Respira-se confiança na São Caetano — excessiva ou não, a noite eleitoral de 12 de outubro o dirá. Os sociais-democratas acreditam que sairão reforçados nas próximas autárquicas e vão fazendo contas à liderança da Associação Nacional de Municípios (ANMP). Não menos importante o partido liderado por Luís Montenegro tem a convicção de que vai conseguir tomar alguns dos concelhos mais importantes e segurar as autarquias que estavam a ser cobiças pelo PS. Mas os níveis de confiança nem sempre foram tão elevados: a determinada altura, chegou a temer-se, com alguma propriedade, que Lisboa caísse para os socialistas.
Aliás, foi com alívio que as prestações de Carlos Moedas nos debates foram recebidos pelo quartel-general do PSD. Depois do acidente com Elevador da Glória, no Governo e no PSD, muitos temeram que o presidente da Câmara Municipal de Lisboa entrasse numa espiral descendente e hipotecasse as hipóteses de manter a presidência da autarquia. De alguma forma, com a preciosa ajuda de Luís Montenegro e com os factos que entretanto foram tornados públicos, o social-democrata conseguiu superar a fase mais aguda da crise política e aguentar os primeiros embates com a oposição — as prestações menos conseguidas de Alexandra Leitão também ajudaram a reconfortar o PSD.
As sondagens mais e menos públicas que vão circulando entre as equipas de Carlos Moedas e Alexandra Leitão continuam a indicar que o social-democrata leva vantagem e vai-se instalando a ideia de que a vitória já não foge. “Está feito“, sintetiza ao Observador um elemento do partido. No momento mais quente do debate político, a própria campanha de Carlos Moedas sentiu no terreno a máquina da coligação a cerrar fileiras em torno do presidente da Câmara, o que era essencial para evitar potenciais surpresas — ninguém esquece que Moedas chegou ao poder depois de Fernando Medina ter perdido 26 mil votos face a 2017, mais do que aqueles que o social-democrata ganhou.
É sobretudo em sete autarquias — Lisboa, Porto, Aveiro, Braga, Gaia, Sintra e Faro — que se joga a próxima noite eleitoral. Os sociais-democratas acreditam convictamente que será possível fazer o pleno, o que deixaria o PS e José Luís Carneiro numa situação de grande fragilidade. É evidente que o contrário também é verdade: se Montenegro não conseguir segurar Aveiro e Braga e reconquistar o Porto, o que é neste momento um cenário bastante real, a noite será sempre agridoce.
Depois, existe outro cálculo que terá de ser feito na noite de 12 de outubro. E, nesse particular, o PSD está muito mais confiante. Neste momento, existe um diferencial de 40 câmaras entre sociais-democratas e socialistas. O PSD acredita que vai inverter essa diferença, juntar várias câmaras (de pequena e média dimensão) àquelas que já detém e assim garantir a liderança da Associação Nacional de Municípios. São essas contas que o partido vai fazendo a poucos dias do arranque do período oficial de campanha.
▲ Pedro Duarte era a grande aposta do PSD no Porto, mas tarda em superar Pizarro nas sondagens
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Porto, Braga e Aveiro: os grandes riscos
A corrida eleitoral à Câmara do Porto parece estar a representar um desafio maior para o PSD. Pedro Duarte, a grande aposta de Luís Montenegro nestas autárquicas, continua a ter dificuldades em superar Manuel Pizarro nas sondagens — ainda esta semana sairá um novo estudo de opinião a dar o socialista como favorito nas próximas autárquicas. Uma vitória do PS na cidade do Porto seria inevitavelmente um golpe duro para o partido, que tinha nesta corrida a oportunidade de recuperar a segunda cidade mais importante do país, e um balão de oxigénio para o centro-esquerda que não controla a autarquia há mais de 20 anos.
Apesar de tudo, no PSD, ninguém deita a toalha ao chão. Na semana passada, Luís Montenegro esteve no Porto, ao lado de Pedro Duarte, para sinalizar o empenho pessoal do primeiro-ministro nesta eleição. Os sociais-democratas agarram-se, sobretudo, a três grandes esperanças: o facto de existir comprovadamente uma maioria sociológica de direita na cidade (aos 12 anos de Rui Rio, seguiram-se 12 anos de Rui Moreira); ao facto de as sondagens falharem historicamente na cidade do Porto; e ainda à ideia de que existe uma dinâmica nacional que tem favorecido a marca “AD” e penalizado a marca “PS”, o que acabará por ajudar Pedro Duarte no dia das eleições.
Braga é outro caso complexo e com contornos semelhantes. O atual presidente, o social-democrata Ricardo Rio, controlava a Câmara há 12 anos, não ficou feliz com a escolha de João Rodrigues como candidato do PSD à sua sucessão — uma escolha diretamente influenciada por Hugo Soares, secretário-geral do partido, braço direito de Luís Montenegro e natural do concelho. João Rodrigues, vereador e agora candidato ficou associado à polémica Spinumviva, por ser filho do maior cliente da Spinumviva.
