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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

V.E. Schwab: "Os vampiros estão entre o terror e o romance, entre o medo e a sedução, entre a repulsa e a atração"

Pode um livro sobre mulheres vampiras lésbicas ser ao mesmo tempo uma obra altamente pessoal? V.E. Schwab, uma das autoras de fantasia mais bem sucedidas do mundo, mostra que sim. Entrevistámo-la.

Apesar da longa e folclórica iconografia, quando se pensa num vampiro é difícil que a mente não vagueie de imediato para a figura de Drácula, quer na sofisticada e sedutora idealização masculina de Bram Stoker, quer na iteração grotesca enquanto Conde Orlok de Nosferatu. A sua canonização como representação por excelência da criatura sugadora de sangue, no entanto, fez esquecer que, antes mesmo de Stoker, já o irlandês Joseph Sheridan Le Fanu fixara em Carmilla o arquétipo do lendário monstro no feminino. 153 anos depois, V.E. Schwab quis recuperá-lo, questionando porque razão só os homens aparentemente têm direito a tal voracidade.

“Só queria mesmo ver o que acontece quando tratamos a ambição feminina da mesma forma que a masculina, ou seja, incentivando-a”, conta a escritora norte-americana ao Observador. No 25.º livro, Enterrai os Nossos Ossos no Solo da Meia-Noite, três mulheres em três períodos históricos distintos, quer por escolha, quer por fatalidade, tornam-se vampiros: todas elas, contudo, abraçam a transformação e dão largas aos seus anseios, pretendem saciar a fome — um conceito central neste romance, com tudo de bom e de mau que isso acarreta. “As minhas personagens são forçadas a abandonar o seu antigo eu, mas, em troca, podem viver o seu verdadeiro eu”, argumenta — não querendo, contudo, com isto, defender o comportamento de vilania, por vezes altamente repreensível, destas protagonistas.

“Não acredito na pura maldade nem escrevo sobre isso, mas sobre as forças antagónicas dentro de nós, sobre o que acontece quando as ignoramos, sobre o que acontece quando lhes damos total liberdade e sobre como a melhor coisa a fazer provavelmente está algures no meio, na moderação”, alerta.

As suas trilogias Vilões e Sombras de Magia — assim como os seus romances para jovens adultos, assinados como Victoria Schwab — criaram uma comunidade de leitores, mas tudo mudou com A Vida Invisível de Addie LaRue, de 2020. Tendo por base uma jovem francesa do século XVIII que faz um pacto com o diabo para viver para sempre mas com a maldição de toda a gente se esquecer dela, o livro — encontra-se neste momento a ser adaptado para o cinema — projetou-a para um patamar de popularidade e reconhecimento inteiramente novos. Exemplo disso foi que o seu evento de assinatura de autógrafos em Lisboa representou uma enchente com horas de espera.

No entanto, Schwab encarou esse novo estatuto como uma responsabilidade para ser mais desafiante e não para encostar-se em fórmulas facilitistas. Exemplo disso é que neste seu romance, lançado durante o verão, as três protagonistas são todas elas lésbicas — decisão que tanto poderá deliciar parte dos seus fãs como alienar outra ou afastar potenciais leitores. A escritora — que se assumiu homossexual em 2020 — reconhece-o sem pejo: “Este é um livro que realmente espero que agrade às pessoas heterossexuais, mas não é para elas. Escrevi 24 livros para todas as outras pessoas, este é para mim e para a minha comunidade.”

A relação entre vampirismo e a identidade queer, de resto, é algo que também está presente desde a génese deste género literário: a própria Carmilla de LeFanu é uma vampira lésbica. “Se pensarmos nisso, a transição de humano para vampiro é uma espécie de ‘saída do armário’, é a morte de um antigo eu e a encarnação de um novo eu”, aponta a autora.

Ao longo desta conversa são abordados vários temas de cariz social e político, algo que é indissociável da próprio género literário de fantasia, que historicamente abordou estas questões de forma mais ou menos metafórica. Também é por isso que Schwab reclama que este tipo de ficção — tal como aquilo que se tende a chamar “ficção de género” — seja encarada com o mesmo respeito que o tipo de narrativa mais literária que vence prémios. Até porque surgiu primeiro: “A fantasia antecede a ficção realista por muito tempo e, ainda assim, por alguma razão, em algum momento, criámos essa hierarquia”.

▲ Capa de "Enterrai os Nossos Ossos no Solo da Meia-Noite", de V.E. Schwab, na edição portuguesa da Minotauro

Sem querer revelar muito da trama, Enterrai os Nossos Ossos no Solo da Meia-Noite tem três protagonistas femininas homossexuais em três períodos temporais distintos que acabam por tornar-se vampiras. Partindo apenas desta premissa, quais foram os temas que procurou explorar com este romance?
Queria explorar a fome em geral, mas aplicada especificamente a mulheres ou pessoas com aparência femme ou pessoas queer. É um conceito muito interessante, porque pode ser literal, podemos ter fome de comida, mas também podemos ter fome de sexo, de amor, de tempo, de conhecimento, de liberdade ou de ocupar espaço no mundo. Mas demonstrar essa fome, essa ânsia, é algo que é bem-vindo para certas pessoas e desencorajado para outras. E acho que as mulheres, especialmente as mulheres queer, são ensinadas a pouco ou nada ansiar pela satisfação das suas necessidades, quanto mais pela dos seus desejos. E eu queria explorar o que acontece quando se permite que as mulheres sintam essa fome.

