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Surdos nos hospitais. A saúde não tem mãos para os ouvir

Surdos nos hospitais. A saúde não tem mãos para os ouvir

Surdos nos hospitais. Como é estar doente e não perceber os médicos /premium

Ter uma dor, estar à frente do médico e não conseguir ouvi-lo. O Orçamento de 2019 previa uma verba para a contratação de 25 intérpretes de língua gestual. A maioria dos hospitais não a usou.

[Veja aqui a tradução da reportagem em língua gestual]

Cláudia arrasta as pernas, como as palavras. A distância entre o sofá e a porta que dá para o pequeno pátio da casa em Leça da Palmeira aumentou nos últimos anos, sem que lhe fossem acrescentados metros. Quando entramos, um cheiro a casa fechada. São as janelas que não abrem, os vizinhos que não falam. A televisão está ligada num programa de day time, com o volume baixo, o único som que interrompe o silêncio da casa.

Ao mesmo tempo que desvia o olhar da intérprete de Língua Gestual Portuguesa da RTP, Cláudia Cruz deixa que as palavras lhe saiam dos dedos para contar como correu a última visita que fez ao hospital.

Cláudia tem quase sempre a televisão na estação pública, por ser a que oferece mais programação com tradução de Língua Gestual Portuguesa.

Joana Ascensão/OBSERVADOR

Foi sozinha e, por isso, apressou-se a mostrar o cartão à entrada, para não ter de explicar com mímica que era um exame a esperá-la. “Avisei a administrativa que, por ser surda, não ia ouvir, caso ela me chamasse no altifalante”. A enfermeira, já sua conhecida, acompanhou-a. “Pôs-me um catéter, disse que eu tinha de ficar ali três horas, mas entretanto percebi que me queria dizer mais qualquer coisa e não sabia como. Foi aí que tentei fazer vídeochamada com a Amélia”.

Amélia Amil é quem, agora, na sala de estar da casa, transforma em palavras audíveis o que Cláudia vai dizendo com as mãos. Mas, no dia do tal exame, a intérprete de língua gestual, habituada a ajudar a surda profunda, em regime de voluntariado, não estava disponível e não atendeu.

surdo 

Ilustração: Teresa Dias Costa | Animação: Kimmy Simões

“Não percebia nada do que o médico dizia”. Por muito que o médico escrevesse, Cláudia, como grande parte dos surdos, não domina bem a língua portuguesa. “Só percebi que me ia dar uma injeção e que não podia ter mais filhos. Não percebia muito bem o que estava ali a fazer”.

No Hospital de Matosinhos, como em todos os hospitais públicos em Portugal, não há profissionais contratados para as funções de intérprete de Língua Gestual Portuguesa. Para uma simples consulta, são vários os entraves que os surdos têm por não poderem ouvir.

[No Hospital de São João, no Porto, onde até nem existe chamada por altifalante, são estas as indicações sonoras que um doente tem de ouvir para chegar a uma consulta de cardiologia]

O governo disponibilizou dinheiro, mas os hospitais não o usaram para contratar

No final de novembro de 2018, foi aprovada, com os votos favoráveis do PS, BE e PCP e a abstenção do PSD e CDS, uma proposta do PAN para o Orçamento do Estado de 2019 que previa a contratação de 25 intérpretes de Língua Gestual Portuguesa para o Serviço Nacional de Saúde. As contratações passaram a estar previstas no artigo 51.º do Orçamento de Estado, como confirmou a Administração Central do Sistema de Saúde ao Observador, mas dependiam da ação de cada entidade hospitalar, “em função das suas necessidades e especificidades”.

Das cinco Administrações Regionais de Saúde, quatro confirmaram ao Observador que não foram contratados quaisquer intérpretes de língua gestual nos hospitais públicos durante este ano. A única excepção poderá ser a do Algarve, que não respondeu às perguntas sobre se o fez.

Não é que não façam falta para doentes como Cláudia Cruz, surda profunda, doente com esclerose múltipla.

