“O fogo da arte torna-nos humildes”, disse esta noite Juliette Binoche, presidente da Academia de Cinema Europeu, no anfiteatro da Haus der Kulturen der Welt, em Berlim, antes de anunciar que Valor Sentimental é o Melhor Filme Europeu do Ano. A obra de Joachim Trier ganhou tudo o que podia ganhar esta noite, impondo-se igualmente nas categorias de Melhor Realizador, Melhor Actriz, Melhor Actor e Melhor Argumento. Conquistou ainda o Prémio de Melhor Banda-Sonora. À partida, era um dos filmes mais nomeados, a par de Foi Só um Acidente, de Jafar Panahi, Sound of Falling, de Mascha Schilinski e Sirât, de Oliver Laxe.
Joachim Trier entrega a Cannes o filme mais popular deste festival, reflexão entre a arte e a vida
Acompanhado por Eskil Vogt, co-argumentista do filme, Trier esteve à conversa com a imprensa internacional em Berlim e voltou a frisar a inspiração pessoal (embora o filme não seja autobiográfico) que se esconde por detrás desta história entre pais e filhos: “Olho cada vez mais para a arte como uma forma de comunicação paralela, agora que sou pai recente de dois filhos. Dançamos, cantamos, desenhamos antes de nos tornarmos seres sociais dependentes das palavras. Foi esta impressão que me abriu o caminho para realizar Valor Sentimental. Acima de tudo, esta é a história de um pai que perdeu a capacidade de se relacionar com as suas duas filhas. Há muitos receios meus e muitas histórias do meu passado, dos meus pais e avós, nesta personagem [interpretada por Stellan Skarsgård].”
Jafar Panahi: “Como posso eu ter medo, perante a coragem das mulheres iranianas?”
A cerimónia dos 38ª Prémios do Cinema Europeu foi, de resto, praticamente aberta em língua farsi, após uma breve introdução do cineasta britânico Mark Cousins que chamou ao palco o cineasta iraniano. Panahi deixou à plateia um discurso emotivo contra a violência do regime político do seu país, assunto principal da ordem do dia. Foi Só Um Acidente estava nomeado para três categorias pela parte francesa da produção, representando igualmente o hexágono na candidatura a Melhor Filme Internacional nos Óscares.
▲ Laura Carreira na cerimónia
Getty Images
Laura Carreira, logo de seguida, foi chamada ao palco mais levantar mais uma distinção de gabarito pela sua longa-metragem de estreia, On Falling, considerada pela Academia a Melhor Descoberta do Ano – Prémio Fipresci. Fiel à veia realista e política que a move, a cineasta do Porto criticou “a implacável e desumanizante expansão do neo-liberalismo” e agradeceu a toda a equipa, em especial à actriz Joana Santos, “que carregou este filme aos ombros.” Laura Carreira prepara neste momento uma nova longa-metragem que será igualmente rodada na Escócia.
Para Laura Carreira filme “On Falling” é um alerta sobre valor do trabalho
Na categoria de Melhor Actor, Stellan Skarsgård impôs-se no filme de Joachim Trier aos concorrentes Sergi López (Sirât), Mads Mikkelsen (The Last Viking), Toni Servillo (La Grazia) e Idan Weiss (Franz). A norueguesa Renate Reinsve venceu a categoria feminina pela mesma obra, suplantando Leonie Benesch (Late Shift), Valeria Bruni Tedeschi (Duse), Léa Drucker (Case 137) e Vicky Krieps (Love Me Tender). Ambos os prémios foram anunciados pelos irmãos Rosalie Varda e Mathieu Demy, filhos de Jacques Demy e Agnès Varda. Para não variar (e os membros da Academia Europeia de Cinema, regra geral, variam pouco), Valor Sentimental foi também o vencedor do Melhor Argumento (Trier e Vogt).