Dos chamados “sete pecados mortais”, três deles — a gula, a luxúria e a ganância — podem ser encarados como fome por coisas diferentes. A fome é também vista como algo imoral?
Sim, acho que é e que não deveria ser, porque o que a torna imoral é o excesso. Mas muitas vezes não somos encorajadas sequer a sentir um volume normal de fome, certo? As mulheres são ensinadas a apequenar-se, a querer menos, a precisar de menos, a conformar-se constantemente com as expectativas da sociedade. Fazemos isso tão bem que nos policiamos umas às outras. Quando vemos outra mulher a agir de forma ambiciosa, a agir com demasiada avidez, a ter demasiados desejos, rejeitamo-la. Eu só queria mesmo ver o que acontece quando tratamos a ambição feminina da mesma forma que a masculina, ou seja, incentivando-a.

Lord Ruthven: o vampiro de John William Polidori foi inspirado em Byron

Essa diferença entre a fome feminina e masculina é também parece interessante quando associada ao conceito de um vampiro. Porquê?
Por norma, nas histórias de vampiros, as mulheres tendem a ser a refeição, e eu realmente queria tornar as jovens queer deste romance livres. Por isso, passei muito tempo a questionar-me o que é a liberdade. E percebi que é ser livre do medo, porque quando nos movemos pelo mundo, muitas vezes somos tratadas como presas. Um vampiro é um predador. Perguntei-me “o que acontece quando não temos de ter medo do mundo, mas o mundo tem de ter medo de nós?”. É um nível de poder que nunca conseguimos ter e, nesse sentido, os vampiros são perfeitos para isso. Eles representam também uma interseção entre o terror e o romance, entre o medo e a sedução, entre a repulsa e a atração. São tantas coisas que não são facilmente definidos como uma única. E são também canonicamente queer. Se voltarmos atrás e olharmos para as fundações literárias dos vampiros, eles representam uma rejeição da conformidade, dos binários de género, dos binários sexuais, em geral dos binários e normas sociais. Por isso, são uma espécie de veículo perfeito para a história que eu queria contar.

"Eu assumi-me aos 27 anos. Nunca me apaixonei por um homem, detestava beijar homens, apaixonei-me por várias raparigas e, mesmo assim, até aos 26 anos continuei a achar que era heterossexual. Quando se é opaco consigo mesmo, nada torna as coisas claras. Eu queria escrever a María como uma personagem envolta em opacidade, ela não tem noção, tudo o que sabe é que é infeliz. Fui infeliz durante 26 anos e não conseguia perceber porquê."

E, no que diz respeito a essa ideia da interseção entre terror e romance, ambos têm algo muito físico em comum, que é a emoção, a palpitação.
Sim, acho que é um aspeto integral. Quero dizer, a emoção está na perseguição, na caçada, mas, mais uma vez, essa emoção pertence ao caçador e não à presa. E, tradicionalmente, as mulheres têm sido as presas. Há um momento no livro em que uma das personagens, Alice, precisa de comer alguém pela primeira vez e ela escolhe um homem. E então, coloca-se numa situação por norma muito insegura para jovens mulheres, algo que foi ensinada durante toda a sua vida a não fazer. E ela tem aquele momento reflexivo de ter medo, seguida da perceção radical de “espera aí, não preciso ter medo dele, ele é que precisa ter medo de mim”. É o momento em que ela passa de presa a predadora. E há um poder incrível em tornar-se a predadora quando a sociedade sempre fez de alguém a presa.

Outra das personagens, María, tem como cenário narrativo a Espanha do século XVI, que tem muitas semelhanças culturais e históricas com a nossa própria história como portugueses. O que encontrou nesse período e lugar que considerou ideal para contar esta história?
Bem, para mim, o cenário é sempre uma personagem. Uma das minhas maiores frustrações como leitora é quando encontro personagens que não parecem ter nascido num lugar, quando se apresenta um cenário e a personagem parece que paira sobre ele, sem realmente integrar-se.

Como se estivesse a atuar em frente a um cenário de cartão?
Exatamente, torna-se apenas decoração. Quer se ame o sítio de onde se veio ou se queira rejeitá-lo, todos nós somos o produto de um lugar. Portanto, quando estou a construir uma personagem, uma das primeiras coisas que abordo é de onde ela veio. Assim sendo, escolhi Santo Domingo de la Calzada, numa rota de peregrinação [para Santiago de Compostela], porque pensei no efeito que isso teria numa jovem, ficar constantemente presa num lugar, a ver outras vidas irem e virem, e como isso dar-lhe-ia uma espécie de fome pelo mundo exterior. E escolhi este período porque, como é óbvio, não só foi profundamente religioso e extremamente patriarcal, como também foi um tempo em que faria sentido que María nem sequer se apercebesse que era gay, porque ela está a tentar libertar-se de vários níveis de restrição. O seu primeiro pensamento é “preciso de sair deste lugar” e o seguinte é “preciso de sair deste casamento”. Ela está constantemente a subir a parada e a perceber que, na verdade, precisa de uma mudança muito maior.

