Quatro alunos portugueses entre os 10 e os 14 anos representaram Portugal na final do concurso mundial de robótica da MatataWorld (MatataWorld Robotics Competition — MWRC), que decorreu entre 6 e 11 de janeiro em Wuxi, na China. Portugal foi o único país europeu presente entre os 21 participantes de todo o mundo.
A aventura começou no ano letivo 2024/25 quando foram apurados, a nível nacional, os vencedores de cada escalão: Rafael Caixinha e Simão Santos, que então frequentavam o 7.º e o 8.º anos no Agrupamento de Escolas da Boa Água, em Sesimbra, destacaram-se no escalão sénior; Matilde Santos e Afonso Costa, outros dois participantes do 4.º ano do Agrupamento de Escolas da Gafanha da Nazaré, em Ílhavo, ganharam no escalão júnior. Em Portugal, as provas foram organizadas pelo Centro de Competência TIC da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal (CCTIC ESE/IPS) em colaboração com a MatataStudio, empresa chinesa fornecedora de materiais didáticos que promove a competição.
Nas provas nacionais e internacionais, foi pedido aos alunos que montassem estruturas para o VinciBot, um robô educativo que estimula a aprendizagem da programação, e completassem dois tipos de provas. Na primeira, programaram percursos com blocos para o robô apanhar peças e acender luzes; na segunda, utilizaram comandos para recolher bolas e acertar em cestos de diferentes tamanhos e cores. Foram avaliadas as capacidades de programação, destreza e criatividade.
De Sesimbra a Wuxi com rifas, eventos solidários e pedidos de ajuda
Foi com um “Vamos à China?” que Ilda Batista, professora de Matemática e Ciências do Agrupamento de Escolas da Boa Água, em Sesimbra, convenceu os seus alunos a participarem neste Concurso Mundial de Robótica. Até lá, o mais difícil não foi resolver desafios de robótica, mas conseguir o financiamento da viagem, para o qual recorreram a rifas, eventos solidários e e-mails a pedir apoio. O alojamento e a alimentação eram asseguradas pela organização do evento.
A professora não tem dúvidas que o Ministério da Educação deveria disponibilizar todo o dinheiro necessário para os alunos e professores responsáveis participarem. “Eu, as mães dos alunos e a direção da escola enviámos pedidos de apoio por email e andámos a bater a muitas portas”, relata ao Observador. “Acabou, já numa fase muito próxima da data de competição, por ser a autarquia da Câmara Municipal de Sesimbra a comprometer-se a pagar o valor dos bilhetes da professora e dos alunos, além de uma pequena contribuição da Junta de Freguesia da Quinta do Conde.”
Nuno Mantas, diretor do Agrupamento de Escolas da Boa Água, recorda que no dia 18 de novembro, as mães dos alunos enviaram um pedido formal de ajuda à Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares (DGEstE), sob tutela do Ministério da Educação, Inovação e Ciência (MECI). Em resposta, a DGEstE considerou que a situação era da competência da escola, não tendo prestado apoio.
O problema da falta de financiamento para os alunos do Agrupamento da Escola da Boa Água suscitou até uma pergunta ao Governo da deputada Paula Santos, do PCP, no dia 18 de dezembro de 2025. “Apesar do apoio parcial concedido pela organização do evento, os custos associados para as viagens, alojamento e demais logística são avultados para as famílias. Assim, ao abrigo das disposições legais e regimentais aplicáveis, solicitamos ao Governo que por intermédio do Ministério da Educação, Ciência e Inovação, preste os seguintes esclarecimentos: Está o Governo disponível para tomar as medidas que assegurem a participação desta equipa de estudantes portugueses nesta iniciativa?”, lê-se na mesma.
▲ Delegação portuguesa junto ao Museu de Arte da China, em Xangai
Por outro lado Vanda Coelho, adjunta da Direção do Agrupamento de Escolas de Gafanha da Nazaré que levou outros dois alunos à China, destaca que apesar da falta de apoio monetário o Governo ajudou de outra maneira: “A visita à China estava agendada para o ano passado, mas como houve um problema com a organização, só foi feita este ano. O processo foi desafiante, sobretudo por decorrer em período letivo, mas a organização do Ministério da Educação revelou-se muito eficaz. Em cerca de 15 dias foi possível agilizar autorizações que, normalmente, demoram mais de um mês. Foi garantido que a ausência dos alunos não prejudicaria o seu percurso escolar, através de planos de recuperação, e que as aulas seriam asseguradas com a substituição dos professores acompanhantes. A DGEstE Centro e a DGEstE Lisboa tiveram um papel fundamental, demonstrando grande rapidez e disponibilidade na validação final do processo.”
Ilda Batista, da escola de Sesimbra, recorda que o período que antecedeu a viagem foi de “muito trabalho”, também devido ao compromisso assumido com as mães dos alunos de os fundos também cobrirem as suas viagens. “A China é outra realidade, com dificuldades de comunicação e cultura diferente, pelo que ficámos mais descansados por haver essa possibilidade”, explica. “Houve contributos de muitas pessoas, às quais estamos muito agradecidos.” O Observador contactou o Ministério da Educação, Ciência e Inovação, mas não obteve resposta em tempo útil.
