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António Dias Martins
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António Dias Martins é o diretor executivo da Startup Portugal

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António Dias Martins é o diretor executivo da Startup Portugal

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Startup Portugal não está "preocupada" com número de unicórnios no país: "O empreendedorismo não se esgota aí"

António Dias Martins garante ao Observador que a Startup Portugal vê "grande vontade" do Governo em apoiar a inovação e diz não estar "especialmente preocupado" com o número de unicórnios no país.

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Com a queda da plataforma de moda de luxo Farfetch, no final de 2023, o país perdeu um unicórnio com ADN português. Desde então, não conseguiu que mais nenhuma empresa ascendesse a esse estatuto mítico, que recebe quando alcança uma avaliação superior a mil milhões de dólares. António Dias Martins, diretor executivo da Startup Portugal, diz não estar “especialmente preocupado com o número de unicórnios que existem” em território nacional e afirma que se pode estar a “seguir uma tendência a nível internacional”. Apesar de considerar que é uma distinção importante, lembra que “o empreendedorismo não se esgota aí”.

Em entrevista ao Observador, em Barcelona, o diretor executivo da Startup Portugal, organização que apoia o Governo na implementação da Estratégia Nacional para o Empreendedorismo e acompanha a aplicação de políticas públicas para essa área, garante que convive “muito bem” com executivos de “todas as cores políticas” e destaca uma “excelente relação com a equipa do Ministério da Economia”. António Dias Martins defende que o executivo de Luís Montenegro já anunciou “medidas relevantes” para a indústria e recusa que seja menos voltado para a inovação do que o anterior, do Partido Socialista, responsável pela legislação que estabelece a definição de startup. “Não acho que compare negativamente, antes pelo contrário.”

“Quebra-cabeças” e “lava-loiças” na Farfetch. José Neves tenta arquivar processo nos EUA mas deverá enfrentar nova ação no Reino Unido

Confiante de que as startups vão conseguir continuar a captar financiamento ao longo deste ano, depois de ter sido registado “um grande crescimento” em 2024 (que contrastou com um 2023 mais difícil), o responsável pela organização portuguesa não esconde que ainda há um “caminho a percorrer”, nomeadamente para “estimular investidores a investirem” em negócios em Portugal e para reter talento.

Foi com o objetivo de encontrar novos investidores que algumas empresas portuguesas apoiadas pela Startup Portugal estiveram no evento tecnológico 4YFN (“4 Years From Now”), que decorreu entre 3 e 6 de março em Barcelona. Esta foi a segunda vez que a organização marcou presença na conferência na cidade espanhola, a partir da qual António Dias Martins revela ao Observador que ambiciona chegar a feiras na Ásia e nos Estados Unidos, mercado em que ainda não vê “sinais concretos de afastamento” por parte das startups devido à nova administração, liderada por Donald Trump.

António Dias Martins

António Dias Martins acredita que todas as startups têm de passar a utilizar inteligência artificial

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“Se uma startup quer ser bem-sucedida tem necessariamente de entrar em mercados internacionais”

Este ano, o programa Business Abroad da Startup Portugal, que apoia a presença de negócios portugueses em conferências internacionais, já esteve na Suécia, no Qatar e agora em Espanha (na 4YFN, Four Years From Now). Qual é a importância da presença de empresas nacionais aqui em Barcelona?
Em Barcelona e nas outras geografias, a importância tem que ver com ser dada a possibilidade de as startups escalarem para mercados internacionais porque isso é um fator fundamental. Por definição, uma startup é uma empresa inovadora e facilmente escalável, que cresce baseada em tecnologia, digitalização, investigação e desenvolvimento e inovação. E que começa a ser desenhada desde o início para mercados internacionais. Se uma startup quer ser bem-sucedida tem necessariamente de entrar em mercados internacionais. Portanto, estas ocasiões de virem delegações, que a Startup Portugal organiza, a feiras tecnológicas internacionais permitem que num período muito concentrado [de tempo], dois ou três dias, contactem com uma multiplicidade de pessoas e de agentes, algo demorariam meses a fazer se fosse a partir de Portugal ou individualmente, através dos seus próprios meios. O que a Startup Portugal faz é abrir uma call para chamar startups que têm interesse em ir para cada uma das geografias em que estamos a trabalhar. As startups candidatam-se e nós selecionamos um grupo.

