As luzes brancas fluorescentes começam a avistar-se a alguns metros de distância. Quem se aproxima vê um bloco gigantesco, a lembrar um complexo industrial. Ocupa, no final de contas, três quilómetros quadrados. O edifício tem uma arquitetura vanguardista e certas paredes estão pintadas com motivos florais e desenhos. Em frente, há um grande parque de estacionamento com milhares de lugares. Quase todos estão vazios este sábado ao final da tarde. Mas havia pessoas a trabalhar na única fábrica da Tesla a produzir carros elétricos na Europa, a Gigafactory Berlim-Brandemburgo, que se localiza a cerca de 30 quilómetros do centro da capital alemã.
Foi um grande investimento da marca de carros liderada pelo milionário Elon Musk. O projeto levou dois anos a construir, ficou concluído em 2022 e emprega mais de 10 mil pessoas. A Gigafactory em Berlim-Brandemburgo produz o modelo Y da Tesla e também baterias elétricas, estando a funcionar todos os dias. Este sábado ao final da tarde, alguns empregados, reconhecíveis pela roupa que usavam uma vez que tinham o logótipo e o nome da Tesla, esperavam pelos autocarros que levam e trazem funcionários para outras partes de Berlim.
▲ A fábrica da Tesla em Berlim.Brandeburgo
Sendo um empresário, Elon Musk preocupa-se naturalmente com o estado da economia mundial. Porém, recentemente, passou a agir no domínio da política, tendo prestado apoio ao Presidente norte-americano, Donald Trump. E a sua influência não se fica pelos EUA — e já chegou à Europa. O milionário tem deixado duras críticas à forma como a União Europeia funciona e tem apoiado vários candidatos nas eleições que vão ocorrendo em diferentes países. Na Alemanha, o dono da Tesla tem claramente um partido favorito: o Alternativa para a Alemanha (AfD, sigla em alemão).
Para Elon Musk, apenas a AfD, de extrema-direita, pode “salvar a Alemanha”. Na rede social que detém, o X, tem feito várias publicações de apoio ao partido. Por exemplo, este sábado de manhã fixou um tweet que apenas dizia “AfD”, acompanhado por seis bandeiras germânicas. Tal como aconteceu nas eleições presidenciais norte-americanas de novembro, o homem mais rico do mundo quer ver o candidato que apoia a vencer. E tem feito tudo para que isso aconteça. Tanto assim que já se fala mesmo em interferência eleitoral.
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— Elon Musk (@elonmusk) February 22, 2025
E não é apenas Musk. O vice-presidente norte-americano, JD Vance, também fez um discurso na Conferência de Munique, na semana passada, que acabou por entrar na campanha eleitoral alemã. “A democracia baseia-se no princípio sagrado de que a voz das pessoas importa. Não há lugar para barreiras”, afirmou, no que pode ter sido uma alusão ao cordão sanitário imposto à Alternativa para a Alemanha. Além disso, na capital da Baviera, o número dois da administração Trump encontrou-se com a candidata a chanceler pela AfD, Alice Weidel.
Para o movimento Make America Great Again (MAGA), há uma clara favorita para ser a próxima chanceler. A fação mais radical do Partido Republicano não esconde que pretende que a AfD vença as eleições. Entre ganhar um novo aliado ideológico e ter influência na União Europeia, são vários os motivos por trás do apoio, que, mesmo assim e segundo as sondagens, não será suficiente para levar a extrema-direita ao poder.
AfD era contra a Gigafactory, mas tem agora o apoio irrestrito de Elon Musk e JD Vance. Porquê?
O Observador tentou questionar os trabalhadores que esperavam pelo autocarro à porta da Gigafactory sobre a sua opinião sobre o atual momento político que atravessa a Alemanha. No entanto, nenhum se mostrou disponível para prestar comentários. “Não falo com a imprensa”, “não podemos falar” e “não quero” foram alguns dos testemunhos recolhidos. Certo é que também muitos não seriam eleitores: muitos dos que estavam vestidos com a roupa da Tesla não falavam alemão, depreendendo-se que a fábrica contrata mão de obra estrangeira, apesar do discurso anti-imigração do partido apoiado por Elon Musk na Alemanha.
