Índice
Índice
O Arquivo Nacional norte-americano tem, desde terça-feira, uma nova página: “Registos do Assassinato de JFK — Publicação de Documentos de 2025”. São 2.182 documentos em formato PDF, mais de 63 mil páginas de texto. Não estão catalogados ou ordenados e a maior parte são fotocópias de documentos escritos à máquina e à mão, muitos deles tornados ilegíveis pelo tempo.
A desclassificação foi anunciada pelo Presidente Donald Trump com apenas 24 horas de antecedência. “É uma quantidade enorme de papel. Têm muito que ler. Acho que não vamos rasurar nada”, declarou o chefe de Estado numa visita ao Centro Kennedy para as Artes Performativas, na segunda-feira. O processo para a desclassificação já estava em curso, mas longe de estar terminado, e o anúncio de última hora obrigou dezenas de funcionários a passar a noite em branco para garantir que dados confidenciais não eram publicados.
A revisão não foi totalmente eficaz: nos milhares de documentos surgem nomes de agentes da CIA e números de Segurança Social de antigos funcionários do Congresso. Contudo, esse não é o foco no que toca ao assassinato do Presidente John F. Kennedy, em novembro de 1963 em Dallas. O incidente é um dos alvos mais populares de conspirações nos Estados Unidos e cada nova leva de documentos sobre o caso dá ânimo às teorias.
Historiadores e especialistas ainda estão a debruçar-se sobre os registos, mas as primeiras impressões confirmam o que tinha sido previsto: não há informações inéditas. Os registos oficiais continuam a confirmar que Kennedy foi morto com um tiro de Lee Harvey Oswald.
Mas, entre as estratégias de Trump, o formato dos registos e as teorias da conspiração, o valor dos documentos pode não estar naquilo que dizem diretamente sobre o incidente. Nas entrelinhas, os registos levantam o véu sobre temas habitualmente confidenciais: espionagem, relações diplomáticas e a articulação das agências federais, especialmente da CIA e do FBI.
Porquê agora? A jogada política de Donald Trump
“Há provas irrefutáveis de que a CIA esteve envolvida no assassinato e no seu encobrimento”. Estas palavras não são, em si mesmas, uma surpresa, já que a teoria da conspiração de que a agência federal de informação esteve envolvida na morte de JFK é uma das mais populares. O que pode ser surpreendente é o facto de terem sido proferidas por um familiar de o antigo Presidente Kennedy e atual membro da administração norte-americana: Robert F. Kennedy Jr.
Neste sentido, a chegada do sobrinho do Presidente Kennedy ao cargo de secretário da Saúde pode ter tido um “pequeno papel” na desclassificação dos documentos, opina Kevin Boyle, professor de História norte-americana na Northwestern University, ao Observador. Mas esta está longe de ser a única razão. Afinal, em 2017, Donald Trump já tinha ordenado a revelação de 2.800 documentos. Ainda assim, o Presidente terá cedido à pressão da CIA e do FBI para que mantivesse alguns registos secretos.
A promessa foi repetida na campanha eleitoral de 2024 e, depois da eleição, transformada numa ordem executiva, em que se pode ler que “as famílias e o povo americano merecem transparência e verdade” e que esta é uma questão de “interesse nacional”. “Tudo vai ser revelado”, declarou Trump no final de janeiro, quando assinou esta ordem.
A insistência do Presidente na “transparência” é uma forma de politizar a popularidade do assassinato de Kennedy a seu favor, considera Boyle. “Trump joga com a ideia do Deep State, de que existe um governo secreto que opera fora do controlo e que está a guardar segredos dos americanos. Esta é uma forma de sublinhar o facto de a administração Trump estar a jogar contra este suposto Deep State“, elabora o historiador.
Ainda assim, é preciso destacar que esta desclassificação não é uma medida exclusiva do governo de Trump. Ao longo dos quatro anos na Casa Branca, Joe Biden foi responsável pela publicação de mais 13.000 documentos, em duas levas diferentes. “É uma questão de ótica, mais do que uma questão racional [da parte de Trump]”, justifica Boyle.
Se RFK Jr. agradeceu a ordem do Presidente, o sentimento não foi partilhado por outros membros da família. Jack Schlossberg, neto mais novo do Presidente Kennedy que ganhou destaque pela sua postura exuberante e profundamente crítica de Trump nas redes sociais, acusou Trump (e o tio) de se “apropriarem do passado para a sua agenda criminosa” e apontou as contradições entre o legado e as medidas implementadas pelos dois Presidentes, separados no tempo por mais de seis décadas.
