No debate com Ana Gomes, esta quinta-feira, na TVI, Tiago Mayan Gonçalves criticou a forma como, segundo o candidato às presidenciais, a ex-eurodeputada lança acusações públicas que nem sempre estão sustentadas. E deu um exemplo: “Ana Gomes, que diz que fundamenta as coisas, trocou datas” e acabou por imputar factos a Paulo Portas “que nunca se tinham passado durante a sua governação”. A socialista contestou e disse que apenas leu “um erro de interpretação da própria procuradora do caso”. Foi assim?

O momento aconteceu sensivelmente a meio do debate. Tiago Mayan Gonçalves usa uma metáfora — acusa Ana Gomes de ter “hipermetropia”, ou dificuldade de ver ao perto — para dizer que, estando sempre disponível para denunciar casos de corrupção, demorou a demarcar-se do antigo primeiro-ministro José Sócrates. “Ana Gomes, que gosta tanto de falar de corrupção e de lançar anátemas, mesmo quando os processos não estão terminados, esses sinais de alarme [os processos que já então envolviam o socialista], essas campainhas nunca soaram”, atirou o candidato apoiado pela Iniciativa Liberal.

Ana Gomes sobre Paulo Portas: “Errei”, mas não em tudo

A socialista reagiu. Garantiu ter sido uma das pessoas que, “muito cedo”, contestou José Sócrates e disse não saber “da missa a metade”. Depois, acrescentou que não se limita a falar sobre corrupção, também faz “denúncias fundamentadas” sobre vários casos. “Quer falar sobre os submarinos?”, perguntou a Mayan Gonçalves. O restante diálogo decorreu assim:

Tiago Mayan Gonçalves — “No caso dos submarinos, recordo-lhe, Ana Gomes, que diz que fundamenta as coisas, trocou datas para imputar a Paulo Portas factos que nunca se tinham passado durante a sua governação. Recordo-lhe isto.”

Ana Gomes — “Não é verdade. Não é verdade.”

TMG — “Toda a gente pode rever as reuniões na comissão parlamentar em que a Cecília Meireles a questiona acerca disto e Ana Gomes mete os pés pelas mãos…”

AG — “Não, não é verdade, senhor doutor. Limitei-me a ler um erro de interpretação da própria procura do caso”

Nota prévia para referir o seguinte: é factual, como vamos perceber de seguida, que Ana Gomes trocou datas, acabando por colocar Paulo Portas a exercer funções em que o antigo líder centrista não as exercia. Mas a frase completa de Mayan Gonçalves — sobretudo, a última parte da frase, quando diz que o fez “para imputar” certos factos a Portas, pressupõe uma intencionalidade que não é possível avaliar. A verificação de factos cinge-se, por isso, à questão sobre a troca de datas.

Ora, o momento a que Mayan Gonçalves se refere ocorreu na sessão da comissão parlamentar de inquérito aos Programas de Aquisição de Equipamentos Militares (EH-101, P-3 Orion, C-295, torpedos, F-16, submarinos, Pandur II), a 28 de agosto de 2014. Nessa sessão, a deputada Cecília Meireles (do CDS) recorda parte de um texto que Ana Gomes escrevera no blogue Causa Nossa, seis anos antes, e onde lançava suspeitas sobre o ex-ministro da Defesa Paulo Portas.

Imagem do texto publicado no blogue Causa Nossa

Imagem do texto publicado no blogue Causa Nossa

No final da citação, Cecília Meireles pergunta: “Mantém ou quer corrigir?”

Ana Gomes agradece a oportunidade de “corrigir” as afirmações feitas naquele momento. “Nessa altura, eu não tinha dados ainda, e que posteriormente recolhi. (…) Isso, de facto, não pertence ao tempo do dr. Paulo Portas.”

Na verdade, o recuo de Ana Gomes diz respeito à sugestão da existência de casos de corrupção relacionados com a compra dos helicópteros EH-101 Merlin para a Força Aérea, e não dos submarinos da Marinha, como referiu Mayan Gonçalves no debate. Ainda assim, o ponto é: Ana Gomes trocou ou não datas, acabando por lançar suspeitas sobre o ex-ministro da Defesa.

No debate desta quinta-feira, a socialista defendeu que isso “não era verdade” e que se limitara a “ler um erro de interpretação da própria procura do caso”. Mas, em 2014, perante os deputados, na comissão de inquérito aos negócios militares, apresentou outro argumento para aquele texto. “Isso foi-me dito por uma fonte militar mas, mais tarde, eu vim a apurar que não era responsabilidade do ministro Paulo Portas”, acrescentou na resposta à deputada do CDS.

No Parlamento, Ana Gomes explicou ainda que, no momento em que escrevera aquelas linhas, estava já “bastante influenciada por negócios que foram feitos na altura em que dr. Paulo Portas foi ministro”. Mas, a dado momento, e perante a falta de contrição assinalada por Cecília Meireles, a socialista acaba por conceder. “Não tenho qualquer dificuldade em pedir desculpa porque já disse que errei.”

Conclusão

Em 2008, Ana Gomes imputou factos ao ex-ministro da Defesa Paulo Portas relativamente à compra de equipamentos militares que, na verdade, tinham sido realizados pelo ministro da Defesa Rui Pena, no Governo de António Guterres (outubro 1999 – abril 2002). Isso mesmo reconheceu a então eurodeputada em 2014, na comissão parlamentar de inquérito à compra de material militar.

Assim, e de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

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