1231,5kWh poupados 1231,5 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

i

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Marcelo na rua, Deus entre aspas, a soberania nacional e a articulação com Montenegro. O primeiro 10 de Junho de Seguro em sete pontos

Confirmou boa relação com Montenegro, teve Marcelo a metros, foi comparado a Deus, admitiu afirmação de soberania, mas evitou tema Lajes. O 10 de Junho de Seguro na Terceira, 23 anos depois de Sampaio

    Índice

    Índice

“Passou aqui o nosso Marcelo”. Na rua da Sé a conversa de final de tarde entre duas comerciantes não é sobre Seguro, mas sobre o antecessor que até esteve a poucos metros do hastear da bandeira, mas escapou-se às câmaras de televisão esta terça-feira. Sem medo de comparações com o ex-chefe de Estado, o atual Presidente da República não fugiu à rua e fez questão de cumprimentar toda a gente por onde passou, mostrando ser um autêntico poliglota e especialista em small talk. Na Ilha Terceira, o mesmo local escolhido por Jorge Sampaio há 23 anos para as comemorações do 10 de Junho — também como forma de descolagem do aliado EUA –, António José Seguro quer afirmar a soberania nacional e marcar posição sobre a Base das Lages, embora vá fugindo a questões concretas como a renegociação do acordo de uso. Que até já defendeu há cinco meses como candidato.

A “convergência à luxemburguesa” que propõe a São Bento, já anunciada nos primeiros dias de comemorações, voltou a ter uma nova jornada, com Seguro a voltar a elogiar “boa articulação” e as reuniões de trabalho que tem com Luís Montenegro. O 10 de Junho — que tem o seu grande evento esta quarta-feira com discursos do próprio António José Seguro, e do presidente das comemorações, Miguel Monjardino — tem uma exposição das Forças Armadas mais limitada do que habitual, mas a cerimónia militar mantém-se idêntica a outros anos, apesar da atividade da Força Aérea dos EUA na ilha. Afinal, que marca está e vai querer deixar António José Seguro no seu primeiro 10 de Junho?

A afirmação de soberania e o silêncio sobre a revisão de um acordo (que defendeu em janeiro)

Desde que Seguro anunciou a realização do 10 de Junho para a Ilha Terceira que fontes diplomáticas associam a escolha a uma afirmação de soberania sobre a ilha que vai para lá da tese oficial de celebrar os 50 anos das autonomias regionais. Ou seja: uma forma de mostrar aos EUA que ali quem manda é Portugal e que a presença na ilha não é um bar aberto.

O Presidente nunca tinha falado diretamente no assunto, mas, nas primeiras declarações que fez nos Açores — uma hora depois de aterrar na pista da Base das Lajes e a poucos quilómetros das instalações norte-americanas — Seguro não enjeitou que o 10 de Junho ali fosse também um ato de afirmação de soberania. “O Presidente da República todos os dias afirma a soberania de Portugal. Fá-lo aqui como em Trás-os-Montes e no Alentejo. Afirmar a soberania e a independência nacional é uma das tarefas mais nobres e mais exigentes do Presidente da República”, admitiu o Presidente português.

Seguro teve outra surpresa sobre as Lajes quando estava a chegar. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, em declarações à Antena 1 admitiu que o acordo de uso da Base das Lajes com os EUA devia ser revisto — embora só depois de terminar o atual conflito entre os EUA e o Irão. É que, quem defendeu isso, quase isolado e ainda antes de haver conflito entre Washington e Teerão, foi precisamente António José Seguro. Ainda como candidato, no Debate da Rádio de janeiro, o agora Presidente da República tinha defendido que o acordo devia ser “revisto à luz da nova geopolítica atual e das relações transatlânticas que mantemos e devemos manter com os EUA”.

