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Trump podia acabar de forma diferente a sua presidência? /premium

A invasão do Capitólio mostra o mau perder de Trump, uma característica que vem de família, num homem que nunca sentiu pertencer à elite. E confirma as suas obsessões. Ensaio de Bruno Cardoso Reis.

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Os Ensaios do Observador juntam artigos de análise sobre as áreas mais importantes da sociedade portuguesa. O objetivo é debater — com factos e com números e sem complexos — qual a melhor forma de resolver alguns dos problemas que ameaçam o nosso desenvolvimento.

O dia 6 de janeiro de 2021 será um marco nos livros de história dos EUA. E isto será assim quer a política norte-americana volte a uma normalidade mínima, quer entre numa espiral de crises inéditas e de crescente violência política. As divisões e as tensões não são uma novidade na história dos EUA, ou uma criação de Trump, como procurei mostrar num ensaio anterior. O que tem então de único e marcante este dia 6 de janeiro de 2021?

É verdade que temos vindo a assistir nos EUA em décadas mais recentes a uma hiperpolarização identitária, que se manifesta no sistema político, nos media, nas redes sociais. Ainda assim trata-se da primeira vez na história dos EUA que uma multidão tumultuária invadiu o parlamento norte-americano para impedir a formalização da eleição de um novo Presidente dos EUA em resposta ao apelo de um Presidente norte-americano em funções que se recusa a reconhecer a sua derrota. 

Trata-se da primeira vez na história dos EUA que uma multidão tumultuária invadiu o parlamento norte-americano para impedir a formalização da eleição de um novo presidente dos EUA em resposta ao apelo de um Presidente norte-americano em funções que se recusa a reconhecer a sua derrota. 

Um mau perdedor que nada tinha de conservador

O facto inédito fundamental que marca o final da presidência de Donald Trump é efetivamente este: a sua recusa em aceitar a derrota eleitoral de novembro de 2020, apesar de ter visto as suas alegações de fraude rejeitados mais de 60 vezes pelos tribunais. Quando tudo o resto falhou, Trump decidiu apelar aos seus partidários para fazer descarrilar o processo normal numa democracia de transição pacífica do poder. Foi Trump quem convocou a manifestação de 6 de janeiro para a capital dos EUA. Foi ele quem fez nela o principal discurso, em que repetiu as alegações fantasistas de uma eleição roubada. Foi Trump quem apelou aos seus fanáticos seguidores: “Vamos marchar até ao Capitólio”. Foi ele quem insistiu: “Nunca vamos recuperar o nosso país com fraqueza, temos de mostrar que somos fortes”!

MICHAEL REYNOLDS/EPA

Antes de Trump, o seu advogado e factótum, Rudy Giuliani, deu uma palmada no pódio onde discursava, e afirmou: “Lets have trial by combat!” O que é uma versão em inglês erudito do que em português corrente se poderia traduzir por “isto só se resolve à porrada!” O que é surpreendente à luz destes discursos e de toda a postura de Trump desde a sua derrota em novembro, não é que tenha havido uma invasão ilegal e forçada do edifício sede do parlamento dos EUA, e sim que daí “apenas” tenham resultado quatro mortes. 

Poderia ter sido diferente? Podia, no sentido em que não acredito num determinismo histórico mecânico e automático. As opções individuais pesam na História. Não sendo, portanto, inevitável este desfecho concreto, para mim era evidente que Trump não iria terminar a sua presidência de forma normal. 

Antes de Trump, o seu advogado e factótum, Rudy Giuliani, deu uma palmada no pódio onde discursava, e afirmou: “Lets have trial by combat!” O que é uma versão em inglês erudito do que em português corrente se poderia traduzir por “isto só se resolve à porrada!”

Donald Trump nunca foi um conservador, nunca foi um membro normal do Partido Republicano. Ele também nunca foi um Presidente normal dos EUA. Como afirmei logo no final de 2016, ainda antes da sua posse, nunca me convenceram os argumentos daqueles que diziam que Trump iria ser apenas mais um Presidente dos EUA. Nunca me pareceu provável que ele estivesse disposto a agir dentro das normas ou até das leis que têm regido a presidência norte-americana durante os últimos duzentos anos. Tudo, na sua personalidade, no seu percurso anterior – em que nunca tinha exercido quaisquer funções eletivas ou governativas, apontava para um grande desprezo pelas convenções e pelas normas habituais na política dos EUA. Não me parecia nada provável que alguém como Trump, com mais de 70 anos, depois de alcançar uma vitória inédita que fez dele Presidente dos EUA, se transformasse num político normal disposto a por de lado as suas obsessões pessoais.