A organização do evento criou este ano, pela primeira vez, prémios para as categorias de Cabelo e Maquilhagem e de Direcção de Casting. Torsten Witte, que “transformou” Emma Stone no mais recente filme de Yorgos Lanthimos, Bugonia, ficou com o primeiro, no casting foram distinguidos Nadia Acimi, María Rodrigo e Luis Bértolo por Sirât, de Oliver Laxe.
Oliver Laxe e “Sirât”: “Fazer um filme é uma maneira excessiva de pedir amor”
Outra curiosidade desta edição: o anúncio das categorias principais foi misturado, sem hierarquias, com os prémios das áreas técnicas, decisão que acabou por trazer frescura ao espectáculo. Tanto assim foi que o apresentador do Prémio de Melhor Som brincou com o assunto: “Não é este o prémio de que toda à gente está à espera…” Resultado: nova estatueta para Sirât, também distinguido na montagem. A obra do cineasta galego já havia sido premiada em Cannes.
Antes da vitória previsível (a votação da Academia no filme foi seguramente esmagadora) de Arco como Melhor Animação Europeia, perguntámos a Ugo Bienvenu se já tinha escrito o discurso para receber o prémio em caso de vitória: “Nem pensar, sou péssimo nisso, se acontecer, será de improviso. Estive há dias em Nova Iorque a receber um prémio [de Melhor Animação Internacional para a New York Film Critics] e o que lhes disse foi um desastre: “Não estou habituado a isto, desculpem-me, sou francês e preciso de ir à casa de banho. O Martin Scorsese à minha frente, ficou com cara de espantado…” E disse mais: “Vivemos num tempo em que tudo parece estar a ser substituído pelo seu holograma. Fiz este filme para tentar travar que isso aconteça.” Arco estreou-se nas salas portuguesas na passada quinta-feira.
A Academia homenageou este ano a actriz e realizadora norueguesa Liv Ullmann, uma das musas e colaboradora frequente do sueco Ingmar Bergman (com quem foi casada). Deu rosto a filmes como Persona, Lágrimas e Suspiros e Sonata de Outono, é simplesmente uma das mais fabulosas intérpretes de todo o cinema europeu. “Somos as ruínas para o futuro”, disse a actriz em Berlim. “Daqui a 100 ou 200 anos, os filmes servirão para mostrar quem fomos.”
A italiana Alice Rohrwacher, autora de cinco longas-metragens e várias curtas (incluíndo Le pupille, nomeada para os Óscares), recebeu também um prémio de homenagem pese embora os seus 44 anos. “Ainda posso fazer outros filmes depois disto? Têm a certeza que não se enganaram?” – perguntou, entusiasmada.
Também fora de comum foi o prémio atribuído à produtora germânica Komplizen Film, formada por Maren Ade, Janine Jackowski e Jonas Dornbach, responsável por êxitos como Toni Erdmann e diversas co-produções europeias, entre elas Tabu e As Mil e Uma Noites, ambos de Miguel Gomes, assim como a co-produção vencedora da noite, Valor Sentimental.
Já o Melhor Documentário do Ano distinguiu Fiume O Morte!, de Igor Bezinović, co-produção eslovena-croata-italiana que venceu o Festival de Roterdão em 2025. Foi exibido em Portugal pelo Curtas – Vila do Conde. A obra impôs-se, entre outras, a Tardes de Solidão, de Albert Serra (Concha de Ouro em San Sebastián 2024) e a With Hasan in Gaza, de Kamal Aljafari (filme premiado em Locarno que inaugurou a última edição do Doclisboa). Todos os títulos citados integraram múltiplas listas de melhores filmes da crítica internacional no ano passado.
Perto do final da cerimónia, foi tocante a homenagem ao recém-falecido Béla Tarr por parte do seu director de fotografia, o alemão (e também cineasta) Fred Keleman, que anunciou, como era esperado, o Prémio de Melhor Fotografia. Venceu Mauro Herce, por Sirât: mais uma distinção técnica para a obra de Oliver Laxe. Os Prémios do Cinema Europeu voltam daqui a um ano, em Atenas.
O autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico.