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Os nomes que compunham o novo governo foram anunciados no domingo à noite. Mas pouco duraram. 14 horas depois, o primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, no cargo há apenas 27 dias, fez um anúncio ao país a declarar que se demitiria, argumentando que não tinha condições para se manter em funções. Depois de Michel Barnier e François Bayrou, esta é a terceira escolha do Presidente francês, Emmanuel Macron, que acaba por fracassar à frente do executivo.
A crise política prolonga-se assim em França e cabe agora a Emmanuel Macron decidir os próximos passos, sendo que encarregou Sébastien Lecornu de ser uma espécie de “negociador”. O primeiro-ministro demissionário terá até quarta-feira à noite para definir “uma plataforma de ação e estabilidade para o país”, naquilo que o Palácio do Eliseu designou como “negociações finais”. O chefe do executivo ainda em funções disse ‘sim’ ao desafio: “Aceitei ter negociações finais com as forças políticas para a estabilidade do país“. Depois disso, o Presidente francês já prometeu “assumir as responsabilidades” em relação ao desfecho.
Ainda não é claro o que Emmanuel Macron fará após quarta-feira, caso o primeiro-ministro demissionário falhe na missão de encontrar uma solução governativa. No entanto, a probabilidade de um novo nome do macronismo que surja à frente do governo venha a enfrentar as mesmas dificuldades do que os seus antecessores é bastante elevada. A aprovação do Orçamento do Estado será o principal problema. Sozinha, a coligação centrista não tem maioria absoluta na Assembleia Nacional, nem sequer com Os Republicanos, de centro-direita. Por isso, um eventual novo primeiro-ministro terá de negociar ou com a esquerda — nomeadamente o PS e os ecologistas —, ou com a União Nacional (RN).
▲ Sébastien Lecornu demitiu-se esta segunda-feira de manhã
ALAIN JOCARD / POOL/EPA
A instabilidade política agrava a fragilidade dos indicadores económicos em França, que continuam a deteriorar-se. O país, um dos motores financeiros da União Europeia (UE), está à beira de uma crise económica — e, quando era primeiro-ministro, François Bayrou avançou com um pacote de medidas de austeridade extremamente impopular, que causou protestos em várias cidades francesas. É nesta situação que Emmanuel Macron terá de decidir o que fará com as vozes dos extremos políticos cada vez mais a aumentar o tom da contestação.
O que motivou a queda de um governo de 14 horas?
Numa decisão arriscada no início de setembro após as férias parlamentares, François Bayrou decidiu submeter-se a uma moção de confiança na Assembleia Nacional. Nomeado em dezembro de 2024 para o cargo por Emmanuel Macron, o ex-primeiro-ministro francês centrista estava a enfrentar várias dificuldades durante a discussão do Orçamento e tentou cerrar fileiras. Falhou. 364 deputados votaram contra a moção, o que fez com que apresentasse a demissão.
Depois de um impasse e apelos de vários partidos para que convocasse novas eleições legislativas, Emmanuel Macron optou por nomear Sébastien Lecornu que, durante o governo de François Bayrou, tinha sido ministro da Defesa. Durante as últimas semanas, o novo primeiro-ministro foi compondo o governo, ciente das dificuldades que teria para o fazer aprovar. Os Republicanos continuaram a prometer dar a mão à coligação centrista, mas faltavam apoios doutros partidos.
▲ Emmanuel Macron e Sébastien Lecornu
MOHAMMED BADRA / POOL/EPA
Houve um nome, ainda assim, que desagradou praticamente todo o espetro político francês, desde Republicanos até membros da própria aliança centrista de Emmanuel Macron: Bruno Le Maire. O ex-ministro das Finanças foi escolhido por Sébastien Lecornu para ser o novo ministro da Defesa no governo, o que causou uma verdadeira revolta entre os parceiros do executivo.
Quem é Bruno Le Maire, o ministro que mudou de ideias e é um “desertor” d’Os Republicanos?
Bruno Le Maire é um político experiente, já acumulou vários cargos, mas é visto como um “desertor” e até um “traidor” pelos Republicanos. O ministro das Forças Armadas demissionário pertenceu aos executivos de Nicolas Sarkozy (foi secretário de Estado e responsável pela pasta da Agricultura). Em 2017, ainda assim, mudou de família política e decidiu juntar-se ao campo macronista, sendo nomeado ministro das Finanças, da Economia, da Indústria e da Soberania Digital.
