Tudo em Todo o Lado ao Mesmo Tempo. Em semana de Óscares, com a coroação de Anora, o nome do filme que dominou a cerimónia de 2023 pode ser utilizado para descrever a presença de inteligência artificial na Mobile World Congress (MWC), que decorre em Barcelona. De vídeos publicitários a dançarinas de música K-pop que se multiplicam num ecrã gigante, o foco nessa tecnologia é transversal a todos os pavilhões da cimeira.
No último pavilhão, o oitavo, um simulador que imita um carro de Fórmula 1 gera curiosidade e leva os fãs da modalidade a fazerem fila para o testar. A proprietária, a norte-americana Introl, destaca-se das outras empresas, contudo o carro nada tem que ver com a sua área de negócio. Os semicondutores chamados GPU (Unidades de Processamento Gráfico), que estão na força matriz da inteligência artificial moderna, são o foco da empresa, que se descreve como “líder em serviços de data center“.
Mas existe um propósito para a presença do simulador em Barcelona. “As nossas implementações [de clusters de GPU] são sempre tão rápidas quanto possível. Conseguimos ser rápidos, precisos e exatos. E relacionamos isso com um carro de Fórmula 1″, explica Marco Antonio Salazar, um dos responsáveis da empresa, ao Observador. Ou seja, para apresentar o negócio a um público mais amplo, a Introl decidiu comparar-se a uma modalidade “mundialmente famosa” — e em que a precisão e a rapidez também são valorizadas.
A Introl revela que está, neste momento, a “chegar à Europa”, um mercado que, como tantos outros aos dias de hoje, tem vindo a investir em inteligência artificial para tentar ser competitivo e não ficar atrás do líder, os Estados Unidos, e da China, que no início do ano abalou a indústria com a DeepSeek.
E se a União Europeia já tiver uma empresa para competir com a OpenAI e a DeepSeek?
A meados de fevereiro, Paris organizou uma cimeira de inteligência artificial. Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, marcou presença para anunciar a mobilização de 200 mil milhões de euros para a área, reconhecendo ouvir “com frequência” que “a Europa está atrasada na corrida” mas salientando que a liderança “ainda está em aberto”.
Semanas depois, a partir de Lisboa, seria a vez de Emmanuel Macron, Presidente francês, destacar a necessidade de a União Europeia ser competitiva face a outras potências e mostrar esperança na criação de uma inteligência artificial que seja “nativamente europeia”. Os empresários franceses presentes na MWC aparentam concordar com o seu líder e mostram-se confiantes de que a UE conseguirá, no futuro, ter uma empresa capaz de fazer frente à OpenAI e à DeepSeek.
A Muraline, que desenvolve soluções integradas e personalizadas com base em inteligência artificial para “otimizar a gestão de operações” em áreas como telecomunicações ou energia, nasceu há cerca de cinco anos. Nessa altura, nota Rémi Perthuisot, “Emmanuel Macron já era Presidente de França” e a estratégia do país em termos tecnológicos já passava por mostrar que tem “competências matemáticas que podem ser utilizadas para uma abordagem muito específica”.
Questionado sobre se a União Europeia tem capacidade para criar uma tecnológica para competir com gigantes como a OpenAI, o presidente da Muraline não tem dúvidas: “Claro, claro. Acho que o que falta para criar uma grande empresa na Europa [em matéria de IA] é haver dinheiro para reter o melhor talento. Para fazer com que os melhores profissionais não vão para os Estados Unidos ou trabalhem para empresas norte-americanas.”
▲ A inteligência artificial está presente em todos os pavilhões da MWC
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No mesmo espaço que Rémi Perthuisot, numa espécie de ‘ilha’ totalmente dedicada a empresas francesas, está Gautier Escalettes, gestor da Kapptivate, que há 10 anos se dedica a testar e monitorizar serviços de empresas (“seja um website, uma aplicação móvel ou uma rede móvel”). Defendendo que o mundo ainda está “no início da Era da inteligência artificial”, que está “a evoluir e a mudar rapidamente”, o empresário defende que “há vários projetos em curso na UE que podem vir a ser comparados à OpenAI no futuro”.
