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Anabela Rosas Trindade

Anabela Rosas Trindade

Uma companhia real(mente) velha. São mais de dois séculos de vinho do Porto

Fundada no tempo dos reis, a Real Companhia Velha celebra 260 anos de vida com um vinho do Porto do século XIX. Viagem à história de uma empresa tão antiga como a própria Região Demarcada do Douro.

    Índice

A empresa de vinhos que o rei criou

“Cheira a história”, atira um jornalista enquanto percorre as paredes esverdeadas e o mobiliário de madeira escura da sede da Real Companhia Velha, em Vila Nova de Gaia. A expressão é figurativa: neste caso, a história não tem cheiro, antes tato e admiração. Suspenso na parede está o mapa original da primeira região demarcada e regulamentada do mundo, o Alto Douro Vinhateiro, uma peça única recentemente restaurada. Ao lado, a repousar na mesa de tanta que é a velhice, fica o icónico alvará régio da empresa, despacho assinado pelo rei D. José I a 10 de setembro de 1756 (o mesmo dia, mês e ano da criação da Região Demarcada do Douro). A Real Companhia Velha (RCV) está para a histórica demarcação como um cacho de uvas está para o vinho.

São 260 anos de vida. Mais de dois séculos e infindáveis gerações que têm vindo a acompanhar a persistência no tempo daquela que é tida como a empresa mais antiga do país. A RCV nasceu em meados do século XVIII como Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro — só ficou conhecida como Real Companhia Velha no final do século XIX de modo a distinguir-se de uma outra, de nome Real Companhia Vinícola do Norte –, promovida pelo Marquês de Pombal com a missão de estabelecer a Região Demarcada do Douro e organizar o sector do vinho do Porto. À data, a ideia era limitar a influência dos ingleses no comércio do vinho licoroso e fortificado, considerado a bebida embaixadora de Portugal. Para isso a RCV construiu estradas e pontes na região, cobrou impostos em nome do Estado e esteve no principio da história que viria culminar no ensino universitário do Porto. Acima de tudo, ajudou a cuidar do vinho do Porto ao longo do tempo para que o néctar chegasse hoje às nossas mãos com fama e fortuna.

O rei D. José I assinou o alavará régio que fundou a RCV. © Anabela Rosas Trindade

Anabela Rosas Trindade

Longe vai o tempo dos reis e de longas travessias de barco para fazer chegar o vinho do Porto a outros destinos que não os copos lusos. De lá para cá, a Real Companhia resistiu às águas em tempos agitadas do rio Douro e assistiu à modernização da viticultura. Mais, ganhou fama com o popular Porca de Murça, cuja colheita de 2013 foi considerada a proposta mais acessível entre uma centena de vinhos escolhidos pela revista Wine Spectator no ano passado, e dá também selo de qualidade e garantia às já centenárias marcas de vinhos Grandjó e Evel.

A Real Companhia Velha está no mercado há 260 anos e, ao todo, tem mais de 500 hectares de vinhas espalhados por cinco quintas na região vinhateira do Douro. 

No mercado há 260 anos, a empresa conta com quase 200 colaboradores que ajudam a exportar 65 por cento do negócio para 45 países. E, ao todo, são 550 hectares de vinha distribuídos por cinco quintas: Quinta das Carvalhas, onde no alto de uma colina, a 550 metros de altitude, está a “Casa Redonda” que permite uma volta de 360 graus sobre o Douro; a Quinta do Cidrô, com um belo palácio e jardins envolventes; a Quinta Casal da Granja, situada no planalto de Alijó, no coração da maior mancha da casta Moscatel Galego; a Quinta do Síbio onde, a partir da vindima de 2016, vão nascer os primeiros vinhos com o selo 100% biológicos e a Quinta dos Aciprestes, que se estende por mais de dois quilómetros na margem esquerda do rio Douro.

A Quinta do Síbio onde, a partir da vindima de 2016, vão nascer os primeiros vinhos com o selo 100% biológicos. © Ana Cristina Marques/Observador

Três gerações, um sonho

Façamos um salto no tempo: é só na década de 1960 que Manuel da Silva Reis adquire o controle da RCV e dá, assim, início a um processo de renovação dentro da empresa. “O meu pai era o típico self made man, com origens relativamente humildes mas ambicioso”, começa por dizer Pedro Silva Reis, o 27º presidente da Junta da Administração da firma. É ele quem conta ao Observador que o homem responsável pela RCV como a conhecemos hoje era descrito como disciplinado e determinado, e que começou a trabalhar nas empresas vinícolas de Vila Nova de Gaia ainda na adolescência. Manuel da Silva Reis era o moço de recados mas também o estudante noturno que acabaria por se tornar no homem viajado com seis idiomas na ponta da língua sempre que preciso.