No cargo, converteu-se num dos maiores aliados políticos de Emmanuel Macron, o que não caiu bem entre muitos republicanos. Adicionalmente, enquanto ministro das Finanças, foi acusado de ser o responsável pelo aumento da dívida pública e pela situação económica em que França se encontra. Como confidenciou uma fonte da coligação centrista ao canal de televisão BFMTV, Bruno Le Maire era um “fator irritante para o centro, para Os Republicanos, para o PS e para a União Nacional”.
▲ Bruno Le Maire, o ministro no centro da polémica da demissão de Sébastien Lecornu
CHRISTOPHE PETIT TESSON/EPA
A situação ainda se tornou mais incómoda para os aliados do governo, uma vez que Bruno Le Maire assinalou, numa entrevista à revista L’Usine Nouvelle, a 22 de setembro de 2025, que o regresso a um executivo estava “totalmente excluído“: “Tomei a decisão em junho de 2024 na sequência da derrota nas legislativas. Retirei-me da vida política. Considerei que não tinha mais margem de manobra suficiente para agir com clareza e firmeza ao serviço do povo francês. Não mudei de ideias”.
O que é certo é que, duas semanas depois, Bruno Le Maire mudou de ideias e aceitou o cargo de ministro da Defesa. No X, o político justificou que o fez porque França vive “circunstâncias extraordinárias”. “Não renuncio”, declarou. “Vim para servir o povo francês. Viu para servir os nossos soldados. Vou fazê-lo com paixão e determinação, [valores] que sempre me guiaram”, explicou.
Ao que apurou a BFMTV, Bruno Le Maire foi abordado diretamente pelo Palácio do Eliseu para assumir o cargo de ministro da Defesa na passada sexta-feira. O político terá recusado por duas vezes o convite, até numa conversa telefónica com o primeiro-ministro demissionário. Só depois de conversar com Emmanuel Macron, no domingo, é que aceitou o desafio — com a promessa de que levaria a cabo o “rearmamento” de França.
Como é que o governo caiu — e como Os Republicanos tiraram o tapete ao bloco centrista?
Sendo um elemento com tantos anticorpos, foram várias as vozes que criticaram a eleição de Bruno Le Maire — e de praticamente todo o espetro político. A líder parlamentar da União Nacional, Marine Le Pen, ridicularizou o que diz ser o regresso “patético” de um “homem que levou França à falência”. O líder socialista do Senado, Patrick Kanner, criticou a escolha do “Mozart das finanças que arruinou o país”.
Mais vocais foram as críticas d’os Republicanos. “Ou Bruno Le Maire renuncia, ou deixamos o governo”, ameaçaram várias fontes do partido de centro-direita à imprensa francesa. O líder partidário, Bruno Retailleau, criticou publicamente a configuração do executivo, assim como muitos dos seus aliados nos meios de comunicação social.
À Franceinfo, um deputado d’Os Republicanos considerou que Bruno Le Maire era “a personificação dos piores fracassos do mandato de Macron”. E a “negação das coisas que defendemos, indicando que o novo executivo refletia “os fracassos” da presidência. O partido esteve em várias reuniões de crise durante a manhã. Ao mesmo tempo, na antena da RTL, o deputado republicano Xavier Bertrand assegurava que estava fora de questão “participar no governo”.
▲ Republicanos como Xavier Bertrand recusaram participar no novo governo
Getty Images
Se a escolha de Bruno Le Maire foi o principal entrave para Os Republicanos para aprovar o governo, o partido também tinha outras queixas em relação ao executivo. Acusavam Sébastien Lecornu de escolher vários ministros do seu campo político (foram dez macronistas contra quatro republicanos) e pretendiam um maior foco no combate à imigração ilegal.
Acima de tudo, como contou um antigo ministro d’Os Republicanos à BFMTV, Bruno Retailleau sentiu-se “enganado” por Sébastien Lecornu e ficou “furioso” na sequência da decisão. Nas conversas que manteve com o partido, o primeiro-ministro demissionário nunca mencionou que Bruno Le Maire seria novamente nomeado ministro. “É a sensação de ter sido enganado. Preferimos ter um adversário que nos diga a verdade do que um aliado que nos minta”, atirou o ex-governante.
Numa entrevista à TF1, Bruno Retailleau confirmou que se tratou de um “problema de confiança”: “[Lecornu] escondeu-me que Bruno Le Maire seria nomeado”. Para o líder d’Os Republicanos, a escolha daquele político representaria uma “rutura” com o governo. No entanto, o dirigente partidário assegurou que não se sente culpado pela queda do governo: “O importante para mim é que os franceses que nos apoiam não se sintam traídos. E quando lhes dizemos que há uma rutura, deve haver uma rutura”.