Um homem obcecado com vencer a qualquer preço

Sem entrar em especulações freudianas, as circunstâncias pessoais de Trump são um dado incontornável para podermos responder à nossa questão: poderia ter sido diferente? É verdade que as nossas escolhas contam, sobretudo se formos Presidentes dos EUA. Mas também é verdade que nem tudo depende das nossas escolhas. Todos somos condicionados pelo país em que nascemos ou pela família em que crescemos. Como dizia Karl Marx – numa das suas obras mais interessantes e menos determinista (logo, das menos citada pelos seus fanáticos seguidores) – em que analisava, em 1852, as ações de outro Presidente que se recusou a jogar o jogo político de acordo com as regras estabelecidas: “Os homens fazem a sua própria história, mas não como querem; não determinam as circunstâncias em que vão agir”.

A família Trump no momento em que tomava posse como 45.º Presidente dos EUA

Getty Images

Um dos paradoxos do populista Trump é que ele nasceu numa família rica. Recebeu do seu pai grande parte da sua fortuna. Isso ficou claro numa investigação do New York Times, que mostrou que Fred Turner terá dado centenas de milhões de dólares a Trump, também como uma forma de escapar a impostos vários. Fred tinha enriquecido com o negócio do imobiliário numa Nova Iorque em expansão, beneficiando de grandes apoios estatais para construir bairros sociais. Porém, na geografia do poder em Nova Iorque os Trumps eram relativamente marginais. A sua fortuna imobiliária estava em Brooklyn e noutros bairros periféricos. Eles tinham peso na “Outra Banda” de Nova Iorque, mas não em Manhattan, onde vive boa parte da elite norte-americana. Donald Trump, até hoje, nunca foi nem se sentiu parte de pleno direito dessa elite. Também nunca achou que podia ou devia jogar pelas regras, se quisesse mostrar que era realmente um vencedor.

Todos os testemunhos apontam, efetivamente, para que Fred, o patriarca da família Trump, tenha sido marcante na formação da personalidade do seu filho. Numa entrevista na década de 1980 foi perguntado a Donald Trump se ele era parecido ao pai, e ele respondeu: “Espero que sim”. E quando lhe perguntaram porquê, apontou como grande qualidade paterna ele ser  “forte”. Um dos testemunhos mais recente e mais interessantes sobre as circunstâncias pessoais de Donald Trump é o livro da sua sobrinha Mary Trump.

Esta filha marginalizada do irmão mais velho de Trump, a ovelha negra do clã, tem contas a ajustar. Mas o que nos relata sobre a cultura familiar parece credível. Sublinha que o maior elogio que se podia ouvir da boca do patriarca da família em relação a alguém era: “He is a killer!” Ou seja, não literalmente um assassino, mas sim um matador, alguém capaz de fazer o que fosse preciso para sair por cima, para vencer, para ser o mais forte. O pior nas regras deste clã era ser um “looser”, um perdedor, um fraco (como o pai de Mary). 

Os Trumps eram relativamente marginais. A sua fortuna imobiliária estava em Brooklyn e noutros bairros periféricos. Eles tinham peso na “Outra Banda” de Nova Iorque, mas não em Manhattan, onde vive boa parte da elite norte-americana. Donald Trump, até hoje, nunca foi nem se sentiu parte de pleno direito dessa elite.

Isto não é algo exclusivo da família Trump. Nomeadamente, nos EUA há mais quem defenda a ideia do mercado como um jogo de soma zero, em que vale tudo, e um negócio só é bom se um lado perder para o outro ganhar. É uma visão, no mínimo, questionável sobre o que é um bom negócio ou uma boa economia de mercado. O que parece evidente é que Donald Trump cresceu moldado por estas frustrações e ambições. Não era espectável que alguém moldado pelo clã Trump aceitasse graciosamente que perdeu as eleições de novembro de 2020. Não era expectável que Donald Trump ouvisse os apelos da elite política e económica norte-americana sobre os danos para o Partido Republicano, para a Constituição, para a reputação externa do país, e saísse silenciosamente de cena.

