Nas últimas duas semanas, Odemira tem estado no centro das notícias, não só pelo elevado número de casos de Covid-19 que levou à imposição de uma cerca sanitária nalgumas freguesias concelho como, também, pelo facto de ter exposto a situação em que vivem muitos imigrantes que ali trabalham. A solução encontrada pelo Governo foi uma requisição civil para utilizar alguns dos alojamentos do ecoresort Zmar, na Zambujeira do Mar — a fim de poder colocar imigrantes em isolamento profilático naquele espaço. Uma solução que tem despertado várias reações, a favor e contra o Governo.

A publicação que circula na rede social Facebook sugere que a líder do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, e Jerónimo de Sousa, líder do PCP, permaneceram em silêncio perante este tema a que chamam “Odemira Gate”. Por debaixo da frase “Ditos defensores dos oprimidos e explorados” aparece a imagem dos dois políticos amordaçados. Jerónimo de Sousa segura uma uma faixa vermelha sobre a boca e Catarina Martins uma nota de 20 euros colada na cara. Mas será que ambos, como a imagem mostra, se mantiveram mesmo em silêncio perante este caso?

A verdade é que Catarina Martins, já em novembro de 2019, numa visita às estufas de São Teotónio, em Odemira, tinha lançado o alerta ao deparar-se com “milhares” de trabalhadores a viverem em contentores nos arredores dos seus locais de trabalho. A situação, disse a coordenadora do BE à data, estava “a criar um problema social gigantesco” porque, defendeu, “dizer que durante 10 anos é normal que milhares de trabalhadores vivam no Alentejo em contentores significa criar guetos gigantescos” com “uma fratura social nunca antes vista em Portugal”.

“Por que é que quem vem trabalhar nestas estufas não pode ir morar para as aldeias e vilas que não têm gente?”, interrogou-se na altura Catarina Martins, defendendo mesmo a revogação imediata da resolução do Conselho de Ministros que define as novas regras para o Perímetro de Rega do Mira (PRM), e sugerindo a realização de um estudo com pessoas que compreendam a situação que já então se verificava no Alentejo, lê-se no Diário do Alentejo. Em entrevista à TVI24, esta segunda-feira, a coordenadora do Bloco de Esquerda recordou, aliás, essa visita.

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E já a 4 de maio, na sua página oficial também da rede social de Facebook, Catarina Martins partilhava uma publicação da Esquerda.net. “Com os casos de infeção e a cerca sanitária decretada em duas freguesias de Odemira, São Teotónio e Longueira/Almograve, as atenções do país voltaram-se para os trabalhadores das estufas do concelho. Mas investigadores, ativistas dos direitos dos migrantes, associações locais e partidos como o Bloco de Esquerda já há muito tempo que denunciam as condições em que estes trabalhadores são obrigados a trabalhar. O governo, esse, propunha a legalização de contentores para ‘resolver’ o problema habitacional destas pessoas”, escrevia.

“Com os casos de infeção e a cerca sanitária decretada em duas freguesias de Odemira, São Teotónio e…

Posted by Catarina Martins on Tuesday, May 4, 2021

Dois dias depois, a coordenadora partilhava mais sobre Odemira, neste caso uma publicação do próprio grupo parlamentar do BE. Nesse caso, era a deputada Beatriz Gomes Dias quem recordava no Parlamento que o partido há muito que alertava para esta situação. Beatriz Gomes Dias lembrou que o “Bloco de Esquerda, as organizações de defesa dos direitos das pessoas migrantes, investigadores e ativistas vêm alertando para esta situação e denunciando, de forma muito persistente, as condições em que estas pessoas são obrigadas a viver e a trabalhar”, acrescentando que em março o Bloco questionou o governo e a Câmara Municipal.

O que aconteceu em Odemira é a ponta do icebergue que se repete por todo o país agrícola”, denunciou a deputada, “acontece, em lugares onde há um modo de produção agrícola superintensiva que tem como objetivo o lucro imediato de muito poucos e que tem efeitos que se fazem sentir de forma alarmante no ambiente e no tecido social”, disse a deputada.