O mais curioso é que, pouco depois, Seguro — já Presidente eleito — teve de ouvir recados de Paulo Rangel, que rejeitava então uma revisão do acordo. “Sempre houve posições do Presidente da República diferentes da posição do Governo”, desvalorizava Rangel. Deixava, porém, um aviso ao Presidente: “São muito claras as esferas de competência de cada um. E a definição da política externa, obviamente, que é uma competência do Governo”. Era um aviso de que não competia ao Chefe de Estado pronunciar-se sobre a revisão do acordo.

Agora que Rangel parece dar força à ideia que António José Seguro defendeu, o próprio recusou-se a comentar: “Não é este o momento, estamos aqui para celebrar o Dia de Portugal”. Resta saber se o fará mais tarde.

▲ O Presidente da República foi recebido pela Representante da República para a Região Autónoma dos Açores.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Um guterrista a repetir Jorge Sampaio

Ao realizar o 10 de Junho na Ilha da Terceira, António José Seguro não escolheu uma localização inédita. Embora nunca tenha tido uma relação próxima com Jorge Sampaio — até porque esteve ao lado de António Guterres na luta fraticida de 1992 — o atual Presidente repetiu uma escolha do último Presidente da República que, antes dele, veio da área do PS.

Em junho de 2003, Jorge Sampaio escolheu fazer o 10 de Junho na Ilha da Terceira, precisamente para marcar posição contra os EUA de George W.Bush e a Guerra do Iraque. Três meses depois da Cimeira das Lajes — que juntou Tony Blair, José María Aznar, W. Bush e Durão Barroso e foi o tiro de partida para a Guerra no Iraque — Sampaio quis afirmar a soberania nacional. O Presidente da República era altamente crítico da intervenção no Iraque (e até terá vetado a intervenção das Forças Armadas em solo iraquiano) e aproveitou o 10 de Junho para vincar essa posição.

Agora, Seguro, que tem sido crítico da intervenção dos EUA no Irão e defensor do multilateralismo, decidiu repetir a localização, tornando inevitável o paralelismo.

▲ António José Seguro durante a manhã do dia 9 de junho, em contacto com a população.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Boas relações com EUA, mas Atlântico tem outras geografias

O facto de estar na Ilha Terceira — local simbólico para falar entre as relações entre Portugal e os EUA — fez com que António José Seguro tivesse de explicar a posição sobre as relações transatlânticas. O próprio começou por dizer que as suas posições eram “conhecidas”. Mas depois foi mais concretizador. “Sou um defensor da manutenção da NATO, como organização de Defesa e de Segurança, e considero que nós devemos ter boas relações com os Estados Unidos da América. Devemos aprofundar essas relações a todos os níveis: económico, comercial e de segurança”.

Apesar deste piscar de olho a Washington, Seguro pediu logo depois “uma visão mais alargada também em relação ao Atlântico”, de “não olhar apenas para os Estados Unidos da América, olhar também para o Canadá, olhar para o Mercosul”. O Presidente da República lembrou que Portugal tem “uma vocação universalista e nós devemos dar expressão a essa vocação através de cooperações muito concretas”. Além disso, destacou, é “um defensor da autonomia estratégica da Europa, designadamente também em matéria de Segurança e Defesa, e acho que as duas dimensões são perfeitamente complementares.”

Seguro crítico da Administração Trump marca posição com 10 de junho a poucos quilómetros das Lajes

Quando ainda era candidato, António José Seguro foi particularmente duro com a Administração Trump, ao dizer que “é preciso distinguir a nossa cooperação com os EUA da nossa relação conjuntural com o atual Presidente dos EUA, Donald Trump. São coisas distintas.” Depois manteve um discurso crítico, quando, por exemplo, na tomada de posse lamentou o facto de “a força da lei ter sido substituída pelo poder dos mais fortes“. E acrescentava que era necessário não desistir do “multilateralismo e da resolução pacífica dos conflitos internacionais.”