[“Amigafaz parte” é o podcast onde Mariana Ribeiro conversa sobre rotinas, hábitos, viagens, finanças pessoais, amizades, relacionamentos ou selfcare. Ouça aqui o novo episódio, que também está disponível na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

Como é que é feita a seleção?
Nós olhamos para os indicadores das startups, para a sua capacidade. A última coisa que queremos aqui é turismo de negócios. Hoje em dia, já se consegue estudar o mercado e entrar em contacto com pessoas relevantes remotamente, de forma muito fácil. Nós queremos startups que já tenham feito o seu trabalho de casa e que venham aqui para ajudar a concretizar e a fazer negócio. Por isso é que se chamam Business Abroad Missions. São missões empresariais muito direcionadas e muito focadas para concretizar o negócio. Nós selecionamos as [empresas] que têm maior capacidade de se expandirem, que já têm alguma estrutura, que já não são um one man show e que já têm alguma capacidade para encararem a internacionalização de forma séria e sustentável. As 18 startups que temos aqui este ano a representar Portugal já angariaram, no total, cerca de 10 milhões de euros em financiamento. Isto dá uma média de 500 mil euros por startup. Não é um grande financiamento, mas já é o suficiente para lhes permitir prepararem-se adequadamente para este tipo de iniciativas. Aqui [em Barcelona] estão, provavelmente, à procura de rondas mais fortes de investimento, de parceiros, de negócios, de futuros clientes e de entidades locais que as ajudarão a desenvolverem os seus negócios na Catalunha, que é um mercado com um potencial enorme. São startups que têm em média 14 colaboradores e que (a maioria) já têm faturação e já têm volume de negócios recorrente. O processo termina com esta seleção e, dentro da capacidade orçamental que nós temos para fazer este apoio, acordamos com as feiras áreas de exposição, o que implica um investimento muito relevante da nossa parte e que assegura a visibilidade não só para o país, mas também para estas startups.

E como é que é feita a seleção das empresas que têm direito a um espaço de exposição?
Com a tal call com análise de indicadores e processo de seleção.

"Há duas áreas geográficas que nós não estamos a cobrir e que gostaríamos de passar a cobrir. São os Estados Unidos e a Ásia."
António Dias Martins

Nessa altura fica logo decidido?
Sim. Neste momento, estão dez a expor. Mas o grupo, ao todo, até é maior do que 18 [empresas]. Já soubemos de mais duas ou três que estão cá e que se juntaram também à delegação. Formado este grupo, nós começamos a divulgar pelos nossos meios e começamos a identificar outras startups que vêm cá pelos seus próprios meios e que estão cá presentes e depois se juntam às nossas iniciativas, porque a presença nestas feiras é preparada antecipadamente. Nós, em conjunto com a AICEP, com o consulado, com a embaixada, preparamos também um conjunto de eventos paralelos, de encontros e de ocasiões onde as empresas, até fora do recinto da feira [a 4YFN], podem estar em contacto com operadores relevantes aqui na região e internacionais.

Inteligência artificial, networking e (possíveis) investidores. O que leva as startups portuguesas ao 4YFN de Barcelona?