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▲ Drácula a aproximar-se de uma Lucy Weston adormecida na adaptação de 1931 do clássico de Bram Stoker. "Por norma, nas histórias de vampiros, as mulheres tendem a ser a refeição", lamenta V.E. Schwab

John Kobal Foundation/Getty Images

E porquê Espanha?
Porque queria retratar um tipo muito específico de mulher. E não há monólitos, nem todas as mulheres espanholas se comportam assim, tal como nem todas as mulheres francesas se comportam como Addie LaRue. Nesse caso, porém, estava a reproduzir um tipo muito específico de romantismo francês que me parecia uma carta de amor a França, onde passei muito tempo. Mas com María, queria explorar a ideia de que calor não significa ser caloroso ou cordial. Muitas vezes, nós mulheres somos ensinadas a ser cordiais, porque é um sentimento gentil. Eu queria que María fosse uma chama aberta, que tivesse calor e paixão, mas que isso não se traduzisse em suavidade. E, para mim, que tive a sorte de fazer várias digressões por Espanha na última década, senti que essa era uma mulher espanhola, com essa sensação de calor e vitalidade. E adorei dar-lhe um laivo masculino para combinar com isso. Portanto, é esta a combinação do que escolhi: o local por estar na rota de peregrinação, o país pelo temperamento dela e o período histórico pelo contexto em que ela iria crescer — sabendo também que a vida dela iria decorrer ao longo de 500 anos, porque as minhas personagens, mesmo sendo vampiros, apodrecem, e eu precisava de tempo para que duas delas apodrecessem.

Parece-me também que escolheu Espanha neste período porque as histórias de vampiros estão muito interligadas com a Igreja Católica. Além disso, quando pensamos no catolicismo daquela época, temos também ideia de um tempo repressivo. Não mencionou nisso em específico, mas este livro não é também, em grande parte, sobre repressão feminina?
Claro. Quero dizer, há uma razão para Charlotte e Sabine terem de se libertar de sociedades extremamente repressivas, e elas fazem-no de maneiras diferentes. María, que se torna Sabine, está envolta em camadas e mais camadas de repressão social. No caso de Charlotte, há a repressão generalizada da Inglaterra Vitoriana, mas a verdadeira tragédia do seu caso é que tanto a sua família quanto ela sabem que é gay, e a solução ainda assim é aprender a escondê-lo, a negar-se a si mesma. Tanto Sabine quanto Charlotte foram ensinadas a negar-se a si mesmas, para poder conformar-se, para poder sobreviver. Há um momento no início do livro com María e o seu marido em que ela lhe pergunta sobre o seu prazer e ele basicamente responde: “O seu prazer não importa, não tem lugar nesta história”.

Ele diz “o meu corpo é feito para dar e o seu para receber”.
E é assim que as mulheres têm sido vistas! Aliás, neste momento, nos Estados Unidos, é assim que somos vistas. Há por lá todo um movimento para tentar reduzir as mulheres a nada mais do que um recipiente. Portanto, obviamente, mesmo ao fim de 500 anos, não houve um progresso assim tão grande!

"Quando não se pode ter vilões ou heróis queer, o que se está essencialmente a dizer é que personagens queer e, por extensão, pessoas queer, não merecem a mesma nuance e complexidade que as suas congéneres heterossexuais. Este é o problema quanto a esse argumento. Temos de poder ser tudo, pessoas más e pessoas boas e tudo o que há entre elas. Quando só nos é permitido estar na história como heróis, mártires ou personagens secundárias, não somos pessoas, somos meros substitutos para temas."

O que também me parece interessante no exemplo de María, sobre ser homossexual naquela época, é que, como aludiu, “sair do armário” seria, para ela, algo quase impossível. Não só ela não sabe o que isso significa, como também é tão reprimida que é como uma semente que não consegue crescer.
Eu assumi-me aos 27 anos. Nunca me apaixonei por um homem, detestava beijar homens, apaixonei-me por várias raparigas e, mesmo assim, até aos 26 anos continuei a achar que era heterossexual. Quando se é opaco consigo mesmo, nada torna as coisas claras. Eu queria escrever a María como uma personagem envolta em opacidade, ela não tem noção, tudo o que sabe é que é infeliz. Fui infeliz durante 26 anos e não conseguia perceber porquê. E são necessárias pessoas externas, influências externas. No caso da María, é necessária a viúva, que entra na sua vida e diz-lhe “não precisas de ser infeliz, há outra maneira de viver”. Muitos de nós, na comunidade queer, tivemos uma pessoa que entrou nas nossas vidas e nos mostrou uma porta.

