Não houve uma única noite que dormisse num sono profundo. Depois de chegar à Ala B do Estabelecimento Prisional de Lisboa (EPL), André não precisou de muito tempo para perceber a fórmula da sobrevivência para aquele ano de prisão: por um lado, não podia baixar os olhos e mostrar medo; por outro, não podia destacar-se do grupo e ser o centro das atenções dos guardas prisionais. Chegou a agredir para não ser agredido e aprendeu que, ali, tudo era negociado. Foi assim desde que se entregou, em outubro de 2015 — depois de ter sido apanhado seis vezes a conduzir com álcool e com a carta de condução já apreendida — até dar como cumprida a pena a que fora condenado, em novembro de 2016.

Os primeiros dias de André, um nome fictício que protege a sua identidade, foram passados no primeiro dos três pisos, numa cela individual. Diz ele ao Observador que aquela é a zona onde os reclusos passam uma primeira fase da prisão. Só depois subiu à Ala B — onde esta terça-feira cerca de 170 reclusos se amotinaram quando souberam que, no dia seguinte, não receberiam visitas por causa da greve dos guardas prisionais. Em 2016, nas contas de André, estariam 200 reclusos naquela ala. Cada cela tinha dois.

Era um pequeno espaço, muito sujo, com uma janela, duas camas, uma sanita e um lavatório. Como todas as celas ali. No dia em que chegou, pediu logo materiais para poder fazer uns arranjos no local onde ia passar tanto tempo. “Tive que dar dois maços de tabaco ao faxina [nome dado aos reclusos que ali trabalham] para me arranjarem um saco de cal”, recorda. O material serviu-lhe para caiar a cela e deixá-la mais branca. “Dos ratos, nunca me consegui livrar. Era normal vê-los passar”, descreve.

Essa primeira experiência também lhe ensinou que tudo ali era negociado. “Se quisesse mais comida na marmita, tinha que pagar em tabaco aos faxinas. Havia reclusos mais privilegiados e com mais dinheiro que conseguiam ficar sempre para o fim. E os faxinas traziam-lhes mais comida”, lembra.

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