Para vencer as próximas autárquicas, João Rodrigues e o PSD têm de superar o socialista António Braga, um histórico da política bracarense, com a agravante de que existe uma forte concorrência à direita: Ricardo Silva, atual presidente da Junta de São Vítor; Rui Rocha, até há bem pouco tempo líder da Iniciativa Liberal; e Filipe Aguiar, atual presidente da concelhia do Chega/Braga e vice-presidente da distrital do partido.
Mas Braga é precisamente um dos laboratórios mais seguidos pelo PSD: nas últimas legislativas, e mesmo tendo ficado em terceiro lugar, o Chega foi de longe o partido que mais cresceu face às anteriores eleições. E fê-lo sobretudo à custa dos socialistas, que perderam quase seis mil votos em menos de um ano. É por este tipo de dinâmica que os sociais-democratas acreditam que, tal como em Braga, a maior vítima do Chega nas próximas eleições autárquicas será, ao contrário do que seria de esperar, o PS e não o PSD.
Tal como o Porto, também Aveiro escapa ao PS desde 2001. Os dois irmãos Souto — Luís (PSD) e Alberto (PS) — tentam suceder a Ribau Esteves, impedido de se recandidatar por limitação de mandatos, com duas nuances importantes: o socialista Alberto Souto já esteve à frente da Câmara de Aveiro; e Ribau Esteves, o principal ativo do PSD na cidade, não só preferia outro candidato (Rogério Carlos, seu ‘vice’), como tem estado particularmente discreto na campanha de Luís Souto — aliás, a máquina do PSD em Aveiro contestou aberta e ruidosamente a escolha do candidato.
Os sociais-democratas esperam, ainda assim, que Ribau Esteves — que mantém com Luís Montenegro uma relação de altos (foi um dos seus padrinhos políticos) e baixos (chegou a dizer que o atual primeiro-ministro “representa o pior do que o PSD tem”) — apareça agora na campanha ao lado de Luís Souto de forma a evitar uma derrota que se está a perspetivar no horizonte. O primeiro sinal foi dado: os dois estiveram juntos esta semana no encontro “Continuidade e Inovação”, realizado na sede de campanha de Souto.
A estas três autarquias há que juntar Espinho. Tratando-se de uma Câmara de menor dimensão, não deixa de ser a terra natal do primeiro-ministro. Mais a mais, a direção nacional recusou a candidatura de Ricardo Sousa, um velho rival interno de Montenegro, e impôs Jorge Ratola, ex-deputado, como candidato do partido. Ricardo Sousa tentou ainda impugnar as decisões tomadas pelo partido, recorrendo inclusive para o Tribunal Constitucional, mas sem sucesso.
Sintra e Gaia são oportunidades. Faro cada vez mais difícil
Com uma dinâmica diferente estão as corridas à Câmara Municipal de Sintra e, sobretudo, de Gaia. A Norte, Luís Filipe Menezes, nesta segunda aventura por uma autarquia de liderou durante 16 anos e com quatro maiorias absolutas, é dado como vencedor antecipado. Se o conseguir fazer, ajudaria o PSD a recuperar o terceiro município mais populoso do país precisamente 12 anos depois de o próprio Menezes se ter afastado por limitação de mandatos — sucedeu-lhe o socialista Eduardo Vítor Rodrigues, de saída por limitação de mandatos.
Em Sintra, a corrida será seguramente mais renhida. De acordo com a sondagens entretanto publicadas, e que estão alinhadas com as sondagens internas das candidaturas, o social-democrata Marco Almeida leva uma curta vantagem face a Ana Mendes Godinho (PS), que por sua vez está ligeiramente à frente da candidata do Chega, Rita Matias. A tendência, acredita-se no PSD, é que Marco Almeida consiga consolidar a vantagem nas semanas que faltam à até as eleições autárquicas. O segundo concelho mais populoso do país escapa aos sociais-democratas desde 2013.
Outra corrida que está a ser seguida com particular atenção é a de Faro. Mas, neste caso, os sociais-democratas estão conscientes de que será difícil a Cristóvão Norte (candidato a sucessor de Rogério Bacalhau, há 16 à frente da autarquia) superar a concorrência do socialista António Pina, um nome muito respeitado da região — era até aqui presidente da Câmara de Olhão.
Além disso, neste caso em concreto, o Chega terá definitivamente uma palavra a dizer: Pedro Pinto, líder parlamentar do partido, foi escolha forte e surge nas sondagens a morder os calcanhares aos socialistas; nas últimas eleições legislativas, o Chega venceu o distrito e ficou a menos de 300 votos de derrotar a coligação PSD/CDS no próprio concelho de Faro.