Esta é a segunda vez que a Startup Portugal está na 4YFN, em Barcelona. As empresas que estiveram presentes no ano passado transmitiram algum feedback quanto aos frutos que colheram da presença aqui?
Sim, esse feedback não é imediato. São processos longos e que começam com estas iniciativas e depois podem demorar meses a concretizar. Mas o melhor feedback que nós vamos tendo é a vontade das startups em participarem nestas iniciativas e não só em Barcelona, mas acompanharem também as [missões] Business Abroad em outras geografias no seu processo de internacionalização. Quer dizer que estão a desenvolver-se e que estão ambiciosas. Temos muitos casos desses que vão a diferentes geografias connosco porque estão verdadeiramente apostadas no processo de internacionalização. Temos startups quer na área do medtech, quer na área da inteligência artificial mais aplicada aos serviços, quer na área dos recursos humanos, fintech, de áreas muito variadas e que estão a encontrar aqui potenciais parceiros e clientes muito relevantes.

António Dias Martins

O programa Business Abroad já levou, este ano, startups à Suécia, ao Qatar e a Barcelona

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A participação nestas feiras tecnológicas não só é um investimento para as empresas, que têm de suportar os custos das viagens (como, por exemplo, o alojamento), como também para a Startup Portugal, como mencionou. Que investimento fazem para levar as startups a eventos internacionais?
Depende. De feira para feira são valores muito dispares, depende da dimensão do evento. Mas nós para o Business Abroad, globalmente, temos um orçamento que andará à volta de 80 mil euros por ano para todas as iniciativas. Depois temos alguns patrocinadores particulares que se juntam a nós, alguns privados que também querem participar e querem colaborar. É uma conjugação de esforços muito grande e que nos faz estar presente em diferentes localizações. Este ano fomos pela primeira vez ao Techarena, que tem um potencial muito grande de ser uma boa rampa de lançamento para os países nórdicos, a partir da Suécia. É uma feira que tem interesse e a Suécia tem um ecossistema empreendedor em grande desenvolvimento e expansão e uma dinâmica no empreendedorismo que se destaca dentro dos países nórdicos. Portanto, escolhemos o Techarena para levar as startups portugueses. Foi uma primeira edição, temos agora que avaliar como é que correu para ver se repetimos no próximo ano.

Já tem outros eventos em mente para os próximos anos?
Há duas áreas geográficas que nós não estamos a cobrir e que gostaríamos de passar a cobrir. São os Estados Unidos e a Ásia, o que implica uma preparação maior, outro tipo de investimento, outro tipo de orçamento. Tem que ser preparado com muita antecedência, com entidades locais e numa junção de esforços com outras entidades de natureza pública portuguesa. Mas achamos que há lugar e há oportunidade para abrirmos essas geografias como destino destas missões ao estrangeiro e vamos tentar tê-las brevemente.

Investimento captado pelas startups deverá continuar “a crescer” em 2025

No caso dos EUA, especificamente, e face à nova administração, liderada por Trump, acredita que pode haver mais resistência das empresas portuguesas a ingressarem nesse mercado?
Até agora não sentimos isso. Os Estados Unidos são muito procurados pelas startups, não só para o mercado que têm, como pelo financiamento que conseguem aportar. Os venture capitalists [investidores de capital de risco] americanos têm uma capacidade de investimento em geral bastante superior aos europeus e as startups bem-sucedidas, invariavelmente, vão à procura desse capital. É um destino muito procurado, não só pelo mercado extraordinário que tem, como pelos investidores e também pelo próprio ambiente favorável ao empreendedorismo e às startups, a facilidade de fazer negócios, a facilidade de investir.

O que acha que não se altera com a mudança da administração?
Até agora não temos sinais que vá mudar e a nova administração tem estado até bastante próxima e sensível a temas de grandes empresários na área da tecnologia, de fundadores de grandes startups e unicórnios bem-sucedidos. Estamos com expectativa para perceber o que é que vai acontecer, mas até agora não temos sinais concretos de algum afastamento dos Estados Unidos por essas razões políticas.