A carreira de gestor foi mérito próprio que o acompanhou durante toda a vida. Depois de fixada a base de trabalho em Amesterdão, logo após a Segunda Guerra Mundial, Manuel da Silva Reis arregaçou as mangas e construiu uma carteira invejável de clientes ligados à indústria do vinho do Porto — tão invejável que o nome de família tornou-se referência em Gaia. O auge do sucesso bateu à porta no momento em que o comerciante adquiriu a firma então centenária Miguel Sousa Guedes, onde já antes tinha trabalhado com 13 anos de idade.

Pedro Silva Reis é o atual presidente da RCV. © Anabela Rosas Trindade

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“O proprietário não tinha sucessores e propôs-lhe que ele desse seguimento à empresa. A partir daí interessou-se pela RCV, que estava dormente, e em 1960 adquiriu o seu controlo. A RCV tinha uma rival [a Real Companhia Vinícola do Norte, dedicada à promoção dos vinhos de mesa] que ele também adquiriu”, conta o filho, acrescentando que o pai tornou-se à época o homem forte de mais de uma dezena de empresas, alcançando assim uma meta impressionante: em 1974 chegou a deter 25 por cento do mercado do sector vinícola, ainda que o império financeiro tenha sofrido um revês e tenha ido para intervalo com a chegada do 25 de abril e consequente ocupação.

"O meu pai era fundamentalmente apaixonado pela terra. Era um homem de vinhos porque provava muito bem, conhecia os vinhos do mundo. E era grande apreciador de espumantes. Mas o que o fascinava eram os grandes volumes, ver as marcas de milhões de garrafas."
Pedro Silva Reis, presidente da Real Companhia Velha

O negócio foi sempre voltado para o vinho fortificado, mas Manuel da Silva Reis não era o habitual amante de vinhos. O nariz tinha fama de ser dono de uma memória olfativa sem igual, que fazia dele um grande provador, mas o néctar que tanto sucesso lhe deu era estima de comerciante e não de enófilo. A paixão, essa, ficou para os aviões que gostava de pilotar e para os carros que chegou a conduzir.

“O meu pai era fundamentalmente apaixonado pela terra. Era um homem de vinhos porque provava muito bem, conhecia os vinhos do mundo. E era grande apreciador de espumantes. Mas o que o fascinava eram os grandes volumes, ver as marcas de milhões de garrafas”, recorda o atual presidente, que tem uma posição diferente em relação ao néctar. Para isso terá ajudado o facto de Pedro Silva Reis ter crescido no meio do vinho e de ser preparado desde muito novo para a sucessão: tanto ele como os irmãos receberam essa educação e formação, pelo que nunca lhe passou pela cabeça fazer outra coisa que não liderar a empresa que sempre conheceu. Mas antes de passar por todas as etapas na firma até chegar ao topo, Pedro Silva Reis passava férias no Douro, onde ainda tem uma casa de férias, e ajudava nas vindimas.

Na fotografia é possível ver Jorge Moreira, o enólogo, e Pedro Silva Reis pai e filho. © Anabela Rosas Trindade

Anabela Rosas Trindade

Discurso semelhante é o de Pedro Silva Reis filho (neto de Manuel da Silva Reis), que aos oito anos de idade cheirava e levava à boca o primeiro vinho (Evel Grande Escolha 1997) para, ao primeiro gole, torcer o nariz e franzir as sobrancelhas. Pedro ainda se lembra: foi o pai que, sentado à mesa de refeições na Quinta das Carvalhas, lhe estendeu o copo. A ideia era só encostar o nariz, mas o rapaz foi mais longe e bebericou aquilo que, à data, pensou nunca vir a gostar. Hoje conta divertido que o Evel é um dos seus vinhos preferidos, não só porque 1997 foi um grande ano, mas porque aquele é o perfil de vinho que mais lhe apraz: o Douro clássico envolto numa garrafa de vidro.

A ligação aos caseiros era coisa séria e Pedro Silva Reis, o filho, até recorda que o caseiro da Quinta do Cidrô era Xico Zé Chardonnay de alcunha, não só por uma questão de rima, mas porque a branca Chardonnay era a casta de que o pai mais falava quando se deslocava àquela quinta.

