Perturbação depressiva ou perturbação de ansiedade grave, esquizofrenia e outras perturbações psicóticas, doença bipolar ou adições – das mais clássicas, como o álcool, às mais recentes, como os videojogos. O rol de nomes é extenso e complexo, como é de resto a mente humana. Em comum têm o facto de serem doenças mentais, que precisam de uma resposta especializada e de uma abordagem estruturada. Durante muito tempo, o estigma levou a que fossem entendidas como incontroláveis. Hoje, sabemos que não tem de ser assim e no Hospital do Mar, em Lisboa, pode-se encontrar uma resposta inovadora que quer contribuir para um recomeço. Foi aqui que abriu, em fevereiro de 2024, uma nova unidade de Internamento de Psiquiatria que vem reforçar e completar a resposta da Rede Hospital da Luz nesta área.
16,5 %
População portuguesa com perturbações de ansiedade (1)
8 %
População portuguesa com perturbações depressivas (1)
4 %
População portuguesa com perturbações associadas ao consumo de álcool e drogas (1)
“Esta resposta nova que estamos a proporcionar não é uma resposta isolada, insere-se no hub de Psiquiatria e Saúde Mental que está a ser estruturado no Hospital da Luz. Havia uma carência muito clara de um internamento com estas características no setor privado, integrado num hospital com outras valências, e capaz de dar resposta às perturbações psiquiátricas com agudização, aqueles quadros clínicos que já não podem ser manejados no domicílio”, explica Maria João Heitor, responsável pela criação desta nova unidade do Hospital do Mar.
Rodrigo Cabrita
O caminho para o Hospital do Mar remete-nos para um paralelismo com aquilo que é a vida. Situado no antigo bairro operário da Petrogal, passamos por zonas mais urbanas e movimentadas, até que já depois de uma área de floresta densa, voltamos a encontrar uma estrada calma e com vista para o rio. O nome confunde. Chama-se Hospital do Mar, mas tem vista para o Tejo, para uma zona de estuário que também é conhecida como Mar da Palha e que estará na origem do nome. É aqui que desaguam, desde 2006, muitas patologias relacionadas com a área da geriatria, cuidados paliativos, demências e reabilitação, como uma unidade dedicada ao Acidente Vascular Cerebral (AVC), ou à reabilitação ortopédica traumatológica – às quais se junta agora o novo internamento de Psiquiatria.
2 250 000
Pessoas em Portugal que sofriam de uma perturbação de saúde mental em 2019, o que representa 23% da população, um valor superior à média de 16,7% da UE (2)
Esta unidade conta, por agora, com um total de 14 camas, distribuídas entre quartos individuais e quartos duplos, onde o azul marítimo faz jus ao nome da unidade hospitalar. Nasce numa altura em que a prevalência das perturbações psiquiátricas em Portugal é uma das mais elevadas da Europa, estimando-se que afetem 22,9% da população. O aumento do acesso a cuidados especializados é, por isso, uma necessidade premente.
A unidade está totalmente adaptada aos cuidados de segurança acrescidos que uma resposta na área da saúde mental exige. A modernidade e o conforto estão em linha com os restantes serviços do Hospital do Mar, mas há detalhes que fazem a diferença para a segurança dos doentes e dos profissionais, como a ausência de corrimão nos corredores da enfermaria ou de objetos cortantes.
Mas quando se entra no serviço não é isso que se destaca. Aqui, como no resto do hospital, as roupas de rua são mais comuns do que os pijamas. É frequente encontrar quem aqui mora temporariamente a trocar dois dedos de conversa com os profissionais de saúde, enquanto atravessa o corredor entre o quarto e a sala de convívio que, apesar de recente, já tem as paredes decoradas com mensagens de carinho e reconhecimento de quem aqui se reencontrou para voltar de forma equilibrada à vida que continua lá fora.
Há também um espaço exterior de uso exclusivo para este internamento, uma espécie de jardim de inverno, sendo que sempre que possível os doentes podem beneficiar dos restantes espaços do hospital, como o bar, salas de leitura ou até um jardim sensorial. É precisamente a partir do exterior que podemos admirar melhor todo o edifício e a combinação desenvolvida para integrar a estética arquitetónica desta que foi uma Estação Agronómica Nacional com uma área nova que permitiu a expansão do espaço inicial.
Equipa multidisciplinar é palavra-chave desta nova unidade e provavelmente a que mais ouvimos nas conversas com os vários profissionais. Do primeiro ao último dia, o plano individual de cuidados do doente é uma construção partilhada entre psiquiatras, médicos de outras especialidades, enfermeiros, psicólogos e outros técnicos. A decisão de internar é naturalmente do psiquiatra bem como a responsabilidade cimeira pela gestão do caso, mas é o doente que está no centro de tudo, fazendo-se todas as pontes necessárias a cada momento com os outros profissionais.
Rodrigo Cabrita
O doente pode chegar ao Hospital do Mar por sua iniciativa, através do Serviço Luz 24, (217 104 424) referenciado por colegas de outras unidades ou mesmo de consultórios particulares. Estão também previstos internamentos para descanso do cuidador. A única diferença para um internamento público é que, à luz da Lei de Saúde Mental, a admissão do doente tem de ser sempre voluntária.
Maria João Heitor conseguiu reunir uma equipa de psiquiatras experientes e a ideia é que todos acompanhem os doentes, certos de que a soma do que observam e decidem será sempre maior do que conseguiriam individualmente. João Data Franco, André Delgado e Rita Avelar são alguns dos psiquiatras que conhecemos na visita ao Hospital do Mar e que partilham connosco a sua visão destes primeiros meses de atividade.