Falando sobre rondas de investimento: 2023 revelou ser um ano difícil para as startups fecharem financiamento, mas no ano passado foi registada uma recuperação. Já é possível estabelecer um indicador para este ano?
A expectativa é que continue a crescer. 2024 foi um ano de grande crescimento, de 140% de crescimento no investimento comparado com 2023. Nós temos 4.719 startups em Portugal, o que representa um crescimento de 16% em relação ao número que tínhamos mapeado no ano anterior [2023]. O investimento a crescer em três dígitos e o número de startups a crescer em dois dígitos, são indicadores que entusiasmam. Ainda assim, julgamos que ainda não estamos em níveis de 2021. Esse foi um ano recorde em termos de financiamento angariado por startups portuguesas. Há ainda caminho para percorrer. É fundamental termos políticas ativas que favoreçam os empreendedores e os investidores. Há três pilares que eu destacaria. A facilidade da angariação de capital, estimular investidores a investirem em startups em Portugal e em venture capital em Portugal. Não só investidores pequenos, mas também grandes investidores, family office, investidores institucionais, fundos de pensões. Por outro lado, talento. Temos feito progressos nessa matéria, temos agora o IFCI, que é um regime favorável ao recrutamento de colaboradores para startups vindos do estrangeiro, que lhes permite pagar uma taxa de IRS de 20% durante 10 anos, é um regime bastante interessante, favorável, que nos distingue. Políticas favoráveis a atrair e reter talento são da maior importância. O IFICI distingue-nos de outros países e nós aqui na feira, em Barcelona, conseguimos ser olhados como exemplares nessa matéria, mas há que manter o foco e a atenção nesta matéria, principalmente em áreas como os vistos, a facilidade e a burocracia associada à deslocalização de pessoas de umas geografias para as outras, para atrair talento também internacional. Toda essa matéria relacionada com os argumentos que podemos apresentar para atrair talento qualificado e retê-lo é uma prioridade fundamental. O terceiro [pilar] tem a ver com a burocracia. A simplificação, a facilidade de ligação com o Estado e com os serviços públicos, a contratação pública, são áreas onde temos que dar passos mais assertivos para facilitar a vida das startups. Se conseguimos trabalhar bem estes três pilares em termos de políticas públicas — e, como já referi, estamos a fazer coisas relevantes nestas matérias — acho que conseguimos manter a atenção que Portugal está a merecer na área do empreendedorismo e o reconhecimento que estamos a ter como hub de empreendedorismo a nível internacional.

António Dias Martins

António Dias Martins destaca "três pilares" em termos de políticas públicas em que Portugal tem de trabalhar

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“Convivemos muito bem com governos de todas as cores políticas”

A Startup Portugal foi criada em 2016, quando Portugal era governado pelo Partido Socialista. Isso mudou no ano passado. A alteração do Executivo mudou alguma coisa?
Nós somos uma associação privada sem fins lucrativos, financiada maioritariamente por fundos públicos e convivemos muito bem com governos de todas as cores políticas. O nosso interlocutor privilegiado é o Ministério da Economia. Temos tido uma excelente relação com a equipa do Ministério da Economia, que tem dado a maior atenção a estes assuntos. Prova disso é que no pacote ‘Acelerar a Economia’, que foi apresentado pelo Governo, há medidas concretamente destinadas ao empreendedorismo e às startups. Tivemos a oportunidade de colaborar e de participar na equipa de trabalho que desenvolveu essas medidas e o que temos obtido da parte do Governo é a melhor colaboração possível e o reconhecimento de que esta é uma área estratégica para a economia nacional. A Startup Portugal tem missão pública, tem utilidade pública, tem a incumbência de ajudar e colaborar com o Governo no desenho da Estratégia Nacional para o Empreendedorismo. Ajudou a desenhar a nova lei das startups, que foi promulgada em maio de 2023, que pela primeira vez introduziu no país uma definição legal de startup, que é uma prática exemplar a nível europeu e que está a ser vista por parceiros nossos e por outros países europeus no sentido de poder ser replicada. Com esta definição legal, tal como já existia a de PME [pequena e média empresa] ou a de grande empresa, nós já conseguimos saber o que é uma startup e canalizar sempre que necessário, sempre que houver esta aposta, benefícios e fundos específicos para este tipo de empresa.