▲ Paragens de autocarros em que os trabalhadores da Tesla esperam
Para além disso, se fosse pela vontade da Alternativa para a Alemanha, a Gigafactory talvez nunca tivesse existido. Alice Weidel e o grupo parlamentar da AfD no governo regional de Brandemburgo, onde se localiza a fábrica, deixaram várias críticas ao projeto de um “senhor milionário” que não era alemão. O partido é igualmente contra a utilização de carros elétricos, defendendo o uso de carros movidos a combustíveis fósseis.
No entanto, isso parece não ter pesado na hora de Elon Musk decidir apoiar a AfD. Ouvidos pelo Observador, três especialistas apontam alguns motivos que podem estar por trás desta tomada de posição. “Vance e Musk são aliados ideológicos da AfD e acreditam genuinamente que este partido de extrema-direita tem as respostas certas para os problemas alemães, em particular no que concerne à imigração, mas também em outros assuntos, como a economia”, teoriza Klaus Larres, professor de Ciência Política e especialista em política alemã na Universidade da Carolina do Norte.
Por seu turno, Eric Langenbacher, professor de Ciência Política na Universidade de Georgetown, apresenta ao Observador outros fatores. “A AfD é pró-russa e não quer prolongar o apoio à Ucrânia”, argumenta o especialista, lembrando que os deputados da extrema-direita “até saíram do parlamento” quando discursou o Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, no Parlamento germânico. “Isso pode ser uma motivação”, realça, especialmente após os ataques feitos pela administração Trump e por Elon Musk às autoridades ucranianas.
O docente da Universidade de Georgetown assinala também que há outros pontos em comum: “A AfD quer menos impostos, menos regulação, um regresso às noções convencionais de género, o uso do gás natural e do nuclear — tudo isso ressoa em Musk e Vance”. Mas Eric Langenbacher conjetura também que este apoio norte-americano a “partidos de direita radical como a AfD” pode visar o “enfraquecimento da União Europeia (UE)”. Com um bloco comunitário ainda mais dividido, seria “mais fácil” os EUA “exercerem influência sobre qualquer Estado”.
O apoio de Musk pode beneficiar a AfD? Há várias dúvidas
Primeiro foram várias publicações nas redes sociais em que Elon Musk declarava o apoio à Alternativa para a Alemanha. Depois, foi um editorial num jornal alemão em que defendia Alice Weidel e pedia aos alemães para votarem na AfD. Houve também uma conversa no X entre o milionário e a líder partidária. E o homem mais rico do mundo ainda apareceu por videoconferência num comício da Alternativa para a Alemanha.
Em todos estes apoios, segundo Eric Langenbacher, nota-se um padrão: Elon Musk “ajudou a divulgar informação falsa ou enganosa”. Por exemplo, uma das maiores polémicas aconteceu quando Alice Weidel disse, na conversa de uma hora no X, que o antigo Führer, Adolf Hitler, era “comunista”. “Os nacional-socialistas eram socialistas. Fizeram nacionalizações. Hitler era um comunista. O maior terrível sucesso dessa era terrível foi materializar a ideia de que Hitler era de extrema-direita e conservador. É o oposto, ele era um comunista e socialista”, alegou a candidata a chanceler, em declarações que foram criticadas por vários historiadores.
▲ Alice Weidel, a candidata a chanceler pela AfD
Bloomberg via Getty Images
De qualquer forma, sendo dono de uma rede social que chega a milhões de pessoas, Elon Musk conseguiu dar um importante palco a Alice Weidel. No entender de Thomas Greven, professor em Ciência Política na Freie Universität Berlin, o apoio do homem mais rico do mundo à AfD “é apenas simbólico”, mas o especialista salienta ao Observador que tem um efeito a longo prazo: “A AfD entra no mainstream [político]”.
Mesmo assim, Thomas Greven contrapõe com outra ideia. Na Alemanha, principalmente no leste do país — a região alemã que mais vota na AfD — existe um certo “antiamericanismo”, por conta do passado ligado à República Democrática Alemã, que pertenceu à zona de influência soviética. Assim, o apoio de Elon Musk pode ser interpretado para alguns eleitores como uma interferência excessiva de Washington nos assuntos internos alemães.