Com 45 anos, partilha casa com o companheiro, a filha bebé de um ano e meio e, como o dinheiro é pouco, também Zé, um amigo. Quando chegámos, em silêncio, Zé esforçou-se por explicar que não era por indelicadeza que tinha de sair de casa, mas porque tinha de arranjar alguém que soubesse ligar uma lâmpada vermelha à campainha. Já por duas vezes, Cláudia não ouviu quando os bombeiros a vieram buscar a casa para mais uma ida ao hospital.

Desde que Cláudia descobriu ser doente crónica que as visitas ao Hospital de Matosinhos, como as dificuldades de comunicação, são regulares. “Pelo menos uma vez, já me aconteceu uma médica não querer falar, não querer fazer alguns gestos. Escreveu rapidamente num papel e mandou-me embora. Fiquei sem perceber. Foi como que se me despachasse”. Não dominando a leitura escrita, a alternativa foi pedir ajuda a uma amiga, também ela surda.

A lâmpada vermelha, que liga à campainha, já está lá em casa. Mas ainda não arranjaram quem a consiga pôr a funcionar.

Joana Ascensão/OBSERVADOR

Em outubro, a autarquia disponibilizou a sua intérprete de língua gestual para acompanhar a mulher surda, de 45 anos, sempre que necessário. Por isso, na primeira consulta de fisioterapia, só terá de se preocupar em fazer as pernas, reflexo da deterioração dos nervos, típica da esclerose múltipla, responderem às vontades.

hospital

Ilustração: Teresa Dias Costa | Animação: Kimmy Simões

Amélia Amil diz ser um caso raro, o da Câmara de Matosinhos, mas que lhe agrada. “Esse modelo só tem um problema: se houver três necessidades ao mesmo tempo, alguém vai ter de priorizar e pode fazê-lo mal”.

Foi a primeira intérprete de língua gestual do norte do país, como gosta de sublinhar, depois de ter crescido como criança CODA — ouvinte, mas filha de pais surdos. Começou por aprender língua gestual, antes mesmo da língua portuguesa. Aos 12 anos já fazia traduções no tribunal e, talvez por isso, hoje faça sempre gestos, mesmo nas alturas em que pode abdicar deles.

Como praticamente todos os profissionais da área, Amélia trabalha como freelancer. Faz tribunais, onde é obrigatório ter intérpretes a acompanhar julgamentos com surdos, tem uma colaboração estável com o Porto Canal, mas também aceita fazer eventos pontuais, como concertos de música, e voluntariado junto de surdos que a abordam.

Há outros como ela. Na história de Ana Bela Baltazar, não foi de nascença, mas por curiosidade que um dia bateu à porta da Associação de Surdos do Porto. “Foi até hoje”. Começou a aprender Língua Gestual Portuguesa mesmo antes de os cursos superiores serem oficializados. Hoje tem não só esse como o mestrado integrado em Psicologia Clínica, pela lacuna que sabia existir nos cuidados de saúde mental em pessoas surdas.

Ana Bela Baltazar é intérprete de Língua Gestual Portuguesa na RTP e criadora do projeto "Hands to Discover", de turismo adaptado a pessoas surdas.

Joana Ascensão/OBSERVADOR

Apesar de ser intérprete de língua gestual na RTP, confessa serem diários os pedidos de ajuda por parte da comunidade, em muitos casos por motivos de saúde.

“Em tempos acompanhei uma senhora com cancro na mama”, começa por contar. E suspira, como que a adivinhar uma história marcante. “A senhora foi acompanhada primeiro por uma vizinha, que umas vezes ia, outras vezes não ia. Quando não ia a vizinha, ia a filha de 12 anos”. Foi uma enfermeira, “alguém consciente”, a contactar a Associação de Surdos do Porto por pensar: “Não, nós não vamos pôr a filha de 12 anos a traduzir para a mãe o que se está aqui a passar…”.