Governo lança novo sistema de incentivos dirigido às “startups”

Quando a legislação foi promulgada, a Startup Portugal disse que ainda era preciso revisitar algumas normas. Quase dois anos depois, já existiram alterações?
Algumas arestas foram limadas, ainda há oportunidade de melhorar aqui ou ali, mas o grosso está feito.

O que é “aqui ou ali”?
Nomeadamente no regime fiscal para as stock options, que foi introduzido em simultâneo com essa lei e que dá uma utilidade prática à definição de startup porque permite que essas empresas e os seus colaboradores tenham acesso a um dos regimes fiscais mais favoráveis para stock options de toda a Europa, com o pagamento de 14% sobre mais valias no momento da liquidez. Esse regime fiscal está disponível para todos os colaboradores, todos os acionistas e todos os órgãos sociais das startups, assim reconhecidas pela lei. Nas empresas de maior dimensão, chamadas scaleups, não se aplica para todas estas entidades. Ficam de fora os fundadores que têm mais do que uma determinada percentagem do capital social [a partir de 20%]. Nós consideramos que não é necessário haver essa diferenciação e consideramos que deveria ser, tal como no caso das startups, de aplicação universal para todos os trabalhadores, acionistas e órgãos sociais. São essas mudanças que nós na altura defendemos e que ainda consideramos que devem ser feitas.

Da “zanga” dos fundadores às pedidas correções. O que muda com a lei das startups que “parece ter sido feita por quem as desconhece”?

Têm existido conversações nesse sentido ultimamente?
Sim, isso está identificado, está mapeado e penso que, quando houver oportunidade, é uma evolução que vai estar em cima da mesa.

Falou sobre o Ministério da Economia, em novembro o ministro Pedro Reis disse que estava a ser feito um trabalho de reflexão da Portugal Ventures, que é associada da Startup Portugal, admitindo que pudesse ser feita a venda de participações ou carteiras de fundos. O que é que considera desta reflexão?
Não me compete a mim comentar esse assunto. A Portugal Ventures é nossa associada e estamos satisfeitíssimos com essa intervenção, enquanto associada. Não faço mais nenhum comentário sobre as declarações do senhor ministro da Economia.

Ministro da Economia admite venda de participações na capital de risco pública Portugal Ventures

Fazendo uma análise, sente que este Governo pode ser menos voltado para a inovação do que o do PS? Existe, como disse, um pacote de 60 medidas. Mas no Orçamento do Estado para 2025 existem menos medidas para as startups do que aquelas que constavam no último OE apresentado pelos socialistas, que também foram responsáveis pela lei das startups.
Não concordo com isso. Acho que há medidas relevantes e que foram até desenhadas com bastante rapidez. Por exemplo, foi anunciado e estamos a implementar, neste caso a ANI, a Agência Nacional para a Inovação, um fundo deeptech que vai ter 50 milhões de euros de fundos públicos, aos quais acrescerão outros 50 milhões de fundos privados, num total de 100 milhões.

António Dias Martins e António Costa

António Dias Martins junto a António Costa, à época primeiro-ministro, na Web Summit de 2022

Sofia Rocha

É o fundo que foi anunciado na Web Summit.
Sim. E que está recentemente a ser legislado e regulamentado em termos de portaria. Temos medidas como os vouchers EIC, que financiam, com apoios não reembolsáveis, startups que se queiram candidatar a estes programas do EIC [European Innovation Council]. Temos um programa chamado Start from Knowledge, que vai apoiar iniciativas de empreendedorismo e startups criadas por alunos, entidades ou pessoas do ambiente universitário. Eu vejo uma grande vontade e medidas concretas no sentido de apoiar a inovação e o empreendedorismo com argumentos próprios e muito válidos. Nos últimos meses, parece-me que atacaram com bastante rapidez e prioridade esta matéria. Não acho que compare negativamente, antes pelo contrário.