▲ Bruno Retailleau, líder d'Os Republicanos, confirmou que não foi informado da nomeação de Bruno Le Maire
TERESA SUAREZ/EPA
Fruto da revolta e da controvérsia, Bruno Le Maire esclareceu novamente no X que a decisão foi tomada por “sentido de dever em circunstâncias geopolíticas graves”. “Notei que a minha decisão provocou reações incompreensíveis, falsas e desproporcionais”, lamentou, frisando que nenhuma “situação individual deve bloquear o funcionamento do país”. “Por causa dessas circunstâncias, propus ao Presidente da República demitir-me do governo e transferir as minhas responsabilidades como ministro da Defesa para o primeiro-ministro”, anunciou, destacando que Emmanuel Macron “aceitou a proposta”.
Sem os 47 deputados d’Os Republicanos na Assembleia Nacional, o número de apoiantes ao campo macronista seria ainda menor. O primeiro-ministro não teria qualquer hipótese de ver este governo aprovado. Em paralelo, a União Nacional prontamente garantiu que ia apresentar uma moção de censura, tal como faria a França Insubmissa.
Sem o apoio do maior aliado, não sobrava outra hipótese a Sébastien Lecornu a não ser a demissão. Assim, depois de uma reunião no Palácio do Eliseu na manhã desta segunda-feira, o chefe do governo no cargo há 27 dias apresentou a sua demissão num discurso ao país. Tornou-se o primeiro-ministro com o mandato mais curto de sempre da Quinta República. O anterior recorde pertencia a Michel Barnier.
▲ Sébastien Lecornu bateu o recorde de mandato mais curto, superando Michel Barnier
POOL/AFP via Getty Images
Da falta de consensos aos recados à oposição. Como justificou a demissão Sébastien Lecornu?
No discurso à nação, Sébastien Lecornu disse que “não se pode ser primeiro-ministro quando as condições não estão reunidas”. O primeiro-ministro demissionário sublinhou que “tentou construir um caminho em questões que foram alvo de bloqueios“, nomeando o subsídio de desemprego e a segurança social como exemplos. Atirando aos adversários, o líder do governo em funções lamentou que os partidos continuem a “adotar uma postura como se todos tivessem maioria absoluta na Assembleia Nacional”.
“Deparei-me com numa situação em que estava pronto para chegar a um acordo, mas cada partido político quer que adote todo o seu programa. Não havia base comum ao governo. Precisamos de mudar o estado de espírito e não querer aplicar a totalidade do nosso projeto e do nosso programa”, frisou Sébastien Lecornu, que não deixou de mandar uma farpa aos republicanos pelos “apetites partidários” por vezes “não sem ligação com as futuras eleições presidenciais”.
Sébastien Lecornu mencionou também a dificuldade de os partidos políticos reconhecerem a decisão de “não recorrer ao artigo 49.3 da Constituição” — que permite a aprovação de leis sem votação parlamentar — acrescentando que “já não havia pretexto para uma censura prévia”.
Por tudo isto, o primeiro-ministro demissionário destacou que não havia capacidade de gerar compromissos entre os partidos políticos. “Devem ser capazes de combinar linhas verdes, tendo em conta um certo número de linhas vermelhas”, reiterou, atirando que não pode haver uma postura “extremista”. “Deve preferir-se o país ao partido. Deve saber-se ouvir os apoiantes, mas sempre pensar no povo francês.”
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Demissão de Macron, eleições, ou um novo primeiro-ministro? O que defende cada partido político após à demissão de Lecornu?
À direita, Marine Le Pen e Jordan Bardella, presidente da União Nacional, saudaram a demissão do primeiro-ministro demissionário. Em primeiro lugar nas sondagens, o partido é um dos mais interessados na instabilidade política em França, de forma a desgastar ainda mais a imagem do macronismo e do centro político. A principal mensagem continua a ser o pedido de eleições legislativas antecipadas, sem esconder que reagiria com satisfação à demissão de Emmanuel Macron.
Flutuando entre estas duas ideias, Marine Le Pen considerou existirem duas opções para Emmanuel Macron, num vídeo publicado no X ao final da tarde desta segunda-feira: “Ou a demissão, ou a dissolução”. A candidata da União Nacional sustentou que a renúncia do Presidente francês é uma “questão de consciência e de sentido de Estado”: “Como estamos ligados aos ideais da República, ficaríamos agradados em convidar a pessoa em questão a dedicar-se à introspeção”.