Quando fala com o Observador, Gautier Escalettes tem em mente uma empresa em concreto: a Mistral, startup francesa que foi fundada em 2023 por um trio de engenheiros que passaram pela investigação de IA da Meta e pela DeepMind da Google; e que tem um chatbot chamado Le Chat (um nome que traduzido à letra para português significa “gato”). Reconhecendo que a Mistral tem “um modelo muito mais pequeno” do que a OpenAI, o gestor diz que não faltam “investimento ou capacidade para escalar” às empresas europeias, mas sim “contactos”. “A Mistral é uma empresa que está a fazer muito, mas que, por enquanto, está sozinha. Por outro lado, a OpenAI está a associar-se com a Microsoft”, acrescenta, notando que a IA está “em todo o lado” na MWC.
A possibilidade de a Mistral ser a solução europeia para competir com a OpenAI e a DeepSeek, ao invés de ser necessário criar uma nova empresa, é consensual entre os empresários ouvidos pelo Observador. Aliás, são os próprios a mencioná-la. Luc Jacobs, CEO da empresa belga Nixxis (que utiliza inteligência artificial, tendo, por exemplo, um assistente de conversação, e que diz estar “na vanguarda da gestão de interação com clientes e da tecnologia de telecomunicações”), acredita que é uma questão de tempo até que a Mistral possa competir com gigantes tecnológicas. Mas não fica por aí e fala em “muitas outras” empresas, ainda que sem avançar com nomes, que podem lá chegar no futuro.
Além disso, Luc Jacobs defende que as empresas de inteligência artificial devem desenvolver modelos de código aberto (open source), o que na prática significa que os programadores têm a capacidade de os inspecionar e melhorar, que é algo que a OpenAI não faz atualmente.
Horas mais tarde, quando já procurava ouvir startups dos EUA, o Observador encontra Naama BAK, francês que é CEO da norte-americana Understand Tech, e que também fala sobre a Mistral. “Acho que a Mistral é tão boa como a OpenAI”, defende, salientando que “o investimento e a qualidade” estão presentes na firma sediada em França.
Acho que ainda há espaço para outros campeões europeus [em IA]. Não podes ter só um e acreditar que vais ter sucesso. É necessário ter vários para existir flexibilidade, mas a Mistral é um bom exemplo de que podemos construir aqui na Europa uma boa alternativa aos EUA”, diz o CEO da Understand Tech, que tem uma plataforma que permite a empresas “de todas as dimensões” criarem assistentes de IA.
▲ A Mobile World Congress tem oito pavilhões
Flickr/MWC Barcelona
Tecnológicas norte-americanas dizem não ver alterações com administração Trump
Apesar de bem representados em Barcelona em termos de grandes players da indústria, como a Meta, a Salesforce ou a Kyndryl, os Estados Unidos têm menos startups (do que outros países) que atuam na área da inteligência artificial a marcar presença na MWC. Das que estão presentes, várias, como é o caso da Understand Tech, têm fundadores europeus. O mesmo acontece com a Twintual que, apesar de ser uma empresa norte-americana, foi criada por espanhóis e franceses.
Tal como os compatriotas, Mathieu Bertrandy, francês que é chief operating officer e um dos cofundadores da startup que criou com recurso à IA um gémeo virtual com capacidade para responder a mensagens e emails, destaca a Mistral como a solução europeia para alcançar a liderança em inteligência artificial. “À escala francesa, é mais forte do que a OpenAI. Todas as multinacionais de França trabalham com a Mistral. Não trabalham com a OpenAI. Nos EUA, nem todas as multinacionais trabalham com a OpenAI ou com um único servidor. França conseguiu-o com um só player. E este tipo de sinergias é realmente específico da Europa”, descreve, argumentando que o mercado norte-americano “é mais livre” e que na UE “tudo é mais pequeno, mais regional, mas com um nível de presença e de profundidade de alguns atores tecnológicos que é realmente único”.