Empresas de deep tech vão ter fundo de 110,6 milhões de euros. Estado vai financiar mais de metade

Quanto ao Programa Acelerar a Economia, que mencionou acima, a Startup Portugal fez propostas ao Governo para incluir mais medidas no pacote que é composto por 60?
Nós apresentámos mais medidas. Parte delas ainda não foi incluída nas medidas já publicadas e já divulgadas, mas temos esperança que venham a ser endereçadas, trabalhadas e incluídas em futuros pacotes e em futuras novas iniciativas lançadas pelo Governo. A Startup Portugal, em especial com o Conselho Estratégico, que tem 32 personalidades que representam startups, investidores, empresas de tecnologia, consultores, universidades, incubadoras, trabalhou um pacote de cerca de 20 medidas que constituem a proposta de Estratégia Nacional para o Empreendedorismo que foi apresentada ao novo Governo. Foram identificadas medidas concretas que foram incluídas neste pacote e que não prejudica que as restantes, que foram bem percebidas e bem entendidas pelo Governo, possam vir a ser brevemente trabalhadas no sentido de poderem ser implementadas.

Um “pacotão” que corta ainda mais receita em 2025 e repesca benefício fiscal de Costa para estrangeiros

De que medidas falamos? Podem ser ainda integradas no mesmo pacote ou teria de ser numa nova iniciativa?
Esse pacote tem 60 medidas e está identificado. Parece-me que agora está-se a trabalhar no acompanhamento da sua implementação. Penso que poderá haver novos pacotes e novas medidas, especificamente dedicadas ao empreendedorismo e que podem ter um alcance ainda maior do que aqueles que já estão incluídos neste pacote. As medidas que nós propusemos, pegando outra vez naqueles três pilares que há pouco referi, são muito diversas. Uma simplificação do processo de atribuição de vistos, de maneira a que o período de tempo que se aguarda seja bastante diminuído; a desburocratização da relação com o Estado trabalhando em áreas como a contratação pública; um estímulo a que investidores institucionais e fundos de pensões privados possam aplicar os seus fundos em capital de risco e em startups, de maneira a retermos as startups bem sucedidas em Portugal e não termos uma saída do país para irem à procura de investimento nos Estados Unidos. São alguns exemplos de medidas que estão no pipeline e que podem vir a ser discutidas brevemente.

"Existem incentivos" para que empresas portuguesas incorporem inteligência artificial.
António Dias Martins

“Não estou especialmente preocupado com o número de unicórnios que existem em Portugal”

Mais cedo, mencionou que existem mais startups em Portugal. Mas o estudo Startup & Entrepreneurial Ecosystem Report de 2024 também aponta que existem menos unicórnios. Porque é que se verifica esta tendência, em que existem mais empresas, mas que não conseguem escalar?
É interessante a pergunta. Começo por abordar o tema numa perspetiva mais europeia. Há um indicador que diz que o número de unicórnios comparado com o investimento de capital de risco feito em startups na Europa é idêntico ao dos Estados Unidos. Na Europa há tanta capacidade como nos Estados Unidos de converter grandes scaleups em unicórnios com este investimento. Existe indiscutivelmente essa capacidade de talento, de empreendedorismo, de iniciativa na Europa — e em Portugal ainda mais. O que de facto falta na Europa e também em Portugal é a capacidade de acorrer a grandes rondas de financiamento por parte dos fundos de capital de risco. Porque as startups bem-sucedidas precisam para serem globais de financiamento de 20 milhões de euros por ronda, 50 milhões de euros, algumas 100 milhões de euros. E de facto isso na Europa ainda não é tão fácil de encontrar. E invariavelmente têm de ir para os Estados Unidos para angariar esse capital. Os unicórnios de ADN português tiveram uma baixa, que foi a Farfetch, e por isso é que houve essa redução: passámos de sete para seis. Mas, ainda comparamos muito bem com os outros países da Europa. Portugal, em termos proporcionais, pode dizer-se que é um país de grandes empreendedores e de grande talento. O que nos pode faltar é volume, é capacidade de atrair e de reter estas startups bem-sucedidas. Eu acho que elas naturalmente vão para o estrangeiro, tal como estão aqui connosco nestas feiras internacionais para procurar mercado, para procurar clientes. Isso são as boas razões para irem para o estrangeiro. Quando vão para procurar capital ou um ambiente de regulamentação mais fácil ou de menos burocracia, são as más razões. O que nós estamos a tentar fazer é que se mantenha esta apetência pelo internacional pelas boas razões, que [as startups] venham à procura de negócio, de clientes, e que continuem a olhar para Portugal como um ótimo país para desenvolverem as suas atividades, para recrutarem os seus talentos e terem os seus colaboradores. Quanto ao ser unicórnio ou não… ser unicórnio é sempre uma distinção interessante e valiosa […]  mas há excelentes scaleups que têm uma boa dimensão e que não são unicórnios, mas que contribuem muito para a nossa economia. Portanto, não estou especialmente preocupado com o número de unicórnios que existem em Portugal.

