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Pescadores trabalham na Doca de pesca da Lota de Matosinhos, 15 de julho de 2025. JOSÉ COELHO/LUSA
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▲Desde 20 de janeiro que os pescadores estão impedidos ou limitados nas saídas para o mar.

JOSÉ COELHO/LUSA

▲Desde 20 de janeiro que os pescadores estão impedidos ou limitados nas saídas para o mar.

JOSÉ COELHO/LUSA

Tempestades fazem desaparecer pesca nacional. Peixe no mercado está mais caro e "vem de fora" ou da aquacultura

A vaga de tempestades das últimas semanas tem impedido os pescadores de lançar as redes no mar. Supermercados estão sem stock de peixe nacional, que é substituído por importações ou aquacultura.

Tempestade no mar, barcos em terra. Tem sido assim, pelo menos, nas últimas três semanas. Os temporais que têm varrido o continente desde o final de janeiro estão já a ter impacto na alimentação dos portugueses. Com várias barras marítimas fechadas ou condicionadas, as embarcações de pesca não podem sair para o mar. Nos mercados e supermercados de todo o país não falta peixe. Mas ou é de aquacultura ou foi pescado noutras águas. E é, por isso, mais caro. O setor fala em prejuízos “colossais” e diz que não há memória de um período tão longo de paragem.

Foi a 20 de janeiro, oito dias antes da depressão Kristin, que as embarcações saíram para o mar pela última vez, revela ao Observador Paulo Jorge Silva, presidente da Associação dos Armadores das Pescas Industriais (ADAPI). “Regra geral, os que estão em Aveiro, na Figueira da Foz, e mesmo os que estão em barras que não estiveram totalmente fechadas, não saíram porque o mau tempo era tanto…”.

As condições adversas afetam sobretudo as embarcações locais, por serem mais pequenas, mas, nas últimas semanas, também as costeiras, de maiores dimensões, ficaram encostadas. “Ou porque a barra estava mesmo fechada e a capitania daquele porto disse que era proibido sair ou, mesmo que não fosse proibido, o tempo era mau demais para navegar e lançar redes”, corrobora Luís Vicente, secretário-geral da mesma associação. Alguns, em zonas como Peniche e Nazaré, regressaram ao mar esta semana, apesar dos riscos. Esta quarta-feira ainda havia 12 barras fechadas, sobretudo nas zonas norte e centro, e uma condicionada, mas 34 estavam já abertas.

“O peixe fresco é, essencialmente, capturado pelas nossas embarcações aqui nas águas territoriais, com desembarque diário em lota. E as lotas estiveram praticamente sem funcionar durante três semanas. Só pontualmente funcionou a de Peniche. De resto, de norte a sul, com as barras fechadas, não houve atividade. Foram praticamente três semanas sem faturar”, resume Paulo Jorge Silva.

Os pescadores estão habituados a períodos de mau tempo todos os anos, constatam os responsáveis da associação dos armadores. Mas não têm memória de uma temporada tão difícil como o final de 2025 e o início de 2026. “Está a ser um período anormalmente longo de paragem. E é mais difícil para a pesca costeira, porque são embarcações maiores e raramente param. Não quer dizer que não tenham existido períodos comparáveis na pequena pesca, mas na costeira não me lembro de alguma vez termos visto um período de paragem consecutiva tão grande por causa do mau tempo”, vinca Luís Vicente.

Na pesca mais tradicional o sentimento é o mesmo. “Continua tudo parado”, diz Humberto Jorge, presidente da Associação das Organizações da Pesca (ANOP) do Cerco, um tipo de pesca local que utiliza redes para capturar peixe. “Não há memória nos anos mais recentes, neste século e no final do anterior, de uma sequência de temporais tão grande que obrigasse as embarcações a ficar em terra tanto tempo. Nem os mais antigos se lembram”.

Segundo Humberto Jorge, “grande parte da pesca tem sido fortemente atingida pelas intempéries, não só deste comboio de tempestades mas já desde o final de novembro. Há praticamente três meses que algumas embarcações estão altamente condicionadas na sua atividade, para algumas está completamente inviabilizada”. Pelas contas da ANOP Cerco, “a pesca costeira está com menos de 50% quer em volume de desembarques quer em volume de vendas” nas últimas semanas.

