O eleitorado mais jovem tem sido um dos maiores suportes eleitorais do Chega a brilharetes nas várias eleições legislativas a que o partido se apresentou a votos. Mas alguns fugiram a André Ventura na primeira volta das presidenciais. Com o objetivo de recuperá-los, o candidato a Presidente da República apoiado pelo Chega começou já a tentar seduzir os que preferiram o voto em Cotrim Figueiredo, argumentando que “todos os países liberais votaram para se livrar dos socialistas”.
Foi numa pequena sala da junta de freguesia do Lumiar, em que os lugares foram poucos para tanta gente, depois de Aguiar-Branco ter travado que o encontro se realizasse na Assembleia da República, que Ventura se sentou em frente a vários jovens do Chega para responder a perguntas. Da Habitação à emigração e imigração, passando pela Educação e Defesa, Ventura fez de tudo para tentar passar as mensagens certas para o eleitorado que precisa de recuperar ou, no limite, de aliciar pela primeira vez.
Além de voltar a mostrar “perplexidade” por alguns dos apoios que Seguro tem recebido à direita, o presidente do Chega foi questionado diretamente por Rita Matias, deputada e líder da Juventude Chega, sobre a necessidade de chegar aos jovens liberais. Ventura assumiu que é um “desafio” e que “para ganhar eleições é preciso [chamar] as pessoas que não querem voltar atrás”. Perante os números — Cotrim liderou com 30%, Seguro conseguiu 29% e Ventura 21% — conclui-se que existem “dois pólos” entre os jovens e que Ventura tem de fazer tudo para conquistar aquele que agora está por representar — o de Cotrim.
“Um jovem liberal, pelo menos os que tenho conhecido e encontrado pelo país, e que respeito muito, porque nem todos têm que ser do Chega, nem todos gostam do André Ventura ou do Chega, tem alguns traços em comum [connosco]. Queremos menos impostos. Não numa lógica só de enriquecer algumas pessoas, embora a riqueza seja uma coisa boa, mas na lógica de que o Estado não deve estar a acumular riqueza para si e a estrangular as empresas e as famílias”, começou por explicar o líder do Chega.
E por aí continuou, sempre apontando o que têm em “comum” os apoiantes do Chega “com os liberais”. Desde logo, a convicção de que deve haver “menos impostos” e deve existir “uma sociedade em que o dinheiro circule mais entre as pessoas e não entre o Estado”. “Queremos que os jovens fiquem em Portugal e não andem a enriquecer os outros países”, chegou a dizer.
Apesar das batalhas que Chega e IL têm travado no Parlamento, e mesmo tendo visado diretamente João Cotrim Figueiredo durante a primeira volta das presidenciais, André Ventura teve agora o cuidado de nunca criticar o antigo presidente dos liberais, chegando a sugerir que os dois partidos se têm “cruzado muitas vezes” no Parlamento quando está em causa a defesa dos mais jovens, o acesso à Habitação ou à Saúde.
Mesmo marcando uma fronteira — “nunca vou descer a Avenida da Liberdade com uma bandeira LGBT ao lado do PCP e do Bloco de Esquerda”, disse o líder do Chega —, Ventura tentou essencialmente provar que não há uma “terceira escolha”, pedindo aos mais que colocassem “a mão na consciência“.
“A política é plural e por isso tem esta vantagem. Agora, numa segunda volta, só há duas escolhas. Não há outra. E acho que temos que apelar a esse povo liberal, conservador e social-democrata. Há um oceano de diferenças [entre nós e os socialistas], como o próprio António José Seguro disse que há”, sublinhou André Ventura.
“Queria perguntar a esses jovens qual é o país da Europa que tem um presidente socialista neste momento? Tirando o caso espanhol, que tem um primeiro-ministro socialista, qual é o país que tem um presidente socialista? A Europa está a livrar-se do socialismo, todos os países mais modernos do mundo estão a livrar-se do socialismo. Todos os países de que os liberais gostam livraram-se do socialismo.”