Já tom do seu discurso de 6 de janeiro era perfeitamente previsível a esta luz, com Trump a afirmar que: “Nunca iremos recuperar o nosso país mostrando fraqueza, temos de mostrar força, temos de ser fortes”. Ora perceber o que se tem estado a passar não chega, evidentemente, perceber as circunstâncias pessoais de Trump, é preciso perceber também as circunstâncias políticas dos EUA.

Da hiperpolarização tribalista ao culto de um populista no poder

Uma das reações mais interessantes aos eventos de dia 6 de janeiro foi do antigo Conselheiro de Segurança Nacional de Donald Trump, John Bolton. Este último, uma figura da direita republicana, acabou afastado. Nas memórias do seu tempo na Administração Trump um dos temas centrais é a sua perceção de o Presidente estar disposto a usar quaisquer meios para se manter no poder. Garante ter ouvido Trump a elogiar o Presidente Xi da China pela sua repressão dos uigures e a manifestar-se disposto a chegar a um acordo fraco com Pequim, em troca de medidas que o favorecessem eleitoralmente.

Bolton foi entrevistado na CNN, a 7 de janeiro, e descreveu o que se passou em Washington como uma “tentativa de golpe” por membros de um “culto” centrado em Donald Trump. Para perceber os extraordinários níveis de militância fanática que tornaram possível a eleição de Trump e os eventos de dia 6 de janeiro retomo a fórmula que aqui publiquei há umas semanas para procurar descrever as circunstâncias políticas atuais nos EUA: hiperpolarização bipartidária + política mais identitária + desprezo pelas elites + desespero económico + novos media.

Trump, no momento em que garantia que a posse de Biden ia ser pacífica mas que ele não iria lá estar

ERIK S. LESSER/EPA

Um dado estrutural fundamental na política norte-americana é, efetivamente, que do xerife até ao Presidente, o sistema eleitoral norte-americano está pensado numa lógica de tudo para um vencedor, nada para o segundo ou terceiro classificado. É isso que explica a durabilidade de um sistema de dois grandes partidos, o Partido Republicano e o Partido Democrático. O bipartidarismo tem sido a fórmula para se vencer neste sistema. O crescente recurso a primárias, em linha com a tão elogiada democratização interna dos partidos, também abriu o caminho a que alguém de fora do sistema, como Trump, pudesse controlar um dos grandes partidos. Isto explica alguma coisa da polarização e da lealdade contrariada de muitos republicanos a Trump. Mas não é suficiente. Em décadas mais recentes esta divisão acentuou-se com uma aposta crescente por responsáveis do Partido Republicano, mas também no Partido Democrático, numa política cada vez mais tribalista, cada vez mais identitária. O que tem reduzido muito o espaço para o compromisso, que é cada vez mais é visto como uma traição.

O desespero económico dos deserdados de uma economia hiperglobalizada é também um dado crucial, que o próprio Biden tem reconhecido nas suas declarações. Trump percebeu estas dinâmicas, cavalgou-as, acicatou-as e deveu a elas a sua eleição. Ele elegeu-se e exerceu a presidência como um populista identitário. Criou um verdadeiro culto da personalidade em torno de si entre um núcleo duro de eleitores dispostos a apoiá-lo até ao fim. Era deles que Trump falava quando se gabava de poder matar uma pessoa na 5ª Avenida e de que ainda assim votariam em si.

John Bolton garante ter ouvido Trump a elogiar o Presidente Xi da China pela sua repressão dos uigures e a manifestar-se disposto a chegar a um acordo fraco com Pequim, em troca de medidas que o favorecessem eleitoralmente.

É verdade que o populismo pode tornar-se uma etiqueta conveniente para políticos populares que não nos agradam pessoalmente. Esta utilização do epíteto de populista como um insulto é desprovida de rigor ou de grande utilidade analítica. Mas, usada com rigor, é o melhor conceito para caracterizar um determinado tipo de liderança política: alguém que usa sistematicamente uma retórica de oposição à elite tradicional. Um populista identário ou tribalista é alguém que se apresenta como o único defensor dos interesses do povo verdadeiro, de uma nação humilhado face a elites globalistas. Parece-me evidente que a etiqueta se cola na perfeição a Donald Trump.