▲ A proximidade com Kennedy pode ter pesado na insistência de Trump
YURI GRIPAS / POOL/EPA
Noutra publicação, criticou também os canais de televisão por darem palco às teorias da conspiração em volta do caso. “Há tantas notícias a sério a acontecer. Por que estão a cobrir isto? É por isso que isto pega, porque vocês cobrem isto uma e outra vez“, acusou.
Kevin Boyle recusa a interpretação de que a escolha do momento tenha sido uma “manobra de diversão” consciente por parte do executivo. “Acho que [Trump] fez o anúncio sem ouvir ninguém. Ele estava no Centro Kennedy e estava a pensar no Kennedy. Acho que é muito mais Donald Trump a jogar com o seu instinto”, argumenta.
O esforço de última hora para “despejar” os documentos — e os “erros” no processo
O relógio ainda não tinha chegado às 17h na segunda-feira quando todos os advogados do gabinete de informação do Departamento de Justiça receberam um email a informar que deviam abandonar as tarefas atribuídas e assegurar “um segundo par de olhos” a um “projeto urgente da Divisão de Segurança Nacional“.
O anúncio de Donald Trump no Centro Kennedy momentos antes apanhou os funcionários de surpresa e pôs o relógio a contar: tinham pouco mais de 24 horas para rever milhares de páginas relativas ao assassinato de Kennedy e garantir que nenhuma informação confidencial era publicada por engano. Os funcionários do Conselho de Segurança Nacional e do Departamento da Justiça trabalharam noite dentro a analisar cada documento, relataram fontes anónimas à ABC.
Os documentos já tinham começado a ser revistos no dia 23 de janeiro, quando a ordem executiva foi assinada. Mas a quantidade de papéis existentes sobre o caso aumenta de cada vez que é emitida uma nova ordem relativa aos registos, explicou uma pessoa com conhecimento deste processo ao New York Times. Isto acontece pois surgem documentos que não estão diretamente relacionados com o tema e que, muitas vezes, foram escritos depois do assassinato. Ainda assim, o diretor da CIA, John Ratcliffe, garantiu que não se ia opor à publicação destes documentos no mesmo contexto, avançaram quatro pessoas presentes na discussão sobre a confidencialidade de alguns temas.
▲ O diretor da CIA permitiu a publicação de todos os documentos, mesmo sem ligação direta ao caso
MICHAEL REYNOLDS/EPA
Contudo, esta decisão de Ratcliffe dificultou o trabalho, pois exigiu uma investigação mais alargada sobre cada documento. Na discussão do Conselho de Segurança Nacional, algumas pessoas notaram que acelerar o processo para cumprir o prazo de Trump poderia levar a erros, como a publicação de nomes e números indevidamente. “Se eu estou sentado à secretária às 2h, a ler um documento de há 60 anos sem muito contexto, como é que tomo a decisão sobre que informação publicar ou não?”, questiona Kevin Boyle, a título de exemplo.
Os problemas com o facto de a publicação ter sido acelerada reflete-se tanto no formato como no conteúdo. “Este despejo é profundamente mais impenetrável do que todas os anteriores, mais anotados”, analisou à primeira vista David Garrow, historiador especialista em agências de informação. Esta quarta-feira, o sentimento passou a ser de frustração: “Qualquer pessoa que esteja a tentar lidar com isto está só a dar um tiro no escuro”, queixou-se ao New York Times.
Ao contrário do que aconteceu nas desclassificações anteriores, os documentos não foram catalogados por temas — daí que Garrow fale em “despejo”. Além disso, os documentos não estão anotados, muito menos organizados de forma digital que permita uma busca por palavras-chave. A maior parte dos registos são apenas fotocópias de documentos datilografados ou escritos à mão há mais de 50 anos, deteriorados pelo tempo. Outros estão rasurados e não acrescentam qualquer informação nova. Uma parte chega mesmo a estar completamente ilegível.
“As pessoas nos níveis mais altos da administração não se preocupam com os processos. E se calhar estou a ser terrivelmente burocrático, mas é o processo que garante que erros não são cometidos”, critica Kevin Boyle.
[Já estreou “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo Podcast Plus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music]
Espiões em Miami, mísseis em Cuba e as escutas a Martin Luther King
O cenário antecipado no Conselho de Segurança Nacional parece ter-se confirmado. Entre os muitos dados que apareceram pela primeira vez publicamente nestes documentos estão os números de Segurança Social de funcionários do Congresso e os nomes de agentes cubanos que trabalharam para a CIA em Miami. “Estas pessoas ainda estão vivas? As suas famílias estarão em perigo por causa disto? Donald Trump ter acelerado o processo pode sido perigoso para algumas pessoas”, pondera Kevin Boyle ao Observador, referindo-se ao segundo grupo.