Na opinião de Klaus Larres, não existem vantagens no apoio de Musk à AfD. “A administração Trump — Musk e Vance pessoalmente — são bastante impopulares entre a grande maioria dos alemães”, constata. “O meu pressentimento é que o seu apoio vai ter um efeito ‘neutral’, ou seja, não vai fazer a AfD ganhar ou perder votos. Os eleitores estão mais focados nos problemas da Alemanha e em debates domésticos do que naquilo que um político norte-americano diz ou não”.
▲ Musk e JD Vance expressaram o seu apoio à AfD
Getty Images
Por isso, para o especialista em política alemã na Universidade da Carolina do Norte, não se deve “exagerar a importância que Vance e Musk têm para o debate interno na Alemanha”.
Os Verdes aproveitam para criticar Musk e colocam a estratégia no centro da campanha
Foi uma manchete que mostrava aquilo que seria um dos pontos mais importantes da campanha dos Verdes, o partido que, juntamente com o Partido Social-Democrata (SPD, sigla em alemão, pertencente à família política europeia dos socialistas) e o Partido Liberal Democrático (FDP, sigla em alemão), governou a Alemanha nos últimos quatro anos. Na revista Der Spiegel, o candidato a chanceler, Robert Habeck, declarava: “Tire o dedo da nossa democracia, senhor Musk”.
Nur weil Elon #Musk locker daherkommt und elektrische Autos baut, sollten wir uns nicht täuschen lassen.
Ich werde nicht tatenlos zusehen, wie autoritäre Gesinnung hoffähig gemacht wird.
Es gibt nur eine Antwort: Finger weg von unserer Demokratie, Herr Musk!#Habeck #Habeck2025 pic.twitter.com/YOI5USCMlR
— Andreas Audretsch (@AnAudretsch) January 3, 2025
O partido ecologista e de centro-esquerda quis representar nesta campanha a antítese das ideias políticas de Elon Musk e de JD Vance. Em Düsseldorf, num evento esta terça-feira num pequeno restaurante tipicamente alemão, Mona Neubaur, ministra da Economia, Indústria, Proteção Climática e Energia do governo regional da Renânia do Norte-Vestfália pelos Verdes, expressou precisamente essa ideia. “Não podemos deixar que homens como [o Presidente da Argentina, Javier] Milei, JD Vance ou Elon Musk nos digam o que fazer.”
▲ Mona Neubaur, ministra da Economia, Indústria, Proteção Climática e Energia do governo regional da Renânia do Norte-Vestfália pelos Verdes, no evento desta terça-feira em Düsseldorf
Na pequena sala do restaurante, onde estavam cerca de 80 pessoas, incluindo alguns cães, encontrava-se Mathilda Hartmann. A arquiteta, que se juntou aos Verdes em 2021, afirma ser “um perigo” a forma como Elon Musk “está a tentar subverter a democracia alemã”. “Temos de agir. Não podemos deixar que o homem mais rico do mundo faça na Alemanha o que fez nos Estados Unidos”, refere ao Observador. A mulher de 34 anos denuncia que o milionário quer a AfD no poder para “transformar a Alemanha na maior aliada do MAGA”.
“Existe, sem dúvida, uma certa interferência eleitoral”, reitera Mathilda Hartmann. Questionada sobre se considera que os Verdes fazem bem em apostar numa estratégia de condenar e trazer para o centro do debate público a forma como Elon Musk tem apoiado a AfD, a mulher de 34 anos não tem dúvidas de que é algo “correto” a fazer. “Acho que permite mostrar quem defende realmente a democracia e quem não”, afirma, lançando uma farpa ao partido de Alice Weidel: “E acho curioso que um partido tão nacionalista precise do apoio de estrangeiros”.
Este domingo, no dia em que os alemães vão a votos, é de esperar que Elon Musk volte a fazer várias publicações no X de apoio a Alice Weidel. Segundo Eric Langenbacher, o milionário sente que pode apoiar a AfD porque fez “investimentos no país, nomeadamente a fábrica da Tesla”. Só depois de contados os votos se saberá se a influência de um estrangeiro na política alemã, principalmente se for do homem mais rico do mundo, pode acabar por ter os efeitos inversos aos desejados.