana Gomes perde no eleitorado entre os 34-44 (9% contra 11% para Ventura) e vence no eleitorado mais velho (14% que batem os 8% do adversário).

Na análise por classe social, a socialista vence agora em toda a linha e, na avaliação do voto por sensibilidade política (transferência de votos das legislativas de 2019 para as presidenciais), André Ventura continua firme junto do eleitorado do CDS (em que recolhe 31% dos votos e a socialista faz o nulo) e do PSD. À esquerda e ao centro esquerda, a vitória neste duelo pende para o lado de Ana Gomes (se excluirmos a vitória de Marcelo no Bloco e, com maior expressão ainda, junto do eleitorado socialista).

O terceiro patamar: a queda de dois partidos da “geringonça”

Vem ficando claro, semana após semana, que depois de Marcelo, numa primeira linha, e de Ana Gomes e André Ventura, numa segunda linha, as candidaturas de Marisa Matias, João Ferreira, Tiago Mayan Gonçalves e Vitorino Silva preenchem as vagas de um terceiro nível eleitoral. Nesse patamar, o cenário tem vindo a agravar-se para os candidatos dos dois partidos que apoiaram a “geringonça” — Marisa Matias e João Ferreira —, num contraste com o crescimento paulatino mas continuo da novidade da eleição, o nome apoiado pela Iniciativa Liberal.

Já vimos aqui, em semanas anteriores, que Marisa Matias tem mais em jogo nesta eleição do que a corrida a Belém. A candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda saiu das eleições presidenciais de 2016 como a mulher com melhor votação de sempre numa corrida eleitoral deste âmbito: 10,12%, quase 470 mil votos. Uma miragem, a julgar por mais esta edição da sondagem Observador/TVI/Pitagórica. Marisa Matias surge, esta semana, com 4,5% das intenções de voto. É a terceira semana consecutiva de perda de votos (começou nos 6,5%).

João Ferreira tem um percurso semelhante. Arrancou com 3,5% das intenções de voto. Já de si, e a concretizar-se, seria um resultado abaixo do pior que o PCP alguma vez alcançou numas presidenciais. A prestação manteve-se assim na semana seguinte mas, neste momento, o candidato comunista desce para os 2,8%. E o afastamento dos eleitorados que, à partida, lhes seriam mais favoráveis tem um peso significativo nestes resultados.

De facto, apenas 37% dos inquiridos que dizem ter votado no Bloco de Esquerda nas últimas legislativas admite querer votar em Marisa Matias. No caso do PCP, sendo mais forte, a fidelidade deste eleitorado fica-se pelos 67% de intenções de voto em João Ferreira. A situação é particularmente grave no caso do eurodeputado. Com exceção do seu próprio partido, João Ferreira não capta senão 2% dos votos de eleitores bloquistas — aparte esse nicho, zero. Nem PS nem qualquer outro partido lhe garantem o mínimo de votação. Marisa Matias ainda consegue ir buscar 6% de votos a eleitores do PCP, 2% ao PS e outros tantos ao PSD.

De salientar ainda que, se André Ventura obtém uma taxa de rejeição cada vez menor (desceu dos 77,3% para os 70,7% em três semanas), Marisa Matias depara-se com cada vez mais inquiridos a rejeitar em absoluto atribuir-lhe o seu voto no dia 24 de janeiro: eram 44,9%, subiram para os 50% e, agora, esta taxa já se encontra nos 57,8%.

Em sentido oposto está Tiago Mayan Gonçalves. O candidato que conta com o apoio da Iniciativa Liberal — uma estreia a dobrar em presidenciais, para o próprio e para o partido — começou nestas sondagens com 0,9% dos votos mas, esta semana, surge com 1,7%. É o segundo pior resultado entre todos os candidatos, é certo (só Vitorino Silva fica atrás, com os mesmos 0,8% que trazia da sondagem anterior). Mas é também a segunda subida consecutiva de um dos candidatos com que os eleitores estão menos familiarizados. E, sobretudo, representa uma subida face ao resultado que o seu partido alcançou nas legislativas de 2019 — quando elegeu o primeiro e único deputado à Assembleia da República, com 1,29% de votos.

Ficha técnica

Durante 6 semanas (10 Dezembro 2020 a 21 de Janeiro 2020 ) vai ser publicada pela TVI e pelo Observador uma sondagem em cada semana com uma amostra mínima de 626 entrevistas. Em cada semana a amostra corresponderá a 2 sub-amostras de 313 entrevistas. Uma das sub-amostras será recolhida na semana da publicação e a outra na semana anterior à da publicação. Cada sub-amostra será representativa do universo eleitoral português (não probabilístico) tendo por base os critérios de género, idade e região.

Semana 3 Publicação: O trabalho de campo decorreu entre os dias 17-20 e 22,23,26 e 27 Dezembro 20202. Foi recolhida uma amostra total de 629 entrevistas que para um grau de confiança de 95,5% corresponde a uma margem de erro máxima de ±4,0%. A seleção dos entrevistados foi realizada através de geração aleatória de números de “telemóvel” mantendo a proporção dos 3 principais operadores identificados pelo relatório da ANACOM, sempre que necessário são selecionados aleatoriamente números fixos para apoiar o cumprimento do plano amostral. As entrevistas são recolhidas através de entrevista telefónica (CATI – Computer Assisted Telephone Interviewing).

O estudo tem como objetivo avaliar a opinião dos eleitores Portugueses, sobre temas relacionados com as eleições, nomeadamente os principais protagonistas, os momentos da campanha bem como a intenção de voto nos vários partidos.

A taxa de resposta foi de 54,84% . A direção técnica do estudo é da responsabilidade de Rita Marques da Silva.

A taxa de abstenção na sondagem é de 55,9% a que correspondem os entrevistados que aquando do momento inicial se recusaram a responder à entrevista por não pretenderem votar nesta eleição.

A ficha técnica completa bem como todos os resultados foram disponibilizados junto da Entidade Reguladora da Comunicação Social, que os disponibilizará oportunamente para consulta online.