À medida que os documentos vão sendo decifrados, as referências a Cuba vão surgindo, uma e outra vez. O repórter do New York Times Adam Nagourney encontrou um memorando presidencial de 23 de novembro, o dia a seguir ao assassinato de Kennedy, que revela, pela primeira vez, que a CIA intercetou “mensagens militares cubanas” — o documento já tinha sido publicado com uma referência à instalação de mísseis terra-ar na ilha, mas o início, relativo à forma como os serviços secretos obtiveram essa informação, tinha aparecido sempre rasurado.
▲ Kennedy, durante a crise dos mísseis de Cuba. Os registos do seu assassinato mostram o rescaldo da crise
AFP/Getty Images
Pondo de lado o assassinato de Kennedy, os registos pintam uma imagem rica do panorama da espionagem dos anos 60, em plena Guerra Fria. “Funcionam como uma janela para o clima de medo que reinava na altura em torno das relações dos EUA com a União Soviética, pouco depois de a Crise dos Mísseis de Cuba de 1962”, destaca a Reuters.
Ainda antes dos documentos terem sido tornados públicos, os especialistas já tinham revelado as suas expectativas sobre o tema. Por um lado, os documentos permitem perceber mais sobre a articulação entre as diferentes agências federais. “O ficheiro do FBI sobre a CIA [divulgado no passado] incluía páginas rasuradas umas atrás das outras”, notou Beverly Gage, autora da biografia de J. Edgar Hoover, antigo diretor do FBI.
Por outro lado, a investigação das agências ao passado de Lee Harvey Oswald — o assassino de Kennedy — mostrou que este se tinha encontrado com diplomatas soviéticos na Cidade do México. “Se os documentos incluírem conhecimentos mais concretos sobre o que foi dito, a quem foi dito e o que foi dito em resposta, isso seria historicamente interessante e importante”, Fredrik Logevall, historiador em Harvard e biógrafo do Presidente Kennedy.
Além do assassinato de Kennedy, a publicação inclui ainda documentos relativos à morte de Martin Luther King Jr., que poderão ser ainda mais interessantes — já que a CIA teve o ativista pelos direitos civis sob escuta durante vários anos, devido à sua ligação ao Partido Comunista, aos protestos anti-guerra no Vietname e a outros grupos “subversivos”.
O desejo concreto de Fredrik Logevall parece, até agora, não ter sido atendido, mas, nas entrelinhas dos documentos que não estão diretamente ligados com Kennedy, os especialistas aprendem mais sobre o mundo da espionagem norte-americana.
Teorias da conspiração: reconfortantes ou politizadas?
As primeiras 24 horas de análise aos documentos confirmam o que os especialistas esperavam: não existe qualquer revelação dramática sobre a morte de Kennedy. “Ainda foi o Oswald”, resumiu o New York Times ao encerrar o artigo em direto em que acompanhou o primeiro dia de análise. Até agora, nenhum documento contraria de forma irrefutável que John F. Kennedy foi morto no dia 22 de novembro de 1963 durante um cortejo automóvel em Dallas com um tiro disparado por um atirador, Lee Harvey Oswald, que trabalhou sozinho.
Mas os historiadores reconhecem que este facto não deverá abafar o fenómeno mediático e as teorias da conspiração em volta do incidente. “Há algo reconfortante nas teorias da conspiração. Queremos acreditar, enquanto seres humanos, que grandes eventos têm grandes causas”, argumentou o professor Logevall ao New York Times.
Joseph Uscinski, autor do livro Conspiracy Theories, também reconhece o fator unificador das teorias da conspiração. Mas destaca a forma como isso está a ser utilizado para fins políticos. “Trump construiu uma coligação de pessoas com mentalidade conspirativa que o apoiam; por isso, dá-lhes continuamente o que querem. Isso inclui teorias da conspiração”, afirma ao Observador. Ou seja, é uma troca: Trump alimenta as teorias da conspirações e os conspiracionistas apoiam a sua presidência.
No entanto, os especialistas são unânimes na publicação provável de mais documentos, já que a ordem executiva de Donald Trump incluía a desclassificação dos registos da morte de Martin Luther King Jr., mas nestas 63 mil páginas, as referências ao ativista são escassas. Quando a isto se soma a desorganização dos registos, deverá demorar várias semanas até os especialistas apresentarem conclusões mais concretas dos novos registos da morte de Kennedy.