António Costa assinalou esta segunda-feira, 14 de setembro, o arranque do ano letivo na Escola Secundária de Benavente. E foi ali que o primeiro-ministro fez o seu discurso, alertando para aquele que vai ser “um ano letivo com problemas”, argumentando que só com “precaução” o regresso às aulas em tempos de pandemia de Covid-19 poderá ter menos sobressaltos. Depois de frisar “que a escola em si não passa o vírus a ninguém”, Costa lembrou que os estabelecimentos de ensino vão ter de funcionar segundo uma organização especial que implica uma sala por turma e uma cadeira por aluno. Mas será que as coisas se vão passar mesmo assim?

Não, dizem os dois representantes de diretores de escolas públicas, em especial no que diz respeito a uma cadeira por aluno.

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Visitei esta manhã a escola secundária de Benavente e pude comprovar como tudo está preparado, com o empenho de toda a comunidade educativa, para receber os alunos para um novo ano letivo. Não podemos continuar a pagar um preço de ter as escolas encerradas, pelas desigualdades que gera a ausência de ensino presencial e por sacrificar os processos de aprendizagem das gerações futuras. Este ano há um risco novo. A precaução é fundamental. A direção das escolas pode fazer o melhor trabalho possível, assim como os professores, ou os assistentes operacionais, mas se cada aluno e cada família não derem o seu melhor, não funciona. As famílias têm razões para confiar nas escolas, naqueles que ali trabalham e na capacidade de superarmos com sucesso este ano letivo. Benavente, 14 de setembro 2020. #antoniocosta #primeiroministro #xxiigoverno #republicaportuguesa #educacao #escolas #ensino #benavente #portugal (Fotos: Paulo Vaz Henriques)

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O que disse em concreto o primeiro-ministro? “Esse sentido de precaução é fundamental. E a precaução significa usar a máscara — e, na escola, usar sempre a máscara — desinfetar as mãos, lavar as mãos o maior número de vezes possível, manter o distanciamento físico, cumprir as regras dos circuitos que estão definidos, e esta organização especial em que a escola vai ter de funcionar, como que criando caixas estanques entre cada turma, para que cada sala seja só para uma turma, cada carteira seja só para um aluno, que os lugares sejam sempre os mesmos para saber se, havendo um aluno infetado, qual é o universo de contactos próximos e podermos atuar rapidamente.”

Manuel Pereira, presidente da ANDE, associação nacional de dirigentes escolares, dá as escolas que dirige no  agrupamento General Serpa Pinto, de Cinfães, como exemplo.

Costa avisa: “Vai ser um ano letivo com problemas”, mas “preço a pagar” por escolas continuarem encerradas era mais alto

“Claro que não é possível. Na grande maioria das escolas não é possível ter caixas estanques, quando nem sequer há mesas individuais. Percebo a intenção do primeiro-ministro, ela está correta, mas ele também sabe que as escolas são todas diferentes. No meu caso, que tenho mais turmas que salas, não consigo ter aquilo a que chamamos sala-mãe para cada grupo de alunos”, esclarece Manuel Pereira.

Em Cinfães, não foi sequer possível dividir as turmas por turnos já que, lembra o diretor, os transportes públicos que levam os alunos até à escola chegam às 8h30 e saem às 17h30, sem outras opções pelo caminho. “Para ter uma sala por grupo de alunos, precisava de ter menos umas oito turmas do que aquilo que tenho. Em cada sala, cabem 14 a 15 mesas duplas. As turmas rondam os 20 alunos, por isso dá para ver que é impossível ter uma carteira por aluno”, sublinha o presidente da ANDE, que diz também não ter pessoal auxiliar suficiente.

“O pessoal da minha escola decidiu oferecer-me, sem receber nada em troca, uma hora a mais de trabalho por dia porque sabem que vivemos uma época extraordinária. Em vez de 7 horas, vão trabalhar 8 horas por dia, o que é uma oferta excecional da sua parte”, disse ao Observador.

Hora da Verdade: as escolas vão ter uma carteira para cada aluno?

Posted by TVI24 on Tuesday, September 15, 2020

Já Filinto Lima, presidente da ANDAEP, associação nacional de diretores de agrupamentos e escolas públicas, acredita que conseguir uma sala por turma não é impossível, mas acha improvável que as escolas consigam ter uma carteira por aluno.

Nas suas escolas, no agrupamento Dr. Costa Matos, em Vila Nova de Gaia, foi preciso fazer obras para transformar espaços que eram utilizados apenas para disciplinas específicas — como Educação Visual, Tecnológica, Música ou Educação Física —  para garantir que cada grupo de alunos tem o seu espaço próprio. “Quanto às carteiras, penso que será difícil ter uma por aluno, e às vezes é mesmo impossível, porque a maioria das escolas tem mesas duplas e as salas de aula não aumentam de tamanho”. O diretor diz ainda que, em algumas delas, “até o distanciamento de um metro entre alunos será impossível de cumprir”, e frisa que, para si, a medida mais importante para evitar contágios será o uso da máscara.

Conclusão:

Ao contrário do que diz o primeiro-ministro, e mesmo que a intenção seja que a maioria das escolas funcione segundo uma organização especial, não é verdade que em todas as escolas do país vá haver uma sala por turma e uma cadeira por aluno, sendo os lugares dos estudantes sempre os mesmos.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

NOTA: este artigo foi produzido no âmbito de uma parceria de fact-checking entre o Observador e a TVI

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