Alunos visitaram Xangai, Wuxi e uma escola com quinta pedagógica
A equipa portuguesa não ficou apurada para a final, destino semelhante ao das equipas de todos os outros países com exceção da China. “[As equipas chinesas] Estão noutro nível”, afirma Ilda Baptista, por terem mais experiência. “Os alunos das equipas locais acumulam créditos, dados neste tipo de competições, para entrarem na universidade, pelo que são extremamente competitivos.”
Depois da prova “inesquecível”, os seus alunos começaram logo a combinar o que fariam para o ano. “É deixá-los sonhar! É motivo de muito orgulho para todos (direção, alunos, professora, pais, restantes comunidade educativa e professores do CCTIC)”, garante a professora que participou pela primeira vez num concurso desta escala.
Os professores elogiam a organização do concurso, que disponibilizou um programa cultural para que as equipas estrangeiras conhecessem Wuxi e arredores. “De manhã tivemos um treino, depois da abertura das diferentes competições, e à tarde foi a competição. No segundo dia, de manhã foi a final para as equipas apuradas e a entrega de troféus e à tarde fomos ver uma escola particular, do pré-escolar até à universidade, com quinta pedagógica e hipismo. No terceiro dia, fomos conhecer Xangai — com a sua arquitetura espetacular e luzes noturnas — e no quarto dia houve visitas livres, antes da ida para o aeroporto”, explica Ilda Baptista ao Observador. “As viagens eram feitas com todos, que puderam interagir.”
“Sentimos um desinvestimento nas pessoas altamente especializadas”
Em Portugal, as provas nacionais são organizadas pelos 13 Centros de Competência TIC (CCTIC) sediados em instituições do ensino superior por todo o país, cuja missão passa por apoiar a utilização educativa de tecnologias digitais nos primeiros anos de escolaridade (dos 3 aos 13 anos).
O CCTIC ESE/IPS mantém, desde 2021, uma parceria com a MatataStudio que permite fornecer material às escolas. No âmbito dessa colaboração, foi lançado no ano letivo de 2023/2024 o concurso nacional de robótica educativa, que apura os alunos para a competição internacional.
João Grácio e João Torres, do CCTIC de Setúbal, lamentam ter menos professores dedicados a este tipo de projetos. “Da parte do Ministério, os CCTIC recebem uma verba destinada, sobretudo, a cobrir deslocações e ajudas de custo nacionais no apoio às escolas. O ano passado dispúnhamos ainda de dois professores em mobilidade, um a 80% e outro a 100%. Infelizmente, este ano letivo ficámos sem o elemento a 80% e fomos informados, em dezembro, que ficaríamos, também, sem a mobilidade do elemento a 100% a partir de janeiro. Estes recursos humanos são essenciais para o desenvolvimento deste e de outros projetos que já estavam previstos no nosso plano de atividades”, explicam ao Observador via email. “É com muita apreensão que vemos o futuro deste concurso, assim como o concurso nacional de programação em Scratch e da formação e investigação que temos vindo a desenvolver sem estes elementos. Assim, mais que o dinheiro sentimos um desinvestimento nas pessoas altamente especializadas que em muitos casos têm décadas de investigação nesta área e permitem a realização de projetos inovadores como este.”
▲ Robôs em competição na Final do Concurso Mundial de Robótica
Os responsáveis do CCTIC ESE/IPS relembram que a competição nacional é uma oportunidade de aprendizagem para todos os alunos, mesmo que não passem à fase final: “As escolas portuguesas que se deslocam a Setúbal para a competição nacional têm uma oportunidade de envolver os seus alunos em atividades que os desafiam e onde podem apresentar soluções que muitas vezes nos surpreendem a todos. Este concurso envolve, além do desenvolvimento do pensamento computacional, a criatividade, o trabalho por projeto e muitas outras competências. Assim, mesmo com as limitações impostas, com a não afetação de professores com elevada formação e experiência nesta área, tudo faremos para continuar a dar esta oportunidade às escolas”, concluem.
Vanda Coelho, adjunta da Direção do Agrupamento de Escolas de Gafanha da Nazaré, destaca também o impacto positivo desta iniciativa: “A colaboração entre o AE da Gafanha da Nazaré e o CCTIC da Universidade de Aveiro foi determinante, uma vez que permitiu uma abordagem formativa estruturada e adaptada ao contexto escolar, através da qual professores e alunos desenvolveram aprendizagens em robótica educativa com atividades interativas e projetos interdisciplinares.”
“Este projeto de robótica é um modelo de boas práticas que alia formação, inovação, inclusão e valorização do potencial das crianças. A participação na competição internacional na China representa não apenas uma conquista, mas a confirmação da relevância das políticas formativas promovidas e do compromisso das escolas com uma educação orientada para o futuro. A continuidade deste trabalho dependerá do apoio institucional e comunitário, garantindo que estes, e muitos outros alunos, possam continuar a beneficiar de aprendizagens que ampliem horizontes, cultivem competências e preparem verdadeiramente para os desafios do mundo contemporâneo”, remata.
Texto editado por Leonor Riso