A determinado momento do romance, uma personagem diz a uma das protagonistas que algumas pessoas “dão melhores monstros” do que outras. Não acredito que seja uma questão de maldade, porque esse é um conceito muito vago, que depende de cada um. Acho que as pessoas mais monstruosas, ou que tendem a tornar-se assim, são provavelmente as mais feridas. Qual é a sua opinião?
Eu queria ter a certeza de que não estava a fazer afirmações monolíticas. Temos aqui três mulheres lésbicas, mas, tradicionalmente, teríamos apenas uma num livro e essa lésbica teria de representar todas as outras, é “a quota”. Portanto, pensei “bem, aqui temos três” e todas elas são muito diferentes, inclusive no quão aptas são a tornar-se monstros. María é tão singularmente adequada ao que ela é que costumo brincar ao dizer que, se ela não se tivesse tornado numa vampira, teria sido queimada na fogueira como bruxa. Não estava fadada para uma vida longa e feliz como humana — esta é a sua vida feliz. Charlotte poderia ter tido uma vida feliz se Jocelyn tivesse sido corajosa o suficiente para amá-la, mas María já fantasiava em assassinar a sua família muito antes de se transformar numa vampira. Era infeliz e, como referiste, era uma semente sem condições para brotar. Vivia sufocada, e esse sufoco criou muita raiva e muita fome, deixou-a faminta. E, por causa disso, é adequada ao seu novo papel. Isso não a torna “má”. Não acredito na pura maldade nem escrevo sobre isso, mas sobre as forças antagónicas dentro de nós, sobre o que acontece quando as ignoramos, sobre o que acontece quando lhes damos total liberdade e sobre como a melhor coisa a fazer provavelmente está algures no meio, na moderação. Mas vejo María/Sabine como uma catarse. Ela é uma personagem que se comporta mal e permite-nos viver livremente de maneiras que nós não conseguimos.

Mas há provavelmente quem já tenha encarado este livro e esta narrativa específica como uma fantasia de vingança feminina. Tendo isso em mente, e trazendo também outro aspeto para a conversa, como foi este processo tendo em conta que teve de lidar com a ideia de que algumas pessoas considerariam irresponsável criar vilões queer?
Essa é a questão. Quando não se pode ter vilões ou heróis queer, o que se está essencialmente a dizer é que personagens queer e, por extensão, pessoas queer, não merecem a mesma nuance e complexidade que as suas congéneres heterossexuais. Este é o problema quanto a esse argumento. Temos de poder ser tudo, pessoas más e pessoas boas e tudo o que há entre elas. Quando só nos é permitido estar na história como heróis, mártires ou personagens secundárias, não somos pessoas, somos meros substitutos para temas. Além disso, esta não é uma narrativa de vingança, mas é absolutamente uma narrativa sobre mudar a lente, do objeto para o sujeito. Há alguns meses, um entrevistador disse-me “não nos retrata [homens] de uma forma muito positiva neste livro e, nas únicas vezes que somos incluídos, somos como que não muito importantes para a história” e eu respondi “sim, porque é assim que sou sempre retratada num romance de fantasia”, como dispensável. Lá está, como objeto e não como sujeito, o que é uma porcaria! A questão é mesmo essa: ele estava frustrado porque estar nesse papel é horrível, e eu sei disso. Por outro lado, discordo do conceito de que personagens queer não podem ser más. Temos de poder sê-lo. É também por isso que há três lésbicas neste livro; se houvesse apenas uma e ela fosse a vilã, poder-se-ia usar esse argumento [da irresponsabilidade]. Mas eu queria mostrar que não somos um todo homogéneo e que parte de nos humanizar, de nos deixar ocupar um espaço no mundo e na história é permitir-nos desempenhar todos os papéis.

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▲ O ângulo não permite perceber se a mulher de "Amor e Dor", do pintor norueguês Edward Munch, está beijar ou morder o homem. Será presa ou predadora?

Fine Art Images/Heritage Images/Getty Images

Mas porquê ser didático ao criar um vilão que também é gay? As pessoas que quiserem interpretar essa escolha como “ela claramente quer dizer que as pessoas queer são más” não fá-lo-iam de qualquer das formas?
Se alguém pegar neste livro e a sua conclusão for que as pessoas queer são más, é porque não o leu. Aliás, leu o que queria ler. Este é um livro em que as pessoas queer são as personagens principais e isso significa que, como tal, podem ser tudo. Além disso, este é um livro que realmente espero que agrade às pessoas heterossexuais, mas não é para elas. Escrevi 24 livros para todas as outras pessoas, este é para mim e para a minha comunidade.

“Drácula”: há 125 anos a caminhar entre nós

Embora esta seja uma história de vampiros, quase nunca usa esse termo no livro. Talvez isso não tenha tanto a ver com ter medo que este romance seja encaixotado, mas com o facto das características das histórias de vampiros serem tão conhecidas que são um dado adquirido. Ainda assim, como lidou com o desafio de criar uma história original dentro de um género tão explorado?
A questão é a seguinte: não existem ideias originais, apenas perspetivas originais. Talvez existam apenas 10 enredos no mundo, 10 arquétipos, mas o que os torna únicos é o que cada indivíduo lhes oferece. Se eu desse a uma sala com 100 escritores o mesmo conceito para este livro, obteria 100 romances muito diferentes, porque tivemos 100 vidas muito distintas. Gosto de dizer, porém, que para quem adora romances de vampiros, este é um romance de vampiros, e para quem não gosta, não é um romance de vampiros. Porque, de facto, a palavra “vampiro” raramente é usada. Adoro jogar com convenções de nomenclatura. Há uma razão para as três personagens principais terem dois nomes, o que lhes foi dado e o que escolheram para si próprias. E o mesmo se aplica à terminologia no livro. “Vampiro” é um termo que os humanos criaram para rotulá-los e eu queria que tivessem um sistema de nomenclatura para si próprios, e é por isso que temos a metáfora do jardim, as rosas e o poema¹. Além disso, o vampirismo neste livro é também alegórico.

Quanto ao quê?
A revelação da identidade queer. Se pensarmos nisso, a transição de humano para vampiro é uma espécie de “saída do armário”, é a morte de um antigo eu e a encarnação de um novo eu. E não importa o quão saudável seja a jornada de revelação para cada um, sofre-se sempre. Quando “enterramos” o nosso antigo eu, perdemos pessoas que não nos acompanharam nessa jornada, perdes a versão de ti mesmo que poderias ter sido e que terias sido se tivesses sido autêntico o tempo todo. Eu lamento pela minha adolescência, porque só me assumi aos 20 e tal anos e, por isso, não tive uma adolescência normal de descobertas, passei-a toda a esconder-me de mim mesma, zangada, triste, perdida e confusa. Portanto, vejo a escapatória dos vampiros como um espaço de transformação em que as minhas personagens são forçadas a abandonar o seu antigo eu, mas, em troca, podem viver o seu verdadeiro eu. Porque os meus vampiros não são menos do que eram como humanos, são mais.

"Tenho uma amiga que diz que toda a ficção é fantasia. A ideia de que impomos esta restrição, de que pensamos 'quanto maior o escapismo, menor o valor', é um dos conceitos mais estranhos e absurdos que conheço. E acho que é imposto socialmente por pessoas que não lêem fantasia".

Só por esta conversa, alguém que não tenha lido o livro pode ficar com a impressão de que tudo é maravilhoso quando se torna um vampiro nesta história, mas há óbvias contrapartidas. E com A Vida Invisível de Addie LaRue, também as explorou, através da ideia do pacto faustiano…
O poder tem um custo. Não o acho interessante enquanto conceito se não tiver esse custo. É a razão pela qual nunca me interessei realmente pelo Super-Homem como personagem. Não há um custo real para o seu poder. Ele não se cansa.

O que está a dizer é que ele até pode ter fraquezas— com a criptonite, por exemplo — mas não há nenhum custo moral para o seu poder?
Sim, por isso é que sempre me interessei mais pelo Flash. Porque se o Flash usasse o seu poder em demasia, esgotaria a sua energia e teria de parar, bateria contra uma parede. O poder só é interessante quando há limites contra os quais pode chocar, quando se tem de pesar os prós e os contras do seu uso. Neste caso, eu diria que, para Sabine, [ser vampiro] vale absolutamente a pena, ao passo que para Alice, talvez, mas para Charlotte não. É com base na nossa personalidade — e é isso que quero dizer quando afirmo que há pessoas que dão melhores monstros —, que alguns de nós são mais capazes de suportar esse acordo [faustiano]. Addie é perfeita para lidar com esse acordo porque ela não tem ego, não se importa com fama e glória, apenas com a experiência. É por isso que Luc [nome que Lúcifer tem nesse romance] tem tanta dificuldade em derrotá-la, porque está tão acostumado a fazer acordos com pessoas que querem “essa” versão da imortalidade. Interessa-me como é que o indivíduo, na sua totalidade, lidaria com estas situações, tendo em conta a sua personalidade, a sua educação, os fundamentos da sua identidade. Por exemplo, como lidaria com o facto de se tornar num vampiro? Bem? Crescerias nesse “jardim”? Ou implodirias? Quantos anos levarias para deteriorares-te por dentro? Seriam dias, décadas ou séculos? Tudo isto é muito individual. Portanto, quanto mais ampla a ideia com que estou a lidar, mais individual quero tornar a experiência. É por isso que, em Vicioso, Vingativo e Vitorioso, os poderes são completamente únicos consoante a pessoa, o que ela sente e pensa.

Entre novas séries e reedições, ainda vamos a tempo de ler Tolkien?

Num artigo que escreveu para o The Guardian quanto ao 20.º aniversário do livro Jonathan Strange & o Sr. Norrell, de Susanna Clarke, afirma que “a fantasia é bem-sucedida ao tornar-se uma extensão credível do que nós leitores — como pessoas — compreendemos à partida”. E na biografia que tem no seu website, acrescenta que o seu objetivo é fazer-nos duvidar da realidade, não ao convencer-nos de que a magia é real, mas plantando uma semente de dúvida de que não existe. Como isso molda a sua abordagem à ficção?
Se encaramos a realidade como tendo os dois pés no chão, aqui mesmo, e depois pensarmos no tipo de fantasia à qual só podemos aceder através das páginas de um livro, como em Tolkien, então afastamo-nos uns 50 passos. Porque não existe uma experiência análoga, certo? Só podemos ir à Terra Média através desses livros. Depois temos C.S. Lewis, que nos diz “algures na tua casa há uma porta, vai procurá-la”. Isso ainda assim fica a 25 passos de distância. Estou mais interessada na fantasia que nos mantém com um pé firmemente plantado onde começámos. Não apenas porque cada vez que damos um passo, perdemos leitores — a cada passo há alguém que não consegue ou não quer acompanhar —, mas porque acho que é mais emocionante acreditar que a magia está aqui connosco do que fazer-nos aceitar que temos de partir à sua procura. Quando somos crianças, é muito fácil acreditar que a fantasia coexiste com a realidade.

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▲ Cena de "Fausto", de Goethe, atormentado por Mefistófeles, com quem faz um acordo e cede a sua alma. "O poder tem um custo. Não o acho interessante se não tiver esse custo", afirma a autora.

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O chamado “faz de conta”?
Exatamente. Mas quando crescemos, por alguma razão, começamos a fazer do espaço dos livros o único lugar onde a fantasia pode existir. Perdemos a nossa imaginação, a nossa capacidade de acreditar. Considero que é meu trabalho recuperar isso e faço-o perguntando: e se for uma questão de perceção? E se o problema não for que a magia não está aqui, mas que não temos prestado atenção da maneira certa? E essa pequena semente é o que faz com que esse maravilhamento infantil regresse. Agora, também ajuda o facto de eu acreditar nisso. Comecei na astrofísica, estava destinada a ser uma cientista, e a ciência ensina-nos que o desconhecido é sempre muito mais vasto do que o conhecido. Além disso, a noção de magia é anterior à ciência, certo? Antes de compreendermos algo cientificamente, compreendemo-lo como magia. Por isso, só quero que isso se expanda aos adultos, que sintam o que sentiam quando eram crianças, quando acreditavam que era real.

Só neste livro aborda questões, e já mencionámos algumas, como identidades queer, moralidade, repressão feminina, mortalidade, a natureza do poder, a necessidade de conexão. O que é que a chamada “ficção de género” tem que se presta tão bem a explorar este tipo de temas?
É o seu potencial. Em toda a ficção fantástica existem regras e existem dinâmicas de poder e hierarquias. Essas coisas têm de existir para que haja conflito; sem isso, não temos história. Mas quando escrevemos ficção de género, podemos redefini-las. Podemos escolher como mudar o mundo, às vezes de forma significativa, outras de forma subtil. Este é o primeiro lugar onde muitos de nós nos sentimos empoderados. Vivemos num mundo e numa época em que, por vezes, não nos sentimos poderosos, e isso é muito assustador. Mas a fantasia nem sempre é apenas uma fuga, às vezes é um espelho, um lugar para reimaginarmos o nosso reflexo num estado mais poderoso, numa época em que não podemos viver nesse estado poderoso. Dessa forma, [a fantasia] ajuda-nos a fazer a ponte até que chegue o momento em que possamos ter essa realidade.

Estava a falar, por exemplo, sobre Tolkien e como O Senhor dos Anéis está tão afastado da realidade que nos obriga aos tais 50 passos. Mas esses livros também abordam questões muito reais, como preconceito, racismo, imperialismo, guerra, escravidão, etc… Não é também mais fácil abordar temas como esses através dessa “irrealidade”, para que as pessoas não sintam que estão a ser alvo de um sermão?
Essa é uma parte muito importante, sim. Mas também é um lugar onde geramos empatia, onde muitos leitores experienciam essas coisas pela primeira vez. A fantasia tem a oportunidade e a obrigação de fazer muitas coisas, como ajudar-nos a sair da nossa zona de conforto, da nossa identidade, colocar-nos no lugar de outra pessoa ou numa dinâmica de poder diferente, a sentir coisas que não experienciamos na realidade. Ela pode fazer todas essas coisas. Pode ser uma fuga, pode ser uma reflexão, pode ser qualquer coisa.

"Estamos num ponto de supersaturação com alguns subgéneros, e isso é porque estão a vender bem e porque isto é um negócio, e podemos falar sobre isso tal como é: escrever é uma arte, publicar é um negócio. Eu não controlo o lado comercial, controlo o artístico. A minha principal questão é que acho que as redes sociais estão a coincidir com um momento em que as gerações mais jovens estão habituadas a ser servidas exatamente com o que querem."

