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Bruno Mascarenhas é, pela primeira vez, cabeça de lista numa eleição
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Bruno Mascarenhas é, pela primeira vez, cabeça de lista numa eleição

LUSA

Bruno Mascarenhas é, pela primeira vez, cabeça de lista numa eleição

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Um Ventura de cartão, evitar lojas de indostânicos e a força da "marca Chega". Os primeiros dias do estreante Bruno Mascarenhas na rua

Candidato do Chega a Lisboa está “surpreendido” com a quantidade de pessoas que o têm reconhecido nas ruas. Aposta tudo em ser a alternativa anti-sistema: “PS e PSD são a mesma coisa”.

Ainda que seja muitas vezes considerado um partido de um homem só, o Chega ganhou um estatuto entre os lisboetas que sobrevive bem à ausência desse homem. Na capital, o até-agora-quase-anónimo Bruno Mascarenhas tem uma caravana dotada de um orçamento reforçado e lidera uma campanha que quase se faz sozinha. “Têm aí uma bandeirinha? De resto, não precisam de me convencer, porque já estou decidido”, disse um homem com cerca de 35 anos, ao passar pela comitiva em Campolide.

O crescimento do Chega nos últimos anos e a perspetiva de um bom resultado na eleição em Lisboa permitiram ao partido passar da piscina dos pequeninos para a dos grandes, no que diz respeito a gastos com a campanha. Não se ficam pela distribuição panfletos. Há canetas, bandeiras, sacos de pano, t-shirts, bonés, fitas de colocar ao pescoço, além de uma carrinha personalizada com a foto de Bruno Mascarenhas, a posar ao lado do líder do partido. Os brindes são para oferecer às pessoas por quem a arruada passa, mesmo aqueles que não se mostram afetos ao partido.

“O grau de aceitação, em relação a 2021, não tem comparação. As pessoas tiravam a mão quando oferecíamos panfletos”, comenta-se entre os mais próximos do candidato à Câmara de Lisboa. Mas não é apenas a marca Chega que é aceite nas ruas de Lisboa. Bruno Mascarenhas, que se estreia como cabeça de lista em eleições, é reconhecido por alguns lisboetas pela sua presença nos debates transmitidos na televisão. Por outros, é apelidado de “representante” de Ventura e pede-lhe que transmita mensagens de apoio: “Diga ao André para continuar!”

Bruno Mascarenhas e Manuel Nascimento, numa arruada na freguesia de Santa Clara

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Campanha polarizadora recebe mais elogios que insultos

A campanha não tem recebido apenas pedidos para tirar fotos e elogios. Com a arruada no Chega no centro da freguesia de Santa Clara prestes a acabar, um condutor passa de janela aberta e, ao ver as bandeiras brancas, grita: “Chega é merda, são uns filhos da p…”. A situação não é exceção, mas a caravana do partido não parece especialmente afetada. “Costumo ouvir coisas destas muitas vezes, mas [também] ouço muito mais vezes: ‘Vou votar em si’”, contou Manuel Nascimento, o candidato a presidente da freguesia, em reação ao momento.

No início da mesma ação de campanha, o mesmo candidato falou abertamente das resistências que o partido enfrenta na rua. Explicou o ponto de encontro da arruada coincidiu com o local da festa de aniversário da junta de freguesia porque aquele era “o local mais seguro” para o fazer. “Nós estamos entre bairros sociais, nomeadamente habitados por pessoas que poderão não estar de acordo com aquelas que são as políticas do Chega.” De maneira geral, as arruadas do partido evitam bairros sociais e as zonas mais pobres das freguesias lisboetas.

Ainda assim, os 15 a 35 militantes que se têm juntado normalmente nas ações que varrem as ruas da cidade vão tentando interagir com quase todos aqueles por quem passam. Apostam em garantir votos em cafés, minimercados, cabeleireiros, sapatarias e outras lojas locais. “Pelo menos desde que existem, é em vocês que a gente vota”, disseram dois trabalhadores de uma oficina em Campolide. “A malta que verga a mola, esses, por norma, são Chega”, comenta de imediato Bruno Mascarenhas.

No entanto, a caravana também tenta convencer pessoas de grupos sociais que o partido tem acusado de não trabalhar e gozar abusivamente de apoios sociais. São oferecidos brindes a imigrantes indostânicos e ciganos – nem sempre com o melhor resultado.

Ainda em Campolide, uma mulher de etnia cigana carregava pelo braço uma idosa quando interpelou a comitiva do Chega: “Olha uma cigana a trabalhar para ajudar uma branca”.  Bruno Mascarenhas aproxima-se e ouve a mulher a dizer que “André Ventura é muito racista”. “Não diga isso”, responde o candidato, tentando serenar os ânimos, enquanto outros militantes procuram oferecer um saco de pano como o logótipo do Chega. As partes afastam-se sem concórdia possível e a mulher cigana grita de longe: “O Chega é o pior partido de todos”. “E a pior raça, qual é?”, responde uma voz do partido.

O presidente do Chega, André Ventura, intervém durante a cerimónia de apresentação do candidato à Câmara Municipal de Lisboa Bruno Mascarenhas (ausente na fotografia), às eleições autárquicas de 12 de outubro, em Lisboa, 28 de julho de 2025. ANTÓNIO COTRIM/LUSA

André Ventura na apresentação da candidatura de Bruno Mascarenhas

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

Mascarenhas “surpreendido” com estreia em campanha

Bruno Mascarenhas foi durante mais de 30 anos militante do CDS. Depois de se desvincular dos democratas cristãos, foi o número dois na lista do Chega à Assembleia Municipal de Lisboa, em 2021. Sem ter conseguido eleger vereadores para o executivo municipal e com a saída do cabeça de lista da eleição à AML para o Parlamento, o partido agarrou-se a Mascarenhas como o seu principal rosto na capital.

Sem intervenção no executivo da câmara, o deputado municipal não conseguiu atrair para o nível local, a crescente atenção dada ao Chega, a nível nacional. Tentou fazê-lo recentemente apresentando uma moção de censura a Moedas, na sequência do acidente do Elevador da Glória, ou utilizando expressões como “invasão” para descrever o aumento da imigração na capital. A presença nos debates para a eleição de dia 12 trouxe-lhe tempo de antena como nunca tinha tido. “Estou surpreendido com o facto de tanta gente me reconhecer. Acho que alguma coisa de bom estamos a fazer”, disse sobre a sua estreia como cabeça de lista.

Como estratégia tem apostado tudo em ser a alternativa anti-sistema a Moedas e Leitão. “Porem a cruz no PSD ou a cruz no PS é exatamente igual. Isso é notório naquilo que tem sido a política da cidade há tantos anos. Têm as mesmas ideias na mobilidade, na higiene urbana, na habitação, não há alterações. Não vale a pena nós estarmos aqui a falar em cenários”, disse quando questionado se um bom resultado do Chega podia significar o regresso do PS à liderança da Câmara. “Há dois tipos de voto: o voto no sistema e o voto na rutura”, acrescentou Mascarenhas. Uma das estratégias que utiliza para exemplificar a ideia é o caso Tutti-Frutti, em que diz ter ficado evidente a “combinação entre o PS e o PSD para governarem a cidade”.

O líder da bancada parlamentar Pedro Pinto na campanha do Chega, em Lisboa

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(In)segurança e Imigração

O resto da campanha do Chega é feita à volta de dois temas principais: segurança e imigração. Bruno Mascarenhas tem querido ditar o tom na discussão sobre imigração em Lisboa, deixando para Carlos Moedas a posição de quem apenas seguiu a sua deixa. Depois do presidente da Câmara ter dito que foi o “primeiro político” a falar sobre o tema em Portugal, o deputado municipal do Chega disse que concordava com Moedas, mas apenas para aproveitar a deixa e lhe dizer foi “o primeiro a abrir as portas da cidade de Lisboa à imigração e a pedir para que viessem cada vez mais pessoas” promovendo “uma cidade livre e multicultural”.

Mascarenhas faz questão de dizer que algumas das suas medidas como a promoção da construção de 4.500 novos fogos na cidade ou o programa de formação para profissões com 100% de empregabilidade são medidas “para portugueses“. Não exclui, porém, que brasileiros e africanos dos PALOP possam também beneficiar delas por serem “povos irmãos”.

A questão da imigração é também muitas vezes associada pelo partido à criminalidade. No final de uma arruada no Bairro Alto, Mascarenhas ouve as queixas de insegurança de uma residente: o seu prédio foi assaltado recentemente. “Quem é que o está a assaltar? É gente nossa ou…?”, perguntou à mulher de cerca de 45 anos, que disse não fazer ideia da nacionalidade dos assaltantes. Minutos antes, enquanto caminhavam nas ruas íngremes deste bairro evitam entrar numa loja de souvenirs. “Este é paquistanês, só pode ser”, alguém comenta na caravana. Metros à frente, vêm uma nova loja, e pelo aspeto da fachada vão em direção à porta: “Este é comércio tradicional, este é nosso“.

Na freguesia das Avenidas Novas, a arruada do Chega fez-se entre as Ruas da Artilharia 1 e Rua Castilho, na margem do Parque Eduardo VII. Pedro Bandeira Duarte, o candidato à freguesia, assinala que, durante a noite, as esquinas destas ruas tornam-se um dos centros de prostituição da cidade. Diz que a Câmara aprovou a instalação de câmaras de videovigilância no local, que ficaram até agora por instalar. Caminhando num quarteirão com muita habitação e pouco comércio, a comitiva do Chega vê um restaurante do outro lado da rua. “O Buzina foi assaltado duas vezes esta semana? Vamos!”, afirmou Bruno Mascarenhas.

Carrinha da campanha de Bruno Mascarenhas em Lisboa, posando ao lado de André Ventura

Ausência de Ventura não belisca

Toda esta primeira semana de campanha oficial foi feita em Lisboa sem que André Ventura estivesse presente. O líder do Chega faltou aos primeiros dias da campanha autárquica por motivos pessoais e a sua aparição na capital está prevista para este sábado, na apresentação do programa eleitoral de Mascarenhas. Ainda assim, a figura máxima do partido nunca fica de fora das ações de campanha.

Vários são os que se aproximam das bandeiras brancas com logótipo do Chega para perguntar: “Está aí o Ventura?” ou “Onde é que está o líder?” Para quando este está ausente, a caravana do Chega tem uma imagem de André Ventura em tamanho real para os militantes poderem tirar fotos. Na apresentação da candidatura à freguesia da Ajuda, feita no largo da Igreja da Memória, uma rajada forte de vento abalroou uma banca montada para distribuir panfletos e brindes. Numa tenda, alguns metros atrás, a versão de cartão de André Ventura não se tinha mexido. “Está tudo bem. O André está de pé!”, festejaram os militantes na audiência.

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