Aos 25 anos que já parecem 30 ou mais, Pedro Silva Reis recorda com saudosismo os encontros de família no Douro e as férias de verão que passou com o irmão (22 anos) e os dois primos (de 23 e 27) na companhia do caseiro da Quinta das Carvalhas: o quarteto seguia o Zé da Graça de um lado para o outro, por vezes das cinco da manhã até às cinco da tarde. Durante o turno havia rega para ligar e desligar, vinhas para podar ou vindimas nas quais trabalhar. A ligação aos caseiros era coisa séria e Pedro até recorda que o caseiro da Quinta do Cidrô era Xico Zé Chardonnay de alcunha, não só por uma questão de rima, mas porque a branca Chardonnay era a casta de que o pai mais falava quando se deslocava àquela quinta.

Atualmente, Pedro da Silva Reis está encarregue do marketing da empresa, coisa que faz de sorriso no rosto e aperto de mão reforçado pela confiança que parece ser traço de família. Avô, pai e neto são os rostos de três gerações que ajudaram a moldar um só sonho de décadas.

A Real Companhia Velha é composta por cinco quintas, todas no Douro. © Anabela Rosas Trindade

Anabela Rosas Trindade

O vinho que assistiu a duas guerras mundiais e se pode beber agora

O som da harpa ecoa por entre os barris de grandes dimensões. Estamos nas caves da Real Companhia Velha, em Vila Nova de Gaia, e no final de um amplo corredor uma mulher a quem não chegámos a perguntar o nome desliza os dedos pelo instrumento musical que, acorde após acorde, transporta-nos até ao século XVIII. Há figurantes de peruca armada e fatiotas a condizer que ajudam a recriar o cenário de apresentação da nova aposta da Real Companhia Velha: ei-lo, em cima da mesa e diante de um retrato XXL do rei D. José, o tão aguardado vinho do Porto com mais de 100 anos. O mais velho da casa.

O Carvalhas Memories nasceu da colheita de 1867 na Quinta das Carvalhas, uma das cinco da empresa, para chegar ao mercado com um valor de 2.750 euros. Sim, são quase 3 mil euros para cada uma das 260 garrafas que pretendem ajudar a celebrar 260 anos de história. Nada leva a crer que se tratam de 149 anos de estágio: nem a cor, o olfato ou o sabor. Para isso talvez conte o facto de o vinho ter sido refrescado com uma pequena quantidade da colheita de 1900.

"O vinho do Porto tem a particularidade de ter duas vidas. Aos 80 anos ganha cor outra vez, começa a escurecer, começa a sua segunda vida."
Jorge Moreira, enólogo da Real Companhia Velha

O vinho do Porto "Carvalhas Memories" nasceu da colheita de 1867. © Ana Cristina Marques / Observador

Ana Cristina Marques / Observador

Numa primeira fase o vinho “dormiu” nas pipas então pertencentes à firma Miguel de Sousa Guedes e só mais tarde, em meados do século XX, rumou ao cuidado das sucessivas gerações de mestres de cave da RCV. É uma memória viva, dizem-nos durante o evento de apresentação do very old tawny: o vinho assistiu impávido e sereno, no interior da barrica, à implantação da República Portuguesa, ao início e fim de duas guerras mundiais, à revolução dos cravos e à queda do muro de Berlim. Já estava cá fora, porém, quando viu Donald Trump ganhar as eleições presidenciais nos EUA no passado dia 9 de novembro.

Agora, fora das barricas, a espera é outra. A garrafa que guarda o néctar secular é de cristal da Vista Alegre e apresenta um formato em muito semelhante aos primeiros exemplares da RCV — é produzida de modo artesanal e decorada a tinta ouro. Já a caixa que a protege de olhares alheios foi folheada a pau-rosa, considerando a presença da firma em terras brasileiras, e vem acompanhada por uma reprodução em formato miniatura do alvará régio da RCV, concebido em papel pergaminho. “Depois de provarem o Memories tudo perde a graça”, brinca o presidente Pedro Silva Reis. Já Jorge Moreira, o enólogo da casa, fala em intensidade e, ao mesmo tempo, em frescura, duas características dificilmente associadas a um néctar que, em muitos casos, já deveria estar reformado.

“O vinho do Porto tem a particularidade de ter duas vidas”, acrescenta o enólogo. “Aos 80 anos ganha cor outra vez, começa a escurecer, começa a sua segunda vida.”

O Observador viajou para o Douro a convite da Real Companhia Velha.

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