Ao escrever sobre alguns dos seus romances favoritos de fantasia que cruzam vários géneros para o The New York Times, selecionou títulos como A Estrada Subterrânea, de Colson Whitehead. Estes são livros que normalmente não são descritos como de fantasia; ao invés, são apresentados com slogans mais literários, como “realismo mágico”…
Mas tudo isso é fantasia. É porque criámos uma hierarquia de valores. Que género literário é válido? Ah, o realismo mágico — mas o realismo mágico não deveria apenas ser aplicado a certos escritores de certas origens étnicas e certas origens sociais? E porque é que a fantasia é desprezada e a ficção científica não?

Essa era a minha pergunta: porque é que ainda é visto como algo inferior? E por quem — pela indústria ou pelos leitores?
Por todos, penso. É algo fascinante para mim. Nós já tínhamos fantasia muito antes de termos realismo literário. Aliás, historicamente, durante milhares de anos, as histórias que eram contadas eram fantasias. Já o romance é muito mais recente; o “romance doméstico”, então, enquanto género, tem cerca de 200 anos. A fantasia antecede a ficção realista por muito tempo e, ainda assim, por alguma razão, em algum momento, criámos essa hierarquia. Além disso, até mesmo o romance doméstico é fantasia. A questão é esta. Tenho uma amiga, Amal El-Mohtar, uma autora brilhante que escreveu This Is How You Lose the Time War com Max Gladstone, que diz que toda a ficção é fantasia. A ideia de que impomos esta restrição, de que pensamos “quanto maior o escapismo, menor o valor”, é um dos conceitos mais estranhos e absurdos que conheço. E acho que é imposto socialmente por pessoas que não lêem fantasia.

Javier Cercas: “A recusa da morte é aquilo com que mais simpatizo no cristianismo. Detesto ter de morrer”

Ainda há pouco tempo entrevistei o escritor espanhol Javier Cercas e ele disse algo com o qual talvez concorde. Ele lançou um livro de não-ficção e comparou-o a um romance policial, dizendo que todos os romances que lhe interessam são como policiais, porque se lançam sempre num enigma a desvendar. Ou seja, parece que toda a literatura — até mesmo a ficção literária — é de “género”, só depende de que critérios queremos usar.
Bem, a Amal defende que toda a ficção é fantasia porque estamos a criar uma ordem narrativa a partir da realidade caótica. E é isso. Sempre que lemos um romance, independentemente do tema, trata-se de uma construção. A vida não tem a estrutura que os romances têm. Os livros de memórias são um dos meus exemplos favoritos de fantasia. Se pensarmos bem, as memórias são muito subjetivas, são a vida de uma pessoa descrita por ela própria. São os autores a escolher os seus momentos altos e baixos, a sua perspetiva e a sua voz. Nada poderia estar mais longe da verdade objetiva e, no entanto, tratamo-lo como realista. Tudo o que é escrito é uma construção.

Dito isto, é provável que a ficção de género seja hoje mais comercialmente viável do que nunca, e parece inclusive estar a tornar-se mais aceite pelo establishment literário…
Ooh, não concordo!

Estou a pensar, por exemplo, no género de terror, que está a começar a ser visto de forma mais positiva. E não creio que seja apenas em termos literários, há toda a questão do “terror elevado” ou “sofisticado” no cinema hoje em dia também.
Sim, o cinema é um lugar onde o terror tem prosperado, onde isso é mais entusiasmante. Mas diria, e esta é uma opinião muito cínica e cansada da minha parte, que muito disso depende da identidade da pessoa. Fico realmente fascinada quanto a que escritores se tornam “autores” e quais se tornam “autores de fantasia”, “autores de terror”, “autores infantis”. Existem termos e ressalvas impostos a alguns de nós que não são impostos a outros. O meu sonho é ser como Stephen King. Não em termos de fama, nem mesmo em termos de amplitude, mas quando agora ele lança um livro, é apenas um livro, não importa em que género se insere.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Chegou àquele estatuto onde a única coisa que importa é que se trata de um livro escrito por ele, certo?
Precisamente, e quero ser esse tipo de autora. Quero ser uma autora que apenas lança “livros”. Não me importa onde ficam colocados na livraria, desde que os leitores os encontrem. Quero o luxo de ser vista simplesmente como uma romancista.

Apesar dessas dificuldades e desafios que um escritor de fantasia ou ficção de género tem de enfrentar nos EUA, é seguro dizer que é ainda mais difícil para os escritores portugueses, dado o tamanho reduzido do nosso mercado. Que tipo de conselho lhes daria?
O meu conselho é o mesmo, independentemente do país, do público ou do mercado: em primeiro lugar, escrevam o que querem ler, não o que acham que vai vender. O negócio está sempre a mudar, a vossa arte é a única coisa que podem controlar.