▲ Marine Le Pen apresentou ultimato a Emmanuel Macron: "Demissão ou eleições"
THOMAS SAMSON / POOL/EPA
“A segunda opção é a dissolução. Na nossa opinião, é inevitável. Não estamos a convocar eleições porque sim ou para ganharmos algo, estamos a fazê-lo com um único propósito: defender os interesses da França e do povo francês”, afirmou Marine Le Pen.
Por sua vez, Os Republicanos também não esconderam a deceção com Emmanuel Macron. Agnès Evren, porta-voz do partido, disse à BFMTV que Sébastien Lecornu não conseguirá formar um novo governo com o apoio da força política de centro-direita: “A confiança foi quebrada e a saída de Bruno Le Maire não mudará nada”. Fonte do partido confidenciou ao Le Parisien que as exigências da força partidária aumentaram e não vão agora aceitar nenhum “primeiro-ministro macronista”: “Significaria a tomada de poder por Emmanuel Macron”.
À esquerda, existe divisão. A França Insubmissa, de Jean-Luc Melénchon, tem apenas um objetivo: que o Presidente francês se demita. O partido também defende que deve haver eleições legislativas antecipadas, mas coloca o foco na demissão de Emmanuel Macron. Essa postura colide com a dos antigos aliados da Nova Frente Popular, a coligação de esquerda que venceu as legislativas de 2024.
▲ Jean-Luc Melénchon defende demissão de Emmanuel Macron
AFP via Getty Images
Para os socialistas, os ecologistas e os comunistas, Emmanuel Macron não tem necessariamente de se demitir. O Presidente francês deve optar por um cenário de coabitação, escolhendo um primeiro-ministro de esquerda. Num comunicado publicado no X, o PS escreveu que a “democracia deve ser respeitada” e a “prioridade deve ser dada à esquerda e aos ecologistas para formarem governo e propor uma alternativa política forte”.
De forma a tentar unir a esquerda, a França Insubmissa tentou marcar uma reunião para a tarde desta segunda-feira. O PS e os ecologistas rejeitaram a proposta. “Obviamente que trataremos o convite de Jean-Luc Mélenchon com o desprezo necessário”, atirou fonte dos socialistas ao Le Parisien, uma prova de que os dois partidos estão de costas voltadas.
Num esforço idêntico, a secretária nacional dos Ecologistas, Marine Tondelier, propôs uma reunião para esta terça-feira às 09h00 numa “localização neutra” para todas as forças de esquerda. Ainda não se sabe qual será a resposta do PS e da França Insubmissa. Em qualquer caso, os ecologistas já esclareceram que a “escolha que preferem” é a “coabitação com a esquerda”, em vez da demissão ou da convocação de novas eleições legislativas.
O que são as “negociações finais” das quais Macron assumirá responsabilidades?
Vários líderes políticos exigiram que Emmanuel Macron se pronunciasse sobre o futuro político de França. Porém, o chefe de Estado preferiu, a meio da tarde desta segunda-feira, enviar um comunicado às redações a anunciar que incumbiu Sébastien Lecornu de encetar “negociações finais de modo a definir uma plataforma de ação e estabilidade para o país”. E estipulou um prazo: até quarta-feira à noite.
Subsistiam várias dúvidas sobre o significado desta comunicação de Emmanuel Macron. Poderia Sébastien Lecornu ser reconduzido no cargo? Mas cedo a imprensa francesa, citando fontes próximas do primeiro-ministro demissionário, garantiu que o líder do governo em funções rejeitou ao Palácio do Eliseu voltar ao cargo do qual se demitiu esta segunda-feira.
Esta hipótese de haver uma espécie de “negociador” já tinha sido apresentada pelo antigo primeiro-ministro francês, Gabriel Attal, após François Bayrou se ter demitido. Para o aliado de Emmanuel Macron, deveria existir uma figura independente que assegurasse a formação de um novo governo. O chefe de Estado ter-se-á baseada nessa sugestão para incumbir Sébastien Lecornu das tais “negociações finais”.
▲ Emmanuel Macron garantiu que assumiu "todas as responsabilidades" do decorrer das negociações
LUDOVIC MARIN / POOL/EPA
Ao mesmo tempo, a imprensa francesa assegurou que Emmanuel Macron “assumirá todas as responsabilidades”, caso as negociações finais fracassem. Ainda não é bem claro qual é o significado destas palavras, mas, como lembra o Le Figaro, o chefe de Estado já descartou por várias vezes a possibilidade de se demitir. Porém, nunca fechou totalmente a porta a eleições legislativas antecipadas — o que é uma hipótese bem mais provável do que a demissão.