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Portugal perdeu a Farfetch, mas não ganhou nenhum unicórnio.
Certo. Mas, se calhar, estamos a seguir uma tendência a nível internacional onde estes últimos anos, desde 2021, são anos onde há menos surgimento de novos unicórnios. Porque as rondas de financiamento também têm sido menores e há menos oportunidades para suportar avaliações superiores a mil milhões de dólares por cada ronda. É uma tendência, penso eu, internacional e nós não fugimos a isso. É relevante, é importante, devem ser comunicados, mas o empreendedorismo não se esgota aí e há muito boas startups não unicórnios que estão a crescer e que estão a fazer muito pela economia e devem ser muito valorizadas.

"Há muito boas startups não unicórnios que estão a crescer e que estão a fazer muito pela economia."
António Dias Martins

Mencionando agora outro estudo, o relatório anual Startup Nations Standard, que foi apresentado no final de fevereiro e que é referente a 2024. Portugal registou melhorias nas condições para startups. Mas também foi revelado que era mais caro e moroso criar uma startup em território nacional do que no resto da Europa. Porque é que é assim e o que é preciso mudar?
Esse é um estudo muito relevante, desenvolvido pela ESNA, Europe Startup Nations Alliance, da qual a Startup Portugal é membro fundador. E é muito importante, de facto, compararmos entre países europeus as práticas que temos nesta área do empreendedorismo. Portugal sai muito bem na fotografia, com um grau de implementação dos standards que foram definidos pela União Europeia de 70% e é uma evolução importante face ao ano passado. Em algumas áreas, que estão identificadas, ainda estamos aquém. [São] excelentes pontos para desenvolvermos novas medidas e para propormos na Estratégia Nacional para o Empreendedorismo novas iniciativas para melhorarmos o desempenho. A referida é uma muito concreta e temos de melhorar. Não é razoável que em Portugal ainda haja custos, ligados à burocracia, mas também de taxas, administrativos e fiscais, regulatórias e de registo, que comparem mal com outros países na Europa ligados à criação não só de startups, mas de qualquer empresa. Vamos trabalhar no sentido de alterar essa situação e sermos mais competitivos nessa matéria.

Mas que medidas concretas é que podem ser implementadas para alterar este indicador?
Com o Simplex, o tempo de criação de uma empresa em Portugal já é relativamente curto. Depois, há um conjunto de passos a seguir, abertura de conta, processos mais ligados à constituição do capital social, que são mais demorados. Temos que trabalhar nos passos subsequentes ao registo de criação de uma empresa. Essa é uma área onde podemos melhorar e encurtar o tempo. E isso temos que trabalhar com o setor financeiro, designadamente com entidades de regulação, Banco de Portugal e com bancos, nomeadamente bancos públicos, para assegurar níveis de serviço muito controlados e muito acompanhados para que não haja semanas de espera até termos a empresa constituída do ponto de vista financeiro e do seu capital social realizado, subscrito e depositado. Outra vertente são os custos associados a todo o processo. Baixar esses custos é uma medida concreta. Em vez de termos taxas de centenas de euros, passarmos para taxas e valores mais simbólicos para a constituição de uma empresa. É uma medida que faz todo o sentido implementar, até porque temos a referência dos outros países na Europa.