Agora, nos Açores, foi desafiado a dizer se o Governo português devia ter tido outra postura relativamente aos EUA, tendo em conta as declarações de Marco Rubio. António José Seguro até repetiu a ladaínha defensiva de que “este não é o momento para falarmos dessas situações”, mas deixou um recado ao Governo nas entrelinhas: “Este é um momento para celebrarmos Portugal, é um momento de união do nosso País“. Ora, Seguro sugere que a sua posição iria divergir e meter em causa essa união e — tendo em conta a solenidade do momento — prefere não o fazer. Foi a única alegada crítica no ambiente 10 de Junho que, até agora, fez ao Governo.

A “boa articulação” com Montenegro e os “checks and balances” prometidos

O primeiro 10 de Junho de Luís Montenegro e António José Seguro como primeiro-ministro e Presidente é o culminar de três meses de boas relações entre ambos. De uma forma quase acidental, o chefe de Estado tinha dito no Luxemburgo que os dois se completavam, tendo como pretexto o facto de ambos terem assinado cada lado da bandeira de Portugal.

Seguro podia ter deixado as leituras da situação entre ambos para outros, mas no dia em que comemorava três meses no cargo, fez questão de dizer que “é evidente que o Presidente da República tem a responsabilidade muito grande de criar condições para que os Governos, e neste caso concreto este Governo, tenha, do ponto de vista político e social, condições para executar o seu programa. É assim que os países avançam, de quem legitimamente é escolhido pelos portugueses possa concretizar as suas ideias.”

Do chá das terças que dilui irritantes à “cooperação inexcedível”. Os três meses de “convergência” entre Seguro e Montenegro

O Presidente diz que, entre ele e o primeiro-ministro, tem mesmo havido uma “boa articulação, boas reuniões de trabalho que temos tido semanalmente, e naturalmente isso corresponde àquilo que eu assumi de compromisso com os portugueses”. Durante a campanha eleitoral, Seguro chegou a alertar para a necessidade de ser eleito, uma vez que o espaço político que não era o seu liderava o Governo nacional e os governos regionais. Quis capitalizar a ideia de não colocar os ovos todos no mesmo cesto. Agora diz que está a concretizá-lo ao ser “um Presidente acima de todos os partidos, um Presidente de equilíbrio, que vem equilibrar o sistema político, e sinto-me feliz pelo que nestes três meses, que completo hoje, tenho conseguido”. Considera estar a corresponder à ideia do tal sistema de equilíbrios (de “checks and balances“) que tinha prometido.

Marcelo, o único ex-Presidente na Terceira

Marcelo Rebelo de Sousa não resistiu e, ao início da tarde do dia 9 de junho, já estava em Angra do Heroísmo, para marcar presença nas comemorações do dia seguinte. O ex-Presidente da República almoçou pelo centro histórico e estava ao fundo da rua quando foi hasteada a bandeira — momento que ainda pôde observar ao longe. Mas manteve-se longe das câmaras. E para não correr o risco de ser acusado de estar a roubar o momento ao incumbente António José Seguro, seguiu a passo apressado em sentido contrário pela rua do Alto das Covas, acompanhado de um segurança e a assessora Maria João Ruela.

Apesar de ir a caminhar a toda a velocidade, Marcelo foi entrando em cafés e em lojas para cumprimentar comerciantes e populares. A poucos metros dali está a Associação de Futebol de Angra de Heroísmo, que também tem uma ligação muito particular e simbólica com Marcelo. Foi aquela associação que o indicou em 1973 vogal da Federação Portuguesa de Futebol. A FPF homenageou, aliás, Marcelo em maio pelo trabalho feito pelo futebol português. Curiosamente, no evento imediatamente anterior a seguir para os Açores, Seguro esteve na cerimónia de despedida da seleção nacional antes da ida para o Campeonato do Mundo. Notou-se que os jogadores, em particular Cristiano Ronaldo, ainda não tinham a mesma química com Seguro que tinham com Marcelo.

