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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Vitória ‘à Cavaco’ dá força a Montenegro para pressionar oposição

Resultado autárquico do PSD marca viragem completa de ciclo. Hegemonia do partido faz sonhar com ciclo longo de poder. A curto prazo, acreditam sociais-democratas, vai condicionar Carneiro e Ventura.

Uma vitória histórica e em toda a linha. Mesmo numa noite com direito a alguns amargos de boca (as derrotas em Bragança, Viseu e Coimbra, por exemplo), os sociais-democratas acreditam que o resultado autárquico conseguido no domingo é a prova provada de que a marca AD é hoje claramente maioritária no país. E isso, para os homens de Luís Montenegro, tem uma implicação imediata: André Ventura e José Luís Carneiro terão de pensar duas vezes antes de provocar qualquer tipo de crise política.

Feitas as contas, o PSD controla hoje o Governo da República, os governos regionais da Madeira e Açores, as duas cidades mais importantes, oito dos 15 concelhos mais populosos do país, a Associação Nacional de Municípios e a de Freguesias. Mais: até nas autarquias mais populosas onde não conseguiu ganhar (Amadora, Almada, Gondomar ou Odivelas, por exemplo) conseguiu crescimentos muito expressivos. Ainda se pode orgulhar de ter, pelo menos durante mais uns meses, um Presidente da República da sua cor política. É a primeira vez que tal acontece em 50 anos. Tudo somado, a vantagem dos sociais-democratas sobre os dois partidos da oposição é indiscutível.

Ainda na ressaca da noite eleitoral, houve quem lembrasse, a esse propósito, que o PSD, que parecia “condenado à irrelevância” depois da maioria absoluta de António Costa, tinha conseguido inverter em definitivo a erosão eleitoral que ameaçava a sua existência. Com um dado complementar: em Lisboa e no Porto, os dois grandes laboratórios destas eleições e as cidades em que os dois candidatos, Carlos Moedas e Pedro Duarte, melhor mimetizaram o discurso de Luís Montenegro (segurança, ordem e imigração), indiciam que a estratégia nacional do PSD está a ser compreendida pelos eleitores e a dar bons resultados.

A partir de agora, o plano de combate a Montenegro deve ser muito bem ponderado. “A menos que queira ir para casa mais cedo, José Luís Carneiro não fará nada [para provocar uma crise]”, sugere um elemento próximo de Luís Montenegro

No PSD, espera-se que tal tenha efeitos na dinâmica política a nível nacional. Sobretudo na atitude do PS a partir da oposição. Ventura, por ser “mais imprevisível”, e mesmo tendo ficado muito aquém das expectativas e dos objetivos assumidos, continuará a elevar a parada até ao limiar do risco. Faz parte da natureza dele. Com José Luís Carneiro é diferente. Apesar do discurso de autocongratulação na noite eleitoral, o PS sofreu objetivamente uma pesada derrota, a terceira em quatro eleições possíveis, confirmando que as europeias foram uma exceção neste ciclo mais recente.

A partir de agora, o plano de combate a Montenegro deve ser muito bem ponderado. “A menos que queira ir para casa mais cedo, José Luís Carneiro não fará nada [para provocar uma crise]”, sugere um elemento próximo de Luís Montenegro. De resto, o Orçamento do Estado é o primeiro teste do algodão. E se já se perspetivava um exercício menos dramático do que o anterior, os maus resultados do Chega e do PS vieram confortar ainda mais os sociais-democratas: Ventura e Carneiro não arriscarão uma crise depois da demonstração de força do PSD nestas autárquicas.

Esta terça-feira, os socialistas reúnem-se para discutir os resultados das autárquicas e a posição no Orçamento do Estado. Durante a campanha eleitoral, José Luís Carneiro abriu a porta à viabilização do documento, tentando que o tema não contaminasse a corrida eleitoral. André Ventura, por sua vez, apostou no caminho da dramatização e fez duras críticas ao Governo de Luís Montenegro. Contados os votos, os dois partidos terão de decidir o que fazem perante um documento que o Executivo construiu propositadamente despido de temas potencialmente mais controversos. “Não têm qualquer vantagem tática em provocar uma crise agora”, nota um elemento social-democrata.

Mesmo o grande elefante na sala — o caso “Spinumviva” e a possibilidade teórica de Luís Montenegro ser constituído arguido — parece atirado para um segundo plano. André Ventura acusou o social-democrata de se estar a “esconder”, dizendo que abertura de um inquérito ao primeiro-ministro seria uma situação “grave”. José Luís Carneiro escolheu uma fórmula mais recuada, ensaiando uma espécie de “à Justiça o que é da Justiça, à política o que é da política”. Nenhum dos dois, no entanto, escalou a situação — a ideia de enfrentar mais uma eleição à boleia de uma investigação criminal parece não entusiasmar verdadeiramente ninguém. E a onda laranja nas autárquicas foi mais uma prova da popularidade da coligação liderada pelo PSD.

De resto, estas eleições autárquicas representam um marco relevante: de 2021 a esta parte, o país teve três eleições legislativas, várias regionais, umas europeias e umas autárquicas. Em janeiro, discutir-se-á a sucessão de Marcelo Rebelo de Sousa. Em todo o caso, e sem que haja novas eleições partidárias no horizonte, as autárquicas consolidaram o quadro político que se começou a desenhar a partir da queda de António Costa: PSD como força dominante, PS em quebra, Chega sujeito a dores de crescimento e incapaz de produzir soluções para lá de André Ventura.

E esta é uma perspetiva muito animadora para a equipa de Luís Montenegro. Os sociais-democratas acreditam convictamente que terão pela frente um ciclo longo no poder — e um ciclo à Aníbal Cavaco Silva, sem restrições financeiras (Durão Barroso e Santana Lopes) e sem troika (Pedro Passos Coelho). Aliás, o facto de Luís Montenegro ter recordado que tinha repetido o feito de Aníbal Cavaco Silva — foi o último primeiro-ministro do PSD a vencer umas autárquicas — é mais uma vez um indício de que Montenegro está a tentar repetir a história do homem que escolheu como santo padroeiro.

[Apesar da euforia em torno de Freitas, Soares recupera. O debate com Zenha será decisivo. Quando acabar, nunca mais serão amigos. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador sobre as Presidenciais de 1986. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir o primeiro episódio aqui e o segundo aqui]

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