Mais, não só ele foi eleito com uma retórica populista, como procurou governar dessa forma. Uma certa retórica eleitoral populista é usada com frequência quando um novo ator político tenta ganhar terreno. Foi assim nos EUA, com Bill Clinton em 1992, ou mesmo com Obama em 2009. O que é bem mais raro nos EUA é um Presidente em funções, exercer a função de forma populista. Efetivamente, ao contrário do que muitos previam, Trump não moderou a sua postura. Continuou a dar mais atenção à Fox News ou ao Twitter do que às instituições do seu governo. Continuou a atacar juízes, senadores e ministros do seu próprio governo. Os eventos de 6 de janeiro foram o culminar natural de tudo isto.

O que se segue e o que nos importa? 

Tendo em conta a natureza estruturalmente bipartidária da política norte-americana, a questão fundamental é qual será o impacto de tudo isto no futuro do Partido Republicano? Será que Trump tem futuro? Será que os Trump serão uma nova dinastia política norte-americana? O filho de Donald Trump, no comício que precedeu o assalto ao Congresso a 6 de janeiro de 2021, fez uma declaração de guerra à velha elite republicana, afirmando com toda a confiança: “Este já não é o Partido Republicano deles, este é o Partido Republicano de Donald Trump”. Em reação a estas declarações, John Bolton, o veterano republicano a que já nos referimos acima, respondeu que Donald Trump Júnior era uma figura sem futuro no Partido Republicano. Quem terá razão? 

Biden a falar aos norte-americanos depois dos acontecimentos de 6 de janeiro

AFP via Getty Images

É evidente que os eventos do dia 6 de janeiro marcaram uma rutura entre Donald Trump e uma parte importante da elite tradicional do Partido Republicano, nomeadamente os principais senadores republicanos, a começar pelo poderoso líder republicano no Senado, Mitch McConnell, bem como o próprio vice-Presidente, Mike Pence. Eles não apreciaram ser ameaçados e forçados a fugir do plenário do Capitólio. Se a possibilidade de um afastamento compulsório de Trump ao abrigo da chamada 25.ª emenda da Constituição parece complexa e improvável, é significativo que esteja a ser seriamente discutida, inclusive por alguns republicanos. 

O mais provável parece ser que a elite tradicional republicana tente aproveitar alguns aspetos do Trumpismo, pondo de lado as dimensões mais difíceis de gerir de Trump. Procurará utilizar a derrota nas presidenciais, nas eleições para o Senado na Georgia, e a gravidade dos eventos no Congresso, para marginalizar Donald Trump. A grande questão é saber se a liderança tradicional do Partido Republicano o conseguirá fazer sem perder o apoio dos adeptos do culto de Trump e qual é a dimensão deste núcleo duro de fiéis? Uma alternativa será que outros líderes republicanos, que apoiaram Trump até ao fim, procurem liderar o partido numa espécie de via intermédia entre o populismo e o conservadorismo.

Certo é que Donald Trump e família não irão desistir de continuar a ter um papel político e meditático. Se se o conseguirão, depois dos eventos de 6 de janeiro, é uma questão que teremos de ver. 

É evidente que os eventos do dia 6 de janeiro marcaram uma rutura entre Donald Trump e uma parte importante da elite tradicional do Partido Republicano. Se a possibilidade de um afastamento compulsório de Trump ao abrigo da chamada 25.ª emenda da Constituição parece complexa e improvável, é significativo que esteja a ser seriamente discutida, inclusive por alguns republicanos. 

Tudo isto nos importa muito pelo enorme poder e influência que os EUA têm no mundo. Se esta dinâmica de hiperpolarização continuar parece evidente o risco de um crescendo de violência política, identificada pelo próprio Departamento de Segurança dos EUA no seu último relatório. Parece também grande o risco de os EUA se verem de tal forma divididos e paralisados internamente que tenham dificuldades crescentes em exercer um papel determinante nas grandes questões da política internacional.

A erosão do prestígio externo dos EUA, pelo menos no curto prazo, é já um dado seguro como resultado destes eventos de 6 de janeiro, e tem sido explorado pelos seus adversários, da China até à Rússia, passando pelo Irão. Tudo isto são más notícias para a capacidade de a Europa ter nos EUA um parceiro fiável na defesa de valores e interesses partilhados. Biden terá de tentar inverter em parte estas tendências, ao mesmo tempo que combate uma pandemia e uma crise económica colossal e tenta conter os excessos da ala mais radical do Partido Democrático. Mas o novo Presidente dos EUA dificilmente conseguirá dar satisfação às diferentes expectativas dos muitos que, dentro e fora dos EUA, estão cansados de Donald Trump.

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