Em regime de voluntariado, foi a Ana Bela que coube a tarefa de dar a notícia à doente surda, que, apesar de “estar já num estado avançado da doença”, não se tinha apercebido à data da sua gravidade. Falou-lhe em quimioterapia, em radioterapia, na inevitabilidade de o cabelo começar a cair. “As lágrimas caíram-lhe logo. O chão dela desabou ali”.

“O que é que é uma pessoa sem comunicar? É uma ilha”
Ana Bela Baltazar, intérprete de Língua Gestual Portuguesa

Apesar dos tratamentos, a doente acabou por morrer. “É incrível pensar que aquela pessoa andou meses a caminhar para o hospital sempre sem saber o que tinha. Não tinha direito à informação?”.

Amélia, sendo já uma habitué nos consultórios médicos, ensina língua gestual por lá a quem tiver vontade de aprender. Também “nunca tinha acompanhado ninguém com uma doença dessas”, até que um dia, na oncologia, uma frase lhe ficou para sempre na memória. A médica, desprovida de amarras comunicativas, “pediu-me para dizer à senhora que, no dia em que ela fosse operada, tinha de pensar nas coisas mais bonitas da vida, porque isso também ajuda a curar”. Faz uma pausa e diz, com um sorriso. “Onde é que isto seria possível sem um intérprete?”.

A cirurgia correu bem, a doente “tirou o peito e está bem”. Mas nem todas as suas histórias acabaram com finais felizes.

Da necessidade de explorar uma fórmula, como nas emergências

Portugal é um país em que se estima “existirem pelo menos cerca de 85 mil pessoas surdas”, disse a Secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência, Ana Sofia Antunes, por altura da inauguração da aplicação MAI 112, em julho, que confere aos surdos a possibilidade de fazerem uma videochamada para o 112, quando têm uma emergência. “Trata-se de uma conferência a três”, descrevia a governante, entre o surdo, o intérprete e um assistente do Centro de Orientação de Doentes Urgentes.

Em cinco meses, durante a fase piloto que terminou a 4 de dezembro, esta aplicação registou apenas 237 interações. O Ministério da Administração Interna garante ao Observador, ainda assim, que nas “próximas semanas” irá avançar para uma “segunda fase, com a disponibilização da aplicação MAI 112 na Google Play Store e na Apple Store, aumentando o alcance da mesma”.

“Claro que é uma mais-valia, é um primeiro passo”, mas, pelo que Ana Bela conhece do Porto, os surdos não recorrem muito à aplicação. Amélia acha que não chega, porque “estes utentes não vão aos hospitais apenas em situações emergentes”.

Apesar de o serviço disponibilizar também mensagens de texto, assim como é possível na linha de Saúde 24, a língua portuguesa não está no domínio de grande parte dos surdos. Amélia diz mesmo que conhece no norte apenas duas pessoas surdas — “mas que sejam seis em todo o país” — que entendem bem o texto escrito, “que são capazes de ler um livro de José Rodrigues dos Santos, por exemplo”. “Isso é muito raro”. A língua portuguesa é, para os surdos, o mesmo que uma língua estrangeira é para um ouvinte.

comunicação

Ilustração: Teresa Dias Costa | Animação: Kimmy Simões

Ana Barbosa, ou Anita, é surda profunda de nascença. Apesar de ter estudado numa escola preparada para alunos surdos, no Porto, e de ser licenciada em Educação Social, também não domina o português como domina a língua gestual, sua língua mãe.

Num café ao lado do mar, em Vila Nova de Gaia, onde vive e trabalha, conta com a destreza de trinta e três anos de língua gestual como foi quando consultou um médico sem intérprete.

“Não foi fácil”. Tentou fazer leitura labial ou levar familiares, mas quer entender tudo, diz ao Observador. “Às vezes o médico pode prescrever uma medicação e diz lá que são três vezes por dia. Eu chego a casa e pesquiso na internet. Não me sinto independente nem autónoma”.

Incomoda-a levar alguém da família atrás, para as consultas. Por isso, sempre que tem oportunidade de escolha, é consultada no Hospital de Gaia e Espinho, onde Andreia, a trabalhar como administrativa, também faz, desde 2012, trabalho de intérprete. E não recebe mais por isso.

