Incrédulo, irritado, envergonhado e de dedo apontado o Governo. A campanha eleitoral segue ao sabor da tempestade e, em dia de anúncio de apoios do Executivo às vítimas, André Ventura não poupou nas críticas a Luís Montenegro, que se tornou o adversário principal do candidato presidencial, já que António José Seguro passou para segundo plano. Marcelo Rebelo de Sousa também teve direito a um recado: os afetos não substituem telhas ou comida.
Foi um dia marcado pela visita a dois quartéis de bombeiros voluntários, uma delas para conhecer as recentes instalações em Braga, a outra para responder a autarcas do Chega sobre a preparação das autarquias para situações de emergência. Tal como tinha previsto, Ventura desmarcou um jantar que estava previsto para este domingo em Vila Nova de Famalicão e continua a focar-se apenas na intempérie, com ações de campanha onde pode falar sobre tragédias ou reações às mesmas (a exceção foi mesmo a presença no Clube dos Pensadores).
Já de manhã, antes de Montenegro falar ao país, Ventura centrou-se nas críticas aos responsáveis políticos, considerou que há “comissões a mais”, pedindo que se deixe de “diálogos atrás de diálogos que não servem para nada, de comissões atrás de comissões que não servem para nada” e priorizando o “tempo da ação”. Questionado sobre a proposta de comissão independente sugerida por Marcelo Rebelo de Sousa, o líder do Chega afirmou não saber “para que é que servirá”. E explicou: “Isto não é uma questão de ser contra, é que eu estou farto de estudos, de comissões, de sindicâncias que não levam a lado nenhum.”
Nessa altura, apenas se irritou quando lhe perguntaram se demorou a aperceber-se da dimensão da tempestade, Ventura atira: “Se eu percebi tarde o Governo andou a dormir, o Presidente da República também e vocês também, porque também não me perguntaram nada sobre isso.”
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Em quatro horas tudo mudou. Luís Montenegro revelou os apoios às vítimas da tempestade Kristin e André Ventura surgiu indignado com o anúncio. De tal forma que, ao fim de poucos segundos, já se estava a antecipar a críticas que sabia que poderiam chegar. Usou a palavra “constrangedor” e “vergonha” para descrever o que foi apresentado e concluiu: “Há sempre quem vai criticar e vai achar que neste momento não se deve criticar, mas nós também temos que criticar senão não caminhamos para a frente.”
Aos olhos de Ventura os apoios de 537 euros por pessoa e 1075 por agregado (para famílias em situação de carência ou perdas de rendimentos) não são aceitáveis porque houve pessoas que “perderam tudo”. E, mais do que isso, reprova a distribuição dos 2,5 mil milhões de euros: “Há uma grande linha de apoio, mas depois vamos começar a dissecar que apoio é este e [são] 200 milhões são para as CCDR, 400 ou 500 milhões são para as Infraestruturas de Portugal e mais não sei quantos milhões para empréstimos com créditos. Eu quero perguntar ao Governo se isto é mesmo a sério. É que estas pessoas não podem ter crédito, porque não conseguem pagar. As pessoas perderam tudo.”
A falar várias vezes diretamente para o primeiro-ministro e a expressar-se de forma aparentemente revoltada, Ventura lamentou: “Isto é um falhanço em toda a linha da parte do Governo. E não sei qual era o intuito, ou qual era a estratégia, mas correu mal.”
E argumentou que o país andou a apostar em “almofadas da Segurança Social” e numa “almofada para o défice para [se ter] um orçamento folgado” e agora, “quando as pessoas mais precisam, não estamos lá”. Não largou as críticas até ao fim: “É o Estado a funcionar completamente ao contrário. Lamento dizer isto assim. Direi isto ao primeiro-ministro quando tiver oportunidade, o que estou a dizer agora. Acho que é um dos dias mais negros e de maior falhanço da história deste Governo fracassado.”
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Marcelo também foi visado: “As pessoas não vão pôr o afeto no telhado”
Ventura está preocupado com o tempo que as pessoas vão demorar a receber os apoios e antecipa que alguns nunca os vão receber, “outros daqui a dois meses ou três”. “Era trazer o primeiro-ministro, pegar nele, pô-lo à janela e dizer assim: ‘Olhe o que é que está a acontecer, está a ver o tempo que está lá fora, acha que estas pessoas podem estar à espera de vistorias de CCDR e de câmaras municipais? Senhor primeiro-ministro, nós precisamos de ação agora’.”
Para o candidato presidencial, tendo em conta o que foi apresentado pelo Governo, “mais valia o Governo ter ficado em silêncio hoje”.
Apesar de as críticas serem amplamente dirigidas ao Governo, também o Presidente da República foi visado, com Ventura a defender que “tem que servir para dizer ao Governo que aquilo que aconteceu hoje é verdadeiramente uma vergonha”. “Eu sei que em momentos de crise devemos rumar para o mesmo lado, estou a procurar fazer isso também, mas também temos que dizer o óbvio”, afirmou, antes de argumentar sobre a “cultura de responsabilidade” necessária em tempos de tragédia e não tragédia e realçar as mortes de pessoas que estavam a “reparar os telhados sozinhas” e de quem tem ficado ferido em reparações. “Nós temos que ser exigentes e um Presidente tem de ser exigente. O que é que eu notei de Marcelo Rebelo de Sousa? Quis ter alguma proximidade que se materializou numa proximidade simplesmente de afetos. Ora, o país não vive de afetos, não é? As pessoas que estão sem telhado não vão pôr o afeto no telhado. As pessoas estão sem acesso a comida, a internet, a luz, a água. Não vão beber afeto.”
Para o presidente do Chega, Marcelo tornou-se uma “espécie de simbolismo dos afetos e não foi capaz de tomar ser um Presidente de ação”. “E eu acho que os portugueses, neste momento, querem proximidade, mas querem sobretudo ação”, explicou.
A teoria serviu para se estender à única referência a António José Seguro: “Hoje ouvi o meu adversário dizer que esta crise mostrou que ele era um homem de diálogo. Pois, há uma coisa que nos distingue mesmo: ele é um homem de diálogo, eu quero ser um homem de ação.”