Quanto a um aspeto um pouco mais controverso, parte do sucesso atual da fantasia também se deve à popularidade crescente de subgéneros como o “romantasy” ou o “dark romance”. Por um lado, tende a haver uma misoginia inerente em descartar esses subgéneros, porque são comummente escritos e lidos por mulheres, mas, por outro, há neste momento tantos lançamentos nesse mercado que isso gera a suspeita de que muita gente está a entrar na onda apenas para ganhar dinheiro rápido. O que pensa disso?
Pois, não vou pisar essa mina (risos). Direi o seguinte: sou muito, muito contra a constante subcategorização e o tipo de fetichização das subcategorias, porque acho que estamos a tornar-nos, como mercado, cada vez mais curatoriais. Estamos a filtrar e a dizer “oh, nem quero ler fantasia, só quero ler ‘romantasy’ que siga este tipo de dinâmica, de inimigos que se tornam amantes, ambientada desta forma”. O problema com isso é que se ficarmos tão fixados em ler apenas o que sabemos que gostamos, nunca descobriremos nada novo. Portanto, sim, estamos num ponto de supersaturação com alguns subgéneros, e isso é porque estão a vender bem e porque isto é um negócio, e podemos falar sobre isso tal como é: escrever é uma arte, publicar é um negócio. Como disse, não controlo o lado comercial, controlo o artístico. A minha principal questão é que acho que as redes sociais estão a coincidir com um momento em que as gerações mais jovens estão habituadas a ser servidas exatamente com o que querem. Neste momento, podemos pedir ao ChatGPT “dá-me um ‘romantasy’ de inimigos que se tornam amantes escrito no estilo de V.E. Schwab” e ele irá apresentar o que desejamos. O problema com isso é como iremos encontrar outras coisas novas para gostar.

"Ainda há um grande número de pessoas que compraram os meus livros porque não sabiam que eu era mulher — e elas mesmas disseram-me isso. Ainda temos um longo caminho a percorrer. O número de pessoas que simplesmente assume que sou autora de livros infantis ou que os meus livros não são sombrios o suficiente por ser mulher é, para mim, uma loucura. Escrevo livros mais sombrios do que a maioria dos meus colegas homens, mas, por ser mulher, é assumido em que prateleiras devo estar."

É também uma grande defensora da leitura de tudo que está fora do seu género literário, porque é daí que surgem as melhores ideias, correto?
Esta é a minha posição inabalável. Trata-se de uma polinização cruzada criativa. É necessário, especialmente como escritor, ler fora do seu género. Se, como autora de fantasia, lesse apenas isso, entraria por um caminho de retornos cada vez mais diminutos. Mas nem é apenas do ponto de vista da inspiração — não é aí que obtenho as minhas ideias, faço-o como uma pega-rabuda, tirando-as de milhares de lugares diferentes, como uma colecionadora contínua —, mas do ponto de vista das competências literárias. Por cada vez que leio um romance de fantasia, leio uma coleção de poesia, um livro de não ficção, um livro de memórias. Estou constantemente a certificar-me de que procuro coisas que não sei se vou gostar, porque é assim que se descobre algo que se ama.

Diria que já era uma escritora de sucesso, mas A Vida Invisível de Addie LaRue levou-a para um patamar totalmente diferente. Como encarou esse momento?
O sucesso é sempre uma faca de dois gumes, porque muda-nos as expectativas, tanto interna quanto externamente. Mas sempre defendi que o entusiasmo criativo vem em primeiro lugar. Tenho-me maravilhado com a expansão do meu público, mas continuo focada em contar ótimas histórias e a desafiar-me a cada passo, em vez de seguir o caminho fácil da repetição.

A respeito desta vinda, provavelmente já está habituada a receções muito calorosas e concorridas nos locais que visita nas suas digressões. Ainda assim, a sessão que teve aqui em Lisboa surpreendeu-a de alguma forma?
Talvez porque não tive um livro de estreia sonante e o meu público acabou por ir crescendo um leitor de cada vez, nunca espero uma multidão. Por isso, sempre que os leitores aparecem, fico surpreendida, encantada, aliviada até. A afluência em Lisboa deixou-me sem fôlego, foi extraordinariamente gratificante e estou incrivelmente grata pelo apoio dos leitores. Eles cresceram comigo!

Escolheu V.E como um pseudónimo neutro em termos de género em parte para evitar discriminação num meio literário dominado pelos homens como o da fantasia. Publicar um livro como este, neste momento, serve como uma espécie de reivindicação ou validação do seu percurso?
Ainda enfrento uma enorme discriminação por ser uma mulher a escrever. Portanto, acho que este livro é, para mim, um acerto de contas com a minha própria relação com o meio editorial e com a minha própria diminuição ao longo de muitos e muitos anos. Mas ainda há um grande número de pessoas que compraram os meus livros porque não sabiam que eu era mulher — e elas mesmas disseram-me isso. Ainda temos um longo caminho a percorrer. O número de pessoas que simplesmente assume que sou autora de livros infantis ou que os meus livros não são sombrios o suficiente por ser mulher é, para mim, uma loucura. Escrevo livros mais sombrios do que a maioria dos meus colegas homens, mas, por ser mulher, é assumido em que prateleiras devo estar. E acho que é aí que volto ao argumento de Stephen King, só quero ser vista como uma autora.

1 — Uma das epígrafes do livro é o seguinte poema: “Enterrai os meus ossos no solo da meia-noite, / Em cova rasa, sobejamente regados; / Onde repouso crescerá uma rosa selvagem, / Pétalas de veludo, carmins, escondendo dentes brancos e aguçados”

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