É um dos “profissionais dotados de competências” que a Direção Regional da Saúde do Norte indicou ao Observador existirem na região. Caso repetente no Alentejo, onde o Hospital do Espírito Santo de Évora “tem na sua equipa uma profissional com o curso de Língua Gestual Portuguesa, contactada sempre que necessário”.

Um dia, Andreia cruzou-se, em trabalho, com um casal surdo com o qual teve dificuldades em comunicar. “A minha primeira reação foi falar mais alto”, descreve, ao mesmo tempo que lhe escapa um riso revelador de que, a esta distância, a situação lhe parece anedótica.

Interessou-se por saber como é que poderia comunicar com pessoas surdas. “Fui ter à Associação de Surdos do Porto, tirei os três níveis, apaixonei-me pela Língua Gestual Portuguesa e passei para a licenciatura”. Tentou candidatar-se a algumas escolas, mas “é muito difícil e a experiência também é pouca”. Então pensou: “Eu tenho experiência em meio hospitalar, não há intérpretes no hospital, os surdos precisam. Porque não?” Fez a proposta ao hospital e foi aceite.

Ana Bela chegou a falar desta dificuldade com uma enfermeira chefe de um hospital público. “Ela disse-me que também não entendia, porque quando chegam lá ucranianos, russos ou pessoas que falam línguas menos comuns, o hospital tem uma bolsa de intérpretes com números de telefone. Porque é que para os nossos, portugueses surdos, não existem intérpretes de língua gestual?”, questiona-se. “É uma resposta que não se admite como é que não existe”.

dor

Ilustração: Teresa Dias Costa | Animação: Kimmy Simões

Estamos melhor, mas ainda não saímos da base da pirâmide de que nos fala Amélia Amil. “Neste momento, o que está em cima da mesa é aquilo a que se chama Diversidade Funcional, em que vamos caminhando para não haver deficientes surdos, deficientes visuais, deficientes motores”. No futuro idílico da intérprete, as cidades terão de se adaptar a quem tem um problema num dedo, no nariz, não ouvir ou não andar. Mas “ainda estamos a resolver os problemas da base da pirâmide das necessidades”.

Enquanto isso, Amélia dá o corpo às balas: “Todos os dias, na cidade do Porto, não há milhares de pedidos. Não há”. Como é “uma mulher também das economias”, enquanto “cidadã que paga os seus impostos” considera exagerado “contratarem para lá três intérpretes a tempo inteiro para quatro casos por dia”.

Como Ana Bela, defende uma bolsa de intérpretes, em que “o Ministério da Saúde teria de assumir os custos, como assume o Ministério da Justiça” no caso dos tribunais. “Se não estivesse um disponível, havia de estar outro”, antecipa Ana Bela. Mas seria “presencialmente” porque “a pessoa pode não ter um domínio assim tão bom da língua gestual e muitas vezes a situação é agravada pelo facto de estar doente.

Andreia Santos, a trabalhar desde 2004 como administrativa, desde 2012 que faz trabalho de intérprete no Hospital de Gaia e Espinho.

Joana Ascensão/OBSERVADOR

Também Andreia já pensou formar uma equipa para garantir o apoio na zona de Gaia, “não só nos hospitais como também nos centros de saúde”. Mas levanta o véu quanto à necessidade de formar também os profissionais de saúde. “É muito importante”, concorda Anita. “Nos hospitais, os médicos e os enfermeiros, mas também os administrativos deviam saber pelo menos o básico, para que o surdo pudesse confiar mais no que lhe estão a dizer”.

Ana Bela está desse lado da barricada, a formar os enfermeiros do futuro. Há nove anos que dá uma cadeira opcional na Escola Superior de Enfermagem do Porto. “A primeira pergunta da primeira aula é: se estivessem em frente a um surdo, como é que comunicariam?”. Os olhares de introspeção vagueiam na sala, como o silêncio. Nunca tinham parado para pensar nisso.

[A reportagem em língua gestual:]

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