Há peixe, mas vem do norte de África. Preços sobem desde outubro

Com os armadores industriais em terra, fica em causa o abastecimento de todas as espécies que “os portugueses comem em fresco”, como carapaus, pescada, robalo, lulas, gambas ou lagostins. No caso da pesca de cerco, e não sendo época de apanhar sardinha, são também os carapaus, o biqueirão ou a cavala de águas nacionais que não estão a chegar à mesa dos portugueses. “O que não será afetado são espécies como o atum, o espadarte… não por os barcos estarem a trabalhar mas por terem ciclos de produção mais longos. Muitos saem para o Atlântico sul e não desembarcam todas as semanas”, explica Luís Vicente. Já o bacalhau não é afetado “porque a pesca tem ciclos de viagens de meses”. Já os preços, têm vindo a subir.

“O peixe nacional que há será mais caro, pela lei da oferta e da procura. Portugal importa muito do seu peixe, não é uma coisa que imediatamente se torne drástica, mas o efeito vai sentir-se. Ainda para mais quando Espanha, que seria a principal alternativa, está a ter mais ou menos o mesmo problema com o tempo. Quem estará a beneficiar serão os importadores ou quem tivesse peixe congelado”, aponta Luís Vicente.

Uma consulta ao observatório de preços agroalimentar, a ferramenta do Ministério da Agricultura que monitoriza a evolução dos preços de alguns bens alimentares essenciais, permite concluir que o peixe tem vindo a aumentar de forma constante desde outubro do ano passado. No entanto, o observatório ainda só tem dados até ao final de dezembro de 2025. Nesse período, entre o início de outubro e o final de dezembro, um quilo de peixe passou de um preço médio de 8,80 euros no consumidor para 10,48 euros por quilo, uma subida de 19%. Ao longo de todo o ano passado, como é possível ver no gráfico, os preços mantiveram-se mais ou menos estáveis, e até desceram em junho. Alargando o período da consulta até 2019, o máximo que o observatório de preços permite, conclui-se que o preço do peixe, que regista sempre picos anuais em dezembro, nunca esteve tão elevado como agora.

Quem vai a um mercado por estes dias não nota a falta de peixe. Na banca de Maria Madalena Sarmento no mercado 31 de janeiro, em Lisboa, a oferta vai do carapau de assar à garoupa. As vendas estão “fracas” e os preços notoriamente “mais altos”, diz a peixeira que há 47 anos vende peixe aos lisboetas. “Com o mau tempo as senhoras não saem de casa para vir comprar”, lamenta, além de que o tempo frio abre mais o apetite pela carne. “Os meses de janeiro e fevereiro são sempre mais fracos”.

Na banca do lado, Olinda Barreiros ouve e concorda. Nas incursões ao MARL (Mercado Abastecedor da Região de Lisboa), onde Olinda se abastece, à semelhança de praticamente todos os mercados tradicionais da região, tem notado que “há espécies que não têm aparecido muito, sobretudo os peixes pequeninos, como os carapaus, pescadinha, linguado”. Os barcos pequenos não saem, “aquela pesca de arte xávega não há”. “Temos outros peixes porque vêm de fora, senão não tínhamos”. Norte de África, Turquia e Canárias são por estes dias algumas das origens do pescado. “Peixe espada costumamos ter de Sesimbra, agora só temos da Madeira e muito pouco”. E, se vem de mais longe e em menos quantidade, o valor aumenta. “Nesta altura o que se vende mais é dourada e robalo porque é o que há e mais em conta”.

Trabalhador amanha o peixe nas instalações da empresa de transformação de pescado Fresk d’Gustinh, na cidade da Praia, ilha de Santiago, Cabo Verde, 03 de julho de 2023. empresa tem 36 trabalhadores, entre pescadores, pessoal de logística, de venda e de produção, que recebem o peixe fresquinho, vai passando de mão em mão até ser embalado, congelado e depois comercializado. (ACOMPANHA TEXTO DA LUSA DO DIA 17 DE JULHO DE 2023). ELTON MONTEIRO/LUSA

▲ Nos supermercados não há stock de peixe nacional.

ELTON MONTEIRO/LUSA

No MARL, a impressão dos operadores é de que as tempestades tiveram impacto “na apanha do pescado na costa portuguesa que tem venda de proximidade junto à lota”, reporta ao Observador, após uma visita ao mercado, João Tiago Carapau, diretor-geral corporativo da Sociedade Instaladora de Mercados Abastecedores (SIMAB), a empresa pública que gere os mercados abastecedores, entre eles o MARL. Para este mercado propriamente dito, o impacto não foi tão grande por estar “na dimensão do grande consumo, em que a pesca em mar alto português é substituída, nestes casos, por mais importações.”

“Os operadores trabalham com pescado português mas também internacional. Cada vez mais o pescado que consumimos vem dos grandes operadores mundiais, por exemplo espanhóis, que trabalham em Marrocos, na Mauritânia, em Portugal também. Mas face às condições que estamos a viver, também está a haver um acréscimo do pescado de aquacultura, que vem de destinos como a Turquia e a Grécia”, adianta João Tiago Carapau.

Para os operadores do MARL, o impacto do mau tempo acaba por ser “residual”, porque, “quando não há na lota em Portugal, aumentam a importação”. Segundo o responsável do SIMAB, é inegável o aumento dos preços, que se deve, neste caso específico, a uma “bifurcação” do grande consumo: o peixe de alto mar português ou é “exportado para destinos que pagam muito bem, através de Espanha, chegando a Itália ou França, ou sai diretamente para clientes de luxo ligados ao turismo”. Ao contrário do que acontece noutros países, acrescenta João Tiago Carapau, Portugal não tem uma plataforma que permita seguir o pescado da sua origem ao consumo final, pelo que não é possível obter dados mais concretos.

Nas bancas de peixe dos supermercados o panorama é semelhante ao que se passa nos mercados de proximidade. “Em relação ao peixe nacional estamos com rotura de stock. Não havendo lotas e barcos há uma rotura no peixe nacional, mas as bancas têm peixe. Não há escassez de peixe na banca, não há é produto nacional”, garante Gonçalo Lobo Xavier, diretor geral da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED), que representa os principais retalhistas em Portugal.

Tal como os mercados tradicionais, os supermercados têm socorrido a procura ou com peixe de outras origens, “nomeadamente do norte de África”, ou com espécies de aquacultura, em que há “muita produção em condições semelhantes às dos habitats naturais”. “Temos muitos retalhistas que têm aquacultura em ria, em condições muito próximas ao habitat natural. Há alternativas às quais iríamos sempre recorrer independentemente de haver pescado nacional”, explica.

De acordo com a APED, não é a compra de peixe de outros mares nem sequer a aquacultura que estão a encarecer o produto. “O que acontece é que o peixe, tal como a carne, têm estado em alta, com uma pressão inflacionista grande”. No final do ano passado, a APED já antecipava uma subida do preço do peixe na ordem dos 7% para 2026. “Quando voltar, o peixe nacional estará naturalmente mais caro mas não é pelo retalhista, é pela escassez no mercado e pelos custos associados à atividade”. O peixe português, resume Gonçalo Lobo Xavier, “é de ótima qualidade mas é mais caro. É um produto de excelência, e é uma pena não estarmos a oferecer ao consumidor um produto com a qualidade do peixe português. Mas ninguém vai deixar de comer peixe”.

“Esta tempestade é tão longa que para chegar à bonança vamos precisar de ajuda”

Para os pescadores e as empresas do setor, o impacto de três semanas em terra e alguns meses de atividade intermitente já se sente. “Obviamente que há prejuízos colossais”, diz Paulo Jorge Silva da ADAPI. “Estas semanas sem faturar foram muito dramáticas”. As empresas associadas da ADAPI estão vinculadas a um contrato coletivo de trabalho, que salvaguarda que, mesmo na ausência de rendimentos, tem de ser garantido aos trabalhadores um pagamento no valor do salário mínimo nacional. “É complicado. Não ter receitas e ter de garantir salários cria-nos problemas muito graves de tesouraria”, admite.

