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Ventura apresenta outros nomes para evitar Belém, mas será candidato se o partido quiser

Ventura reúne Conselho Nacional para falar sobre presidenciais. Líder do Chega já reconheceu "mau sinal" caso seja candidato, tem nomes, mas vai admitir possibilidade de entrar na corrida a Belém.

“É um mau sinal para a democracia se me candidatar às eleições presidenciais” ou “se chegar ao fim e sentir que continua a ser assim [sem um candidato do espaço político do Chega], o país convença-se que vai ter uma segunda volta com Gouveia e Melo e André Ventura. Acho que não era bom para o país, mas se tiver de ser…” As duas frases pertencem a André Ventura, são separadas por minutos, e demonstram bem a encruzilhada em que o presidente do Chega se encontra: ser líder da oposição, não querer ser candidato às presidenciais e poder ser praticamente forçado a fazê-lo.

Seja como for, André Ventura vai ao Conselho Nacional do Chega, alargado a observadores de todo o país, apresentar nomes de possíveis candidatos que ainda estão em cima da mesa e admitir a hipótese de ser ele próprio a chegar-se à frente, caso o partido não encontre outra saída para a corrida a Belém.

Foram meses de avanços e recuos no tema e, com o aproximar da data escolhida pelo líder do Chega para anunciar uma decisão, as presidenciais continuam a ser uma dor de cabeça para André Ventura. O presidente do partido, agora líder do segundo partido com mais deputados na Assembleia da República, foi repetindo exaustivamente que o fato que melhor lhe assenta é o de primeiro-ministro, que é líder da oposição, que está focado nessa mesma oposição ao Governo e que, por isso, não é tempo para aventuras numa corrida eleitoral. Porém, no outro prato da balança, cabe a consciência, já assumida, de que o Chega não pode ficar a assistir à batalha para Belém sem ter uma palavra a dizer.

Posto isto, André Ventura tem assumido que “se tiver de ser” também não vai virar as costas ao desafio e muito menos ficar sem candidato ou com alguém que não consiga, no mínimo, um resultado honroso para um partido com a atual dimensão do Chega. É num equilíbrio — com vários riscos assumidos — que se fazem as contas do partido e é para ouvir os prós e contra de cada possibilidade que o Conselho Nacional se reúne esta sexta-feira, em Lisboa. Só depois disso haverá uma decisão final. Mas antes de arrancar a reunião, há algo a ter em conta: as opiniões dividem-se, e muito.

Partido está dividido sobre candidatura de Ventura: "O meu candidato é qualquer um exceto André Ventura", diz um deputado do partido. "O fato que assenta bem a André Ventura é o de primeiro-ministro, mas o partido está numa encruzilhada", acrescenta outro.

Entre os riscos e a dificuldade de recuar: Chega divide-se sobre Ventura na corrida

Entre deputados e dirigentes do Chega há quem considere que André Ventura se deve resguardar e não arriscar uma ida às eleições presidenciais e quem não acredite que a hipótese de recuo esteja em aberto. E ao mais alto nível teme-se que, com o crescimento do Chega nos últimos tempos, haja uma maré de apoio que leve Ventura à segunda volta e que, nessa fase, possa mesmo vencer — o que faz tocar todas as campainhas sobre o que aconteceria ao partido no combate político do dia a dia e até no que à liderança diz respeito.

“André Ventura ser candidato a Belém não fazia nenhum sentido. Imagine que ganha…”, desabafa um deputado, crente de que é preciso olhar para todas as peças do tabuleiro e alertando que seria um risco desnecessário para o Chega. “É preciso olhar para o futuro e traçar cenários: quem iria ser presidente do Chega? Não era possível ser Presidente da República e presidente do partido ao mesmo tempo. E, tendo em conta os restantes candidatos, a probabilidade de ganhar sobe”, cenariza um dirigente do partido, enquanto explica que Ventura tem “todo o eleitorado do Chega”, mas também seria capaz de ir “buscar votos a outras direitas”. Desde logo, acrescenta a mesma fonte, aos que “não gostam de Marques Mendes nem de Gouveia e Melo”.

Outro dirigente completa o raciocínio: “Há muitos à direita que vão votar nele, principalmente se o adversário for Gouveia e Melo, nem que seja para o encostar [em Belém] durante cinco anos.” Para quem acredita nesta teoria, a conclusão é simples de adivinhar: “O meu candidato é qualquer um exceto André Ventura.”

Há outras visões em sentido totalmente oposto, desde logo quem esteja crente de que, nesta fase, André Ventura não tem muitas soluções de recurso. Sendo que apoiar Gouveia e Melo ficou fora de questão e que o nome de Passos Coelho nunca veio a confirmar-se — Ventura assumiu, numa fase muito prematura, que ambos eram figuras a “ter em conta” —, e sem nenhum nome associado às intenções do partido, considera-se que Ventura é o melhor nome do Chega para qualquer eleição.

É partindo do pressuposto que “o Chega que ganhou força” e “não faz sentido não ir às presidenciais” que diversos dirigentes do Chega assumem que não ir a votos não é um cenário real e que não há ninguém como Ventura para conseguir o melhor resultado para o partido. “Não queremos não ter um bom resultado, não podemos participar só por participar”, sublinha um alto dirigente do partido, que dá as eleições europeias como exemplo — afastando a tese de que qualquer um pode servir para preencher o lugar do Chega no boletim de voto.