Depois de receber perguntas sobre a idade cada vez mais avançada com que os jovens estão a sair da casa dos pais, André Ventura criticou o facto de Lisboa, por exemplo, ser hoje a “terceira cidade mais cara do mundo”, sem que os salários estejam ao nível dos de Nova Iorque ou Tóquio. O líder do Chega colou depois o tema da Habitação ao da imigração, dizendo que “não há magia“: se as pessoas “continuarem a entrarem” e a oferta da não acompanhar essa evolução, o país tornar-se-á “caótico”.
Para o candidato presidencial apoiado pelo Chega é preciso, por isso, apostar em habitação pública — linha programática que a Iniciativa Liberal não prioriza, reconheceu o próprio. Ventura, mesmo assim, tinha resposta para isso: nos países liberais, alegou, há um grande investimento público em Habitação.
“A grande luta hoje é entre socialismo e liberdade”
Outro dos temas que teve destaque foi a questão emigração, com uma jovem recém-formada em Jornalismo a alertar para a falta de oportunidades e a sugerir que estava a pensar trabalhar fora do país. Ventura pediu paciência (“Se puder e conseguir não emigre. Estamos quase a mudar o país“), lembrando que “um dirigente político nunca deve dizer para emigrar”. Conforme testemunhou Ventura, a sua “missão só estará concluída” quando regressarem todos os que precisaram de ir procurar melhores condições de vida no exterior.
“O nosso futuro está em não deixarmos que os jovens estejam a partir para outros locais”, justificou o líder do Chega, dirigindo-se a uma geração muito bem formada, que não tem trabalho, nem salários dignos em Portugal. “Não devemos importar o terceiro mundo, temos de garantir que têm trabalho bem pago”, disse, apontando à necessidade de libertar as empresas para que possam pagar melhores salários. Puxando dos galões, Ventura recordou que o Chega esteve ao lado do Governo em temas como o IRS Jovem, a descida do IRS e nos apoios à Habitação Jovem.
André Ventura ouviu ainda queixas de uma estudante de Direito, que acusou um professor seu de usar o exemplo do Chega e do seu líder como um “populista e uma ameaça à democracia”. “Temos de ser firmes e denunciar”, exigiu Ventura, garantindo, ainda assim, que o Chega não irá “perseguir os que pensam diferente”.
Alegando que a esquerda de “nunca ter estado preparada para a democracia” e voltou ao ponto de partida: “A grande luta hoje é entre socialismo e liberdade“. Além de reiterar que o Chega tem feito um trabalho nas universidades no sentido de normalizar e explicar o partido, Ventura assegurou que se chegar ao poder as nomeações deixam de ser pelo “cartão partidário” e que a “meritocracia” irá imperar.
André Ventura tocou também num ponto fundamental para o crescimento do Chega: as redes sociais e a forma como permitem transmitir a mensagem do partido sem mediação jornalística. “Falamos diretamente com o eleitorado”, explicou Ventura, dando o exemplo de uma peça de um canal televisivo que chega a 800 mil pessoas e que no seu Instagram alcança um milhão ou um milhão e meio. “A imprensa não faz outra coisa senão atacar-nos de manhã à noite. Ou se encaixam na sociedade, ou desaparecerão”.
Depois de ouvir um testemunho de uma mãe solteira e vítima de violência doméstica, que disse estar preocupada com a intenção de limitar a atribuição de subsídios, Ventura prometeu um “corte” com essa cultura e um combate “às pessoas que não querem fazer nada e querem ficar a vida toda a viver disso”. Mas salvaguardou: o partido sabe distinguir entre aqueles que trabalham e os que têm dificuldades. “O Chega não é o partido mauzão. Quem é mãe e sofre de violência doméstica devia ser apoiado o dobro.”
Ainda que os liberais estejam no topo das prioridades de Ventura — até pelo número de eleitores conquistados por Cotrim Figueiredo —, o líder do Chega acredita que conseguirá conquistar “a maior parte do eleitorado que votou em Gouveia e Melo e que não seja socialista”.
Sobre Luís Marques Mendes, e, por arrasto, Luís Montenegro, Ventura acredita que “não votarão” em si “aqueles que, dentro do PSD, não estão preocupados com o país, mas antes preocupados com a configuração política que resulta a seguir às eleições”. “Mais uma vez é a tática à frente do país”, lamentou o líder do Chega.