Já para a pequena pesca e a pesca artesanal está disponível um fundo de compensação salarial que pode ser acionado nos casos em que haja “interdição de pescar por razões de preservação ou gestão de recursos, motivos de saúde pública ou defesa do ambiente, com a duração mínima de 8 dias consecutivos”, ou “condições adversas que originem falta de segurança na barra ou no mar”. O apoio diário “é igual a 1/30 do valor da remuneração mínima mensal garantida aos trabalhadores” e o pagamento é limitado a um máximo de 60 dias por ano”, segundo a Direção Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos (DGRM), a quem deve ser dirigido o pedido de auxílio.

“No caso de mau tempo terá de se verificar o encerramento da barra, ou a existência de más condições atmosféricas que impeçam o exercício da pesca em segurança, durante pelo menos 3 dias consecutivos ou 7 dias interpolados, num período de 30 dias”, completa a DGRM.

Para fazer face às dificuldades, as associações apelam ao Governo por apoios. A APIC já fez uma exposição junto da tutela, o Ministério da Agricultura. “Dirigimos um pedido ao Governo notando que houve medidas de resposta aos danos em terra, mas no mar também houve prejuízos por ter parado a atividade”, revela Luís Vicente.

O ministro da Agricultura e Pescas, José Manuel Fernandes, durante uma visita à obra do Centro Alqueva, na Barragem de Alqueva, Moura, 13 de novembro de 2024. O Centro Alqueva é um edifício que irá albergar um centro de interpretação e o posto de observação e comando da barragem de Alqueva, estando previsto ser inaugurado em breve. NUNO VEIGA/LUSA

▲ Os pescadores apelam ao Ministério da Agricultura, tutelado por José Manuel Fernandes, por apoios.

Nuno Veiga/LUSA

Além disso, as empresas associadas da APIC enfrentam um “risco extra”, alerta. “Começámos a assistir a situações que se vão tornando perigosas. Os custos da pesca são fixos, o único que não é fixo é o dos combustíveis. Nestas três semanas, as empresas suportaram estes custos sem nenhuma receita. Nós somos o único setor da pesca em Portugal que garante que mesmo quando não se trabalha, as tripulações ganham o salário mínimo. Por outro lado, as tripulações estão habituadas a mais… e começam a sentir a pressão de ir para o mar, gerar receita. E eles começam a querer sair e começam a arriscar. Felizmente não aconteceu nada até agora. Mas quanto mais tempo durasse a paragem, maior seria o incentivo ao risco e poderíamos ter um problema sério. Alertámos logo para isso”. Segundo Luís Vicente, o secretário de Estado das Pescas e do Mar, Salvador Malheiro, “disse que tinha alguns planos e que poderiam dizer mais no futuro”.

“O secretário de Estado disse que já se usou a dotação financeira do fundo de compensação para apoiar diretamente empresas, por exemplo, numa das últimas crises de combustíveis. O fundo é gerido pelo Ministério da Agricultura e financiado pela pesca com a receita das multas e das infrações”, explica a APIC.

O Observador questionou o Ministério da Agricultura e do Mar sobre a possível atribuição de apoios aos pescadores, mas não obteve resposta até ao momento. Também foram pedidos dados ao Governo sobre o número de pescadores que já fizeram o pedido de acesso ao fundo de compensação salarial, igualmente sem resposta.

Os apelos ao Governo multiplicam-se no setor. A Câmara de Caminha e as associações de pescadores do Minho também já pediram ao Executivo “medidas excecionais para a pesca profissional após semanas sem rendimento”, lê-se numa nota citada pela Lusa. Nos Açores, já foi acionado o Fundo de Pesca, no valor de 439,53 euros. A Câmara de Vila do Conde já decidiu igualmente a atribuição de um apoio aos pescadores do concelho, deixando também um apelo ao Governo para ativar apoios ao setor.

Humberto Jorge, da ANOP Cerco, já dá o mês de fevereiro praticamente como perdido. “Não se vê luz ao fundo do túnel. Depois da tempestade vem a bonança, mas esta tempestade é tão longa que para chegar à bonança vamos precisar de ajuda”.

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