Ainda que se façam contas aos perigos e que se assuma que é preciso perceber se este é um “risco calculado”, acredita-se que “é difícil” Ventura chegar a Belém e entende-se que rapidamente poderá recuperar o lugar de líder da oposição. Não sendo o cenário ideal assumido por nenhuma figura do Chega, um deputado resume o sentimento: “O fato que assenta bem a André Ventura é o de primeiro-ministro, neste momento é líder da oposição, mas o partido está numa encruzilhada sobre quem manda a votos e não pode deixar o espaço vazio.”

Há ainda um outro peso na equação, a presença de João Cotrim Figueiredo, que pode capitalizar (principalmente nos jovens) sem a presença de André Ventura. “Não podemos ter um candidato que fique atrás do Cotrim”, alerta um deputado, recordando o resultado de António Tânger Corrêa — que ficou muito próximo de ser ultrapassado pela IL nas europeias.

A reunião alargada e ordem para ouvir além dos conselheiros

O Conselho Nacional do Chega pedido por André Ventura vai ser, excecionalmente, aberto a mais elementos do que é normal. Além de já contar com dezenas de dirigentes locais e também autarcas incluídos graças aos estatutos, a quem, por norma, se juntam os deputados, será “o mais aberto possível aos autarcas, dirigentes e militantes” do partido, tendo em conta que o líder do Chega, numa carta enviada aos deputados, argumentou que a decisão do candidato presidencial “deve ser o mais consensual possível”.

O Observador sabe que, até ao momento, estão inscritos e aceites entre 350 a 400 pessoas (podendo este número crescer), desde conselheiros a observadores, que vêm de diversas zonas do país só para discutir o tema do candidato presidencial do partido. De tal forma que o Chega optou por marcar a reunião do órgão máximo entre convenções para o Auditório Principal do Fórum Lisboa, que tem espaço para 700 pessoas.

Desta forma, e também a pedido da direção nacional, ao contrário do que costuma acontecer, poderá mesmo haver autorização para que os observadores expressem a sua opinião relativamente ao candidato do Chega a Belém — com o intuito de serem partilhadas o máximo de opiniões possível antes de André Ventura tomar uma decisão final.

André Ventura reconheceu que “é um mau sinal para a democracia” ter de se candidatar a Belém, por considerar que “o líder da oposição não deve ser simultaneamente um candidato presidencial.

Do Ventura candidato ao Ventura que dispensa

A história do Chega relativamente a estas eleições presidenciais já vai longa: André Ventura assumiu ser candidato (teve até apresentação de candidatura marcada), mas a queda do Governo e as eleições legislativas colocaram a candidatura em standby. Desde que conseguiu conquistar o segundo lugar no que toca a deputados na Assembleia da República, André Ventura foi afastando a intenção, argumentando que precisava de se focar na oposição ao Governo e na expectativa de, um dia, chegar a primeiro-ministro.

O Observador sabe que foram sendo feitas algumas tentativas no sentido de apresentar um candidato do partido que preenchesse o espaço político do Chega e que permitisse a Ventura focar-se naquilo que realmente ambiciona, mas o próprio presidente do Chega tem consciência de que o tempo está a esgotar-se e que é preciso agir. Na mensagem que enviou aos deputados chegou mesmo a assumir que houve uma recusa de uma “prestigiada figura da Justiça” para ser candidato, o que afunilou ainda mais as opções.

Agora, André Ventura reconheceu, em entrevista à CNN, que “é um mau sinal para a democracia” ter de se candidatar a Belém, por considerar que “o líder da oposição não deve ser simultaneamente um candidato presidencial, ainda que o sistema se permita a ser mudado através de eleições presidenciais, é um caminho muito mais sinuoso e tortuoso”.

Ainda assim, as certezas que vai traçando vão sendo constantemente destruídas por “ses” em intervenções seguintes. Neste sentido, Ventura referiu que “se tiver que ir, se essa for a escolha que o partido fizer, e se estiver disponível para isso” irá “com tudo” e para “ganhar”. E chegou mesmo a justificar que teria de estar “louco” para apoiar a Marques Mendes e António José Seguro e que sempre que ouve Gouveia e Melo está “um centímetro mais atrás” nessa intenção, pelo que concluiu que se o cenário se mantiver, sem ninguém que represente o espaço político do Chega, pode mesmo ter de avançar: “Se chegar ao fim e sentir que continua a ser assim, o país convença-se que vai ter uma segunda volta com Gouveia e Melo e André Ventura. Acho que não era bom para o país, mas se tiver de ser…”

A somar a isso, André Ventura corre outros riscos ao ser candidato presidencial e assumiu-os. Em primeiro lugar pode mesmo perder capital político se, ao ir como candidato, tiver um resultado inferior ao das últimas eleições legislativas; depois deixa espaço e “o PS  [pode aproveitar] para tomar as rédeas da oposição” e, por fim, pode “confundir as pessoas”. “Sinto que o fato que me cabe é o de primeiro-ministro de Portugal, que é onde se consegue mudar as coisas de forma mais direta”, vai dizendo, vezes sem conta, André Ventura. Ainda assim, não está livre (e pode mesmo) de ser o candidato presidencial do Chega.

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