Parece-lhe possível baixar esses custos?
É uma medida possível. Depende de uma decisão, de uma alteração na regulação, mas que é possível propor e é possível implementar, sem dúvida.

epa10285890 The CEO of Startup Portugal, Antonio Dias Martins, attends a press conference at Web Summit, Parque das Nacoes, Lisbon, Portugal, 04 November 2022. The Web Summit is considered the largest event of startups and technological entrepreneurship in the world, and takes place from 01 to 04 November in Lisbon.  EPA/JOSE SENA GOULAO

O diretor executivo da Startup Portugal em conferência de imprensa na edição de 2022 da Web Summit

JOSE SENA GOULAO/EPA

Investidores “muito dificilmente” vão apostar em empresas que não usem (ou planeiem usar) IA

A inteligência artificial está um pouco por todo o lado na Mobile World Congress, conferência em que se integra a 4YFN. No ano passado, em entrevista ao jornal Eco, disse que a IA “já não é uma opção” e defendeu que todas as startups têm de passar a utilizar esta tecnologia. Continua a pensar assim ou pensa que pode estar a criar-se uma bolha?
Não, de todo. Continuo a pensar assim, cada vez mais. Eu acho que está provado à exaustão que a inteligência artificial é um requisito obrigatório. Nem se pode chamar a inteligência artificial de uma área de atividade ou um setor vertical. É absolutamente transversal e é comum a todos os setores e a todos os tipos de startups que existem. Acho que neste momento os investidores de capital de risco, quando procuram startups, além das tradicionais perguntas sobre a equipa, modelo de negócio e proposta de valor, a utilização da inteligência artificial é um requisito. Muito dificilmente irão investir em empresas que não estejam a utilizar ou a planear utilizar a inteligência artificial no seu modelo de negócio. Nós temos uma startup na delegação que se chama GetVocal AI, que utiliza massivamente a inteligência artificial aplicada em contextos de comunicação com clientes em serviços empresariais ou institucionais ou de instituições públicas que lida com clientes individuais e que fá-lo de uma forma absolutamente impressionante. Uma proximidade com o tipo de linguagem e de abordagem, com a facilidade e a rapidez de resposta, reação e comunicação que é muito difícil de distinguir de um humano. É uma prova evidente de que todas estas interações que possam ser mais repetitivas, que possam seguir informação já pré-existente e consultável e disponível e pública, que possam seguir guiões ou procedimentos facilmente tratáveis do ponto de vista de dados, claramente vão passar de interações humanas para interações com softwares e plataformas com inteligência artificial.

Mas existem incentivos em Portugal para que as empresas que ainda não incorporaram inteligência artificial o possam fazer?
Sim, existem incentivos. Não só os vouchers para startups que a Startup Portugal está a entregar em conjunto com o IAPMEI, como outros programas ligados à ANI e que são aplicáveis na evolução para a inteligência artificial. Por outro lado, o setor privado já tem uma oferta muito grande nesta área e já existem muitas soluções que as empresas privadas oferecem para ajudar outras empresas a fazerem essa evolução para utilizarem a inteligência artificial nos seus processos. Eu penso que é algo que, dada a urgência, a importância e a rapidez com que as coisas estão a evoluir, não só do lado público mas também do lado privado já está a ter uma resposta grande.

A inteligência artificial “em todo o lado”. E se a Europa já tiver uma alternativa para competir com OpenAI e DeepSeek?

O Observador viajou para Barcelona a convite da Startup Portugal

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