Já na sexta-feira, durante o Comício “STOP Precariedade, STOP Pobreza”, Catarina Martins voltou, outra vez, a falar da situação em Odemira.  É “uma gritante violação dos direitos humanos” , disse, insistindo para que se “resolva” a situação, ao invés de “palavras de ocasião”.”Ainda bem que hoje toda a gente reconhece que existe naquelas estufas é uma gritante violação dos direitos humanos. Se hoje se reconhece o problema, resolva-se o problema”, pediu.

Esta segunda-feira, vários meios de comunicação voltaram a dar eco a declarações suas, nomeadamente aquelas em que acusa de haver “muita gente” a ganhar dinheiro “com o recurso ao trabalho forçado e com o abuso aos direitos humanos”, lembrando que em Portugal estas pessoas não podiam ficar impunes — apontando o dedo às empresas envolvidas em todo o processo de recrutamento e chegadas destes imigrantes ao país.

Odemira. Catarina Martins acusa Governo de em 2019 ter mantido trabalhadores migrantes em “guetos de contentores”

Também esta segunda-feira, na página oficial do Facebook do PCP, foi publicado um texto assinado pelo deputado João Oliveira e publicado no site do Avante, sublinhando duas reações que, do seu ponto de vista, têm sido comuns ao caso de Odemira: “Por um lado, as expressões genuínas de surpresa e indignação, sobretudo de quem ganha a vida com o seu trabalho” e, ” por outro lado, e numa posição antagónica, as expressões cínicas e fingidas de surpresa e indignação por parte de quem é autor ou tem sido cúmplice — por ação, omissão ou silenciamento”, escreveu.

No coro nacional de surpresa e indignação que se levantou face ao drama daqueles milhares de trabalhadores agrícolas no…

Posted by PCP – Partido Comunista Português on Monday, May 10, 2021

O próprio PCP já tinha, antes, alertado para as condições de trabalho dos trabalhadores agrícolas nesta zona do Alentejo, quando em outubro de 2020 os partidos de esquerda o discutiram no Parlamento, incluindo o PS.

A 6 de maio deste ano, quando as notícias sobre estes trabalhadores entravam na casa dos portugueses — incluindo com o presidente da Câmara a denunciar possíveis crimes de tráfico de ser humano e a PJ a confirmar a investigação –, o partido colocava também na sua página da rede social Facebook uma publicação com a intervenção de João Dias no Parlamento a exigir o apuramento das responsabilidades criminais “de quem se aproveitou da exploração, a fiscalização e identificação de todas as situações de exploração de alojamento indigno”

No último domingo, o PCP subiu o tom face a outros partidos e disse mesmo que havia um responsável pelo político pelo que se estava a passar em Odemira: o próprio primeiro-ministro, António Costa.

“Há um primeiro e principal responsável pela política que o Governo realiza, que é o primeiro-ministro. É o primeiro-ministro e o Governo que têm de resolver esses problemas, em termos de acerto ou desacerto deste ou daquele ministro. Portanto, a exigir alguma responsabilidade, é ao Governo e, particularmente, ao primeiro-ministro, independentemente do acerto ou desacerto deste ou daquele ministro”, disse o secretário-geral à margem da evocação e homenagem ao centenário do nascimento do general Vasco Gonçalves, na Voz do Operário, em Lisboa, com organização da Associação Conquistas da Revolução (ACR).

Conclusão:

Tanto o Bloco de Esquerda como o Partido Comunista Português já tinham alertado muito antes para a situação dos trabalhadores agrícolas naquela zona do país. No caso do BE, em 2019; no caso de Jerónimo de Sousa, já em novembro de 2020, quando com outros partidos fizeram mesmo uma proposta para corrigirem esta situação.

A publicação no Facebook que os acusa de estarem em silêncio foi publicada a 5 de maio, e já no dia anterior Catarina Martins tinha publicado na sua página oficial de Facebook um excerto de texto publicado no site Esquerda.net onde lembrava precisamente esse alerta. Nos últimos dias, ambos os líderes partidários têm comentado o assunto.

A posição de ambos os partidos tem sido clara e os líderes partidários não se têm abstido de falar e criticar o que se está a a passar em Odemira.

Assim, não é verdade o que a imagem da publicação insinua, de que Jerónimo de Sousa e Catarina Martins mantiveram-se em silêncio neste caso.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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