A relação de Marcelo e Seguro, dois Presidentes no palco mediático. “Papa só há um”

O que é certo é que o antigo Presidente da República, tal como já tinha anunciado quando ainda era chefe de Estado não abdicará de ir às cerimónias do 10 de Junho. Logo a seguir a Paulo Rangel e a Nuno Melo, Marcelo vai juntar-se às Forças em Parada na cerimónia. Os aplausos dos populares no momento em que os políticos são anunciados nas colunas, costuma ser um bom barómetro da popularidade dos presentes (João Galamba, por exemplo, foi assobiado no Peso da Régua em 2023). Já Marcelo deve ser mais do que aplaudido. Como só se junta à cerimónia às 09h45 e ainda tem toda uma noite de dia 9 na ilha, é sempre imprevisível o que Marcelo Rebelo de Sousa poderá inventar.

A rua segura: Deus no céu, Seguro na terra

António José Seguro não se cruzou com Marcelo na rua, mas sabe que tem a difícil missão de fazer esquecer o anterior Presidente no contacto popular. O atual Presidente não é nada novato nestas andanças. Mais recentemente teve duas voltas das Presidenciais, como líder do PS fez volta autárquica e nos tempos da Nova Maioria de Guterres e de líder da JS era um verdadeiro animal de rua.

Seguro não se safa mal nas ruas, mas não é Marcelo, o Presidente dos Afetos. Ainda assim, cumprimenta toda a gente e também é perito em small talk. Entrou numa “mercearia à antiga” e deteve-se com sombrinhas de chocolate da Regina que o pai chegou a vender quando tinha um café em Penamacor. “Fazia-se uns furinhos e podia-se ganhar as sombrinhas”, recordou.

Na rua, um verdadeiro poliglota Seguro falou inglês (“Tomorrow is our national day“), francês (“C’est votre première visite? J’espère que ce ne sera pas la dernière“), em espanhol (“¿Vos vieram aqui passar bom tempo? ¿De calidad?“) e em alemão, embora mais perto de José Cid do que de Rui Rio (“Auf wiedersehen“, foi o que conseguiu dizer). Tudo conversa de circunstância, mas sem silêncios constrangedores com a população.

O Presidente da República teve até de refriar exageros de pessoas que o abordaram. O “senhor é, entre aspas, como Deus”, disse uma terceirense a António José Seguro, que logo protestou: “Nada disso, eu sou um simples português, como a senhora”. O chefe de Estado sentiu ainda o peso de ser o presidente de todos os portugueses e afastou-se do benfiquismo que tinha admitido na campanha. Perante três bandeiras (uma de Portugal, outra dos Açores e outra do Benfica), atirou: “Pelo menos tem duas bandeiras bonitas”. Questionado sobre se era do Benfica, retorquiu: “Sou de todos os portugueses”.

▲ O Presidente da República esteve em contacto com a população em Angra do Heroísmo depois da cerimónia de hastear a bandeira nacional.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Uma exposição limitada, uma cerimónia militar próxima do comum

Não deixa de ser uma circunstância incomum que, quando o Presidente da República aterrou na Ilha Terceira, estivessem mais de dez aviões abastecedores da Força Aérea norte-americana na pista ao lado. A atividade da Base tem estado intensa. Apesar disso, na cerimónia militar desta quarta-feira, vai realizar-se a habitual parada militar. Até o habitual sobrevoo de uma formação de aeronaves F-16M da Força Aérea, vai passar pelos céus onde decorre a cerimónia.

Uma outra diferença do atual contexto é que, às centenas de militares portugueses que estão na ilha para as comemorações, juntam-se as centenas de militares norte-americanos que estão em operações na base norte-americana. “Nunca a ilha esteve tão protegida“, comentava um terceirense com o Observador.

Está também ainda válida até ao final de junho a autorização pedida pelos EUA para que os drones assassinos MQ-9 Reaper possam passar pela Base das Lajes. No entanto, ao que o Observador apurou, a operação entre as Forças Armadas portuguesas e norte-americana está articulada para que não haja constrangimentos nas comemorações do 10 de Junho. Ainda assim, não deixam de ser comemorações diferentes. Celebra-se o Dia de Portugal ao mesmo tempo em que na mesma ilha vão descolando aviões militares dos EUA. “Tempos estranhos”, comentava um membro da comitiva.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.