Em declarações ao Observador, Mathieu Bertrandy revela as “várias razões” que o levaram, juntamente com os outros fundadores, a tomar a decisão de criar a Twintual nos Estados Unidos e de ainda não disponibilizar o produto na União Europeia. Desde logo, destaca o “ambiente de capital de risco”: “É mais fácil angariar fundos e de montantes mais elevados [nos EUA]”. Depois, fala de “razões legais”. “Há muita papelada para tratar, muitos programas de compliance que têm de estar implementados desde o primeiro dia. É mais fácil para nós começar a desenvolver o produto nos EUA e depois ajustá-lo e trazê-lo para a UE”, afirma o empresário francês, que assegura que a decisão de começar no mercado norte-americano foi uma mera estratégia de negócio (e que não reflete necessariamente as suas crenças pessoais).
Quanto à nova administração norte-americana, que é liderada por Donald Trump e que aparenta estar a tentar deixar uma marca na inteligência artificial, desde apoiar um projeto de até 500 mil milhões de dólares vindos do setor privado a revogar uma ordem executiva de Biden para uma maior regulação da indústria, o empresário francês diz que não existe “qualquer limitação”. Desta forma, Bertrandy explica que não vê “qualquer problema” relacionado com a mudança de governo, uma vez que “as promessas de impor tarifas ou limites à exportação ou importação de hardware” não afetam a Twintual. “Somos uma aplicação completamente móvel, por isso tudo o que fazemos é digital e pode ser enviado de um país para outro sem qualquer problema.”
A opinião é seguida pela Introl, outra das empresas norte-americanas em Barcelona, que opta por destacar que o setor da inteligência artificial está “a crescer muito”, que os “data centers vieram para ficar” e que “não tem existido nenhuma restrição” à sua atividade. Também a Omniscope, que atua na área da saúde e que tem como empresa-mãe uma firma norte-americana, diz que não existem alterações com a liderança de Donald Trump. Nina Senna, uma das responsáveis pela área científica, afirma que o regulador, a Food and Drug Administration (FDA), é que “já emitiu um alerta de que será necessária uma ética mais forte”. “Ainda assim, não nos afeta muito porque não temos dados de pacientes. É tudo anónimo e feito ao abrigo do Regulamento Geral da Proteção de Dados”, garante.
De seguida, em conversa com o Observador, a jovem defende que a nova presidência norte-americana “aumentou a aposta em inteligência artificial” e, numa outra vertente, alerta que as tarifas anunciadas por Donald Trump (de 25% no caso dos produtos da União Europeia) podem dificultar a entrada de empresas nos EUA. “Trump está com uma posição muito americana para a América, de americanos para americanos, porém sou tentada a pensar que ele não vai conseguir fazer isso”, diz Nina Senna, a partir de um expositor do Barcelona Innovation Hub, que é parceiro da Omniscope e que foi criado pelo FC Barcelona para funcionar como um centro de investigação focado na criação de novos produtos que possam beneficiar os atletas, não só das equipas masculina e feminina de futebol como também das modalidades.
Se por um lado acredita que ainda é “muito cedo” para determinar o impacto das medidas anunciadas pelo Presidente norte-americano, por outro Nina Senna admite que “há uma capacidade de piorar a infiltração de empresas europeias pequenas na América”. Porém, acrescenta, pode depender “do investimento”. “Acho que se os investidores americanos ainda estiverem abertos a investir, a abrir os fundos para os europeus, não existirá uma grande barreira [à entrada]”, defendeu a responsável da Omniscope, startup que tem uma aplicação de IA que condensa informações para construir um banco de dados imunológicos. Segundo a descrição apresentada na MWC, gera “perceções imunológicas de alta resolução numa escala sem precedentes, capacitando cientistas e profissionais de saúde a descobrir padrões complexos e a prever respostas imunológicas com precisão”.
O Observador está em Barcelona a convite da Startup Portugal