Contudo, André Delgado reconhece que a decisão de internar continua a ser difícil para doentes e famílias, sobretudo no caso de pessoas mais jovens e com uma vida profissional. Mas até nestes casos já foi possível encontrar situações em que o doente continuou, a partir do seu quarto, a conseguir manter parte da sua atividade profissional em teletrabalho.
Impacto no PIB
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Os custos totais associados aos problemas de saúde mental em Portugal foram estimados em cerca de 3,7 % do PIB, sendo mais de 40 % desses custos atribuídos à redução da participação e da produtividade no mercado de trabalho, segundo a OCDE. (2)
Ainda há muitos estigmas na saúde mental que importa trabalhar, corrobora Maria João Heitor. Uma pessoa com patologia mental tem uma esperança média de vida 10 a 30 anos mais curta, seja por nem sempre conseguirem manter os autocuidados necessários, seja porque no contexto dos cuidados de saúde a doença mental acaba por prevalecer em relação a outras queixas. Esse foi, aliás, um dos motivos para esta unidade de Internamento nascer num hospital com outras valências. “O doente é olhado como um todo e se houver necessidade de responder a uma infeção urinária, a uma descompensação respiratória ou metabólica temos aqui os meios para isso, com o apoio da medicina geral e familiar e da medicina interna”, acrescenta.
11,8%
Carga global das doenças em Portugal que é atribuída às perturbações mentais e do comportamento, um valor que supera as doenças oncológicas (10,4%) e que apenas é ultrapassado pelas doenças cérebro-cardiovasculares (13,7%) (3)
Aqui não há doenças, há doentes. Ou, melhor, pessoas com doença. Os rótulos não entram neste hospital e o foco é sempre a pessoa e as suas características, necessidades e expetativas individuais. Talvez por isso, quando a equipa recorda os casos que por aqui passaram, o diagnóstico não seja o ponto central. Focam-se antes na situação de dependência com que aqui chegaram, e o retomar de uma nova vida, mais autónoma, lá fora, que foi possível devolver.
O psiquiatra lembra que este trabalho exige uma articulação muito estreita com as famílias e com a equipa de enfermagem que acompanha o internamento 24 horas por dia. “O internamento traz o alívio de um novo plano detalhado e claro”, explica, recordando casos de sucesso, como um doente que entrou acamado e saiu pelo seu próprio pé para viver sozinho. “O plano de alta é feito com muita segurança, sabendo quais são os aspetos determinantes, bem como os sinais de alarme que obrigam a que o doente tenha de voltar”, afirma.
Consumo de psicofármacos
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O consumo de psicofármacos em Portugal é mais elevado do que na maioria dos outros países da UE. Este crescimento acelerou nos últimos anos, resultando num aumento de 45 % entre 2017 e 2022, indica a OCDE. (2)
Para Rita Avelar, a partilha dos casos entre psiquiatras “é muito estimulante”. “Aprendemos muito uns com os outros sobre as patologias e os fármacos, até porque esta é uma área em que nem tudo está bem estabelecido a nível científico”, recorda. “Acreditamos que a passagem pelo Hospital do Mar representa um ponto de viragem na recuperação e na estabilização clínica do doente, com uma abordagem abrangente, que olha para o lado biológico, psicológico e social e em que a pessoa sai com todas as suas necessidades atendidas”, destaca, lembrando o caso de um doente que começou por ir a casa apenas aos fins-de-semana, até poder ter alta, sendo que durante o internamento conseguiu tratar da sua aposentação e preparar-se para a nova fase. Agora, continua a ser acompanhado no Hospital da Luz, nas suas consultas de rotina.
A prova de que a equipa se completa com sintonia e alinhamento está na forma como respondem ao desafio de indicarem as três palavras que escolhem para definir o papel do psiquiatra e as três características que atribuem a este novo internamento. Para Maria João Heitor o psiquiatra é “apaixonado (pela natureza humana), profundo e ouvinte”. André Delgado acrescenta “curiosidade, partilha e responsabilidade” e João Data Franco destaca “transparência, competência e tempo”. Rita Avelar fecha o desafio com “amor (capacidade de aceitar o outro como é), propósito e alegria”.
Quanto ao serviço, Maria João Heitor assegura que é “humanizado, seguro e personalizado”, o que para André Delgado só é possível com “inovação, multidisciplinariedade e espírito de equipa”. “Equipa” é aliás uma palavra repetida por João Data Franco, à qual soma “diagnóstico e tratamento”, num exercício que Rita Avelar remata com “conhecimento, experiência e excelência”. Bem-vindos ao Hospital do Mar, pronto para navegar a mente humana.
Fontes utilizadas
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1 – Almeida, J., Xavier, M., Cardoso, G., Pereira, M., Gusmão, R., Corrêa, B., Gago, J., Talina, M. & Silva, J. (2013). Estudo Epidemiológico Nacional de Saúde Mental. 1. º Relatório. World Mental Health Surveys Initiative: Lisboa.
2 – OECD/European Observatory on Health Systems and Policies (2023). Portugal: Perfil de saúde do país 2023, State of Health in the EU. OECD Publishing, Paris/European Observatory on Health Systems and Policies, Brussels. ISBN 9789264362321
3 – Direção-Geral da Saúde/Direção de Serviços de Informação e Análise (2014). Portugal: Saúde Mental em números – 2014. Portugal. ISSN: 2183-0665
Este texto faz parte do conjunto de reportagens “Por detrás dos cuidados”, no âmbito do projeto “Redes Mentais”.